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Capítulo 0215: Homem morto

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Capítulo 0215: Homem morto

O Castelo Silvergraft estava movimentado, como de costume, mas não cheio. Siegfried viu alguns guardas indo ou voltando da troca de turnos e uma ou outra serva cuidando dos seus afazeres — carregando cestos de roupa para lavar, comida para os animais e coisas do tipo. Mas nenhum sinal do Barão Kessel.

Mandou que os seus Mantos Negros fossem atrás de Esmond Kroft, enquanto ele mesmo ia até o alojamento das servas.

As mulheres estavam preparando o jantar, quando Siegfried passou pela cozinha e se dirigiu ao segundo andar. Encontrou Lavina deitada na cama, embalando o filho deles no colo e contando-lhe uma história qualquer. Assim que o viu, ela parou e sorriu:

— Milorde! O senhor voltou. Sua graça disse que tinha saído em outra missão.

— Já voltei. Consegue andar?

— E-eu…? Ah! S-sim. Q-quero dizer, acho que sim. Por quê? Vamos a algum lugar?

Siegfried pegou o bebê no colo para que ela pudesse se levantar. A criança não chorou, nem emitiu um único som sequer — estava mais interessada nesse homem misterioso que a segurava pela primeira vez. Os seus olhos castanhos cheios de curiosidade. Os olhos de Siegfried. Tal como Lavina havia dito.

Não.

“Não são os meus olhos”, pensou. “São os dela.”

Eram olhos bonitos demais. Gentis demais. Inocentes demais para serem seus.

Lavina levantou-se devagar e com bastante dificuldade. As pernas trêmulas ameaçando ceder a qualquer momento, mas se manteve de pé. Ainda assim, ela não seria capaz de cavalgar e Siegfried sabia disso. Fugir seria complicado.

Haviam duas servas descansando em uma cama próxima a deles; o rapaz mandou que elas ajudassem Lavina a se vestir e, menos de dez minutos depois, estavam deixando o alojamento. Não foi rápido o bastante. Tão logo chegaram à porta, deram de cara com o Lorde Coyle esperando por eles:

— Sir. Siegfried — disse, cordialmente. — E sua bela família. Parecem estar com pressa. Sinto muito, mas, se não se importar, sua graça gostaria de ter uma palavrinha com você.

Por mais educado que fosse, os oito guardas que trouxe deixavam bastante claro que não se tratava de um pedido.

Siegfried anuiu, entregou o bebê para Lavina (assim teria as mãos livres para lutar quando a hora chegasse) e os três foram conduzidos até a torre principal, onde o Barão Kessel já os esperava no segundo andar. Sentado em seu trono. A espada descansada no colo em uma clara ameaça. Os guardas foram todos mandados embora e o Barão Kessel falou:

— E então? Quer me dizer algo, Siegfried?

— …

— Para onde estavam indo?

— O Salão Branco.

— E por quê?

— Aqui não é seguro.

— …

— Se não se importa…

— Mas eu me importo!

— …

— Eu te dei uma missão! Uma bem simples, diga-se de passagem. Especialmente se compararmos com a última. Então me diga: qual foi a resposta da baronesa?

— A última aliança entre a casa Whitefield e a casa Kessel terminou em morte e traição. Qual o senhor acha que foi a resposta dela?

— Então ela escolheu o Conde Donoghan. E você também!

— É um pouco mais complicado do que isso.

— Chega! Cansei das suas desculpas! Eu te dei uma segunda chance. Perdoei a sua traição. E a primeira coisa que faz é me trair novamente!?

— Não o traí. Sou um cavaleiro da casa Whitefield, ou será que esqueceu? Eu cumpri com a minha palavra. Trouxe a Condessa Essel. Agora cumpra a sua! Pretendo retornar ao meu lugar de direito, com a minha mulher e o meu filho. Esse era o acordo!

— Acha que isso é uma piada!?

— Minha honra não é piada! Nem a sua deveria ser. Pretendo ir embora. O senhor deu a sua palavra de que não faria mal a ela!

— E não fiz! Mas você parece gostar de deturpar as palavras dos outros para que melhor se encaixem ao que quer. Então, que tal isso: eu já cumpri a minha promessa. Mantive a sua escrava a salvo. O acordo terminou quando você me entregou a condessa. Não tenho qualquer obrigação futura de protegê-la. Ou a você! É o meu inimigo, afinal de contas.

O Barão Kessel levantou de espada na mão e disse:

— Lorde Coyle, leve a cadela e o filhote para a prisão!

Siegfried tocou o cabo da espada. As coisas estavam saindo de controle.

O Lorde Coyle hesitou por um momento, pensativo, e então…

— Com todo o respeito, vossa graça, mas o rapaz tem razão. Ele cumpriu com a sua palavra. A condessa é sua. Tenho certeza de que não pretende voltar atrás com a sua promessa logo agora que o acordo já foi cumprido, não é mesmo? O que diriam os outros nobres? É de bom-tom que a nobreza mantenha a sua palavra. E ainda mais quando vem de um cavaleiro. Certamente não pretende manchar a imagem da casa Kessel com uma mentira tão baixa. E por quê? Para punir um cavaleiro qualquer e sua esposa? O que ganharia com isso?

— Você enlouqueceu, Richard!?

— Temo que não.

— Você viu o que ele fez! Tudo o que ele fez! Ele é perigoso! Não conhece limites. Não tem honra. Pior. É esperto. Esperto demais pro meu gosto. Está abaixo de todo mundo, mas sempre encontra uma forma de sair por cima. Troca de mestres como quem troca de roupa. Trai cada um deles e, mesmo assim, sempre encontra quem esteja disposto a acolhê-lo e usá-lo. É um mercenário! O mais astuto que já vi. E o mais astuto que espero jamais ver. Se o deixarmos ir…

— Então é assim que a casa Kessel age? Pretende matar todos os seus aliados assim que perderem a sua utilidade?

— …

— Acha que eu não notei? Me diga, o Sir. Edgar sabe a respeito da sua pequena tentativa de reatar uma aliança com a Baronesa Whitefield?

— …

— Não?! Foi o que eu pensei. Diz que Sir. Siegfried é um traidor por escolher a Lady Whitefield. Me diga, o que isso faz do senhor?

— Meça bem as suas próximas palavras, Richard! Podem ser as últimas. A casa Coyle tem a minha gratidão, mas não confunda a minha leniência com fraqueza!

— Pois bem! Eis então as minhas próximas palavras. O acordo do meu pai era com o Barão Whitefield, não com o senhor. Mantive minha lealdade, pois tive esperança nas suas ambições. Mas se é assim que trata os seus aliados… Em nome da casa Coyle, estou pondo um fim em nossa aliança com a casa Kessel e o Condado de Gaelor!

O Barão Kessel não esperava por aquilo. A bem da verdade, Siegfried também não.

— Sir. Siegfried — disse o Lorde Coyle. — Me acompanha?

E se virou em direção a porta.

— Acha que eu vou deixá-lo ir embora simples assim!? — rugiu o Barão Kessel, furioso.

— Acho — disse o Lorde Coyle, calmamente. — A menos que você queira começar uma batalha aqui mesmo. Mas, se metade do que ouvi for verdade, creio que o Sir. Siegfried será um oponente formidável, mesmo para o senhor. Isso sem incluir os meus soldados lá embaixo. Talvez não tenha notado, mas eram homens meus, não seus. Como vossa graça espera se sair contra um cavaleiro e oito soldados? Sozinho. E sem a sua armadura, ainda por cima.

— …

— Foi o que eu pensei. A propósito, um último conselho, em nome da nossa amizade: se pretende começar uma batalha comigo, lembre-se de que ainda tenho muitos homens neste vilarejo. Talvez o senhor me mate, ou quem sabe Siegfried ache um modo de matá-lo. Seja como for, não cairei sem lutar. E creio que o seu tempo seria melhor gasto pensando em um modo de sobreviver. Soube que o Rei Donoghan tem um exército bem grande.

Já estavam indo embora, quando o Barão Kessel usou a sua última carta:

— Ele vai te trair! Sabe disso.

— É um risco que estou disposto a correr — disse o Lorde Coyle. E sorriu.

O fidalgo foi o primeiro a deixar o cômodo; Lavina seguiu logo atrás dele com o bebê e Siegfried se deixou ficar para trás, tanto por proteção, como para dar uma última olhada no Barão Kessel.

Continuava de pé. A espada na mão, sem qualquer utilidade. Aquela era uma batalha que não poderia ser vencida pelo aço e ele claramente não sabia como lidar com isso. Uma visão digna de pena. Foi a primeira vez que viu Ragnar Kessel parecer tão… Vulnerável.

A Condessa Essel não era mais um trunfo. De fato, se a matasse, o Rei Donoghan mais provavelmente ficaria grato por isso — seria uma ameaça a menos ao seu novo governo; sem o estigma de matar uma mulher grávida e indefesa. Não havia como parar o avanço do Rei Donoghan. Também não havia como recuar. Não mais. Talvez o Barão Kessel pudesse fugir sozinho, mas então o quê? Voltaria para casa derrotado e sem um exército. Pior. Voltaria de mãos vazias. Seu ego seria capaz de suportar tamanha humilhação? Foi enviado para resgatar Alethra Gaelor e seu filho, mas sua ambição custou-lhe tudo.

Sem a casa Whitefield e agora também sem a casa Coyle, seu destino era negro. Um homem morto.

“E talvez tenha sido eu quem o matou.”