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Capítulo 0220: Três conquistas

A Ascensão Do Rei Mercenário — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 0220: Três conquistas

Raven Whitefield recebeu Siegfried com um sorriso gentil e uma taça de vinho.

Havia preparado uma pequena mesa para a reunião. O quarto escuro, com a única fonte de luz sendo a lamparina que pendia do teto e algumas velas aqui e ali. Ao seu lado, Richard Coyle. Os dois sentados à mesa. Mas Siegfried preferiu prestar atenção no convidado inesperado escondido entre as sombras do outro lado do cômodo.

— Asher Lawgard — disse Siegfried.

— Mercenário — disse o Barão Lawgard. E então fez uma careta, como se as palavras tivessem deixado um gosto ruim na boca.

Os dois se encararam por um momento, mas nenhum deles se moveu.

— Não há motivo para hostilidades — disse a Baronesa Whitefield. — Estamos todos tendo apenas uma conversa amigável. Por favor, sentem-se.

— O que tá acontecendo? — exigiu Siegfried. E permaneceu de pé; assim como Asher Lawgard.

Raven Whitefield hesitou. Deixou escapar um suspiro e então disse:

— Decidimos nos aliar ao Rei Donoghan.

— …

— Gostaria que fizesse o mesmo, Siegfried. Sei o que pensa a respeito dele. Você já deixou isso bem claro. Mas, antes de descartar a ideia, me diga: como planeja se tornar rei? Você mesmo disse; Esmond tem mais de um milhar de homens e ainda assim é um rei fraco comparado aos outros. O que você tem? Algumas dúzias? Sua pretensão é uma loucura e sabe disso!

— Não se você reunir seus aliados.

— É impossível! Já disse. Não sou rainha. E eles não se curvam à minha vontade. Mas, mesmo que se curvassem, seria para mim e não para você! E como isso faria de você um rei? Só porque escolheu o nome Blackfield, não significa que seja o meu herdeiro. Ou será que pretende desposar a minha filha? É esse o seu plano? Acha mesmo que não haverá dúzias de pretendentes implorando pela mão dela se eu for rainha?

Siegfried hesitou e a Baronesa Whitefield não deixou de notar isso. Levantou da cadeira, se aproximou e pegou gentilmente nas mãos dele, como uma mãe faria. Então prosseguiu:

— Por favor, esqueça essa loucura. É um guerreiro formidável. Vi você fazer o impossível mais de uma vez. Mas você não é uma espada. É só um garoto. Eu sei que tem medo do Rei Donoghan. Não precisa. Não vou permitir que ele te machuque! Sei o quanto quer ser um homem bom. Então seja! Confie em mim. Fiz de você um cavaleiro, dei a você o seu nome. O meu nome! Salvei sua vida e estou aqui, outra vez, dando tudo de mim para convencê-lo a não jogá-la fora.

Siegfried manteve a cabeça baixa o tempo todo, até que Raven tocou suavemente o seu rosto e fez com que ele olhasse para ela.

— Você me jurou lealdade, lembra? Fez um voto. Peço apenas que o cumpra.

— Eu posso ser rei — disse Siegfried. Mas a voz o traiu e as palavras saíram fracas, como as de uma criança. — Eu consigo.

— Não, querido. Não consegue. Sabe disso. Mas você não precisa de uma coroa. É mais importante para mim do que qualquer rei. Eu posso te dar uma vida boa. Uma bela torre e ouro e servos. Verá o seu filho crescer e terá outros com a Lavina. Uma garota tão doce. Não vê que já tem tudo o que um homem poderia desejar? Por que arriscar tanto por um sonho impossível? Quer mesmo perder tudo o que tem? Tudo o que conquistou?

Nenhuma resposta.

Por um breve momento, Siegfried sentiu falta de Lili em sua cabeça. Dizendo-lhe o que fazer. Ela certamente tentaria levá-lo pelo caminho que lhe trouxesse mais sofrimento, mas qual seria esse?

Podia envelhecer como um cavaleiro. Casar com Lavina e esquecer Dara. O futuro de um covarde. Apodrecer em uma torre velha, com Lavina para aquecer a sua cama e dar à luz a uma dúzia de crianças. Até que se tornasse velho e fraco. Não. Como poderia viver assim?

Talvez tivesse de arriscar algumas coisas no caminho. Talvez perdesse Lavina, seu filho e só os deuses sabem o que mais. Mas se era esse o preço da coroa…

— Não! — disse o Barão Lawgard. — Esse covarde não vai escapar assim tão fácil!

— Asher! — censurou a Baronesa Whitefield. — Eu cuido disso!

— Não! Esse moleque… Ele tentou me matar! Quase matou o Adrien. E o Dalkon… Cadê ele!? Enterrado em uma cova rasa qualquer, como um maldito indigente?! Ele era o meu primogênito! Meu herdeiro! E esse mercenário o matou! Eu exijo vingança!

— Siegfried não matou seu filho!

— Como tem certeza disso?! Só porque ele disse!? É um mercenário! Eles mentem! Foi ele! Sei disso!

— Asher tem um ponto — disse o Lorde Coyle. — Deixando de lado as condições exatas em que Dalkon morreu, um cavaleiro deve zelar pelos seus homens. Cabia a ele mantê-lo seguro! Se espera juntar-se a nós, deve primeiro assumir a responsabilidade pelos seus atos. Um filho por outro. E, se não me engano, Sir. Siegfried tem um à disposição.

— V-você não pode estar falando de… — A voz da Baronesa Whitefield vacilou. Claramente não esperava o rumo que aquela conversa estava tomando. — Richard, isso é loucura!

— Eu discordo. Siegfried tem uma certa… Reputação. Era um mercenário, afinal de contas. Mas agora é um cavaleiro e, se pretende nos servir, tem de aprender que a traição e a falha tem suas consequências.

Raven se virou para Siegfried. Assustada. Impotente. Mas não era por ele que temia. Seja lá o que viu nos olhos do rapaz, a fez recuar.

— S-Siegfried… E-eu não…

— Vocês já terminaram? — perguntou Siegfried, calmamente.

Silêncio.

— Ótimo! Agora que já disseram tudo o que tinham pra dizer, é a minha vez. Eu não vou me curvar ao Rei Donoghan, nem a nenhum rei! A única majestade que eu reconheço é a minha! Acham que é impossível? Bem! Que seja! Não seria a primeira vez que eu faço o impossível, não é mesmo?! Dei a todos vocês a chance de se juntarem a mim. De me apoiarem. Ainda assim, preferem apostar no Rei Donoghan. Bem! Façam como quiser. Mas se acham que vou deixar que ponham um dedo no meu filho, saibam que já matei homens melhores por menos! Essa conversa acaba aqui!

— …

— Nos vemos no campo de batalha.

E se virou para ir embora, quando…

— O-onde pensa que vai!? — exigiu o Barão Lawgard, puxando pela espada.

— Embora! — disse Siegfried. — A menos que você tenha alguma coisa a dizer sobre isso… Asher!

O nobre hesitou.

Medo.

Pela expressão no seu rosto, ainda lembrava vividamente da última batalha que tiveram. O gosto de sangue em sua boca, quando lhe abriu a garganta e o deixou sufocar.

Naquele quarto, o único que não temia Siegfried era Richard Coyle. O único que nunca o viu lutar. Foi justamente ele que falou:

— Qual é o problema de vocês dois?! É só um garoto! — E se virou para Siegfried. — A Raven implorou pela sua vida. Disse que podia pôr algum bom senso na sua cabeça, mas claramente estava errada. Então, eis o que eu vou fazer. Sua esposa e filho estão sob nosso poder. Assim que entrou neste quarto, Leland e seus homens prenderam eles. Agora, você vai aceitar os nossos termos! Seu filho vai ser executado pelos seus crimes e você vai lutar em nosso nome! Se tiver algo a dizer, mando cortar a cabeça da escrava também. E depois a sua! Fui claro, mercenário !?

Siegfried tocou o cabo da espada.

— G-guardas!

Silêncio.

— GUARDAS!

E, novamente, nada.

Até que, de repente, alguém bateu na porta. O Lorde Coyle sorriu e gritou:

— Até que enfim! Entrem! Rápido!

E a porta se abriu. Mas não foi Leland quem apareceu, nem um de seus homens. Foi Gelo. A espada curta na mão, molhada de sangue fresco. Estava ferido também, mas apenas superficialmente. Ele olhou ao redor do cômodo por um momento, avaliando bem a situação, e então se virou para Siegfried:

— Milorde. Fechamos o salão. Ninguém pode entrar. Lavina e o bebê estão seguros.

— O-o que vocês fizeram!? — exigiu o Lorde Coyle. — Onde está Leland!?

Gelo o ignorou.

— Quantas baixas? — perguntou Siegfried.

— Perdemos o Carrasco. Foi decapitado por um golpe de espada. O resto tem alguns ferimentos leves. Fora isso, nada. A Elsa levou a Lavina e a criança pra longe da batalha assim que a luta começou, então nenhum deles se feriu.

— Ótimo! E os guardas? Quantos mortos?

— Dois. O Capitão Leland não trouxe muitos homens. Deve ter pensado que cinco seriam o bastante pra prender uma mãe e o seu filho. Não foram. Allane e Will mataram um dos guardas quando a confusão começou. O resto tentou recuar, mas Esmond trancou as portas do salão antes que pudessem chamar reforços. Todos eles se renderam depois que matamos o Leland.

Siegfried sorriu.

“Parece que é a terceira vez que eu conquisto o Salão Branco. Tá ficando cada vez mais fácil.”