Capítulo 0211: Fraldas em dobro
Capítulo 0211: Fraldas em dobro
Siegfried observou em silêncio enquanto os seus homens eram levados até o pátio na parte de trás do castelo. Não foram postos a ferro, mas também não eram bem-vindos.
Os guardas então conduziram ele, Esmond Kroft e a Condessa Essel até a torre principal, onde o Barão Kessel já os esperava; estava sentado em seu trono, no segundo andar, com uma enorme tapeçaria atrás de si — um castelo negro em fundo vermelho (o brasão do Rei Negro). E não era o único…
Sir. Edgar Whitefield e seu filho, Hunter, bem como Adrien Dalton, também estavam lá. Ao lado deles, mais três figuras desconhecidas ao rapaz: o garoto mais novo devia ter talvez seis anos e usava as cores da casa Lawgard (provavelmente o filho mais novo do Barão Lawgard), os outros dois traziam o brasão de uma donzela ajoelhada em fundo verde; um homem de 33 anos e um garoto de onze (pai e filho, provavelmente) — Siegfried não os conhecia, mas sabia que a casa Coyle havia se aliado ao Barão Kessel no final do verão passado, tal como a casa Lawgard (supunha que fossem eles).
“Todos me odeiam”, notou.
Por um momento que pareceu durar quase uma eternidade, ninguém falou. Seus olhos iam de Siegfried até a Condessa Essel e de volta ao rapaz. Estariam tentando encontrar alguma falsidade em sua aparição? Talvez pensassem que aquela não fosse de fato a condessa? Ou seria apenas raiva pelo fato dele ter conseguido capturá-la? Uma missão que muitos (senão todos) julgavam impossível.
— Sir. Siegfried Blackfield — disse o Barão Kessel, rompendo o silêncio. — Pensei que chegaria mais cedo.
— Tive alguns contratempos, vossa graça. Mas cumpri com a minha palavra, não foi?
— Hum. É o que parece.
— Como você conseguiu? — perguntou o lorde Coyle. Curioso e sereno. De longe, o que menos parecia desprezar Siegfried. — Soube que o Castelo Essel é uma fortaleza no coração de uma enorme cidade murada. Milhares precisariam morrer antes que você pudesse sequer chegar até a sala do trono. Um exército não teria feito o que fez. Como a capturou?
— Sorte — brincou Siegfried. — Imagino que tenham ouvido falar uma coisa ou duas sobre o Conde Donoghan.
— Ele fez causa comum com o Condado de Essel — explicou Sir. Edgar. — Até onde sabemos, todos os lordes do Condado de Donoghan responderam ao seu chamado. Meus batedores contaram, pelo menos, seiscentos homens. Combinados ao exército Essel, devem passar de um milhar facilmente.
— Com sorte, menos. Seja como for, não há mais aliança alguma. O Conde Donoghan se proclamou rei.
A notícia pegou todos de surpresa.
— Isso é verdade? — perguntou o Barão Kessel. Mas Siegfried sabia que não era para ele que o lorde perguntava.
— Infelizmente — disse a Condessa Essel. — Eu o recebi em minha casa como um aliado e ele fez de mim sua prisioneira.
— Isso não explica como você conseguiu tirá-la de lá — disse o lorde Coyle.
— Eu era um convidado do Príncipe Brandon — disse Siegfried.
— E então o traiu.
— Para traí-lo, eu precisaria ter feito algum voto de lealdade. E isso nunca aconteceu. Brandon Donoghan invadiu minha casa, ladrou suas ameaças e me forçou a segui-lo. Pois bem! Eu o segui. Mas não lhe devo nada!
Sua resposta não pareceu agradar muito aos nobres. Temiam que se voltasse contra eles? Um medo válido, embora infundado.
O Barão Kessel ordenou que a condessa fosse levada até os seus novos aposentos e recebesse os cuidados médicos devidos em virtude de sua gravidez avançada. Quase tudo havia sido acertado, quando Adrien Dalton falou:
— Espere! E o Dalkon?
— …
— Dalkon Lawgard. O herdeiro do Barão Asher. O que houve com ele? Lembro que o acompanhou em sua missão. Onde está?
— Morto.
A resposta pegou Adrien de surpresa. Mas os demais lordes pareciam já esperar por aquilo; todos, exceto o pequeno Lawgard. Siegfried prosseguiu:
— Encontramos um ogro no outono passado. Ele lutou bravamente, mas não resistiu. Dei a ele um enterro apropriado.
E foi com essa notícia melancólica que a reunião chegou ao fim. O Barão Kessel mandou os outros embora, mas Siegfried permaneceu e todos sabiam o porquê.
— Eu mantive a minha parte do acordo.
— Assim como eu — disse o barão. — Venha!
E o levou até um prédio menor atrás da torre principal. Uma construção de dois andares; o de baixo pertencendo à cozinha e o de cima aos aposentos das servas. Foi onde o rapaz reencontrou Lavina.
Estava sentada na cama, coberta em lençóis de linho. O cabelo loiro desgrenhado e o rosto empapado de suor — vermelho como um tomate. Ofegante e mais do que um pouco exausta. Tão absorta em pensamentos que mal notou quando o Barão Kessel e Siegfried entraram, mas tomou um susto ao ouvir o chão de madeira ranger e então caiu em lágrimas ao vê-lo.
— Eu sabia — ela disse, entre soluços. — Eu sabia. Eu sabia. Eles disseram… Mas eu sabia que o senhor ia voltar. Nunca duvidei. Juro.
Siegfried se aproximou com cautela. O coração pulsando acelerado.
Lavina não parecia ferida, embora claramente estivesse com dores. O rapaz parou ao lado da cama e ela sorriu por trás das lágrimas, mas Siegfried só conseguia prestar atenção no bebê que ela amamentava; um garotinho recém-nascido de cabelos loiros.
— Ele…
— Nasceu há seis dias — explicou o Barão Kessel. — Imaginamos que você ainda não soubesse. Foi uma surpresa, mesmo para ela. Mas é um garoto saudável. E forte. O sacerdote diz que será um bom guerreiro… Como o pai.
Siegfried sentiu o chão lhe faltar e caiu de joelhos ao lado da cama.
“Merda!”
Lavina ajeitou o bebê de modo que o rapaz pudesse ver melhor o seu filho. Pequeno. O rosto fofo e macio. Os olhos fechados. Não era muito diferente de Ingrid.
— Ele tem os seus olhos — disse Lavina.
Siegfried lembrou do que Dara havia lhe dito quando o rapaz viu Ingrid pela primeira vez: “ela tem os meus olhos”.
E sorriu.
Sorriu porque achou engraçado. Porque as duas haviam dito coisas tão parecidas, como se todas as mães recebessem o mesmo memorando: sempre diga ao pai a cor dos olhos do seu filho, pois os bebês raramente os abrem. Sorriu porque agora tinha dois filhos de duas mulheres diferentes e era casado com uma terceira. Sorriu da própria situação e, mais importante, sorriu de medo.
O que devia fazer?
Quando Brandon Donoghan veio até o seu castelo, criou esperanças de que talvez pudesse salvar Lavina (quem sabe tomá-la como amante mais uma vez?), mas depois de seu encontro com Dara… Pensou em apenas resgatá-la. Quem sabe dar a ela um pouco de prata e enviá-la até algum local seguro? Parecia a solução perfeita. A garota merecia ser livre.
“Mas agora sou eu que tô preso.”
Como poderia mandá-la embora agora, logo depois de ter lhe dado um filho? Para onde devia mandá-la? Para o Castelo dos Ossos? E então o quê? Faria com que ela e o seu filho bastardo vivessem na mesma casa que a sua esposa ou deveria forçá-la a viver em um dos casebres no pântano? E o que diria a Dara?
“Merda!”
De repente, Siegfried compreendeu que os votos de castidade eram mais que uma mera autoimposição ou forma de demonstrar virtude, eram uma importante lição pensada para evitar justamente situações como aquela. Sábios são aqueles que se mantêm castos até o casamento.
Não amava Lavina. Nunca amou. A desejou, sim, mas não como uma esposa. Para ele, a garota sempre foi apenas uma amante e nada mais. Talvez não uma escrava de cama, mas certamente algo bem próximo disso. Se tivesse de escolher entre ela ou Dara, nem ao menos seria uma escolha de verdade. Mas não podia simplesmente descartar a mãe do seu filho.
Tinha de fazer algo.
Foi então que se lembrou de Gwen e Sam.