LNCrawler

Capítulo 0182: Tentações e ilusões

A Ascensão Do Rei Mercenário — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 0182: Tentações e ilusões

Eroth levantou-se da cama com a suavidade de uma donzela. Os longos cabelos prateados caindo em cascata por sobre os ombros, lisos e sedosos; o vestido de chemise colado ao corpo esbelto, quase transparente; seus olhos brilhando como dois pequenos sóis na escuridão. Era linda. Linda e perigosa.

— Eu sabia que voltaria — ela disse, se dirigindo a Siegfried. — E vejo que trouxe companhia.

Melias Kroft tomou a dianteira:

— Acabou, bruxa! Eu vim tomar de volta o que é meu por direito!

— E quem é você?

— Não se faça de idiota! Sabe muito bem quem eu sou.

— Hum. Não, não sei. Sinto muito.

— Melias! Melias Kroft! Eu sou seu marido! Salvei você do meu pai, fiz de você minha esposa. Eu te dei tudo! E você tentou me matar. Fez a cabeça do meu próprio filho. Virou ele contra mim.

— É mesmo?! Bom, sinto muito por isso. Eu acho. Mais alguma reclamação?

— …

— Ótimo. Siegfried, querido, poderia me fazer a gentileza e levar os prisioneiros até suas celas?

E, simples assim, todos congelaram onde estavam.

O mundo inteiro parou.

Siegfried podia sentir o toque de Eroth em sua mente. Algo que ia muito além de meras palavras. Uma ligação psíquica, como se os dois fossem um. O desejo que ela sentia por ele; seus sonhos de grandeza; o ódio por Thedrit; e uma ordem:

“Junte-se a mim.”

O que ela queria era o que ele queria. Suas emoções entrelaçadas como uma bola de fios.

Se imaginou andando até ela, ajoelhando-se aos seus pés e jurando-lhe lealdade eterna. Se imaginou servindo-na, matando os seus inimigos e transformando Thedrit em um inferno fumegante. Se imaginou beijando-lhe os pés descalços e se entregando a ela. Não mais sonhos. Não mais ambições. Não mais culpa.

E sentiu o coração se encher de alegria.

“Seja um rei!”

A voz veio do nada, como um tremor que fez em pedaços o pequeno castelo de vidro que ergueu-se ao seu redor. Um castelo cheio de mentiras e ilusões. E por trás dos cacos, viu que era apenas Eroth tentando dominá-lo. O que ela lhe mostrou eram não mais do que seus próprios desejos mesquinhos.

Ainda que, aos poucos, esquecesse disso.

Uma pequena voz lhe dizia para resistir; para não se deixar dominar. Lembrava a ele quem era e o que realmente desejava. Uma chama fraca no meio de uma tempestade. E podia sentir Eroth escavando cada vez mais fundo em sua mente; indo atrás dessa pequena voz, como um animal caçando a sua presa. Forçando a voz a se esconder em lugares onde nem mesmo o próprio Siegfried podia alcançá-la. Onde não podia ouvi-la. Lugares escuros e profundos onde a voz era menos que um sussurro ao vento.

E foi onde encontraram.

Nesse abismo que era o seu subconsciente, estava Lili. Uma rainha em seu próprio castelo, erguido sobre pesadelos e ambições. Poderosa. Cruel. Mas havia algo além dela. Algo ainda mais profundo. Algo que não podia, nem devia estar lá. Algo que ainda não existia…

E não gostava de visitas.

Siegfried não chegou a vê-lo. Ou, se viu, a imagem logo foi apagada de sua mente. Só o que restou foi a sensação…

Escuridão. Então abriu os olhos e deu por si caído na lama; os músculos doloridos ameaçando se romper a qualquer momento, enquanto o cheiro de podridão e chuva lhe enchia o nariz. Assim que voltou a se pôr de pé, viu que estava em um vilarejo em chamas qualquer. Seus ouvidos explodiram com o grito de guerra de um milhar de homens vindo em sua direção, correndo por becos e vielas; os olhos lacrimejando e os pulmões queimando com a fumaça negra que tomava conta das ruas.

E, antes que se desse conta, foi atingido em cheio por uma avalanche de corpos que o derrubaram. O que se seguiu foi uma batalha como qualquer outra; e ninguém notou Siegfried sendo pisoteado por baixo deles — seus ossos se partindo como galhos secos sob o peso dos soldados. Sangue, aço, morte…

Guerra.

Lembrava das imagens. Batalhas que viveu e pesadelos que teve. Coisas que o faziam tremer antes de uma batalha, quando ainda era só um guerreiro verde.

Passou pelas imagens como quem passa por uma brisa e, quando deu por si, estava de volta ao quarto — onde um instante menor que um instante havia se passado. Ainda era ele mesmo.

“Que merda foi essa?!”

Eroth tinha o rosto pálido e segurava o peito como se temesse que o coração saltasse para fora a qualquer instante. Seus olhos se encontraram por um segundo e não precisou dizer nada para que o rapaz entendesse: ela também viu. Cavou fundo demais e viu algo que não devia. Algo com o qual não estava acostumada. Medo.

Mas ninguém além de Siegfried percebeu isso, pois todos olhavam para ele.

Melias Kroft havia recuado dois passos, com o bastão erguido, enquanto vociferava:

— Você! Era esse o seu plano desde o início, não é?! Você só queria me atrair até aqui.

— Não! — disse Mimosa, se colocando ao lado de Siegfried. Assustada. Tinha dúvidas e podia ver isso nas suas mãos trêmulas e na voz hesitante. Ainda assim, o defendeu. — Ela só tá tentando jogar a gente uns contra os outros. Não vê?

Mas antes que pudessem chegar a um consenso, o quarto se trancou.

A porta atrás deles se fechou com um estrondo e então tudo era escuridão. Siegfried ainda podia enxergar e se apressou em atacar Eroth, mas já era tarde demais. A não mais de três metros da elfa, deu de cara com uma parede invisível. Um domo de energia que a rodeava. E sabia bem o que vinha a seguir.

A escuridão ao seu redor ganhou vida e as sombras se tornaram tentáculos pegajosos que agarraram todos de imediato.

Um deles veio na direção de Siegfried, mas o rapaz recuou a tempo. Não que isso tenha ajudado muito, pois acabou sendo pego por outros dois tentáculos que não havia visto se aproximando. Cada um deles pesado como uma cabra. Puxando-o para baixo. Tentando derrubá-lo.

— Você não aprende, não é? — disse Eroth. A voz delicada sobreposta por outra mais macabra, como se algo demoníaco falasse por trás dela. — Não sei como resistiu ao meu toque, mas não importa. Não irei mais subestimá-lo.

E não estava blefando.

De repente, a escuridão começou a borbulhar. E dessas bolhas se levantaram guerreiros cobertos por piche negro; figuras humanoides com um enorme manto viscoso cobrindo-lhes completamente o corpo — e se desfazendo a cada passo, escorrendo como uma lama pegajosa, até que finalmente derreteu por completo e pôde ver que não eram homens por baixo de todo aquele piche. Não havia carne em seus ossos, nem órgãos ou o que fosse. Eram esqueletos; mantidos de pé por magia e nada mais.

Siegfried contou dez. Todos eles vestidos em cota de malha enferrujada ou couro fervido já completamente apodrecido. Suas armas, espadas quebradas, cegas e enferrujadas — tão antigas e mal-cuidadas que pareciam prestes a se partir. Seus ossos, enegrecidos de tal modo que se misturavam às sombras como se fossem parte dela.

E nem Siegfried, nem os outros conseguiam se mover.