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Capítulo 0021: A punição dos traidores

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Capítulo 0021: A punição dos traidores

Quando os guardas levaram Siegfried de volta à prisão, a garota de olhos azuis não estava mais lá.

— Pra onde levaram ela? — perguntou a um dos guardas, enquanto trancavam a porta.

— Quem sabe?! — O soldado sorriu com uma boca cheia de dentes tortos. Um homem velho, calvo e com a forma de um barril. — Talvez a gente só esteja cobrando ela pela hospitalidade.

Os dois guardas riram e então foram embora, sem acorrentar o prisioneiro. Se haviam recebido ordens ou apenas se esqueceram, era difícil de dizer.

Então sentou em um canto e aguardou, olhando a tempestade que caía lá fora. Ouviu um trovão e lembrou do conde, rugindo para os convidados no salão.

Quando o lorde se levantou do trono com a sua espada longa na mão, sua sombra se estendeu, cobrindo a parede atrás dele e mergulhando o mundo em escuridão.

Com mais de dois metros de altura, ele se erguia por cima da multidão, tão alto quanto um general orc. E tão imponente quanto.

Seus homens recuaram, abrindo caminho e abaixando as cabeças em reverência, conforme se dirigia aos fidalgos. Aos poucos retomando a postura disciplinada que suas posições exigiam e voltando a se portarem como soldados da família Gaelor.

Dorian estava tão ocupado gritando com Siegfried, que nem notou os guardas tomando distância e formando um círculo ao redor dele e de sua família, até que já estivessem cercados.

Kellen e sua esposa se afastaram do filho, com Mirabel agarrada à saia da mãe e Dara escondida atrás do pai.

Por um breve momento, pareceu que realmente haveria um banho de sangue.

O conde se aproximou de Dorian e descansou a lâmina em seu ombro, fazendo o rosto do garoto ficar tão pálido que era como se já estivesse morto. Então suas pernas ficaram bambas e ele caiu de joelhos; não como um cavaleiro que se curva ao seu senhor, mas como um prisioneiro para o seu carrasco.

— V-vossa graça — disse. — Eu–

— Quando eu ordenar que se cale, você se cala, entendeu?

— S-sim, vossa graça.

Então as coisas se acalmaram.

Os convidados foram dispersos e o lorde ordenou que o julgamento fosse interrompido até que seu filho acordasse e pudesse dar o seu testemunho. Ninguém protestou. Como poderiam? Depois de quase terem suas cabeças cortadas por falar fora de hora?

Ainda assim, levou dois dias inteiros antes que o prisioneiro fosse chamado.

Tinham lhe enviado uma serva que não conhecia para servir sua comida e ela nunca se demorava ou dizia qualquer coisa que fosse. Certa vez, fez contato visual com Siegfried e, apenas por um breve momento, pareceu que queria lhe dizer algo, até que ouviu um barulho e fugiu.

Era um rato.

Podia ver os outros pelas grades da prisão, mas a única pessoa que veio vê-lo foi o sacerdote, que tratou dos seus hematomas e costelas fraturadas logo no primeiro dia.

Fora isso, não teve mais visitas.

Igmar fazia questão de passar com seus homens marchando bem em frente à sua cela. Também começou a treinar alguns guardas a decapitarem bonecos de palha e parecia estar de bom humor.

Certa vez, viu Dara caminhando por perto, mas quando seus olhos se encontraram, ela se virou e foi embora. Depois disso, passou a se manter distante da prisão, assim como todos os outros.

Ao entardecer do segundo dia, Brynna liderou um grupo de cinco servas que o levaram até a casa de banho para limpar a sujeira e o sangue seco grudado à pele pelo suor. Quando terminou, pentearam seu cabelo, que já quase chegava aos ombros, e o prenderam em um coque, como de costume.

Levaram a sua brigantina e roupas esfarrapadas, dando-lhe trajes mais respeitáveis; uma túnica de algodão verde, calças de lã negra, botas de couro e braceletes de prata.

— Esse não é o traje de alguém prestes a ser executado — disse, enquanto uma das garotas terminava de amarrar suas botas.

Brynna sorriu e ele entendeu.

— Ordens do conde, né?!

Uma das garotas se retirou e voltou três minutos depois, com dois guardas que o levaram até o salão.

Quando chegou, Sam já estava dando o seu testemunho:

— Eu já disse, foi esse caolho de merda que me atacou. — O garoto apontou para Dorian. — Por que vocês não prenderam ele ainda?

— Vossa graça, deve haver algum engano — disse Kellen, ignorando Sam e se dirigindo ao conde. — Seu filho é jovem e sofreu um terrível trauma na cabeça. Certamente sua memória está confusa.

— Minha cabeça tá ótima! É a desse traidor que precisa de uma boa lança espetada nela.

— Tá me ameaçando, moleque? — gritou Dorian, perdendo a calma e dando um passo em direção ao Sam.

O conde observou tudo em silêncio, assim como sua esposa. Ambos mantiveram uma postura de respeito, mas seus rostos eram frios e sombrios. Queriam matar alguém, a única questão agora era quem .

— Basta! — ordenou o lorde e todos se calaram de imediato, abaixando as cabeças e recuando. Até Sam, que ficou um pouco confuso a princípio, imitou os demais. — Samuel.

— Pai.

— Você atesta a inocência de Siegfried?

— É… Quero dizer, sim. Eu atesto… Vossa graça.

— Você entende o que isso significa? — questionou a condessa, tão calma como sempre. — Se está fazendo isso por qualquer razão que não seja a verdade–

— Não estou! Foi o Dorian. Ele que atacou a gente.

— Vossa graça. — Kellen tomou a iniciativa, mas o conde lhe deu um olhar de censura e ele se calou, voltando ao seu lugar.

A condessa suspirou e deu um olhar preocupado para o seu marido. O rosto do lorde era sombrio e olhava Dorian como um lobo olha um animal ferido, até que sua esposa tocou levemente sua mão e os dois trocaram olhares; então a violência em seus olhos minguou até desaparecer por completo.

— Pois bem! — disse o lorde. — Esse assunto já tomou muito de meu tempo e acaba aqui. Siegfried.

— Vossa graça. — O rapaz se aproximou, saindo de trás da multidão, enquanto olhos curiosos o acompanhavam. Então fez uma pequena reverência.

— Meu filho atesta sua inocência e eu também não acredito em sua culpa. Já me provou a sua lealdade e não tenho motivos para duvidar dela. Por isso, eu o declaro inocente das acusações.

Ninguém se atreveu a questionar a sua decisão, mas a família Essel estava pálida. Kethra olhava o marido em busca de orientação, mas seu rosto havia congelado em uma expressão discreta de surpresa. Dara estava boquiaberta, olhando do conde para Siegfried, sem saber o que fazer. A única que parecia genuinamente feliz era Mirabel, que sorriu, mas ainda não conseguia olhá-lo nos olhos.

— Dorian — chamou o lorde, e o garoto veio, a passos lentos e vacilantes; seu rosto estava tão pálido como o de um fantasma. — O seu testemunho é o único que não vai de acordo com o que os outros disseram. Você ainda afirma que foi meu escudeiro quem atacou Samuel?

— S-sim, vossa graça… Mantenho o que disse. Não sei que truque o mercenário usou para levar seu filho a mentir, mas esta é a verdade.

— Que assim seja. Dez chibatadas devem bastar. Guardas!

Dois soldados vieram de imediato e arrastaram Dorian, que tentou se soltar. Desta vez, seu pai não se calou:

— O que significa isso!?

— Justiça — respondeu o conde, calmamente.

— Está louco!? — gritou Kellen, se rendendo completamente à raiva. — Você não pode tratar meu filho dessa forma!

— Querido. — A condessa se apressou e tentou acalmar seu marido, mas de nada adiantou. Ele se levantou de imediato e cruzou o salão.

Antes que chegasse ao velho Essel, os guardas já o haviam rendido, por isso o encontrou de joelhos e com a face vermelha de raiva.

— Desafia minha autoridade? — questionou o lorde, usando a ponta da espada para levantar o queixo do rebelde e forçá-lo a olhar em seus olhos.

— Somos parentes por parte de nossas esposas, como pode colocar um mercenário acima do seu sobrinho?

— Coloco lealdade acima de traição.

— Lealdade? — Kellen cuspiu a palavra como se fosse veneno. — E onde está a sua? É o nosso senhor. Devia nos proteger. Ao invés disso, acolhe um assassino sob seu teto e recompensa ele por matar sua família. Veja o que ele fez ao meu filho! Você aprova isso?

— Esse assassino me é mais leal do que você ou seu filho. Eu o recompenso por isso.

— Tsc! Não é à toa que esse condado está indo pro buraco. Os boatos estão certos, você não passa de um animal. Espero que Eradan o mate!

Então foi tudo muito rápido.

A condessa se levantou do trono em um salto, a esposa de Kellen caiu de joelhos e o mundo prendeu a respiração, quando o conde arrancou a cabeça do traidor com um golpe preciso.