Capítulo 0205: O Terceiro Rei
Capítulo 0205: O Terceiro Rei
A tropa partiu pelo amanhecer. Tal como Brandon Donoghan havia determinado, não passaram mais de uma noite no Salão Hawk.
Dara, Mirabel e Letya estavam lá para ver Siegfried partir, embora não pudessem fazer mais do que isso sem levantar suspeitas — que vínculo as irmãs Essel poderiam ter com o lorde ‘bastardo’ de um pântano qualquer? Tudo bem! Já haviam se despedido mais cedo.
Mirabel sugeriu se disfarçar como um garoto e seguir como escudeira de Siegfried, mas o rapaz conseguiu convencê-la de que manter sua irmã segura era mais importante e algo que apenas ela poderia fazer. Também lhe deu algumas dicas de exercícios de combate para se manter em forma e viu os olhos da garotinha brilharem com entusiasmo.
Dara presenteou-o com uma mecha de cabelo.
— Para substituir o lenço.
Na verdade, Siegfried ainda tinha o lenço e jurou mantê-lo consigo, mas os rigores da jornada haviam tornado-no amarronzado de sangue seco.
— Você devia jogar fora — sugeriu Dara. — Vou fazer um mais bonito da próxima vez. E mais resistente. Quem sabe fios de aço?!
E sorriu.
Letya disse: tchau.
Mas elas três não foram as únicas a vê-lo partir. Ingrith Hawk também fez questão de comparecer, embora observasse Siegfried com desprezo e raiva contida.
— Se vocês realmente se amam, nunca mais deviam se ver! — disse Ingrith ontem à noite, logo após Siegfried e Dara retornarem da Torre Belet. — Fazem ideia do que estão pondo em risco aqui?! Do que vai acontecer se alguém descobrir sobre vocês?!
— A gente sabe! — insistiu Dara.
— Não, não sabem! Senão, não estaríamos tendo essa conversa! Ele é um mercenário, Dara! Está te usando!
— Pra quê? Ele já é um cavaleiro! E um barão! O que mais eu posso oferecer?
— Ele diz ser um cavaleiro. E é o barão de um pântano! Um pântano, Dara! Realmente precisa que eu te explique o que você tem a oferecer!?
— Eu tô bem aqui, sabe?! — disse Siegfried.
— Você não faz ideia de com quem está mexendo, garoto! — disse Ingrith. — Não tem ideia do que está em jogo aqui.
— Vocês vão trair a Condessa Essel.
Silêncio.
— Você contou pra ele!? — perguntou Ingrith (furiosa) à Dara.
— Ela não precisou — disse Siegfried.
— Humpf! Que seja! Se sabe do plano, então também deve saber que o Conde Donoghan vai te estripar feito um peixe quando descobrir sobre vocês dois. Vamos ver o quanto ‘ama’ ela, depois que castrarem você com um cutelo!
Siegfried não admitiu, mas sabia que ela tinha razão. Se descobrissem sobre ele. Sobre a sua filha. Talvez precisasse matar algumas pessoas. Mas, antes disso, precisava de aliados…
O Barão Kessel? Não. Ele apenas forçaria Dara a se casar com outro nobre qualquer. A Baronesa Whitefield tinha poucos homens, mas era inteligente e talvez pudesse conseguir o apoio de outras casas — o seu irmão mais velho era o Barão Greenlock e a irmã mais nova, a Baronesa Coyle (cunhada da Baronesa Lawgard; embora fosse pouco provável que a casa Lawgard quisesse ajudar Siegfried depois de tudo o que fez a eles).
Deixou escapar um suspiro.
“Talvez eu não devesse ter dado aquela surra no Barão Lawgard e no filho dele.”
♦
Chegaram ao Castelo Essel dezesseis dias mais tarde. Perto do final da primavera.
Encontraram o exército acampado em frente à Cidade Bela. Uma enorme tropa com, pelo menos, mil homens. Mas não era um cerco e isso estava bem claro; os soldados dormiam em tendas e bebiam e jogavam. Os portões da cidade? Abertos.
Cidade Bela era grande e forte. Tinha muros e guaritas, mas ninguém parecia se importar com as quase onze centenas de soldados do lado de fora. E a vida seguia normalmente lá dentro; mercadores anunciavam seus produtos, crianças corriam e todos tinham algum lugar para ir.
Siegfried estimou a população local em três mil ou algo em torno disso. Talvez um pouco mais; provavelmente um pouco menos, levando em consideração que alguns homens devem ter sido convocados pelo Conde Essel na primavera passada e, com a sua derrota, nunca retornaram.
O Castelo Essel também não lhes ofereceu qualquer resistência. Tão logo reconheceram Brandon Donoghan, os portões foram abertos.
— O Príncipe Brandon está aqui! — anunciou o guarda.
Mais tarde descobriu o porquê: o Castelo Essel já havia caído!
Siegfried sabia que o Conde Donoghan conspirava contra a Condessa Essel, mas nunca sonhou que seria tão rápido. Os guardas usavam agora as cores da casa Donoghan e, na sala do trono, o brasão que encontrou foi o sol verde em fundo negro. Sentado no trono, um homem duro de 34 anos; ombros largos e braços fortes. Um guerreiro. O pai de Brandon, soube de imediato (tinha os mesmos cabelos castanhos, olhos negros e postura marcial).
O Conde Donoghan saudou o filho com um sorriso, dispensou o Barão Talmond com um aceno brusco e nem se incomodou em dirigir um olhar a Siegfried.
“Tal pai, tal filho.”
Siegfried recebeu um quarto qualquer numa das torres mais antigas do castelo e isso foi tudo. O resto descobriu por conta própria ao longo do dia: há cerca de duas semanas, as tropas do Conde Donoghan chegaram para ‘ajudar’ a Condessa Essel contra o Barão Kessel e seus rebeldes (tal como havia sido ordenado a fazer pela própria Duquesa Elsbeth Greenguard). Vieram como aliados, mas era apenas um engodo. O conde passou pelos portões com os seus lordes e os melhores soldados sob seu comando (a sua ‘escolta’). E, assim que chegaram à sala do trono (longe da mira dos arqueiros), eles fizeram a Condessa Essel de refém.
Sem escolha, o capitão da guarda se rendeu e entregou o castelo nas mãos dos invasores. Não houve resistência.
Os guardas foram depostos e enviados para o exército acampado em frente aos portões; eram agora os recrutas do Conde Donoghan. Ou melhor: Rei Donoghan!
Aparentemente, a vitória esmagadora deu ao conde a impressão de que merecia ter a sua própria coroa. Principalmente por causa dos seus reféns: tinha a Condessa Essel, sim, e não era a única.
Araphor Greenguard, um herói de guerra leal ao Príncipe Helmut, encontrava-se no castelo como general da Condessa Essel. Estava em patrulha durante a tomada do castelo e, logo que retornou, foi detido. Os guardas agora se gabavam de terem participado da sua captura — se todos eles estivessem falando a verdade, então o castelo inteiro havia cercado Araphor (dos arqueiros nas muralhas até os ajudantes de cozinheiro).
Mas Siegfried não se importava com isso.
Estava mais interessado em Draco Whitefield (o herdeiro do falecido Barão Zander Whitefield; de quem Dara esteve noiva brevemente) e Theron Gaelor (o herdeiro do igualmente falecido Conde Alwyn Gaelor).
Dois condes e um herói de guerra como reféns. Não era de se espantar que o ‘Rei’ Donoghan deixou a vitória lhe subir à cabeça.