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Capítulo 0223: Eu quero ser a sua sombra

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Capítulo 0223: Eu quero ser a sua sombra

A viagem de volta para o norte foi bem mais amena. Céu limpo e brisa fresca. Um pouco quente, mas nem de longe tão ruim quanto o calor abafado da semana anterior.

Ainda assim, não havia conforto.

Siegfried fez questão de desviar bastante o caminho para não correr o risco de passar perto demais da Vila do Lobo ou mesmo do Salão Branco. Evitavam estradas e também fogueiras. Biscoitos de sal e água era tudo o que tinham para comer.

Na primeira noite, Siegfried sugeriu que ele e Allane dividissem a mesma tenda para se proteger do frio durante a noite. A recusa da jovem foi imediata:

— Não acho que tá tão frio assim… Milorde. Mas, se o senhor quiser, posso te dar o meu cobertor também.

E não voltaram a tocar no assunto.

Na manhã seguinte, pegou Allane treinando com a sua lança antes do desjejum. A forma dela era um pouco lenta e rígida demais. Um pouco ensaiada demais. Usava o corpo inteiro no movimento, empurrando a haste em gestos largos, como se tentasse mimetizar a pose de uma daquelas estátuas e pinturas dramáticas que retratavam guerreiros no campo de batalha. E então precisava de tempo para desfazer a forma e recomeçar do zero. Era fácil prever o seu próximo ataque. E a empunhadura dela também era terrível; um bom puxão poderia arrancar a arma das suas mãos facilmente.

— Você tá pensando demais — disse Siegfried. — Você não tá em uma parede de lanças. Seu inimigo não vai vir correndo na direção dessa ponta. Se quiser mesmo matá-lo, vai ter que ser mais rápida. Não tente empurrar. Joga e puxa! Como o bote de uma cobra. Quanto mais rápido fizer isso, melhor.

Allane não respondeu, mas seguiu o seu conselho e mudou a forma.

Siegfried deixou que ela continuasse o seu treinamento, enquanto arrumava as coisas para partir. Quando já estavam montados e seguiam em frente, o rapaz perguntou:

— Por que você veio?

— Milorde?

— Allane, eu não sou cego. E, mesmo que fosse, até um cego veria que você nunca gostou de mim.

— S-sinto muito, milorde — ela disse, meio envergonhada. — Nunca devia ter lhe faltado com o respeito. Prometo que isso não voltará a se repetir.

— Por quê?

— Como?

— Por que não? Por que tá sendo tão legal? Por que me avisou da Baronesa Whitefield? Por que defendeu a Lavina e o meu filho? Por que está aqui? Por que veio comigo? O que aconteceu pra você mudar tanto?

— …

— Se você não quer falar, tudo bem…

— Eu tenho medo.

— Hum?

— Eu tenho medo… Do senhor, milorde.

— …

— O senhor me assusta. Eu não sei como a Lavina consegue. Mesmo andar ao seu lado já me dá calafrios. Se o senhor me tocasse como faz com ela… E-eu não consigo nem imaginar como seria. Acho que eu morreria.

— Eu não vou te machucar.

— E eu acredito no senhor. Se quisesse mesmo me fazer mal, não há nada nesse mundo que seria capaz de impedi-lo. Já perdi a conta de quantos homens vi o senhor matar. Soldados de verdade. Assisti alguns deles treinando no Salão Branco. Lutando. Até falei com um ou outro. Pareciam tão fortes. Não tenho dúvida de que qualquer um deles poderia ter me matado sem nem ao menos suar. Todos eles. Mesmo que estivessem sozinhos. Mesmo que eu tivesse que enfrentar apenas um deles. Até aquele soldado que eu matei… Se o Will não estivesse lá… Mas o senhor faz parecer tão fácil. Mata homens como aqueles aos montes; como se não fossem nada. Todos. Menos aqueles que se curvam.

— E é isso que você tá fazendo agora? Se curvando pra eu não te matar?

— O quê?! Não! Q-quero dizer, não foi isso que eu… O-o que eu tô tentando dizer é que… E-eu… Eu quero ser… Como o senhor.

— …

— Quando vocês tomaram a Vila do Lobo no ano passado… Meus pais, minhas irmãs… Só o que eu fiz foi assistir. Quando o senhor me pegou como escrava, eu me preparei. Eu pensei no que devia fazer. Devia pegar uma faca? Devia lutar? Fugir antes que fosse tarde demais?

Ela deu uma pausa e riu, mas não parecia feliz ao relembrar. Então prosseguiu:

— Sabe qual foi a minha resposta?

— …

— Fechar os olhos. Eu já tinha ouvido algo assim antes. O jeito ‘certo’ de agir se algum dia eu fosse… O certo a se fazer é fechar os olhos e pensar em outra coisa. Até acabar. A Ethel me disse algo parecido também. Pra não chorar muito, nem falar nada. Isso poderia irritar o senhor. Eu devia ficar em silêncio. Imóvel. Apenas esperar. E eu confiei nela. Eu me preparei pra isso. Eu esperei. Eu aceitei que, se o senhor quisesse me machucar, não tinha nada que eu pudesse fazer a respeito. Eu desisti. Porque eu tinha medo do senhor.

Siegfried não tinha palavras. O que devia dizer naquele tipo de situação? Que nunca machucaria ela? Já havia dito isso.

— Levou um tempo pra eu perceber, mas a verdade é que eu queria ser como o senhor.

— …

— Eu não quero ser uma covarde assustada. Eu não quero mais ‘fechar os olhos’ e deixar os outros fazerem comigo o que bem entenderem! Eu quero ser o monstro. Eu quero que todos tenham medo de mim, como têm do senhor. Eu quero um manto negro!

— Do que você tá falando?

— Acho que o senhor não sabe, não é? Mas todo mundo tem medo deles também. São a sua ‘sombra’. A sombra do monstro. Não. A sombra do rei! Eu quero ser a sua sombra! Eu quero servi-lo. Não como a Lavina, mas como os seus Mantos Negros. Eu sei que as minhas atitudes do passado falam contra mim, é por isso que vou provar a minha lealdade com ações. Vou provar que mereço um manto negro.

♦

Os dias seguintes permaneceram o mesmo. Céu limpo e brisa fresca.

Allane pediu e Siegfried não viu motivo para recusar; passou a treiná-la toda manhã antes de seguirem viagem e toda noite antes de dormir. Para sua surpresa, a garota revelou ter um corpo bastante atlético e não lhe faltava vigor — aparentemente, vinha treinando sozinha e arduamente já há alguns meses. Tudo o que lhe faltava era técnica. E foi justamente isso o que ensinou a ela. Embora a lança não fosse a sua arma favorita, Siegfried sabia usá-la bem o bastante para lhe mostrar o caminho.

— Nunca deixe o seu inimigo chegar perto demais — explicou. — A vantagem da lança é controlar a distância. Se deixar o inimigo se aproximar demais, ela vai ser inútil. Mas é a arma perfeita pra você. Segura. Como mulher, você vai encontrar muitos inimigos que são fisicamente mais fortes, mas isso não faz diferença, contanto que não os deixe se aproximarem.

Siegfried então prosseguiu mostrando a ela como manusear a lança. A forma correta de cortar e estocar. Como manter uma base firme enquanto se move pelo campo de batalha. E continuou com a explicação:

— Não existe escudo grande o bastante para proteger o corpo inteiro e mesmo uma armadura tem brechas. Você vai aprender a encontrá-las. Não importa o quão pequeno seja o arranhão, todo mundo tem medo de morrer. Os covardes vão quebrar assim que virem a cor do próprio sangue. Você só precisa mostrar a eles.

— E os que não são covardes?

“Eles vão te partir ao meio”, pensou, mas, ao invés disso, respondeu:

— Esses você corta mais fundo.

E assim foram os dias.

De vez em quando viam um assentamento solitário no horizonte, mas nunca chegavam perto demais. Haviam trazido biscoitos de sal e bastante água. Não precisavam de mais suprimentos.

A única vez em que viram outra alma viva, foi quando levaram os cavalos para beber de um pequeno rio e deram de cara com uma mulher lavando as roupas; ela foi embora assim que os viu se aproximar e Siegfried escolheu partir antes que a mulher voltasse trazendo quem quer que ela tivesse ido buscar.

Mas a paz não durou.

No quarto dia de viagem, deram de cara com patrulheiros do Rei Donoghan.