Capítulo 0222: Caminhos separados
Capítulo 0222: Caminhos separados
Siegfried abraçou Lavina por trás e ela se encolheu formando uma conchinha, como costumavam fazer. Era a primeira vez que dividiam a cama em muito tempo e, embora estivesse bastante calor, aquela era a única posição em que a garota parecia sentir-se segura.
O rapaz não tinha objeções, mas era difícil se controlar.
Deixou a sua mão deslizar por baixo do vestido de chemise dela, explorando-lhe a barriga macia até os seios grandes e sensíveis. Lavina estremeceu. Siegfried sentiu-se crescer duro por trás dela. Beijou a nuca da jovem.
E lembrou de Dara.
Então parou.
Havia feito muitas coisas erradas desde que deixou o Salão dos Poucos — trair Dara foi uma delas. Mas as circunstâncias eram diferentes. Fez o que fez quando pensou que eles nunca teriam um futuro juntos. E agora tinham. Dara havia lhe dado uma filha. E ele prometeu resgatá-la. Resgatar as duas!
Não era certo continuar com Lavina. Estava apenas deixando a garota confusa.
Soltou os seios dela e deslizou a mão de volta para a sua barriga; mas não de forma sexual e sim protetora.
— Desculpa — sussurrou Siegfried.
E adormeceu.
Na manhã seguinte, Lavina acordou primeiro e não se moveu até que o rapaz também já estivesse de olhos abertos. Então disse:
— Milorde?
— Hum — resmungou Siegfried (ainda meio sonolento), enquanto apertava os braços em volta de Lavina — Bom-dia.
A garota deixou escapar um gemido baixo e levou um instante para se recompor:
— Ahn! B-bom-dia, milorde…
— …
— M-milorde…
— Hum?
— A-ainda dói… Um pouco.
— O quê?
— V-você sabe. L-lá embaixo. Ainda dói um pouco. O parto… Se o senhor puder esperar mais uma semana. Não. Pelo menos, alguns dias…
— Não precisa se preocupar, eu não vou fazer nada.
— …
— Você tava acordada, né?
— …
— Eu não devia ter te tocado daquela forma. Sinto muito. Não vai acontecer de novo.
E não aconteceu.
Siegfried e Lavina continuaram a dividir uma tenda, mas ele não voltou a tocá-la de forma indecente — embora não tenha sido uma tarefa fácil.
Finalmente, ao anoitecer do décimo dia de viagem, chegaram à entrada da Floresta das Aranhas. Uma vez que cruzassem, estariam seguros. Mesmo que o Rei Donoghan viesse atrás deles com todo o seu exército, levariam vários dias (no mínimo) para cruzar a floresta. A guerra havia ficado para trás. Por isso entregou o comando da tropa ao Gelo.
— Leve a Lavina e o meu filho até o Castelo dos Ossos em segurança! — disse Siegfried. — O verão mal começou, então a estrada vai estar cheia de bandidos. Fique atento e nunca deixe as garotas se afastarem demais do resto do grupo, mesmo com escolta! Sem acidentes, entendeu?
— Sim, senhor!
Obviamente, Gelo não sabia o caminho para o Castelo dos Ossos, por isso pediu a Esmond que o guiasse.
— Eu não sei o caminho — respondeu o garoto.
— O quê?
— Nunca fui tão longe de casa. É a primeira vez que estou nessa parte do reino. Não sei como voltar.
— …
A resposta dos outros soldados foi mais ou menos a mesma. Ninguém ali fazia a menor ideia de como voltar para casa. Mas a maioria sabia como ir do Salão Frost até o Castelo dos Ossos, então Siegfried o usou de referência e explicou a todos como deveriam fazer para alcançar o Salão Frost a partir da Floresta das Aranhas.
“Menos um problema.”
Mas logo apareceu outro…
— O senhor não vem com a gente? — perguntou Lavina, preocupada.
— Tá tudo bem! O caminho a partir daqui vai ser mais seguro, eu prometo. Meus homens vão te proteger. Além disso, a guerra ainda não chegou no sul. Deve ser uma viagem tranquila.
— M-mas… E o senhor? Pra onde vai?
“Resgatar minha noiva e a minha filha”, mas, ao invés disso, disse:
— Ainda tem algumas coisas que eu preciso resolver. Não vou demorar.
— …
— Lavina. Já falamos sobre isso. Você pode me dizer qualquer coisa. E eu já sei quando você quer dizer alguma coisa.
— U-um nome…
— Hum?
— Ele fez um mês ontem. O nosso filho.
— …
— Você mal segura ele. Quase não o vê. E agora está partindo de novo. Eu sei que o senhor nunca quis que eu tivesse ele, mas ainda é o nosso filho. O seu filho! Por favor, mesmo que não o queira por perto. Mesmo que não o ame. Pelo menos reconheça que ele existe. É só isso que eu peço.
Siegfried permaneceu em silêncio por um momento.
Lavina tremia. O rosto vermelho de vergonha e os olhos molhados, segurando as lágrimas. Assustada. Vulnerável.
— Bjorn — disse Siegfried. — O nome dele é Bjorn. Significa ‘urso’. Um nome forte.
Os olhos de Lavina brilharam ao ouvi-lo e ela observou em silêncio, prestando atenção em cada palavra. Há quanto tempo não a via tão feliz assim? Tão deslumbrada? Deuses! Aquela garota merecia mais. Muito mais.
Naquela noite, dormiram juntos novamente, mas, desta vez, não como um casal e sim como uma família. Siegfried, Lavina e Bjorn entre eles. Mas Siegfried se perdeu na cena, observando os dois, e dormiu bem pouco naquela noite. Ainda assim, foi uma boa noite.
Na manhã seguinte, o grupo se dividiu.
Gelo liderou a comitiva através da Floresta das Aranhas, enquanto Siegfried virou e foi na direção contrária (de volta para o norte); apenas ele e Allane. Por que ela? Porque a jovem insistiu.
Era perigoso ir sozinho, mas simplesmente não aceitaria reduzir a força da comitiva ao levar muitos soldados consigo. Fantasma se voluntariou para acompanhá-lo, mas era um de seus melhores homens e Siegfried decidiu que Lavina e Bjorn precisavam muito mais da sua proteção do que ele. Esmond Kroft também se voluntariou.
— Sou o seu escudeiro — disse o garoto. — Quem mais deveria acompanhá-lo, se não eu?
— Você precisa mostrar o caminho pra eles. Além disso, é o único além de mim que pode explicar o que aconteceu. Precisa contar a Eva e os outros tudo o que houve aqui! Cada detalhe. Minhas ordens são simples. A Lavina e o meu filho, Bjorn. Quero que os protejam! Allane, Elsa e Will também. Todos! Arranje um lugar para eles dentro do castelo. Gelo e Fantasma vão ficar responsáveis por treinar os meus novos guardas. E quero patrulhas pelo pântano. E armadilhas! Coloque elas fora da trilha principal, não quero ferir viajantes desavisados. E monte torres de vigia! Quanto mais discretas, melhor! Veja o que a Eroth pode fazer também. Se tiver alguma magia de proteção, agora é a hora de usá-la. Não só no castelo, mas no vilarejo inteiro!
Esmond assentiu e se afastou, absorvendo todas as ordens que recebeu.
Por insistência de Lavina e, bem, de todos os outros! Siegfried aceitou levar, pelo menos, um único soldado consigo. Como Gelo, Fantasma e Esmond Kroft estavam fora de questão, pensou em levar Will — teria sido uma boa oportunidade de treiná-lo, mas Elsa leu os seus pensamentos com um olhar e abraçou o garotinho com todas as suas forças, então Siegfried abandonou a ideia. No fim, decidiu que levaria um dos soldados Kroft. Até que Allane interveio:
— Eu vou!
— Você? — Siegfried não tentou esconder o espanto.
— Eu posso lutar! Tenho treinado. Sou uma lanceira muito boa.
— Você é uma garota — disse um soldado qualquer. — Um soco e você quebra feito um graveto.
E os outros riram. E por que não ririam? Allane tinha metade do tamanho deles e pesava três vezes menos. Que chance uma garotinha de quatorze anos teria contra homens adultos?
— O campo de batalha não é lugar para mulheres — disse Siegfried. — Não posso te proteger e lutar ao mesmo tempo.
— O senhor está confundindo as coisas, milorde. Sou eu quem planejo protegê-lo.
Os soldados riram, mas não Siegfried. Nem Allane. A garota havia matado um guarda no Salão Branco para proteger Lavina e Bjorn. O que era uma morte a mais do que todos os soldados Kroft juntos. Zombavam dela, mas era a única dentre eles que já havia tirado uma vida.
Por isso a escolheu.