Capítulo 0219: Paranóia
Capítulo 0219: Paranóia
Seja paranoico. Essa foi a primeira lição que Siegfried aprendeu quando deixou de ser um soldado para se tornar um comandante.
Costumava pensar que os nobres eram todos covardes por verem assassinos escondidos em cada esquina. Um homem de verdade não temeria a própria sombra. Um bom líder jamais seria traído. E um guerreiro honrado teria homens honrados para protegê-lo de qualquer ameaça. Estava errado. Estava terrivelmente errado. E bastou apenas alguns patrulheiros e uma rameira para lhe mostrar isso. Não importa o que você faça. Não importa o quão bem pense no assunto. Não importa o quão boas sejam as suas intenções. Há sempre quem não vá gostar do que fez e guardará rancor de você por isso.
Mas os soldados são fáceis de lidar. Uma ou duas execuções, algumas vitórias militares e boas festas (regadas a mulheres e cerveja) seriam o bastante para manter a lealdade da maioria — e a maioria é o que importa no fim das contas.
Os nobres eram mais complicados.
Não havia honra entre a nobreza. E a única regra que seguiam era: faço aquilo que mais me beneficiar.
A pior parte é que não havia como liderar sozinho. Um homem precisa de aliados se almeja obter mais poder. O que significa forjar alianças com homens sem honra que só pensam nos próprios interesses. E a lealdade deles terminará no instante em que você não puder lhes dar mais nada; ou no momento em que outra pessoa oferecer-lhes um grão a mais. No fim, era apenas uma questão de quando seus aliados iriam traí-lo. Aquela guerra o ensinou isso.
O Barão Kessel traiu a Baronesa Whitefield quando o seu marido morreu. A Baronesa Whitefield traiu Siegfried quando o Barão Lawgard chegou ao Salão Branco. Siegfried traiu o Barão Kessel para sobreviver após quase matar o Barão Lawgard. O Lorde Coyle traiu o Barão Kessel por Siegfried. E agora a Baronesa Whitefield e o Lorde Coyle planejavam traí-lo. Nobres sempre apunhalam uns aos outros pelas costas.
Paranoia era uma virtude.
Por isso sentiu-se incomodado quando viu a Baronesa Whitefield e o Lorde Coyle durante o desjejum; segredando um ao outro e, de vez em quando, lançando olhares discretos para Siegfried.
“Ela não é confiável”, tinha dito Allane.
Talvez houvesse alguma verdade em suas palavras.
Certamente o Lorde Coyle não era. A forma como reagiu quando descobriu os planos de Siegfried… Não ficou feliz. Pensava estar se aliando ao Rei Donoghan e ao seu enorme exército, não a um pretenso monarca. Mas não podia voltar atrás no que fez, não depois de trair o Barão Kessel abertamente daquela forma. Quem sabe pudesse tentar reatar a sua aliança capturando o Salão Branco? Mas que diferença faria? Ainda teria que enfrentar as tropas do Rei Donoghan. Nesse caso, seria muito mais vantajoso simplesmente voltar para casa são e salvo.
“A menos que ele planeje entregar o Salão Branco para o próprio Rei Donoghan como uma prova de lealdade.”
Richard Coyle certamente parecia o tipo de homem que faria isso. Mas tomar o Salão Branco seria difícil…
A menos que a Baronesa Whitefield esteja do seu lado.
E, como se tivesse ouvido os seus pensamentos, a Lady Whitefield olhou para Siegfried por um instante, sorriu e voltou a segredar no ouvido do Lorde Coyle. Aquilo fez um calafrio subir-lhe a espinha. Assassinos escondidos em cada esquina.
O Lorde Coyle tinha cerca de 65 soldados à sua disposição e o controle completo sobre Vila Nova. A Baronesa Whitefield tinha trinta guardas Greenlock que poderiam defender o Salão Branco com bastante eficiência. Mas e quanto a Siegfried? Dezoito soldados lá fora, mais os três Mantos Negros e Esmond Kroft. Se o Lorde Coyle e a Baronesa Whitefield se aliassem para derrubá-lo…
“Ela tem medo de você”, lembrou do que Allane havia dito.
Seria possível?
Bem! Ela certamente havia testemunhado o Siegfried tomando o Salão Branco por duas vezes. Além disso, havia matado muitos ao longo do seu breve domínio sob a fortaleza. Talvez ela realmente pensasse nele como uma espécie de monstro. Mas isso tornava ela mais ou menos perigosa?
Faria de tudo para matá-lo ou lhe daria tudo para vê-lo partir?
Lavina estava ao seu lado, amamentando o filho deles. Bastou vê-los para entender que não podia arriscar.
“Aqui não é mais seguro.”
Siegfried levantou e foi até os seus Mantos Negros. Contou a eles sobre a sua suspeita e ordenou que ficassem atentos.
— Mais uma coisa — acrescentou. — A Lavina…
— Não deixaremos ninguém tocar nela! — disse Gelo. — Ou no seu filho.
Eles não foram os únicos a prometerem isso. Allane e Elsa também se dispuseram a ficar com Lavina e o bebê o tempo todo. Além de não levantar suspeitas, serviria também para acalmá-la se algo acontecesse. Esmond Kroft e Will fizeram votos de proteção — um pouco exagerado, mas apreciava o gesto.
Deste modo, sempre haveriam, pelo menos, três pessoas com Lavina. Um Manto Negro, Allane ou Elsa e Will ou Esmond.
Esperava que sua paranoia fosse infundada. Que Allane estivesse errada. Por um breve momento, sentiu-se quase idiota com todas aquelas precauções… Só por um momento.
Foi durante o almoço que começou a notar movimentações estranhas. Alguns guardas pareciam mais rígidos do que o normal. Um pouco mais tensos. Como se esperassem que algo acontecesse. E Siegfried notou que havia sempre um deles por perto, não importa onde fosse — vigiavam ele. Até aí tudo bem. Mas notou que faziam o mesmo com Lavina e o bebê.
“Planejam usá-la como refém?”
Fazia sentido. Não era segredo para ninguém que Lavina era a única garota a dividir a cama com Siegfried; mesmo quando ele se mudou para os aposentos do Lorde do Salão Branco, fez questão de levá-la junto. Além disso, invadiu o Castelo Essel e capturou a condessa por ela — não foi bem assim que aconteceu, mas era compreensível que pensassem desta forma. E ainda nem havia chegado na parte em que ela havia acabado de lhe dar um filho.
Não tinham como saber de Dara e Ingrid. Até onde sabiam, amava Lavina e faria qualquer coisa por ela… Não estavam tão errados assim.
— Sir. Siegfried — chamou um dos guardas. — Sua graça solicita a sua presença. Diz que é um assunto de extrema urgência, senhor.
“Começou.”
Siegfried seguiu o soldado até os aposentos da Baronesa Whitefield. Silêncio. Por onde passava, as vozes morriam e o mundo perdia a sua cor. Podia sentir o cheiro de medo no ar. Como se todos soubessem o que estava prestes a acontecer.
Guardas suavam frio e prendiam a respiração, atentos a cada passo, como se suas vidas dependessem disso; enquanto as servas congelavam onde estavam, imóveis e silenciosas, mantendo os olhos fixos no chão ou em qualquer outra coisa que não fosse ele, como se o mero vislumbre do rapaz pudesse matá-las. Os Mantos Negros não falharam em perceber isso e também começaram a se preparar para o que estava por vir.
Atravessou o salão. O guarda abriu a porta, esperou que entrasse e voltou a fechá-la nas costas de Siegfried.
— Sir. Siegfried — disse a Baronesa Whitefield, com um sorriso no rosto. — Que bom que pôde se juntar a nós.
E não estava sozinha.
O Lorde Coyle estava com ela, sim. Mas não era o único. Havia também…
“Merda!”