Capítulo 09.5 — 1 Variável
Capítulo 09.5 — 1 Variável
[Algures no Oceano Escarlate]
A névoa de sangue tornava-se cada vez mais densa e opressiva à medida que o pequeno barco dos gêmeos Nel penetrava no coração geográfico daquele domínio líquido. O Oceano Escarlate não era apenas uma massa de água; era o segundo maior oceano de toda a Dimensão Amarela, uma vastidão indomável localizada no extremo noroeste. Ele servia como a fronteira absoluta e o abismo de separação entre os continentes Norte e Sudoeste, onde se situavam, respectivamente, o Reino dos Hyems e o domínio dos Lihyfs.
Aquele oceano era lendário, envolto em superstições e medo, devido à bruma avermelhada que pairava eternamente sobre as ondas. Tratava-se de uma névoa antinatural que nem mesmo o mais poderoso Feitiço de Dissipação já concebido pela alta Feitiçaria fora capaz de afastar. Historiadores e alquimistas debatiam há milênios sobre a origem desse fenômeno: seria o resto de uma batalha entre deuses ou o suspiro de uma besta colossal adormecida nas profundezas? O segredo permanecia guardado pelas águas.
Para um navegador comum, o caminho à frente estaria completamente obstruído, um convite ao naufrágio e ao esquecimento. Contudo, para qualquer Hyem que tivesse despertado seu potencial ocular, a névoa era apenas uma formalidade estética. Através de suas íris místicas, os irmãos Nel enxergavam as correntes marítimas e os obstáculos como se o ar estivesse límpido sob o sol do meio-dia.
Após algum tempo de navegação silenciosa, a silhueta de um gigante emergiu da bruma. Diante deles, surgiu um enorme Galeão de madeira escura e maciça, cujo nome, “Liberdade”, estava entalhado com letras brancas na proa. Kramustek observou a embarcação com um misto de respeito e cautela. Os inúmeros canhões giravam em seus eixos, vigiando o horizonte em todas as direções. No mastro principal, uma bandeira preta de tecido pesado ondulava contra o vento úmido, exibindo a imagem de uma caveira com machados cruzados ao fundo.
O pequeno barco dos gêmeos aproximou-se timidamente do casco monumental do galeão. Kramustek soltou um assobio agudo e rítmico. Em resposta, uma escada de cordas foi lançada do convés superior, acompanhada por cabos reforçados que os irmãos amarraram à sua pequena embarcação para que esta fosse içada.
Ao pisarem no convés do “Liberdade”, foram recebidos pelo burburinho da tripulação. Duas mulheres Hyems, cujas feições guardavam semelhanças com as deles, aproximaram-se para recebê-los com abraços calorosos e beijos, um breve momento de ternura em meio à austeridade da missão. Em contraste com a magnitude do navio, a tripulação era seleta e diversificada: composta por dois casais de Hyems, dois casais de Lihyfs acompanhados por uma criança de olhar curioso, e o restante formado por humanos negros — sete mulheres e treze homens de porte atlético e cicatrizes que narravam batalhas passadas.
Deixando o burburinho para trás, os gêmeos dirigiram-se à cabine principal. O ambiente ali era mal iluminado, cheirando a pergaminho antigo e maresia.
— Conseguiram? — Uma voz grave e profunda reverberou pelas paredes assim que a porta foi selada.
Diante dos irmãos, envolta em sombras, estava uma silhueta escura. Os únicos pontos de luz eram os seus olhos azuis, incrivelmente brilhantes, que cintilavam com a intensidade de estrelas em uma noite sem lua.
— Os Barbatanas Douradas já podem ser riscados da lista, capitão — respondeu Kramustek, depositando um relatório verbal. A silhueta pareceu inclinar-se ligeiramente, e um sorriso genuíno de esperança e alegria pôde ser sentido, mesmo que não estivesse totalmente visível.
— Bom, muito bom — animou-se a voz. — Agora restam apenas três elementos em nossa lista de busca.
— Será uma tarefa árdua encontrá-los na Dimensão Amarela, capitão — ponderou Kramustek, sua voz carregada de realismo. — Talvez impossível.
— Eu sei. E é precisamente por isso que irei enviá-los para “aquele lugar” assim que localizarmos uma entrada estável — respondeu o Capitão, com uma nota de ansiedade que não tentou esconder.
— Há mais um detalhe, capitão — interrompeu Morstek, o tom subitamente mais sério. — Conhecemos uma menininha hoje.
— Uma menina?
— Ela é… interessante — acrescentou Morstek, escolhendo o adjetivo com precisão cirúrgica.
— Explique-se.
— É complexo explicar. Tudo o que posso dizer é que a alma dela é turbulenta, mas estranhamente calma — tentou definir Morstek, embora as palavras parecessem insuficientes para descrever o que vira. — O que quero dizer é que ela representa uma variável em nossos planos. Algo desconhecido, imprevisível e… perigoso.
— Uma criança? — O Capitão pareceu mergulhar em reflexão. — Diga-me, Morstek, por que falar dela agora?
— Julgo que talvez ela se transforme em uma ameaça aos nossos objetivos… caso cresça — declarou Morstek.
Kramustek arregalou os olhos, encarando o irmão com absoluta descrença.
— O que está sugerindo, Morstek? — indagou Kramustek, a voz carregada de uma solenidade extrema. — Estamos falando de uma criança. Você realmente cogita agir contra alguém que mal começou a viver?
Morstek não respondeu. Manteve o olhar fixo na silhueta do Capitão, aguardando o veredito. O silêncio na cabine tornou-se pesado, apenas interrompido pelo ranger das madeiras do galeão.
— Bem… você tem certa razão, Morstek — começou o Capitão, após o que pareceu uma eternidade. — Uma variável não calculada nesta fase do projeto pode ser… catastrófica. — Ele fez uma pausa, pesando as probabilidades em uma balança invisível. — Contudo, seria uma traição aos nossos próprios princípios fazer o que você sugere. A garotinha nada fez contra nós, afinal. Qual o nome dela?
— Vaiola — respondeu Morstek. — Vaiola Hermis.
— Hermês? Você disse Hermês? — O Capitão reagiu com uma agitação súbita, quase como se tivesse levado um choque elétrico.
— É Hermis, capitão — corrigiu Kramustek, confuso com a reação desproporcional. Ele teria jurado que a silhueta deu um sobressalto na escuridão.
— Hmmmm… — O Capitão virou-se de costas, observando os mapas estendidos sobre a mesa de carvalho. — Pois bem. Mantenham Vaiola Hermis sob vigilância discreta enquanto nossos planos não se concretizam. Mas ouçam bem: não devem tocar em um único fio de cabelo dela, a menos que ela se coloque ativamente em nosso caminho.
— Compreendido, capitão — assentiu Kramustek, aliviado pela sensatez do líder.
— Sendo assim, acho que só me resta dar um passeio para esfriar a cabeça — finalizou Morstek, com um sorriso que mesclava insanidade e uma profunda frustração.
E foi assim, naquele dia — o sexto do sexto mês do ano dois mil duzentos e cinquenta e seis da Era do Recomeço — que os fios do destino de dois dos grandes protagonistas deste mundo se entrelaçaram pela primeira vez.
O que será que eles fariam se soubessem que seus caminhos ainda se cruzariam inúmeras vezes sob circunstâncias muito mais sangrentas?
Hohoho! já estou curioso. Quem acabará por matar quem? Ou será que, contra todas as probabilidades, eles se tornarão aliados depois de tudo?