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Capítulo 0214: Resgate a princesa no castelo

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Capítulo 0214: Resgate a princesa no castelo

Elsa chorou feito uma criança quando soube da morte de Ethel. Tinha quinze anos, mas precisou que Will (um garotinho de seis) a confortasse.

Allane não esboçou qualquer reação. Por não mais de meio segundo, pareceu estar triste, mas então vestiu a máscara de guerreira e a única coisa que restou em seu rosto foi uma expressão neutra. Estava abalada com a morte de Ethel (disso não tinha dúvidas), mas, por algum motivo, preferia não demonstrar.

Siegfried escolheu contar a elas sobre o ocorrido após o jantar, para que não perdessem o apetite, e tentou poupá-las do pior da história.

— Fomos atacados por um ogro no outono passado. Acabamos nos separando no meio da confusão. Quando eu a encontrei… Já era tarde demais.

— Como ela morreu? — perguntou Allane.

— Alguns bandidos a capturaram. Iam levá-la pra ser vendida como escrava na Marca de Helder. Ela escapou, mas não chegou muito longe. Foi assassinada.

Não houveram mais perguntas.

Siegfried não contou a respeito de Eroth e os experimentos macabros que havia feito em Ethel, tampouco mencionou a existência de Blossom. Ethel estava morta! Ponto final! Os detalhes trariam apenas pesadelos e nenhum conforto.

Na manhã seguinte, deixou o Salão Branco.

♦

Siegfried levantou antes do sol, quando o céu ainda estava frio e cinzento com as últimas horas da noite.

Acordou cedo porque não conseguia dormir direito. Tinha de voltar ao Castelo Silvergraft para resgatar Lavina e buscar seus homens; o que significava confrontar o Barão Kessel. Dificilmente conseguiria sair de lá sem uma batalha… Ou uma boa mentira.

Havia pensado em vários cenários.

Poderia tentar enganá-lo. Dizer que a Baronesa Whitefield havia jurado-lhe lealdade. Mas, então, por que levar Lavina e seus homens para o Salão Branco? Não era mais seguro mantê-los em um castelo?

Por mais criativo que pudesse ser em suas desculpas, não conseguia imaginar o Barão Kessel acreditando nelas. Todos os cenários sempre terminavam em um confronto aberto. Pior. Exceto pelas situações mais improváveis que pudesse inventar, o Barão Kessel sempre vencia!

Siegfried não podia levar muitos homens. Mesmo que fosse capaz de entrar com uma tropa inteira no Castelo Silvergraft sem levantar suspeitas (o que era pouco provável), o máximo de soldados que conseguiria reunir seriam os trinta guardas Greenlock que faziam a proteção do Salão Branco. Talvez pudesse juntar mais alguns na Vila do Lobo; homens que haviam servido a ele no passado e que pudessem ainda lhe ser leais — mesmo nessa hipótese, quanto mais tempo levasse para reuni-los, maiores eram as suas chances de ser descoberto e menores eram as chances de sucesso.

Decidiu que levaria apenas os seus Mantos Negros. Eram leais, não levantariam suspeitas e poderiam protegê-lo de uma execução imediata. Seria inútil esperar mais do que isso.

Ainda assim, estaria no coração do exército do Barão Kessel. Dentro do seu castelo. Dentro do seu vilarejo. Cercado pelos seus homens. Só havia duas formas de sair de lá em segurança: com a sua benção ou com um refém valioso. Mas quem? A Condessa Essel? O Lorde Coyle? Quem o Barão Kessel mais temia perder?

Passou a noite inteira pensando nisso e continuou refletindo mesmo depois de acordar. Até ouvir a confusão nos estábulos…

Um palafrém negro havia escapado de sua baia e invadido a de Sábio. Agora os dois trocavam coices e mordidas, enquanto um pobre cavalariço tentava, sem sucesso, apartar a briga. Mas bastou Siegfried se aproximar para que os animais se acalmassem.

O cavalo negro se afastou da baia e o olhou nos olhos, sacudindo a cabeça e fungando. Levou um instante para Siegfried lembrar da sua antiga montaria. Não tinha nome. Nunca havia nomeado um cavalo até pouco tempo atrás, com o Sábio. As suas montarias raramente duravam tempo o bastante para que fizesse sentido nomeá-las.

O cavalo negro relinchou irritado e uma ideia maluca passou pela cabeça de Siegfried:

“Será que ele ficou com ciúmes?”

Talvez tivesse sentido o cheiro do rapaz em Sábio e isso o incomodou. Quem sabe sentiu-se traído por ter sido deixado para trás, apenas para ver o seu cavaleiro retornar de repente em um belo dia… Com um cavalo diferente.

“Deuses, lordes, mulheres e agora cavalos. Parece que não existe ninguém nesse mundo que esteja a salvo da minha traição”, brincou.

Siegfried se aproximou com cautela e viu o palafrém negro ameaçar uma mordida, mas bastou uma mão firme para fazê-lo se comportar corretamente.

— Você sentiu minha falta, né?

O cavalo fungou irritado, mas não se moveu.

— Que tal assim? Vou te dar um nome. Como pedido de desculpas. O que acha disso?

Nenhuma resposta.

Siegfried pensou por um momento e então:

— Acho que vou te chamar de Guerreiro. Não. Melhor. Assassino. Combina com você, não acha?

Assassino fungou satisfeito, Sábio relinchou enciumado por ter sido ignorado e Siegfried riu da situação.

Mandou que o cavalariço cuidasse das feridas de Sábio, enquanto ele mesmo selava Assassino para partir. Por quê? Ora! Estava indo para o campo de batalha. Sábio não estava acostumado com a matança; era leal, sim, mas Assassino não vacilaria diante do sangue ou da dor — havia sido feito para a guerra! Que animal poderia ser mais confiável para o que estava prestes a fazer?

Gelo, Carrasco e Fantasma juntaram-se a ele uma hora mais tarde, quando a primeira luz do dia começava a sair. Desculparam-se pelo atraso (embora tivessem chegado na hora e fosse culpa de Siegfried ter acordado cedo demais) e então os quatro partiram.

— Não vamos nos demorar — explicou, uma vez que estavam na estrada. — Quanto mais tempo ficarmos lá, mais difícil vai ser de sair. Eu vou buscar a Lavina e o meu filho. Vocês vão direto até o meu escudeiro. O nome dele é Esmond Kroft. Tem uns oito ou dez anos. Cabelos prateados e olhos cor de âmbar dourado. Usa um broche de prata com três crânios formando um triângulo; é o símbolo da casa dele. Achem-no e mandem-no preparar os homens para partir. Devem ser quinze, a menos que os quatro que eu deixei pra trás tenham sobrevivido. Vestem roupas comuns e devem estar na parte de trás do castelo. Tenho cavalos também. Um para cada um deles. Arranje para que estejam todos prontos em dez minutos. No máximo!

Siegfried explicou o melhor que pôde sobre a arquitetura e defesas do castelo. Onde eram postos os guardas e para onde deviam fugir caso fossem encurralados. Explicou as rotas de fuga pela cidade e deu-lhes opções para cada cenário.

— Se tudo der errado, estarão por conta própria. Se puderem fugir, fujam! Se forem capturados… Bem! Não tenho certeza se os guardas vão tentar capturá-los. É mais provável que tentem matá-los. Estamos falando de traição aqui. Enfim. Sigam os seus instintos. Se puderem, protejam Lavina e o meu filho. Se tiverem de escolher entre eles e qualquer outra pessoa, escolham eles! Mesmo que a outra pessoa seja eu ou quem quer que seja, entenderam!?

— Sim, senhor!

Chegaram na Vila do Lobo ao entardecer do segundo dia de viagem. Não havia prestado muita atenção antes, mas o vilarejo parecia tão cheio de soldados. Estavam por toda a parte; patrulhando em duplas, descansando em tavernas ou apenas passeando com as suas namoradas, amigos e familiares.

Os plebeus também não ajudavam. As ruas estavam movimentadas — abarrotadas de camponeses e escravos obstruindo a passagem, conforme cuidavam dos seus afazeres. E uma maldita feira havia sido montada bem na rua principal. Logo hoje. Cavalgar era difícil. Fugir seria praticamente impossível.

“Talvez precisemos abandonar os cavalos e nos misturarmos na multidão.”

Se é que havia algum modo de Siegfried se ‘misturar’ na multidão. Todos ali conheciam o seu rosto. Sabiam quem era. Tentar passar despercebido provavelmente atrairia mais atenção, não menos.

O caminho até o Castelo Silvergraft também parecia um pouco mais longo do que o rapaz se lembrava. Cheio de ruas e becos. E, quanto mais se aproximavam do castelo, maior era a presença de soldados.

Algumas pessoas acenaram para Siegfried e sorriram. Soldados, crianças e rameiras. Ele não lhes deu atenção. Sentia-se tenso. Como se cavalgasse em direção ao campo de batalha. Bem na linha de frente.

Depois de meia-hora, chegaram aos portões do castelo. Abertos. Isso era bom. Havia um grande fluxo de pessoas entrando e saindo, por isso não faziam questão de fechá-los. Quatro guardas faziam a segurança; atentos, mas sem muito entusiasmo. A maioria das pessoas entrando e saindo eram soldados e servos cuidando das suas tarefas, afinal de contas. Os guardas reconheceram Siegfried e deixaram que ele e seus homens entrassem sem problemas.