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Capítulo 0218: De volta ao Salão Branco

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Capítulo 0218: De volta ao Salão Branco

Siegfried foi o primeiro a levantar na manhã seguinte. Ou melhor, foi o único que não chegou a dormir.

Após a sua conversa com Lavina, voltou até a sala comunal, sentou-se na bela cadeira acolchoada do Lorde Coyle e observou em silêncio as chamas da lareira. Por que tudo tinha de ser tão complicado?

“Quando eu for rei, as coisas vão ser mais fáceis.”

Quando fosse rei, poderia casar com quem quisesse e fazer o que quisesse. Dara seria sua esposa e Lavina… Bem! Não seria certo que tivesse duas mulheres. Mas arranjaria um bom marido para ela. Muitos homens matariam pela oportunidade de criar o filho bastardo do rei.

“Ela vai ficar bem”, disse a si mesmo. “Vou escolher um bom marido pra ela. Alguém gentil, forte e com bastante dinheiro. Ela provavelmente vai querer um rapaz jovem também. Talvez o herdeiro de alguma casa boa do oeste. Quem sabe.”

Mas, antes, tinha de pensar na coroa.

O Barão Kessel talvez fosse capaz de segurar o Castelo Silvergraft por alguns meses. Talvez um ano? Nunca se sabe. Era um bom comandante.

Mas o Salão Branco era vulnerável demais. E o Rei Donoghan tinha homens o bastante para dividir suas tropas e realizar dois cercos ao mesmo tempo — porém, nesse caso, as suas forças ficariam reduzidas. Se a Baronesa Whitefield pudesse convocar os aliados depressa, um contra-ataque não seria impossível. O mais provável era que o Rei Donoghan concentrasse as suas forças principais no Castelo Silvergraft — era onde estava o grande prêmio, afinal de contas. Se fosse assim, um pequeno exército e uma boa emboscada poderiam pôr fim ao cerco de Vila Nova facilmente.

Do contrário, talvez precisassem abandonar o Salão Branco. As suas chances de derrotar o Rei Donoghan em uma batalha completa eram mínimas (sendo bastante otimista).

Passou a noite pensando em estratégias e dias melhores. Era tudo o que podia fazer.

Quando a primeira luz do sol atravessou as janelas, Siegfried foi o primeiro de pé. Bem! Exceto pelas servas. Os preparativos haviam começado durante a madrugada; os guardas trouxeram a carruagem e as carroças cheias de mantimentos, enquanto as servas na residência recolhiam as roupas e objetos de valor que seriam levados.

O Lorde Coyle foi o primeiro a acordar e não estava de bom-humor. Lavina foi a última — e estava igualmente emburrada. De alguma forma, até o bebê parecia estar com raiva de Siegfried.

“Vai ser uma longa viagem.”

Partiram uma hora após a alvorada. Mas não sem gerar comoção. Eram cerca de noventa pessoas, com uma bela carruagem e várias carroças de mantimentos. Um enorme grupo partindo da Vila do Lobo. E os moradores não eram idiotas. Haviam sobrevivido ao cerco do Conde Essel no verão passado. Sabiam exatamente o que estava por vir.

Os mais inteligentes correram de volta para suas casas na pressa de preparar as coisas para uma fuga, os mais burros correram para o Castelo Silvergraft em busca de respostas. Os verdadeiramente idiotas ignoraram tudo e seguiram com as suas vidas como se nada tivesse acontecido — infelizmente, esses eram a maioria.

Siegfried montou em Assassino e tomou seu lugar ao lado esquerdo da carruagem (onde estava Lavina, o Lorde Richard Coyle e seu filho, William). As escravas vinham a pé do lado de fora.

Esmond Kroft encontrava-se no flanco direito da carruagem e liderava os dezoito soldados Kroft (mais os três Mantos Negros de Siegfried) no círculo interno, enquanto os soldados Coyle formavam o círculo externo ao redor da carruagem, sendo também a vanguarda e a retaguarda da tropa em virtude dos seus números elevados.

Mantiveram essa formação até o fim.

Sozinho, Siegfried podia fazer aquele trajeto em dois dias e meio. Em grupo, levou mais tempo. Muito mais tempo do que gostaria. Tudo era mais demorado. Caminhar, comer, dormir, acordar.

Ao entardecer do quinto dia de viagem, os refugiados da Vila do Lobo começaram a passar por eles. Plebeus maltrapilhos que vinham de mãos abanando. Não traziam bens ou comida, apenas as roupas do corpo e o que pudessem carregar nos bolsos (o que não era muito). Embora não parecessem feridos, estavam exaustos e famintos.

Siegfried decidiu interrogá-los, embora já soubesse a resposta:

— Um exército apareceu do nada — diziam. — Eu fugi antes que fosse tarde demais.

O cerco havia começado.

Nenhum dos refugiados sabia muito mais do que isso. A maioria não fazia ideia de que era o Rei Donoghan quem os estava atacando; menos ainda sabiam sequer que havia um Rei Donoghan. Fugiram de imediato assim que a sombra do exército tornou-se visível no horizonte. Não era uma viagem tão longa. Não sozinhos. Mesmo mortos de fome e desidratados, alguns talvez conseguissem chegar à Vila Nova.

Conforme o tempo corria, mais refugiados passavam por eles e, logo, viram pessoas mais preparadas para a fuga. Na madrugada do dia seguinte, alguns deles já traziam mochilas e andavam em grupos. Havia até quem tivesse um bezerro ou outro animal qualquer. Apenas o necessário para recomeçar em outro lugar.

“Refugiados profissionais”, brincou.

Siegfried e os outros finalmente chegaram ao seu destino ao anoitecer do sétimo dia de viagem.

Como era de se esperar, os moradores já estavam cientes do cerco de Vila do Lobo. Quando viram a enorme tropa de soldados Coyle se aproximar, a maioria fugiu de volta para as suas casas ou deixou o vilarejo de imediato, temendo que fossem invasores.

Os poucos soldados Kessel que encontraram, estavam bêbados. Aparentemente, haviam desistido de patrulhar a região e agora se entregavam aos pequenos prazeres que ainda lhes restava antes da morte certa. Suas armas esquecidas e as mãos ocupadas demais com uma garrafa de cerveja ou os seios de alguma rameira qualquer. E, a julgar pelos números reduzidos, havia mais do que alguns desertores que deixaram o vilarejo antes da chegada do grupo.

— Que vergonha — disse o Lorde Coyle.

E então deixou a carruagem, tomou um cavalo e fez um pequeno discurso sobre coragem e disciplina aos homens Kessel. Incrivelmente, cinco deles engoliram as suas palavras e juraram-lhe lealdade. O restante preferia o gosto da cerveja ao da honra, então o Lorde Coyle mandou que seus homens os escorraçassem para fora do vilarejo. Logo, Vila Nova estava em suas mãos.

Soldados Coyle foram postos para patrulhar e estabelecer um perímetro. Também tomou posse de três boas construções em pontos estratégicos do vilarejo, para que os seus homens fizessem de caserna. Comandantes foram nomeados, objetivos estabelecidos e só então foram para o Salão Branco.

Siegfried também deixou seus homens para trás. Escolheu uma boa casa como base (os moradores, aparentemente, haviam fugido) e entregou o comando a um dos soldados. Esmond Kroft e os Mantos Negros seguiriam com ele até o Salão Branco.

Já era noite profunda quando chegaram aos portões do salão, mas os guardas Greenlock estavam bem acordados. Toda a comoção no vilarejo havia-lhes chamado a atenção e estavam prontos para um confronto.

Siegfried se apresentou, a Baronesa Whitefield foi chamada, a situação explicada e os portões, finalmente, abertos.

O rapaz cavalgou à frente da carruagem de Lavina e, uma vez lá dentro, ajudou a jovem a descer com cuidado. Foi então que a Lady Whitefield o abordou:

— Sir. Siegfried. Rezei pelo seu retorno em segurança. E me parece que Elyon atendeu às minhas preces bem até demais. Vejo que trouxe alguns rostos inesperados.

— As coisas saíram um pouco de controle — explicou Siegfried. — Mas se resolveram. O Lorde Coyle decidiu se juntar a nós. Se não fosse por ele… Bem! Digamos apenas que estou feliz que seja nosso aliado.

O Lorde Coyle saudou a Baronesa Whitefield e, após uma rápida troca de cortesias, os dois se dirigiram ao interior do salão. Siegfried deixou-se ficar para trás e ajudou Lavina com o bebê; ainda estava irritada e não lhe disse uma palavra, mas aceitou o apoio.

O rapaz arranjou um assento quente e sossegado para ela dentro do salão e, de repente:

— Você teve um filho!? — perguntaram Elsa e Allane, assim que reencontraram a amiga.

As garotas não haviam tido nenhum contato com Lavina, desde que foi levada ao Castelo Silvergraft no início do outono passado. Sua gravidez foi uma surpresa tão grande para a dupla, como havia sido para Siegfried.

Como era de se esperar, ficaram encantadas com o bebê. Fizeram caretas na esperança de fazê-lo sorrir, acariciaram seu cabelo e as bochechas macias e revezaram em pegá-lo no colo. Até mesmo Will demonstrou interesse na criança e, quando pareceu ficar com ciúmes da atenção que o bebê recebia, Elsa o abraçou também.

— Qual é o nome dele? — perguntou Elsa, toda sorridente.

Siegfried e Lavina trocaram olhares por um momento desconfortável, até que ela disse:

— Ainda não pensei em um.

— Eh!? Sério? Eu posso te ajudar com isso, se quiser. Hum. Que tal Léo? Ah! Ah! Melhor ainda. Por que não Taran? Como o velho rei. Cê sabe, aquele que construiu as escolas e as estradas.

Mas, enquanto as duas brincavam de dar nomes ao bebê, Allane puxou Siegfried para um canto, garantiu que estavam longe de ouvidos curiosos e então disse:

— Temos um problema.

— E quando não temos?! — brincou. — O que foi dessa vez?

— É a baronesa. Ela não tá feliz com você.

— Do que cê tá falando?

— Não era pra você ter entrado aqui. Ela não queria te deixar entrar aqui. Acho que o plano era apenas negar a sua entrada. Quem sabe disparar uma ou duas flechas. Ela tem medo de você. Quer você longe, mas não quer que guarde rancor dela por isso. Só que, quando viu todos aqueles homens que você trouxe, ela mudou de ideia e agora tá fingindo que nada aconteceu. Ela não é confiável!

— Por que tá me contando isso?

— Eu não tô mentindo!

— Não foi isso que eu perguntei.

— …

— Allane. Por que me contou isso?

— Eu já disse tudo o que tinha pra dizer!

E foi embora.

Siegfried não tentou pará-la. Claramente estava perturbada e desconfortável. Mas seria verdade? A Baronesa Whitefield realmente planejava traí-lo? Ou Allane estaria tentando plantar discórdia entre eles? E, se sim, por quê?