Capítulo 0210: De volta a Vila do Lobo
Capítulo 0210: De volta a Vila do Lobo
Siegfried liderou seus homens e a Condessa Essel, noite adentro. Uma viagem rigorosa. Por sorte, havia uma estrada de pedra bem conservada que levava até o Castelo Silvergraft; ainda precisavam tomar cuidado, mas as chances de um cavalo quebrar a perna eram menores (mesmo no escuro).
Tinham algumas horas de vantagem. Talvez mais, talvez menos. O importante é que havia alguém atrás deles. O Rei Donoghan muito provavelmente pôs um batalhão inteiro em seu encalço. Talvez o próprio Príncipe Brandon os liderasse? Mas não chegou a ver ninguém. Fosse quem fosse que o rei tivesse enviado, era lento. Teria sido estúpido ao ponto de enviar uma tropa grande demais? Cem soldados podem parecer ameaçadores, mas são lentos. Muito lentos. Ou será que estavam procurando por eles no lugar errado? Deuses! Seria possível que pensassem que eles escolheram outra direção?
Havia resgatado a Condessa Essel, talvez o Rei Donoghan pensasse que ele era leal ao Príncipe Helmut? Se fosse esse o caso, talvez tivesse mandado os seus homens em direção ao norte ou oeste, onde estavam os lealistas da casa Graylock — e bem longe de para onde o grupo realmente planejava ir.
Siegfried deixou escapar um sorriso.
“Isso seria perfeito.”
Independente da razão, não chegaram a ver nenhum batedor se aproximar. Mas também não viram Gwen ou Sam e isso preocupava o rapaz.
Tinha de manter o ritmo. Não podia correr o risco de perder a Condessa Essel. A estrada não era lugar para uma mulher grávida; mais de uma vez tiveram de reduzir o passo para que ela pudesse descansar.
— O bebê — ela disse. — Tem alguma coisa errada.
— É só o cansaço — disse Siegfried. — A senhora cavalgou a noite inteira. É normal…
— Não! Você não entende. Tem alguma coisa errada, eu sei. Posso sentir.
Não duvidava da palavra dela.
Estava empapada de suor. As mãos em volta da barriga, como se tentasse manter as próprias entranhas no lugar. As lágrimas lhe escorrendo pelo rosto. Dor. Febre. Mas qual dos dois estava em perigo? Ela ou o bebê?
Era ainda o primeiro dia de viagem e Siegfried precisou tomar uma decisão. Deixou um soldado para trás.
— Provavelmente perderam o nosso rastro, mas não posso arriscar — explicou. — Eu preciso que você fique aqui. Encontre uma boa posição e espere. Esconda-se. Observe. Se vir algum batedor ou as tropas do rei, eu confio em você para matar o máximo que conseguir e mantê-los ocupados. Se não vir ninguém até o anoitecer de amanhã, dê meia volta e venha atrás de nós, entendeu?
— Sim, senhor.
Já estavam indo embora quando Siegfried decidiu dar-lhe mais uma ordem. Não sabia o quanto poderia contar a ele. E se fosse capturado? Mas não podia correr o risco dele entrar em pânico e acabar acertando uma flecha em Gwen ou Sam por acidente.
— A propósito, estou esperando alguém. Uma garota e uma criança. Se vir alguma delas, deixe passar, tudo bem?
E seguiram viagem.
No dia seguinte, deixou mais três soldados para trás e explicou as mesmas coisas. Mas foi apenas no terceiro e último dia de viagem que as coisas começaram a desandar, conforme a Condessa Essel finalmente percebeu:
— Estamos indo pra Vila do Lobo.
— …
— Não podemos ir pra lá! Foi tomada pelos rebeldes.
— …
— Ei! Está me ouvindo!? Eu disse que não podemos ir pra lá! Se descobrirem quem eu sou, vão me matar.
— Não vão matar a senhora.
— Como sabe disso!? Temos que voltar! Encontrar outro caminho.
— Não há outro caminho! O Príncipe Helmut não tem aliados aqui.
O cavalo da condessa parou e então todos tiveram de fazer o mesmo. Siegfried se virou e viu que ela o encarava como se tivesse visto um fantasma. Pálida e assustada.
— O-o que você disse?
— As únicas tropas no condado são leais ao Rei Negro ou ao Rei Donoghan. A senhora não tem aliados aqui.
— Você disse ‘Príncipe’ Helmut, não ‘rei’.
— …
— Por Elyon, você é um deles.
A condessa não fez questão de esconder o choque… Ou o medo. Veio docilmente todo o caminho até ali. Pensava estar sendo resgatada. Nunca imaginou que fosse apenas outro sequestro.
Quando ela tentou recuar, notou que havia sido cercada. Siegfried ainda tinha quinze soldados, sem contar ele mesmo e Esmond. Mesmo que tentasse fugir, seria capturada e devia saber disso; podia tentar de qualquer modo, mas escolheu manter a dignidade.
— Quem é você?
— Meu nome é Siegfried Blackfield, lorde do Castelo dos Ossos. E tenho uma dívida com o Barão Kessel. Uma que pretendo pagar em breve. Mas não se preocupe, o que eu disse antes era verdade: a senhora não será ferida.
♦
Restavam ainda mais algumas horas até que chegassem ao Castelo Silvergraft, quando o grupo foi abordado por patrulheiros Kessel; cinco soldados ao todo. Arcos-e-flechas em mãos, espalhados e rodeando o grupo; uma boa formação — em uma batalha, era pouco provável que vencessem, mas levariam mais do que alguns homens com eles.
Um dos soldados se aproximou com o seu cavalo e parecia estar prestes a fazer todas aquelas perguntas típicas (quem são? De onde vem? O que fazem aqui?), quando pôs os olhos em Siegfried e se embasbacou:
— Por Elyon. É você!
— Talvez. Depende do que exatamente você quer dizer com ‘eu’.
— O vira-casaca.
— É. Esse provavelmente sou eu.
— Disseram que você tinha fugido.
— Dizem muitas coisas sobre mim. Poucas são boas. Ainda menos são verdades.
Então, o soldado notou a Condessa Essel.
— É… Ela ?
— É! E estamos com um pouco de pressa, se não se importa.
Então, seguiram até o Castelo Silvergraft. Os soldados Kessel escoltando o grupo.
A Vila do Lobo havia mudado bastante desde a última vez que o rapaz a viu. Não era mais um vilarejo invadido, apenas um vilarejo. As pessoas haviam se acostumado à nova vida. Comércios foram abertos, casas foram reparadas e famílias cresceram.
Ainda havia escravos, mas eram poucos e a maioria não parecia tão maltratada como um dia havia sido. Não via sinais (óbvios) de doença ou desnutrição. Trabalhavam lado a lado com os plebeus e alguns até mesmo chegavam a conversar entre si e… Sorrir? Deuses. A paz é poderosa. Se não fossem as coleiras de ferro, nem teria notado que eram escravos.
Mas, para eles, era Siegfried quem era a novidade incomum. Plebeus e escravos paravam tudo o que estavam fazendo para vê-lo chegar. Conheciam-no; alguns de vista, outros de rumores.
— É o vira-casaca.
— O que ele tá fazendo aqui? Pensei que tinha fugido.
— Acho que os soldados pegaram ele.
— Covarde traidor.
E então os insultos começaram…
— Você vai morrer, traidor!
— Espero que sua graça arranque essa sua cabeça!
— Vamos matar a sua puta!
Os soldados apressaram o passo e Siegfried incentivou seus homens a fazerem o mesmo; e proteger a Condessa Essel, é claro (estava escondida no centro da tropa, para o caso de um tumulto começar).
Ao perceber que estavam se afastando, os plebeus começaram a lançar fezes e lixo em Siegfried. A maioria atingiu os soldados que estavam ao seu redor, mas um deles acertou um pouco de estrume no seu ombro.
Foi apenas quando atravessaram os portões do Castelo Silvergraft que finalmente ficaram em segurança… Ou quase.