Capítulo 0213: Reis e alianças
Capítulo 0213: Reis e alianças
A Baronesa Whitefield estava linda (como de costume); usava um vestido cotehardie verde, com um decote canoa que lhe desnudava o pescoço, e os cabelos ruivos presos em uma coroa de tranças com os cachos soltos.
Siegfried tomou um gole da taça de vinho e deixou que ela conduzisse a conversa:
— E então? Me conte tudo sobre a sua viagem. Estou certa de que teve várias aventuras.
— Bem mais do que eu gostaria.
— Imagino.
— Capturei a Condessa Essel.
— Supus que fosse o caso. Por que mais o deixariam vir até aqui, se tivesse voltado de mãos abanando, não é mesmo?!
— Pois é! E agora?
— Perdão?
— Lembro-me de ter-lhe jurado lealdade. Já cumpri minha missão. Lavei a minha honra. E agora, vossa graça?
De repente, o sorriso fácil desapareceu dos lábios carnudos da Baronesa Whitefield e o clima tornou-se menos acolhedor. Ela deu uma pausa e então disse:
— O Rei Donoghan propôs uma aliança.
— …
— Você não parece surpreso.
— Suponho que não.
— Já sabia disso, não é?
— Ouvi dizer.
— E o que acha?
— …
— Esteve no Castelo Essel. Imagino que tenha visto suas tropas.
— Bem de perto.
— Então, certamente deve ter uma opinião a respeito. Adoraria ouvi-la. O que acha do Rei Donoghan? E do seu exército? Ele é forte o bastante?
— Como conde, é imensamente poderoso. Como rei… Não.
— Soube que capturou Araphor Greenguard. Isso certamente é um feito e tanto, não acha? Sabe quem ele é?
— Um herói de guerra. Soube também que o capturou em uma emboscada, cercando ele e seus homens ao voltarem de uma patrulha. Uma centena para prender um único homem. E a vida da Condessa Essel também estava em jogo. Ouvi dizer que eram amantes.
— Amantes?! — A notícia pegou a baronesa de surpresa. — Acho difícil de acreditar. Não duvido que ela tenha tentado. Aquela garota é uma oportunista insaciável. Mas Araphor Greenguard tem padrões. Não se rebaixaria deste modo.
— Se a senhora diz.
— Seja como for, uma aliança com o Rei Donoghan pode ser a nossa única opção.
— Temos outras.
— Como, por exemplo?
— O Barão Kessel quer reatar uma aliança com a casa Whitefield.
— É claro que quer — disse irritada. — Tem um exército enorme em suas portas. E cairá em breve. Sei exatamente o que planeja. Se aceitarmos uma aliança, irá exigir o Barão Lawgard, a Condessa Gaelor e todos os reféns que temos. Depois, vai fugir pro sul com o rabo entre as pernas. Talvez enfrente o Rei Donoghan no campo de batalha uma ou duas vezes, só para que não o chamem de covarde. Mas, no fim, irá embora! E serei eu a ficar aqui para enfrentar a fúria desse novo rei.
— …
— Discorda do que digo?
— …
— Siegfried. Por que está aqui? De verdade!
“Pra ficar longe do meu filho”, pensou. Ao invés disso, respondeu:
— Eu… Não sei.
— Sabe sim! O que acha do Rei Donoghan?
O rapaz parou para pensar, respirou fundo e então disse:
— Não posso servi-lo.
— E por quê?
— Ele me quer morto!
— …
— Eu tirei a Condessa Essel dele. Posso ter destruído toda a sua base de poder. Muitos nobres já devem estar em pânico. Talvez até mesmo alguns plebeus já tenham começado a se revoltar; ele não era muito popular. E a condessa tá grávida. Deve dar à luz em um mês, um mês e meio, no máximo. Se a Duquesa Greenguard decidir ajudá-la… Enfim. Eu o pus numa situação bastante delicada. Se me vir de novo, definitivamente vai mandar que me cortem a cabeça.
— Entendo… Você, de fato, tem o dom para despertar a fúria dos homens. Mas, tal como salvei você do Barão Kessel, posso salvá-lo do Rei Donoghan.
— …
— Veja bem! O Rei Donoghan propôs mais do que uma simples aliança. Ele deseja um noivado entre a minha filha e o seu primogênito, o Príncipe Brandon.
A notícia pegou Siegfried de surpresa.
Supôs que o Rei Donoghan planejasse casar Brandon e Dara para manter o Condado de Essel sob controle. De fato, era um alívio saber que estava errado. Mas, então, quem era o noivo misterioso dela? Não saber fazia-lhe o sangue gelar. Talvez um dos seus lordes? Ou quem sabe o próprio Rei Donoghan? Fosse quem fosse, dificilmente seria muito melhor do que o próprio Brandon.
— Acho que isso deixa claro o quanto ele valoriza o apoio da casa Whitefield — disse a baronesa, sorrindo. — Certamente posso conseguir um perdão para você. Talvez uma nova missão para se redimir.
— Não.
— Perdão?
— Eu não vou servir ao Rei Donoghan!
A expressão no rosto da Lady Whitefield tornou-se negra e sombria como o rapaz nunca havia visto antes:
— Então é isso? Sua lealdade ainda pertence ao Barão Kessel, no final das contas?
— Não. Acho que não.
— Então o quê!? O que está tentando dizer!?
Siegfried pensou em Dara.
Queria resgatá-la. Prometeu resgatá-la. Mas também pensou em Eva. Tinha de voltar. E rápido. Brandon Donoghan era mesquinho o bastante para enviar uma tropa até o Castelo dos Ossos e passar todos na espada pela sua traição. Era mesquinho o bastante para ir ele mesmo fazer isso.
Também havia Lavina. Tinha de tirá-la da Vila do Lobo depressa, antes que o Rei Donoghan pusesse o castelo sob cerco.
Tantas mulheres para proteger.
Não podia se aliar ao Rei Donoghan; ele nunca permitiria que ficasse com a Dara. Tampouco podia se aliar ao Barão Kessel; ele exigiria que ficasse e lutasse, o que deixaria Eva e o Castelo dos Ossos indefesos — para não mencionar a Lavina, que estaria em perigo assim tão próxima da linha de frente.
O que fazer?
Conseguia pensar em apenas uma resposta…
— Por que temos que nos aliar a qualquer um deles?
— O quê?
— O Rei Donoghan. O Barão Kessel. Por que tenho de escolher entre eles? Por que essas são as nossas únicas opções? A senhora mesmo disse, a casa Whitefield é poderosa.
— Onde está querendo chegar?
— Não quero me aliar a nenhum deles! Nem o Barão Kessel, nem o Rei Donoghan. Eu já cansei de servir. Cansei de obedecer. Não tô a fim de passar o resto da minha vida lutando pra conquistar o respeito de quem só me dá dor de cabeça. Então, por que não fazemos as coisas do nosso próprio jeito?
A Baronesa Whitefield se calou. Podia ver em seus olhos que havia entendido onde queria chegar, mas não tinha a coragem de dizer em voz alta, então fez isso por ela:
— Se o Conde Donoghan pode ser rei, por que nós não podemos?
— Um questionamento bastante ambicioso. Por acaso encontrou um grande exército em suas viagens? Ou espera defender essa sua contestação sozinho?
— Não um exército inteiro, mas nisso sempre se pode dar um jeito — sorriu ao lembrar de Eroth. — Além do mais, enquanto tiver Alethra Gaelor e seu filho, tem poder sobre o Barão Kessel. E, enquanto ele estiver vivo, não permitirá que o Rei Donoghan chegue perto deste salão!
— Tenho bem menos poder do que imagina. O Rei Donoghan me revelou que Theron Gaelor decidiu renunciar ao Rei Negro e se aliar a ele. É um traidor. O Barão Kessel não tem mais motivos para proteger sua esposa e filho.
— Quanto a isso, não precisa se preocupar. Já resolvi essa questão. Ele os protegerá!
— E posso saber como você tem tanta certeza?
— Não!
— …
— Vamos precisar de apoio também. Todas as casas que a senhora puder reunir.
— Fala como se fosse fácil. São promessas que me garantem tais apoios. Eu não posso simplesmente mandá-los fazer como desejo. Apesar dos seus delírios e ambições, não sou uma rainha!
— Ainda — acrescentou Siegfried. — Mas se é de promessas que precisa, então basta cumprirmos algumas. Lembro-me de que havia prometido derrubar um certo Conde Woller, não é?
— Temos um exército batendo na nossa porta e o seu plano é começar outra guerra?
— Ora! E por que não? A guerra é uma bagunça. As coisas mudam rapidamente. A senhora é um exemplo disso: o seu marido tinha o Barão Kessel na palma da mão quando essa guerra começou e, agora, aí está a senhora, lutando com todas as suas forças para fugir da lâmina do carrasco. O Conde Donoghan era apenas um conde, agora é um rei. A Condessa Essel era a mulher mais poderosa desse condado; e agora não passa de uma prisioneira. Se as condições não estão favoráveis, tudo que temos de fazer é pôr mais lenha na fogueira. Até as coisas se ajeitarem.
— Ou até incendiarmos tudo!
— Melhor tudo do que apenas a gente, não concorda?