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Capítulo 0221: Coração confuso

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Capítulo 0221: Coração confuso

— Vai se arrepender disso! — disse o Lorde Coyle… Pela sétima vez.

Siegfried havia conquistado o Salão Branco, mas, desta vez, não tinha qualquer intenção de mantê-lo sob seu controle. Quando o Rei Donoghan e seus homens chegassem, não haveria cerco. Uma tarde seria mais do que o bastante para derrubar os portões.

Ao invés disso, decidiu deixar Vila Nova.

A Baronesa Whitefield deu-lhe a sua palavra de que não viria atrás deles em busca de vingança e Siegfried acreditava nela. Mas não confiava em Richard Coyle, por isso fez com que ele os acompanhasse até a saída do vilarejo para garantir que seus homens não fizessem nada (com ou sem ordens).

Lavina, Allane, Elsa e Will iam na carruagem que o Lorde Coyle havia arranjado para eles quando partiram de Vila do Lobo. A escolta: os seus dezoito soldados Kroft, liderados por Gelo, Fantasma e Esmond. Na retaguarda, uma carroça com suprimentos e outra com o cadáver de Carrasco — era seu subordinado e morreu defendendo o seu filho, por isso merecia um enterro apropriado, mas não ali e não agora.

Siegfried e Richard lideravam o caminho em seus cavalos.

Partiram ao final da tarde; não podiam esperar pelo amanhecer, mesmo que isso significasse se aventurar noite adentro. Seria um problema se a Baronesa Whitefield já tivesse enviado uma carta ao Rei Donoghan aceitando a sua proposta de aliança. Nesse caso, ele poderia se sentir tentado a enviar um destacamento ao Salão Branco o mais rápido possível; com o intuito de assegurar que ela não mudasse de ideia. E Vila Nova não era tão distante de Vila do Lobo. Se houvesse alguém a caminho, era bem provável que chegasse em breve. E Siegfried preferia não estar ali quando isso acontecesse.

Por sorte, deixar Vila Nova não foi difícil.

Os soldados Coyle ainda estavam afiados e ficaram intrigados com o grupo que deixava o vilarejo, mas Richard Coyle fez bem o seu papel:

— Sir. Siegfried e seus homens escolheram não participar desta guerra. Prometemos a ele e seus homens salvo-conduto. Só estou aqui para garantir que não haja acidentes e nossa palavra seja mantida.

A notícia se espalhou depressa e os guardas deixaram que eles fossem embora sem alarde.

— Impressionante — disse Siegfried, quando estavam perto de deixar Vila Nova. — Por um momento, quase acreditei que você tinha alguma honra.

— Tenho mais honra no meu dedo mindinho do que você jamais terá!

— Disse o homem que ameaçou matar o meu filho. Um bebê com três semanas de vida. Onde está a honra nisso?

— Mesmo que eu te explicasse, você não entenderia.

— Disso eu não tenho dúvidas.

E a conversa terminou.

Apenas quando o vilarejo estava quase fora de vista que Siegfried parou o cavalo. Deixou que a comitiva passasse a frente e ficou para trás com Richard Coyle. Quando já estavam a uma distância segura, o fidalgo perguntou:

— E agora?

— Não venha atrás de nós!

— Não vai me matar?

— Isso foi um pedido?

— …

— Já houve morte o bastante por hoje. Além do mais, não sou idiota. E muito menos ingrato. Você salvou a vida da Lavina e do meu filho quando estávamos no Castelo Silvergraft. Talvez até a minha. Nos tirou de lá em segurança. Não vou esquecer disso. Mas tentou matar o meu filho e disso eu também não vou me esquecer! Considere que estamos quites… E reze pra não me encontrar no campo de batalha.

E foi embora.

Tenha sido por medo, honra ou qualquer outra coisa, Richard Coyle não enviou um único soldado atrás deles.

♦

Sem ter outro lugar para onde ir, Siegfried decidiu que retornariam para o Castelo dos Ossos. Fazendo a mesma rota pelo sul que havia feito da primeira vez.

Os soldados se alegraram ao ouvir isso. Haviam começado aquela pequena campanha militar cheios de ilusões. Assim como todos os soldados verdes, esperavam derrubar castelos, matar cavaleiros e deflorar princesas. Três meses de caminhadas sem fim, comida fria e pouca ação, haviam-nos deixado amargos e desiludidos. Agora, tudo o que queriam era voltar para casa. Mesmo o clima seco e abafado não foi o bastante para abalar a moral deles. Passavam o tempo relembrando pequenos desafios que enfrentaram ao longo da jornada e o que contariam para suas esposas e filhos.

Allane, Elsa e Will estavam menos animados. Não podia culpá-los. ‘Castelo dos Ossos’ era um nome bem pouco convidativo. E viver em um pântano parecia ainda menos tentador.

— Vocês não precisam vir com a gente se não quiserem — disse Siegfried. — Estão livres. Não são mais escravas. Posso deixá-las em algum vilarejo no caminho. Tem um depois da Floresta das Aranhas.

Mas ‘Floresta das Aranhas’ também não era um nome muito acolhedor e elas recusaram.

— O reino inteiro tá em guerra — disse Allane. — Tem exércitos marchando de um lado pro outro. Saqueando tudo o que veem pela frente. Não importa para onde formos, é só uma questão de tempo até que algum lorde maluco apareça. Prefiro estar atrás de muros bem altos quando isso acontecer… Se vossa graça não se importar.

Gelo e Fantasma nada tinham a dizer; seguiriam Siegfried até o inferno se ele mandasse. Esmond Kroft também estava calado; voltaria para casa, sim, mas não era mais a sua casa.

Lavina estava… Na carruagem. Via-a bem pouco desde que deixaram o Salão Branco. O sol estava quente demais para o bebê, por isso ela se limitava a sair apenas durante a noite. Ainda não lhe dirigia a palavra, mas, de vez em quando, pegava ela espiando-no, como se quisesse dizer algo. Em uma ou duas ocasiões tentou puxar assunto com ela e perguntar sobre o bebê e se estavam confortáveis. Ela simplesmente assentia com a cabeça e voltava a ignorá-lo.

No sexto dia de viagem, quando ficou claro que não havia ninguém seguindo eles e que o calor não iria passar, Siegfried decidiu por finalmente enterrar o Carrasco — foi um bom soldado, mas o fedor era insuportável de tal modo que tinham de deixá-lo sempre muito atrás da comitiva (quase desaparecendo de vista) e, mesmo assim, ainda era o bastante para revirar o estômago da maioria. Quando Siegfried disse que iriam enterrá-lo, o ânimo foi tamanho que todos os soldados se voluntariaram para ajudar a cavar a cova e, se dependesse deles, provavelmente teriam cavado até o inferno para se livrar do fedor. Siegfried sentiu que era um pouco desrespeitoso com o falecido, mas não seria teimoso a ponto de recusar a ajuda — ainda assim, fez questão de cavar também.

Escolheu um bom lugar à sombra de uma pequena árvore solitária e o trabalho terminou em cerca de duas horas.

Carrasco foi enterrado e uma lápide de madeira improvisada foi feita para dizer ao mundo quem era: ‘Manto Negro’. Queria poder escrever mais. Contar como morreu e pelo que morreu. Mas havia pouco espaço e pouco tempo.

Siegfried agradeceu a ele por seu sacrifício e, para a sua surpresa, não foi o único. Gelo e Fantasma fizeram o mesmo, é claro; eram seus amigos, afinal de contas. Mas Lavina também se aproximou, pôs algumas flores que havia colhido em frente a lápide e fez uma pequena prece. Allane e Elsa também agradeceram por ele ter protegido o bebê. Esmond, Will e os outros soldados apenas observaram em silêncio respeitoso.

E então seguiram em frente.

Naquela noite, durante o jantar, Lavina veio até Siegfried pela primeira vez. Embora não tenha dito nada até bem mais tarde, quando todos já tinham ido embora:

— Sieg… Não. Milorde…

— Você não precisa ser tão formal comigo. Sabe disso.

— …

— O que foi?

— Você me odeia tanto assim?

— O quê?

— A Allane me contou o que o senhor fez. Você mandou eles me protegerem. Mandou protegerem o nosso filho. Quando o Leland apareceu com todos aqueles soldados… O meu coração quase parou. Eu não sabia de nada. Pensei que fosse morrer. Pensei que eles fossem… Mas isso não aconteceu. A Allane, a Elsa e os outros… Aquele homem. Ele morreu por mim. Pelo nosso filho. Porque você mandou.

— …

— Por que está fazendo isso?

— Do que você tá falando?

— Você já deixou bem claro que não me ama! Então por que fica me dando esses sinais confusos!? Por que age como se… C-como se…

Siegfried não sabia o que dizer.

Deveria dizer que a amava? Mas não amava. Não como ela queria. Não como ela merecia. E como poderia dizer isso a ela, depois de tudo o que fez por ele? Deu-lhe a sua primeira vez. Deu-lhe um filho. Arriscou a própria vida sendo refém do Barão Kessel. O que mais uma mulher poderia lhe dar? O que mais qualquer um poderia lhe dar? Era leal. Era sua. De corpo e alma.

Mas Dara também. Tudo o que era verdade para Lavina, também o era para a Dara.

“Você não pode ter todas.”

Siegfried não sabia o que dizer. Por isso abraçou Lavina e as lágrimas que ela vinha segurando todo esse tempo fluíram sem controle quando ela o abraçou de volta.