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Capítulo 0216: Erro de cálculo

A Ascensão Do Rei Mercenário — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 0216: Erro de cálculo

A mansão do Lorde Coyle era extravagante. Uma estrutura de dois andares erguida em alvenaria e com um telhado de ardósia (alto e inclinado).

Sua sala comunal, acolhedora e confortável, com uma lareira elaborada, belas tapeçarias retratando lindas donzelas e (talvez) eventos históricos importantes de Thedrit — ao invés de batalhas e cavaleiros, mostravam velhos, paisagens e apertos de mãos no que deviam ser antigos acordos políticos.

Mas Siegfried sentiu-se bem mais encantado pelos seus assentos estofados de couro. Um luxo que raramente encontrava. E, depois de cavalgar tanto pelos últimos… Anos! Sentia o corpo verdadeiramente leve e relaxado.

“Se os reis usassem cadeiras assim ao invés daqueles tronos duros, aposto que metade das guerras nem teriam começado.”

O Barão Kessel não impediu que deixassem o Castelo Silvergraft, mas ainda não podiam partir da Vila do Lobo. O Lorde Coyle tinha sessenta soldados espalhados pelo vilarejo; precisava de tempo para reuni-los e comprar mantimentos para a viagem. Também havia sido gentil o bastante em preparar uma pequena carruagem para Lavina e o bebê.

— Acredite — ele disse —, sei muito bem o quão exaustante uma viagem dessas pode ser para uma mulher. Especialmente uma que acabou de dar à luz.

Siegfried também sabia.

A Condessa Essel estava grávida de oito meses quando cavalgaram do Castelo Essel até a Vila do Lobo. A viagem durou apenas quatro dias e isso quase lhe custou o bebê.

Foi decidido que partiriam na manhã seguinte. Assim que o céu clareasse. Enquanto isso, eram seus convidados.

Lavina havia recebido o seu próprio quarto e Siegfried deixou os Mantos Negros tomando conta dela em turnos. Uma das escravas foi deixada no cômodo também, para cuidar de suas necessidades e as do bebê.

Três dos quatro homens que Siegfried havia deixado para trás retornaram — eram agora dezoito ao todo. Esmond Kroft havia reunido todos eles em uma casa ao lado, que servia como caserna para os homens Coyle. Agora agia como um pequeno comandante para a tropa. Se era apenas um escudeiro dedicado ou planejava roubar a lealdade deles para si mesmo, era difícil dizer.

Mas a gentileza do nobre não era espontânea e muito menos sem propósito.

Depois que todos estavam bem alojados e as preparações para a partida começaram devidamente, ele convidou Siegfried para a sala comunal. Apenas os dois.

Uma reunião.

E o motivo dela não era segredo.

Uma das escravas do Lorde Coyle lhe trouxe uma taça de vinho, sorriu e foi embora. Eram quatro ao todo — a mais nova tinha apenas quinze anos e a mais velha não passava dos 23. Todas elas muito limpas e perfumadas. Os seus uniformes: vestidos pretos de renda com decote em V e cintura marcada, saias curtas cortadas na altura das coxas e uma meia-calça branca. De fato, uma residência muito extravagante.

Siegfried aceitou a taça de vinho e assistiu a serva ir embora. O Lorde Coyle não deixou de notar isso:

— Elas são bonitas, não são? E, mais importante, discretas! Se quiser…

— São bem bonitas, de fato, mas sou pai agora.

— E daí? Eu também. De um filho legítimo e só Elyon sabe quantos bastardos. Pode até ser que uma ou duas delas já estejam carregando outro filho meu enquanto conversamos.

— Ainda assim.

Por mais tentadora que fosse a proposta do Lorde Coyle (há quanto tempo não dividia a cama com uma mulher?!), Siegfried preferia não engravidar acidentalmente outra garota. Duas já eram mais do que o suficiente. Uma a mais do que pretendia.

— Vejo que é um homem de moral — disse o Lorde Coyle, sorrindo. — Sua esposa tem muita sorte. Homens assim são raros hoje em dia.

— …

— Mas tenho uma dúvida, se me permite.

— Pois não?

— A Condessa Essel. Como você realmente a capturou?

— O que quer dizer?

— Sir. Siegfried, por favor, não insulte minha inteligência. Foi uma jogada de mestre a que fez. Nem mesmo o Ragnar percebeu e, devo admitir, também levei um tempo para ver. Foi simplesmente genial o que fez. Eu aplaudo a sua ousadia.

— Não sei do que cê tá falando.

— Acha que eu não notei? O inexpugnável Castelo Essel. Cercado por um milhar de soldados ferozes. E você saiu de lá com a Condessa Essel como se fosse um passeio no parque. Você, uma dúzia de plebeus e alguns cavalos. Por favor. Não espera que eu acredite nisso, não é? Poderia ter um dragão e meia centena de cavaleiros que ainda assim não teria sido tão fácil. Você fez um acordo com o Rei Donoghan, não é? Eu imagino o que foi. Deixe-me dar um palpite. A Condessa Essel está grávida. E a criança que traz na barriga é uma ameaça ao seu novo reinado. Mas como matar uma mulher grávida sem despertar a fúria da nobreza?

O Lorde Coyle sorriu e então prosseguiu:

— Ora! Basta deixar que outra pessoa mate ela e o bebê.

— O Barão Kessel…

— Estou chegando perto, não é?! Não acho que o Ragnar seja tão estúpido ao ponto de executar uma mulher grávida. De fato, esse foi um dos principais motivos para ele não ter matado a sua bela esposa depois de todos esses meses.

— …

— Mas a casa Kessel é leal ao Rei Negro e dificilmente dobraria o joelho a outro rei. Um confronto com o Rei Donoghan é inevitável. Mas ninguém diria um ai se a condessa, por acaso, acabar se ferindo mortalmente durante o cerco, não é? Quem poderia culpar o Rei Donoghan por isso? Foi tudo culpa do Barão Kessel. Ele não tinha controle sobre isso, não é? Foi tudo uma infeliz coincidência.

— E, pra esse plano funcionar, tudo o que ele precisaria seria de alguém que pusesse a Condessa Essel no Castelo Silvergraft antes do cerco começar.

— De fato! Alguém como, por exemplo, um certo cavaleiro mercenário que já tinha uma missão parecida. Hipoteticamente falando, é claro.

— E você acha que foi isso que eu fiz?

— Ora! E como não? Como mais explicaria a sua aliança com o Rei Donoghan? Eu duvido que ele aceitaria negociar com você de outra forma.

— Por isso você me ajudou.

— Mas é claro! Você certamente não engoliu aquela baboseira sobre ‘honra’ e ‘promessas’, não é?! Por Elyon, todo mundo sabe que são só palavras bonitas. A nobreza é teatral. Às vezes, um pouco demais pro meu gosto. Mas eu não podia simplesmente dizer que estava rompendo com a nossa aliança porque o Rei Donoghan ia esmagar ele e eu não queria estar do lado perdedor quando isso acontecesse. Você certamente entende. Seu discurso foi impecável. Quase acreditei que realmente fosse sobre lealdade.

— …

— Pois bem! Agora que já deixamos de lado as máscaras, por que não me conta mais a respeito da sua aliança com o Rei Donoghan? Que tipo de acordo você fez? Imagino que a Baronesa Whitefield também esteja envolvida. Soube que o filho dela estava no Castelo Essel quando foi tomado.

— Não existe aliança.

— Como?

— Não existe aliança. A Baronesa Whitefield e eu decidimos que não queremos mais nos curvar a ninguém. O Conde Donoghan pôs uma coroa e se chamou de rei. Por que não podemos fazer o mesmo?

— V-você tá brincando…

O Lorde Coyle sorriu desconfortável, como se pensasse que fosse algum tipo de piada. Quando Siegfried não retribuiu o sorriso, ele ficou preocupado:

— R-rei…

— E rainha.

— E posso saber como pretende defender a sua coroa… ‘Vossa majestade’?

— A casa Whitefield é bastante influente.

— Não tanto assim.

— Talvez. Mas a guerra é imprevisível. Tudo pode acontecer.

— De fato…

Mas o Lorde Coyle não parecia feliz com a notícia. Não parecia nem um pouco feliz.