Capítulo 1: Um Evento Raro no Fim da Noite
Capítulo 1: Um Evento Raro no Fim da Noite
Ao mudar o horário do meu trajeto diário, consegui ver algo raro.
Uma estudante alta esperando o sinal fechar no caminho para a escola — isso é uma cena comum.
O que merece destaque especial é a sua postura. Mesmo estando apenas esperando o sinal, suas costas estavam tão retas como se ela estivesse prestes a receber um prêmio.
Pendurada nas costas do cardigã de mangas compridas que ela usava estava uma bolsa longa e fina. Devia ter perto de dois metros de comprimento; passava facilmente a sua própria altura. Era alta o suficiente para que até eu, um garoto do primeiro ano de altura média, tivesse que olhar para cima para vê-la.
Apesar de carregar algo que parecia tão pesado, aquela estudante permanecia imóvel. Sua saia um pouco curta não balançava.
Suas pernas, vestidas com meias-calças pretas que saíam dela, também não se moviam. O único movimento vinha de fios finos de cabelo preto que escapavam do coque na parte de trás de sua cabeça, balançando suavemente na brisa fresca de outono.
Digna — essa era a descrição que naturalmente vinha à mente para sua bela postura. Apenas pela sua silhueta, senti uma nobreza como uma flor negra desabrochando silenciosamente. Talvez seja um pouco de exagero, mas essa é honestamente a impressão que ela passou.
Ao ver a aura que irradiava de suas costas, duas garotas próximas começaram a gritar de excitação.
“Ei, aquela não é a Watanuki-senpai?”

“Ela realmente traz o arco dela para a escola de manhã...!”
“Ouvi dizer que faz parte do treinamento dela. Uma amiga do clube de arquearia me contou.”
Ela deve ter percebido que estavam falando dela; a chamada Watanuki-senpai se virou, sorriu e fez uma leve reverência.
Eu conseguia notar isso mesmo pelo vislumbre passageiro de seu perfil perfeito. Ela era o pacote completo — alguém cuja beleza conseguia te cativar apenas pelo comportamento.
Não havia um pingo de sarcasmo em sua expressão, apesar de ser o assunto dos sussurros alheios; era um sorriso vívido e revigorante que combinava com o clima limpo de outono.
Em resposta à reação de Watanuki-senpai (que mais parecia um agrado aos fãs), as garotas por perto soltaram gritinhos contidos de alegria.
Hum... então a nossa escola tinha uma senpai do clube de Arquearia com uma aura daquelas.
[Jeff: A arquearia no Japão é dividida entre o esporte ocidental de tiro com arco e o Kyūdō (a arte marcial tradicional japonesa do arco e flecha).]
Assim que o sinal abriu e eu observei Watanuki-senpai caminhar a passos largos à frente, também comecei minha caminhada preguiçosa em direção à escola.
Bem, com certeza não haverá nenhuma oportunidade para a vida de Amemoto Touya se cruzar com a dela no futuro. Afinal, sou um membro do "Clube de Ir para Casa", sem qualquer ligação com esportes ou veteranos. Além disso, já estou com problemas suficientes para lidar só dentro da sala de aula no momento.
“...Que sono.”
Eu dormi demais esta manhã depois de ficar acordado até tarde pela primeira vez em um bom tempo. Eu conseguia sentir o estresse se acumulando.
Talvez esteja quase na hora — a hora de realizar o Curso Especial de Relaxamento que eu inventei.
“Fwaaah...”
Pensando nessas coisas, expressei honestamente minha sonolência com um bocejo.
Eu sou um estudante comum e discreto. Ao contrário daquela bela senpai, ninguém está olhando para mim. Portanto, posso soltar bocejos desleixados onde bem entender. Haha, pensar nisso está começando a me deixar triste.
E assim, fui para a escola sozinho mais uma vez hoje.
◆ ◆ ◆
Tendo terminado uma partida no chat de voz com meus colegas de classe, já estava praticamente na hora de dormir.
No momento em que entrei na sala de estar, Mei me chamou preguiçosamente de seu lugar no sofá.
“Ei, Touya~, vai comprar um sorvete para mim. E vá correndo. Meu peito está tão pesado que não consigo me mexer~.”
Ela estava deitada de costas com roupas leves, demonstrando zero consciência de que estava morando com um garoto. Eu achei que ela deveria apenas rolar de lado.
“Ugh, de jeito nenhum. Não quero aumentar meus batimentos cardíacos no meio da noite assim. Que horas você acha que são, afinal?”
“Quase meia-noite... Não é um horário em que uma colegial sem maquiagem possa sair soziiinha.”
“Então vai sem mesmo. Você tem dezessete anos. É praticamente uma quase-adulta. Tenha um pouco de autocontrole.”
“Ehh, de jeito nenhum, impossível, não aguento iisso. Eu sou a 'Sem-Crescimento-Chan' que não amadureceu desde o jardim de infância, sabeee? Se eu não sugar o meu irmãozinho maduro, não consigo sobreviver.”
“......”
A Mei realmente nasceu um ano antes de mim, certo...? Ela é a minha irmã mais velha, não é? A irmã da família Amemoto era tão desleixada que me fazia querer duvidar da minha própria memória.
“Eu tenho me esforçado taaaanto na minha dieta ultimamente, então quero uma recompensa de vez em quando! Vamos lá, por favorzinho. Eu acabei de ficar com vontade agora mesmo, não importa o que aconteça!”
“...Não tem jeito. Só desta vez.”
Quando a Mei ficava assim, eu a tratava como uma irmãzinha mimada cinco anos mais nova que eu. Era melhor para a minha saúde mental desse jeito.
“Ehh, sério? Obrigadaaaa! Como recompensa, vou deixar você dar zero vírgula cinco mordidas.”
“Metade de uma mordida... Isso é mesquinharia.”
“Brincadeira, brincadeira, eu te dou quantas mordidas você quiser! Muito bem então, vai láaa. Corre o mais rápido que puder, anda, anda. Se você conseguir comprar e voltar em segurança, te dou um grande abraço de agradecimento.”
“Eu absolutamente não preciso disso.”
Foi uma despedida com zero gratidão; já mexendo nas unhas com uma perna apoiada no encosto, Mei nem estava mais olhando para mim. Ela estava esparramada com as pernas bem abertas, demonstrando péssimos modos. Hum, será que tenho mimado ela demais ultimamente...? Refletindo sobre isso, me preparei para sair.
◆ ◆ ◆
Caminhei lentamente pela estrada fria no meio de setembro. Não havia necessidade de pressa. A loja de conveniência ficava a apenas um pulo da residência Amemoto. Então, na verdade seria bem seguro para a minha irmã ir comprar sozinha, mas ela insistiu: “Mostrar meu rosto limpo para qualquer pessoa fora da família é seriamente impossível! Eu morreria!” Eu realmente acho a Mei infantil. Apesar de ambas serem garotas do ensino médio, ela é completamente diferente da Watanuki-senpai, que vi esta manhã.
Se aquela senpai digna fosse minha irmã, ela não me mandaria sair para comprar um lanche no meio da noite.
Enquanto alimentava esses pensamentos delirantes, entrei na loja de conveniência. Assim que o sino alegre da entrada tocou, olhei para cima e meus olhos imediatamente se arregalaram. Porque a pessoa parada diante do atendente, que passava os produtos apressadamente, era...
“Ah, que droga, peguei demais... Não tenho dinheiro suficiente. Me desculpe.”
...Watanuki-senpai, esfregando os olhos de sono.
“Posso devolver apenas quatro destes?”
Dentro da cesta de compras dela, havia uma quantidade enorme de energéticos empilhados. Duvidei dos meus próprios olhos por um momento, achando que era uma alucinação, e os esfreguei algumas vezes. Mas a figura sonolenta da minha senpai não desapareceu. Como essa loja de conveniência não tinha caixas de autoatendimento, não pude deixar de ver o andamento da transação.
O valor exibido passava dos sete mil ienes. Isso era muito dinheiro para uma estudante do ensino médio. Vestindo um casaco que parecia caro, Watanuki-senpai pegou algumas latas e girou nos calcanhares para voltar à área de vendas. Aquele movimento ágil, embora fosse apenas uma ação cotidiana, tinha uma certa "precisão". Combinava com a impressão que tive dela esta manhã.
Acho que ela não baixa a guarda nem quando está com sono. Então a Watanuki-senpai era o tipo de pessoa que comprava energéticos em grande quantidade a essa hora da noite. Um fato surpreendente. Minha fantasia recém-criada se desfez imediatamente. Bem, é só que a minha impressão de uma senpai que vi pela primeira vez hoje mudou, então não é grande coisa.
Vamos logo resolver essa tarefa. Escolhi apenas dois dos sorvetes que a Mei gosta e fui para a fila do caixa. Como fui rápido, a transação da senpai ainda não havia terminado.
“Ah, pode adicionar os pontos? Com o aplicativo...”
Watanuki-senpai, com uma voz exausta, revirou o bolso de seu casaco preto como o brio, e então congelou. Ué, o que houve?
“...Vou deixar os pontos para lá. Esqueci meu smartphone...”
Ah, coitada... Minha primeira impressão da Watanuki-senpai parece prestes a voar para bem longe. Como posso dizer? Essa pessoa está irradiando uma aura digna de pena na potência máxima. Após o pagamento, que demorou um pouco apesar de correr tudo bem, Watanuki-senpai ergueu as duas sacolas plásticas que já haviam sido preenchidas.
O som das latas de energético batendo umas nas outras ecoou lá de dentro. Parecia bem pesado, mas conseguir carregar aquilo deve ser uma façanha de força nos braços possível apenas para um membro de clube esportivo.
Seria impossível para mim. Sou um garoto raquítico que não consegue fazer nem cinco flexões. Ambas as minhas articulações dos ombros saltariam para fora. No entanto, por que ela compraria aquela quantidade de energéticos? Eu costumava tomá-los frequentemente em noites nas quais queria me empolgar para jogar.
Será que a Watanuki-senpai também tem algo que exige concentração? Enquanto eu pensava nisso, Watanuki-senpai, a caminho da saída, curvou-se educadamente mais uma vez para o cliente que foi obrigado a esperar atrás dela (que era eu).
“...!?”
— E então ela congelou só um pouquinho.
Parecia que Watanuki-senpai tinha ficado abalada ao reconhecer meu rosto, mas não, não, em nove de cada dez casos, isso é só imaginação minha. Afinal, é a primeira vez que nos encontramos.
É impossível para alguém como eu abalar a compostura dela. Isso é apenas excesso de autoconsciência.
Sentindo que tinha acabado de presenciar algum tipo de evento raro, fui para o caixa que tinha acabado de ficar livre.
Minha compra foi resolvida rapidamente. Como em um trabalho de linha de montagem, paguei imediatamente.
Agora eu só tenho que entregar isso para a Mei, aproveitar um sorvete no meu quarto... e relaxar pelo resto do dia. Enquanto fazia esses planos, saí da loja de conveniência.
“— Você é o Amemoto-kun, certo? O do primeiro ano.”
“Eh.”
Experiências de ter alguém esperando por você assim raramente acontecem na vida.
Como era a Watanuki-senpai, com quem eu tinha zero conexões, fiquei surpreso o suficiente para minhas pernas quase fraquejarem. Se eu não tivesse treinado para suprimir minhas emoções, teria agido de forma ainda mais suspeita.
“Isso mesmo, mas... aconteceu alguma coisa?”
“Eu sou Watanuki Rino, do segundo ano. Estudamos na mesma escola, mas me pergunto se você me conhece.”
Não, eu não conhecia você até hoje de manhã. E acabei de descobrir o seu primeiro nome agora mesmo.
Mas eu não sou tão ruim em medir a distância com um estranho a ponto de realmente dizer isso. Dei o meu melhor sorriso educado possível para Watanuki-senpai, que olhava para mim com uma certa ansiedade.
“Err, bem, eu ouvi boatos. Você é uma celebridade na escola, certo?”
Tinha uma colega de classe que parecia ser fã, então ela deve ser famosa. Se esse não fosse o caso, eu ficaria incrivelmente envergonhado — mas Watanuki-senpai assentiu. Que bom, eu estava certo. Por que agi como se soubesse, afinal?
“Celebridade é um exagero. Sei que costumo chamar um pouco de atenção. É por isso que quero que você mantenha em segredo que nos encontramos aqui hoje.”
“Ah, sim, sim. Entendi.”
Se espalhassem na escola que ela estava andando por aí a essa hora da noite para comprar uma quantidade massiva de energéticos, isso poderia causar problemas — ela parecia estar esperando por mim com base nesse julgamento.
“Você poderia... manter em segredo?”
“Sim, entendido. Não vou contar a ninguém. Na verdade, hum, tem uma coisa que eu queria perguntar também —”
Como você sabe o nome de Amemoto, o representante dos "calouros invisíveis"?
Antes que eu pudesse fazer essa pergunta, Watanuki-senpai desabou fracamente, dizendo: “Graças a Deus.” Um longo suspiro de alívio se dissolveu suavemente na rua residencial silenciosa.
“...Ugh, agora que a tensão sumiu, veio tudo de uma vez... Acho que estou passando mal...”
“Ehh? Você está bem? Consegue se mexer?”
“...Isso pode ser um pouco ruim... Parece que vou precisar descansar um pouco...”
No estacionamento vazio, uma bela senpai estava encolhida no chão, claramente em apuros.
Ao lado dela estavam duas sacolas que pareciam pesadas. E o sorvete para mim e para a Mei, derretendo aos poucos. O horário estava prestes a passar da meia-noite.
Isso é... uma emergência?
Enquanto eu ficava ali nervoso, a Senpai sorriu fracamente para mim.
“Ah, acho que acabei te causando problemas... Desculpe, provavelmente é anemia. Acontece raramente, então não se preocupe. Eu vou... descansar aqui.”
Watanuki-senpai cambaleou até se levantar e se agachou novamente perto do banner da loja de conveniência.
...Descansar aqui? Nesse clima frio? Ela não pode pedir para a família vir buscá-la? Não, isso é impossível, essa pessoa esqueceu o smartphone.
“Você precisa entrar em contato com a sua família? Posso te emprestar meu smartphone, se quiser.”
“Hum-hum... Eu saí de casa de mansinho... Não quero que eles descubram.”
A voz dela estava ficando gradualmente mais baixa, talvez devido ao seu estado. No entanto, eu conseguia ver uma determinação clara ali.
“Não se preocupe. Vou melhorar se descansar um pouco...”
Não, não, não. Pensando de forma realista, não posso simplesmente dizer “É mesmo? Então tá!” para uma senpai que está olhando para baixo e claramente indisposta.
Nesse caso, bem... acho que não tenho escolha.
A experiência me diz que quanto mais rápido você decide um curso de ação, melhor. Decidi seguir a opção que surgiu na minha cabeça.
“Hum. Pode ser presunção minha propor isso a uma senpai com quem tenho zero conexões, mas...”
“O que é?”
Peguei meu smartphone, liguei para a Mei e tentei entregá-lo para a Watanuki-senpai.
Seu rosto pálido e de traços perfeitos olhou para mim em sinal de dúvida. Sua mão trêmula se estendeu e pegou o aparelho, que esperava a chamada ser atendida.
“Minha casa fica a menos de dois minutos de caminhada daqui. Se você quiser, por que não descansa um pouco lá? Só para você saber, tenho uma irmã que está no mesmo ano que você, Watanuki-senpai.”
“Alô, alô-alô, o que foi? Ah, espera, deixa eu adivinhar, você esqueceu o sorvete favorito da sua irmã mais velha, né! Não precisa falar nada. Eu sou boazinha, então te digo quantas vezes você precisar ☆”
“Essa voz... É a Amemoto Mei-san da sala ao lado.”
“Quem-Quem está aí?! Que garota é essa?!”
A voz da Mei chegou até nós mesmo sem estar no viva-voz.
Se ela souber que tenho uma irmã tão animada, talvez sua guarda baixe. Mesmo sendo estudantes do ensino médio, um garoto convidar uma garota para sua casa tarde da noite não é algo bem-visto.
Mas eu não podia simplesmente deixar a Senpai, que respirava com dificuldade e com os ombros subindo e descendo assim, sob o céu frio.
“Isso pode ser apenas intromissão minha. Mas acho perigoso para uma mulher com a saúde debilitada ficar sozinha a essa hora da noite.”
“Hum, uh... Tem certeza absoluta?”
Ela pareceu preocupada e confirmou com olhos sérios.
“Sim. Se você se sentir desconfortável, pode recusar totalmente. Na verdade —”
“Es-espera, Touya, se explique! Eh, espera, essa é a conta do Touya, certo? O que isso significa? Um encontro à meia-noite enquanto faz um favor? ...Eu vou chorar, sabia? Primeiro, irei chorar porque não poderei comer sorvete, esse é o primeiro choro; o segundo choro é porque meu irmãozinho fofo tem uma namorada misteriosa, beleza?!”
“Na verdade, somos nós, irmãos, que podemos te causar problemas. Se você estiver de acordo com isso.”
“Fufu. Então, acho que vou aceitar sua oferta... Parece que vou precisar explicar as coisas para a sua irmã também.”
Watanuki-senpai deu um sorriso amargo para a Mei, que estava aumentando rapidamente seu mal-entendido, e decidiu descansar na minha casa.
Senti-me aliviado por minha proposta ousada ter sido aceita. Não demonstrei isso por fora, é claro.
“Então, vamos devagar. Eu levo as duas sacolas.”
“Sério? Isso ajuda... No meu estado atual, não acho que conseguiria carregá-las sozinha. Estou em apuros.”
Ela deu um sorriso fraco e descontraído. Era mais humano do que o sorriso perfeito que confirmei esta manhã. Honestamente, gosto mais deste.
A propósito. Eu mesmo sugeri, mas... será que eu consigo aguentar o peso dessas duas sacolas cheias de energéticos?
...Decidi estar preparado para, pelo menos, um ombro deslocado.
Havia um demônio logo na entrada quando abri a porta.
“Toouu-yaa?”
Uma voz baixa e questionadora veio da máscara de demônio da Mei (um item de piada para esconder seu rosto limpo).
“Hii...!”
Diante da máscara criando presas, a Senpai soltou um gritinho fofo e congelou.
Então, provavelmente por reflexo, ela se agarrou firmemente ao meu braço.
“Por queee será que, quando eu te peço um favor, você traz para casa logo a popular Watanuki-san? Se o pessoal da escola descobrir, vai ser um alvoroço enorme, sabia?”
“Eu acabei de compartilhar essa informação com você há alguns minutos. Intuitivamente, achei que seria melhor ela descansar aqui. Afinal, tenho uma irmã compreensiva em casa.”
“Não, tipo, eu entendo na minha cabeça... mas meu coração não consegue acompanhar... ou melhor, a sua tomada de decisão é louca como sempre... Antes de mais nada, o que é essa quantidade insana de energéticos?”
“...São para eu tomar quando estiver me esforçando muito.”
“Ehh, e se você desabar como daquela vez de novo! Eu não quero que você se atrase o tempo todo como antes, tá?”
“Está tudo bem. Pretendo conhecer meus próprios limites melhor do que ninguém. Não vou mais te preocupar, Mei.”
No entanto, minha irmã, sendo uma gyaru do tipo séria, disse: “Está pesado, né? Me dá uma”, e estendeu a mão com um olhar exasperado. Fiquei grato; se eu tivesse segurado por mais tempo, meu ombro direito estava prestes a saltar para fora.
Acabei contando uma mentira dolorosa, mas pelo menos consegui manter em segredo que aquelas eram as compras da Watanuki-senpai.
Essa foi a atitude certa, não foi? Quando olhei para a cúmplice do segredo, ela ainda estava pálida e se agachando fracamente.
“A-Amemoto-kun... por que a Mei-san está usando uma máscara de demônio... Fiquei um pouco surpresa com a entrada inesperada...”
“Ah, verdade. Mei, tira essa máscara e explica a situação. A Senpai está assustada.”
“De jeito nenhum, impossível, eu me recuso. Prefiro viver como um demônio a deixar alguém de fora da família ver meu rosto limpo.”
Não deixe de ser humana por um motivo desses. O que foi aquilo de você chorar as pitangas assistindo Demon Slayer no outro dia, então?
Eu acho que ela tem um rosto fofo mesmo sem maquiagem, no entanto. Isso não deve ser parcialidade de irmão. A Meroriru-san não disse que “a autoavaliação de garotas adolescentes é complicada”?
Mais importante do que isso, eu precisava focar na nossa convidada.
“Desculpe, Senpai, o demônio deu medo, não deu?... Mei, vai trocar por uma máscara mais fofa. Certifique-se de não aterrorizar mais a Watanuki-senpai.”
“Sim, senhor. Deve ter uma de garota mágica no armário! Vou lá procurar e trocar~.”
[Jeff: Que irmã doida é essa kkkk]
Mesmo estando em uma posição onde eu deveria ser mais atencioso, acabei causando um estresse mental desnecessário a ela. Preciso refletir sobre isso. Tenho que me manter focado.
“Pare, Amemoto-kun. Eu não estou exatamente aterrorizada. Só fiquei um pouco assustada. Eu realmente, realmente não estou com medo... Ugh...”
Isso é náusea? Ela está cobrindo a boca. Preciso preparar um saquinho de lixo para caso ela vomite também.
“Por favor, não se force. Mais importante do que isso, vamos descansar primeiro. O sofá da sala de estar é macio, então, por favor, use-o. Fica no fim deste corredor; você consegue se levantar?”
“...Eu não estou com medo... ser tratada como uma garota tão frágil... é a primeira vez na minha vida que isso ocorre...”
Deixando os energéticos na entrada por enquanto, ofereci apoio para os ombros da imóvel Watanuki-senpai.
Tentei não pensar na sensação singularmente macia e feminina que senti ao fazer isso. Porque esse tipo de pensamento não é bom em uma emergência.
◆ ◆ ◆
A sala de estar no meio da noite, com a TV desligada, estava silenciosa.
Graças à influência do meu pai minimalista, não há relógios de nenhum tipo em nossa casa. Então, no momento, os únicos sons que consigo ouvir são a minha respiração e a da Watanuki-senpai. A Mei está no quarto dela procurando uma máscara.
Watanuki-senpai agora está deitada no sofá que minha irmã estava ocupando até pouco tempo atrás. Ela está descansando em uma posição confortável.
Seus pés foram ligeiramente elevados por uma almofada do meu quarto. Estendendo-se dali estavam pernas de aparência saudável e shorts curtos inadequados para sair, os quais tentei manter fora da minha linha de visão o máximo possível...
Com cuidado, entreguei a ela um copo de água para não derramar.
“Como está se sentindo? Cerca de vinte minutos se passaram. Se sente melhor?”
A Senpai deu um gole na água e então sorriu suavemente.
“Sim, graças a você. A náusea passou agora.”
“Que bom ouvir isso. Então, sobre te levar para casa, eu irei te acompanhar, então —”
“Mais importante, por que você está usando algemas?”
Com um olhar confuso, a Senpai apontou para as algemas de plástico nos meus pulsos — um item de piada que eu tinha pegado emprestado da caixa de tranqueiras da Mei.
“Umm... Achei que causaria menos ansiedade se os meus movimentos estivessem restritos. Então só as coloquei por enquanto.”
“...Pffft, fufufu, ahahahaha!”
Eh, eu não estava tentando ser engraçado, mas foi um sucesso estrondoso. No sofá, a Senpai estava segurando a barriga de tanto rir, dobrando o corpo.
[Jeff: Pronto, a irmã e o prota têm um parafuso a menos kkkk]
“Se serve de consolo, você parece ainda mais suspeito assim, sabia? Fufufu, você deveria se olhar no espelho.”
“...Isso é verdade.”
Eu estava tão preocupado em não parecer um cara suspeito que acabei parecendo exatamente uma pessoa suspeita antes que percebesse. Isso é um quadro de comédia?
Nossa, de repente me senti envergonhado. Mei, esta não é a hora de ficar procurando uma máscara de garota mágica. Como irmã mais velha, por favor, impeça o comportamento exagerado do seu irmão de antemão...
“Fufu, desculpe por rir. Mas, de verdade, nesta situação, a essa altura — eu não acharia que você é suspeito, Amemoto-kun. Já não me sinto ansiosa há um bom tempo.”
Ainda contendo o riso, Watanuki-senpai se sentou enquanto cobria a boca. Seu cabelo preto levemente solto estava estranhamente atraente.
“Nossa, ver para crer, como dizem por aí. Você é um calouro muito mais encantador do que o que eu tinha ouvido falar, Amemoto Touya-kun.”
“Ah, certo, isso.”
A pergunta que eu queria fazer mesmo enquanto cuidava dela.
“Como você sabe o nome de alguém como eu? Além do meu sobrenome ser raro, não tenho nenhum traço marcante.”
“Não, você tem, não é? Um calouro do meu clube de arquearia falou de você uma vez. Disse que tem um colega de classe que é muito bom em jogos de FPS.”
“...Só por esse motivo você se lembrou de mim?”
“Sim, sim. Porque nós poderíamos acabar conversando alguma hora, certo? Eu guardei na memória.”
“Ehh...”
Recuei enquanto ainda usava as algemas. Não acho que eu esteja vestido de um jeito que me dê o direito de recuar, mas recuei.
Normalmente, não há necessidade de se lembrar de “um cara que é bom em jogos, que é conhecido de um calouro do clube”.
Memorizar um rosto junto com isso só porque “pode haver uma chance de conversar”... ela tem uma memória incrível ou algo assim?
Enquanto eu ficava impressionado, apesar de pego de surpresa, Watanuki-senpai se espreguiçou e se levantou.
“Amemoto-kun, obrigada por hoje. Graças a você, parece que vou conseguir chegar em segurança em casa. Eu me sentiria mal se ficasse mais tempo e causasse problemas para os seus pais, então acho que já vou indo.”
Meu pai está trabalhando longe de casa e minha mãe é enfermeira no turno da noite, então ela não precisa se preocupar com os pais, mas não há razão para explicar isso só para mantê-la aqui.
“Eu te acompanho até em casa. Embora tenha que ser depois que eu abrir essas algemas.”
“Está tudo bem, está tudo bem. Minha casa fica bem ali se eu for correndo. Confio na minha velocidade de corrida.”
Percebi tardiamente que aqueles shorts curtos de aparência fria eram feitos para correr. Ao contrário da Mei, que os usa porque são confortáveis.
“Eh, hum, tem certeza absoluta? Mesmo que esteja se sentindo cem por cento, não é perigoso...”
“Eu sei Aikido, então mesmo se eu trombar com um bandido, consigo fugir. Na verdade, sou bem forte, sabia?”
Ela me mostrou um rosto convencido e cheio de confiança. Mesmo assim, a impressão de uma “Senpai lamentável e frágil” ficou forte na minha mente... mas se o que ela diz for verdade, ela provavelmente é uma pessoa forte normalmente. O estado de hoje deve ser uma raridade.
“Não posso causar mais problemas para vocês dois. Eu já estou me sentindo melhor também. Não precisa se preocupar, posso ir para casa sozinha.”
“Se esse for o caso... entendido. O que faremos com os energéticos?”
“Eu venho buscar outro dia. Eu preciso deles. É constrangedor admitir, mas se eu não ficar acordada até tarde, não consigo dar conta de tudo.”
Pessoas populares têm problemas de pessoas populares; acho que é isso. Mesmo com o meu círculo de amigos raso e amplo, costumo perder o sono para manter as obrigações sociais, então deve ser ainda mais difícil para a Watanuki-senpai.
Colocando de volta seu casaco de silhueta larga, a Senpai colocou a mão na porta da sala de estar.
Dando meio passo à frente, ela ofereceu aquele sorriso perfeito — do tipo que ficava bonito não importa quantas vezes eu visse — e disse: “Desculpe a intromissão... Por favor, mande meus cumprimentos para a Mei-san — e também, eu te darei o meu 'obrigada' algum dia. Farei isso em um futuro próximo, ok?”
“Eh.”
O que exatamente seria esse obrigado?
Antes que eu pudesse perguntar, a porta da sala de estar se fechou. Eu fiquei curioso...
“Ta-daaa! A Garota Mágica Mei está aqui! Estava coberta de poeira, então tive dificuldades para encontrar. Vou punir a saúde debilitada da Watanuki-san ☆”
“Ela acabou de sair.”
“Ela já foi derrotada?! ...Eu fiquei toda empolgada porque ela é uma garota com quem não conversei muito. Chega disso. Vou comer sorvete e mimir.”
“Eu estava... nervoso também...”
Deixando para trás a palavra “obrigada” que me faz involuntariamente criar esperanças, e um perfume revigorante, o evento raro chamado “A Visita de uma Watanuki-senpai Debilitada” chegou ao fim.
◆ ◆ ◆
O que eu sempre lembrava nas noites de insônia era os acontecimentos passados.
Por exemplo, o inverno de dois anos atrás. Eu ficava deitado no chão do meu próprio quarto como um brinquedo com as pilhas descarregadas.
O “calor” — aquele impulso — que costumava me empurrar para frente havia sumido... e eu não queria fazer nada.
Depois que mudamos de casa, eu não tinha vontade de frequentar minha nova escola de ensino fundamental. Mesmo que eu tivesse conseguido ir à minha escola anterior com o mínimo necessário de presença, apesar de me atrasar com frequência.
Encarando meu smartphone no chão frio de madeira — meus dias de vadiagem autopunitiva. Não importa o quanto eu ansiasse pelo conforto da minha cama, eu não saía do chão gelado.
Eu me nutria apenas com os suplementos que havia estocado, continuando com fome... e por me banhar em excesso de luz azul, até o sono era difícil de vir. Uma vida sem distinção entre o dia e a noite. Eu só saía do meu quarto para ir ao banheiro; era anti-higiênico.
Rejeitando até mesmo a minha família preocupada, eu repetia esses dias desandados.
Porque, embora eu tivesse apostado toda a minha existência nos jogos de FPS que tanto amava — as pontas dos meus dedos não conseguiram sequer alcançar o sonho. Era uma punição para o meu eu fraco e miserável.
“Touya... Ei, me deixa entrar, por favor! Pelo menos não bloqueia a porta...!”
A voz chorosa da minha irmã ecoava do outro lado da porta. Tirei meus fones de ouvido, forçando-me a escutar aquilo de frente. Incluindo a reação da minha família, tudo isso era pecado meu. Até que o saldo negativo que eu carregava voltasse a zero, eu não poderia encará-los.
Eu não tinha permissão para sair até que minha expiação estivesse completa.
[Jeff: ‘Expiação’ ato de reparar uma culpa, falha ou crime por meio de sofrimento ou penitência.]
— Então, quando essa expiação terminaria?
“Ei, se você continuar levando uma vida assim, Touya, você vai acabar se quebrando ainda mais...”
Era um fato que as minhas omoplatas doíam para caramba porque eu estava sempre deitado no chão. Minha bacia e a região lombar gritavam constantemente. Eu costumava pensar, como se fosse o problema de outra pessoa: “Cara, meu físico é fraco”.
“Você está dormindo no chão de novo, não está?... ...Eu só vou deixar isso aqui na frente da porta hoje.”
Palavras gentis, porém desesperadas. Ela provavelmente preparou minha comida favorita de novo hoje... mesmo sabendo que eu não tocaria nela.
Senti a Mei se afastando. Eu precisava usar o banheiro, então saí de fininho do quarto para não ser pego.
Colocada em frente à porta estava uma almofada novinha em folha. Era uma bem fofa daquela marca famosa. A Mei, que era gastadora e estava sempre sem dinheiro, tinha comprado aquilo de presente para mim (soube mais tarde que ela havia economizado sua mesada).
A gentileza que não cessava mesmo quando rejeitada era, na verdade, assustadora, e eu não podia simplesmente ignorá-la... Peguei-a com as pontas dos dedos como se estivesse segurando material perigoso e a coloquei no centro do meu quarto escuro. Então, receoso, tentei deitá-la sob as minhas costas —
“...O que é isso?”
A sensação foi simples e puramente boa. A dor diminuiu, e me senti apenas um pouquinho mais leve.
O saldo negativo inapagável inclinou-se em direção ao zero pela primeira vez.
Ah, é disso que o meu eu pecador precisa... pensei. Eu não deveria estar me machucando; tenho que ser gentil comigo mesmo...
O importante é ser curado. Viver com calma, tanto no corpo quanto na mente. Esse é o único meio pelo qual posso deixar este quarto.
Imediatamente comecei a pesquisar sobre relaxamento. Desde autoterapia até os mecanismos do sistema nervoso autônomo — absorvi tudo. Primeiro, apenas para que eu pudesse sair do meu quarto e agradecer à Mei.
Depois daquela experiência dramática, gradualmente me tornei capaz de me mover novamente. Quando finalmente consegui sair, acho que nunca esquecerei o calor da Mei me abraçando enquanto chorava, até o dia da minha morte.
Dois anos se passaram desde então.
Mesmo com o meu sonho despedaçado e aquele “calor” tendo esfriado, eu estava conseguindo funcionar. Apesar de um passado daqueles, estou levando uma vida escolar calma e dita normal.
Eu queria reduzir os meus atrasos o máximo possível, no entanto. Depois do encontro inesperado com a Watanuki-senpai, eu realmente precisava dormir um pouco...
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