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Capítulo 0200: Pacto

A Ascensão Do Rei Mercenário — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 0200: Pacto

Era ainda tão cedo que o céu exibia uma cor acinzentada. O negro da noite aos poucos se esvaindo e dando lugar à primeira luz do dia; pálida e fraca.

Siegfried deixou o prédio principal e foi até o pátio do castelo, onde deu de cara com uma pequena tropa esperando por ele.

Melias Kroft havia recrutado vinte homens do vilarejo para acompanhá-lo. Homens, não garotos — o mais novo devia ter pelo menos vinte anos e a maioria já estava na casa dos trinta. Conhecia alguns deles de rosto; eram moradores que o ajudaram a consertar uma ou outra casa durante o inverno. Homens bons.

Não saberia dizer há quanto tempo estavam esperando ali fora, conversando, mas assim que viram Siegfried se aproximar, entraram em forma (ou pelo menos tentaram) e sorriram, cheios de orgulho. Como era possível que homens adultos tivessem olhos tão inocentes?

“A guerra vai mastigá-los e cuspir os ossos.”

Esmond Kroft vinha logo atrás dele, cansado de sono e arrastando os pés como a criança que era, mas arrumado e pronto para partir. Siegfried se virou para ele e disse:

— Ponha-os em forma!

O garotinho grunhiu e fez (de má vontade) como lhe foi ordenado.

Embora não precisasse de Melias Kroft, era consenso que o Barão Blackfield (ou melhor: o Barão Black) precisava de um escudeiro no campo de batalha.

Em termos de habilidades marciais, Tom era uma escolha melhor. Então, por que escolheu Esmond? Bem: Tom não era um nobre. Além do mais, queria-o no Castelo dos Ossos para o caso de Melias Kroft tentar um golpe em sua ausência. Embora Melias Kroft tenha-no treinado, Tom já havia se tornado o cãozinho de Eroth e era a melhor opção para enfrentar Melias em um duelo — embora fosse difícil dizer se seria capaz de derrotá-lo.

E, convenhamos, a função de um escudeiro era basicamente repetir ordens e entregar mensagens, algo que Esmond poderia fazer bastante bem — com a vantagem de tirar um provável aliado de Melias Kroft.

Não que tenha sido o bastante.

— Lorde Black — havia dito Brandon durante o último jantar —, espero que saiba que a casa Donoghan é grata pelo seu apoio. Um homem de honra é difícil de se encontrar nos dias de hoje. E eu sei o quão difícil deve ser para você deixar o castelo de sua família tão abruptamente e com tão poucos homens para defendê-lo na sua ausência. Para lhe acalmar o coração e selar a confiança mútua entre nossas famílias, deixarei três dos meus melhores homens ao serviço da casa Kroft. Eles ajudarão a manter o Castelo dos Ossos seguro até o seu retorno triunfante.

Certa vez, Eroth lhe disse que a nobreza é teatral. Que educação e bajulação eram as suas armas. E estava certa.

Com belas palavras, Brandon Donoghan lhe forçou a ir à guerra por ele e deixou três dos seus melhores (e, provavelmente, mais leais) homens no Castelo dos Ossos — uma faca na garganta de Eva e todos os outros. Orel e Wayne não seriam o bastante para pará-los, se necessário.

Só podia depender de Eroth.

Tinha ido até ela ontem à noite, logo após o belo discurso de Brandon. Como sempre, foi encontrá-la em seu laboratório. E é claro que ela já o esperava.

— Lorde Black. — E sorriu. — A que devo a visita?

— Parto amanhã.

— De fato. E, se me permite, ouso dizer que o senhor fará um trabalho excelente. Certamente já provou suas habilidades militares no último outono e inverno, não é mesmo?

“Teatro”, lembrou. Talvez devesse tentar…

— Não pretendo me envergonhar no campo de batalha. Minhas preocupações residem aqui mesmo, neste castelo.

— Hum. Eu vejo. E o que lhe preocupa?

— Melias Kroft!

— Meu ex-marido? Ele é leal a você.

— E espero que permaneça assim, mesmo depois que eu me for.

— …

— Eva é sua filha.

— Sim. E?

— Quero que a proteja.

— Por quê?

— Ela é sua filha!

— Você já disse isso.

— Deixaria Melias tomar o castelo da sua própria filha!?

— Hum. Não sei. Talvez. Quem sabe?!

Raiva.

Siegfried sentiu o coração pulsar. Um tambor ameaçando lhe explodir o peito. Até que viu o que ela estava fazendo. Ainda era apenas um teatro. Nada além de meias-palavras.

— Pois bem! Você venceu. O que quer?

Eroth sorriu.

— A pergunta correta é o que você quer.

— Você sabe o que é. Quero que proteja a Eva na minha ausência!

— E por que eu?

Suspiro profundo.

— Porque você tem o castelo inteiro na palma da mão. Tom, Kira, Mimosa, as servas e provavelmente até o Wayne. Não existe uma única pessoa nesse castelo que não lhe deva algo. Além disso, já lutei com você. Duas vezes. Pode parar o Melias sozinha, não importa quantos homens ele tenha. Sem a sua licença, ninguém pode tomar esse castelo!

— Eu pareço uma pessoa formidável. Então me diga: o que ganho em troca?

— Fora o fato de estar protegendo a sua própria filha?

— Estamos voltando pro início da conversa.

— Tsc! Que seja! Cansei desse teatro. O que você quer? Diga e será seu.

— Só uma coisa? Que egoísta. É a vida da sua esposa que estamos falando aqui, sabia?

— Vá direto ao ponto!

— Não!

— …

— Você mesmo disse. Não existe uma única pessoa nesse castelo que não me deva algo. E isso inclui você. Você me deve muito. Bem mais do que os outros, na verdade. E eu vou pedir bastante em troca. Mas, para começar, eu quero apenas uma coisa.

— Que seria…?

— Um beijo.

Siegfried não se deu ao trabalho de esconder o espanto. Seria algum tipo de humilhação? Estaria tentando demonstrar o seu poder sobre ele de alguma forma doentia? Não saberia dizer, mas tampouco poderia recusar. Sentiu-se simplesmente grato por ser algo tão ridículo e fácil.

Se aproximou e puxou Eroth pela cintura, o corpo dela colado ao seu. A elfa era alguns centímetros mais alta, mas não muito — os joelhos dela cederam um milímetro e então era Siegfried quem se erguia acima dela.

A boca de Eroth se abriu e Siegfried entrou. A língua dela na sua. Doce. Úmida. Viciante. Seu coração pulsando acelerado; um aríete tentando lhe quebrar o peito por dentro. Um calor febril tomando conta do seu corpo.

Eroth o segurou e assumiu o controle.

E então foi como se ela lhe sugasse a alma. Sentiu-se fraco, frio e vazio por um instante, como se algo tivesse sido tirado dele. Suas pernas fraquejaram e, quando terminou, ele mal conseguia se manter de pé.

Eroth o soltou e Siegfried precisou se apoiar em uma mesa para não cair. O coração frio e acelerando aos poucos, como um cavalo que começa a recuperar o fôlego após uma corrida.

— O que foi isso?

Eroth sorriu, mas não respondeu.