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Capítulo 0201: Casa Talmond

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Capítulo 0201: Casa Talmond

O Lago Brightwater ficava no centro de uma clareira e, tão logo escureceu, fez jus ao seu nome. A água cristalina refletiu as estrelas e criou um segundo céu sob seus pés. Um lago estrelado. Um lugar bonito.

Siegfried quase esqueceu onde estava… E para onde ia. Os soldados também.

Uma fogueira fora acesa e agora os homens trocavam histórias ou falavam alegremente a respeito de suas esperanças para a guerra. O mesmo de sempre: homens verdes que só queriam saquear, violar e matar. Aqueles um pouco mais arrogantes iam um passo além e queriam saquear castelos, violar princesas e matar cavaleiros.

Mudam-se os rostos, as cores e o lugar, mas soldados continuam sendo soldados e todos pensam igual. Eram só garotos com espadas — independente da idade.

Esmond Kroft era o único a não compartilhar do entusiasmo pela batalha vindoura. Havia se tornado bastante taciturno desde que viu Siegfried carregando a cabeça decepada de seu pai; e os homens de Brandon ajudavam a reforçar essa atitude com suas histórias de terror sobre a Floresta dos Gritos.

Aparentemente, a clareira onde estavam fora palco de dois massacres. Primeiro o da casa Brightwater; e então o dos elfos.

Um senhor da guerra elfo massacrou toda a casa Brightwater, exceto pela filha mais nova, que escapou. A jovem Brightwater então cresceu e seduziu o príncipe-herdeiro de Thedrit. Foi o desejo de vingança dela que desencadeou o enorme expurgo élfico que se seguiu e que só chegaria ao fim após a sua morte — e ela era bem nova quando tudo começou.

Sir Ergar Talmond era um cavaleiro vassalo da casa Brightwater e fez seu nome como o melhor matador de elfos da sua época. Com o casamento do príncipe-herdeiro e a última Brightwater, Sir Talmond foi elevado a barão e recebeu as terras de seus antigos suseranos.

— E a casa Talmond mantém a tradição até hoje — explicou o soldado. — Toda noite de lua cheia, os homens da família cavalgam a Floresta dos Gritos em seus corcéis negros. Seus cães são treinados pra farejar um elfo do outro lado da baronia. E não pense você que está seguro. Porque se tiver uma gota de sangue élfico em você, eles vão sentir. E o Barão Talmond não é homem de abrir exceções. Se alguma trisavó tua já fodeu um elfo, tu é um elfo! E vai morrer como um elfo. E quer saber duma coisa? Acho que tô sentindo um cheirinho de elfo em você.

Esmond empalideceu e os soldados riram. É claro que riram. Era só uma piada. Mas não para Esmond; afinal, era filho de uma elfa de verdade.

Chegaram ao Salão Talmond ao entardecer do dia seguinte, uma semana após partirem do Castelo dos Ossos. Um vilarejo pacato e agradável que nunca foi tocado pela guerra; não na sua história recente. Seus homens? Trabalhadores. As mulheres? Bonitas. Até as crianças lhe pareciam mais alegres do que o normal. Uma boa terra.

Quando chegaram aos portões do salão, foi o próprio Barão Talmond quem os recebeu. Um homem jovem — não mais de 24 anos. Cabelos negros e pele parda. Suas cores? Branco e vermelho.

— Lorde Brandon, fico feliz de vê-lo em segurança.

— Lorde Klaus, é bom estar de volta.

— Meus homens estão prontos para partir a qualquer momento. Basta que dê a ordem e os porei em marcha.

— Logo. Mas antes, creio que um pouco de descanso seja adequado. Me deparei com um belo desafio em minha pequena jornada.

Brandon apontou para a cabeça decepada e meio apodrecida do ogro que matara. A sua carne se desprendendo dos ossos, enquanto um milhar de moscas cobria-lhe o rosto. Um troféu pútrido e nojento. Se o Barão Talmond ficou impressionado, não deixou transparecer:

— Seus homens chegaram há alguns dias. Haviam-me dito que o senhor encontrou problemas no caminho. Vejo que não estavam exagerando. Um banquete?

— Um banquete.

E naquela noite tiveram um banquete.

Brandon Donoghan não se incomodou em apresentar Siegfried. E o Barão Talmond tampouco se deu ao trabalho de perguntar a seu respeito. Ninguém se importava. Era só um rapaz com poucos homens e um brasão desconhecido. Em outras palavras: não era ninguém.

♦

O Salão Talmond era bastante espaçoso. As suas paredes decoradas com tapeçarias que retratavam eventos importantes da linhagem; campanhas militares e massacres élficos em sua maioria. A longa mesa no centro, grande o bastante para acomodar até vinte pessoas.

Embora Brandon Donoghan fosse apenas um convidado, teria sido impossível perceber isso pela forma como se comportava. O seu assento ficava na ponta (lugar de direito do lorde do salão), enquanto o Barão Talmond era relegado à cadeira à sua direita e tinha de observar Brandon flertar com sua própria esposa na cadeira da esquerda.

A Baronesa Calista Talmond tinha vinte anos e longos cabelos castanhos trançados. A sua pele branca brilhando de suor, o rosto corado do vinho e os olhos cor-de-mel vidrados em Brandon. Era uma mulher, mas ainda tinha o corpo de uma garota — magra, com poucas curvas e seios humildes. E parecia fascinada pelo filho do Conde Donoghan; sorria de tudo o que ele dizia e tocava a sua mão com frequência.

Uma mulher casada. Uma mãe de família. E ainda assim… Devassa.

Havia visto o filho do barão correndo por aí, atrás de Esmond. Zayne Talmond tinha seis anos e era o único filho do casal; um garoto de cabelos negros e pele parda como o pai, mas os olhos cor-de-mel da mãe. Não havia muitas crianças no salão e Zayne depressa se apegou a Esmond. E, aonde Zayne ia, sua pequena noiva vinha atrás.

Além dos dois garotos, a única outra criança no Salão Talmond era Titania Stonebow — uma garotinha de seis anos, cabelos ruivos, sardas e olhos cinzentos. Aparentemente, Zayne e Titania estavam noivos em algum acordo político e a garota havia sido trazida por Brandon Donoghan para servir como dama de companhia da Baronesa Talmond, até que alcançasse a maioridade.

“A única coisa que a baronesa pode ensinar a essa garota é o tipo de coisa que nenhuma criança deveria saber e espero que tenha o bom senso de entender isso.”

Por algum motivo, Zayne e Titania lembravam-lhe um pouco Sam e Mirabel. E ambos pareciam intrigados com Esmond; era alguns anos mais velho e misterioso, então é claro que lhes despertava a curiosidade. Mas os adultos pareciam não entender isso. Tudo o que sentiam era nojo. Não era certo que o herdeiro do Barão Talmond e sua noiva (nobres de verdade) fossem tão próximos do escudeiro de um lorde bastardo.

Siegfried escutou algumas conversas e, ao que parece, os homens de Brandon haviam espalhado alguns rumores bastante infelizes a seu respeito.

— Maldito fodedor de crianças — diziam. — Soube que casou com a sobrinha pra roubar o título do irmão. E parece que ela não tinha nem quatro anos quando esse doente levou ela pra cama e arrombou ela feito uma porta.

— Poisé! É nisso que dá acolher um bastardo. O sangue deles é podre. Ninguém devia ter sangue nobre e plebeu. Ou tu é um, ou outro. É só ver, todo bastardo faz merda. Se acham melhores do que todo mundo e não sabem se pôr no seu lugar. Tô te dizendo, a melhor coisa que esse maldito bastardo pode fazer pra todo mundo é morrer.

Homens bêbados planejando a sua morte. Era quase como se tivesse voltado a ser um mercenário. Tinha até mesmo aceitado lutar em uma campanha militar inútil por um lorde incompetente.

Ironicamente, os pais de Zayne pareciam se importar bem menos com suas companhias. A baronesa estava ocupada demais, rindo de alguma coisa que Brandon disse, enquanto o barão se limitava a mordiscar o seu pedaço de cordeiro em silêncio.

Um pouco mais tarde, Brandon e a Baronesa Talmond se levantaram para dar uma volta e essa foi a última vez que os dois foram vistos pelo resto da noite.

O Barão Talmond permaneceu em seu lugar até bem mais tarde, embora comesse pouco e falasse ainda menos. Tão isolado que bem poderia ser outra das tapeçarias empoeiradas. Patético. Mas estaria assim tão distante de si próprio? Siegfried também era apenas um refém nas mãos de Brandon. Seria esse o seu destino? Humilhação? Nada além de outro barão patético servindo a um idiota mimado?

“Pelo menos eu não assisti enquanto ele saía pra foder com a minha esposa”, disse a si mesmo.

E talvez tenha pensado um pouco alto demais, porque o Barão Talmond imediatamente lançou um olhar furioso em sua direção, apesar de estarem a umas boas nove cadeiras de distância.

“Não é comigo que você devia tá irritado.”