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Capítulo 10 — 1 Profecia (1/3)

A Cavaleira De Preto — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 10 — 1 Profecia (1/3)

[Dois Meses Antes]

[Extremo Leste de Remis: Condado Helmet]

A manhã chegou turbulenta naquele dia, carregada por um sentimento de urgência que parecia atravessar as grossas paredes de pedra do castelo.

Os gritos da condessa ecoaram por todos os cantos, atravessando corredores e despertando servos e nobres muito antes de o sol nascer no horizonte de Remis. No quarto luxuoso, cercada por tecidos caros, ela se contorcia de dor na cama, o rosto pálido e coberto por uma fina camada de suor.

Seu esposo, o conde, não escondeu a impaciência e a preocupação. Com um tom de voz ríspido e autoritário, ele ordenou a um dos seus vários escravos para que fosse logo chamar uma Bruxa Curandeira. Sua esposa estava grávida, afinal, e o destino daquela linhagem dependia do que estava para acontecer.

Logo, a Bruxa solicitada chegou. Ela trazia consigo o cheiro de ervas secas e terra, caminhando apressadamente enquanto se dirigia aos aposentos dos condes. Lá dentro, o cenário era de puro tormento; a condessa ainda ofegava e se remexia como uma cobra na cama, de tanto que sentia dores que pareciam rasgar seu ventre. Depois de realizar uma minuciosa análise, observando o pulso e a respiração da nobre, a Bruxa Curandeira sorriu sem qualquer sinal de preocupação e acalmou a condessa.

— Não há nada de errado com o bebê, senhora — informou. —, as dores são apenas o seu filho agitando-se, com pressa de vir ao mundo.

— “Meu filho”? Então…? — a condessa sussurrou, buscando uma confirmação no olhar da velha.

— Sim, Condessa. Será UM forte e abençoado menino. — Foi o que a Bruxa Curandeira disse naquele dia, contudo…

[Atualmente]

Era a noite do sexto dia do sexto mês do dois milésimo ducentésimo quinquagésimo sexto ano da quarta Época, a Era do Recomeço.

Era fácil confundir aquela noite com o dia mais iluminado que o mundo já vira. O firmamento parecia ter sido transformado em um tapete de joias vivas; as estrelas eram o centro de todas as atenções, brilhando com uma intensidade tão agressiva e majestosa como nunca antes tinham brilhado. A luz era tamanha que não sobrava espaço nem mesmo para as duas luas aparecerem; elas jaziam apagadas, meras sombras sob o domínio estelar.

O brilho das estrelas talvez não devesse ser definido meramente como “brilho”, já que era tão ofuscante que chegava perto de rivalizar com a luz do próprio sol. Aquelas luzes distantes tornavam-se ainda mais lindas e atraentes sob aquele tecido nebuloso que eram os céus, criando desenhos e formas que pareciam pulsar em um ritmo próprio.

Mesmo quando a luz causava uma leve irritação aos olhos, ninguém conseguia desviar o olhar depois de encarar aquelas estrelas uma única vez. Elas funcionavam como um imã místico, uma força silenciosa que carregava a capacidade de seduzir qualquer alma que ousasse olhar para cima.

Todos tinham uma certeza absoluta em seus corações: aquele era um evento único na história. Por conta disso, ninguém se importou com obrigações, sono ou cansaço; as pessoas apenas ficaram paradas, inundando as ruas de pedra e os campos abertos, com as cabeças levantadas para encarar aquela beleza sem igual. Todos olhavam fixamente, tentando manter cada detalhe daquela iluminação gravado na mente para sempre.

Nada ofuscava a luz das estrelas, absolutamente nada. O céu era de um vácuo limpo; não havia nuvem nenhuma nos céus, nenhuma bruma que ousasse se interpor entre os homens e o cosmos. Em terra, até a natureza parecia ter recuado; não havia árvore nenhuma que ousasse bloquear a visão daqueles que queriam vislumbrar o espetáculo. A situação era tão extraordinária que até mesmo a pesada e sangrenta névoa sobre o Oceano Escarlate tinha desaparecido, misteriosamente, sem deixar nenhum rastro, revelando águas que ninguém via há séculos.

Todo o protagonismo celeste, naquele dia, tinha sido cedido unicamente às estrelas. Era como se algum ser além da transcendência, um arquiteto do destino, tivesse planejado meticulosamente que aquele dia fosse reservado apenas para elas e seu brilho soberano.

O silêncio que se seguiu era sepulcral. Os ventos não eram escutados, não importava o quão ferozes estivessem soprando nas grandes altitudes. Nem os mares, conhecidos por suas grandes ondas e o barulho do arrebentamento, faziam qualquer som. Até mesmo os animais, dos predadores aos pássaros noturnos, permaneciam em um silêncio absoluto.

Tudo estava cooperando de forma perfeita para garantir que nada, absolutamente nada, roubasse o protagonismo das estrelas lá no céu.

Debaixo daquele clima fresco e estranho, caracterizado por frentes suavemente calorosas e, ao mesmo tempo, levemente frias que arrepiavam a pele, à sudeste da província de Remis, no condado de Helmet, no império Humano, o momento mais esperado por todos ali tinha finalmente chegado. O filho dos condes nasceria sob o olhar atento do universo.

Mas, antes de partirmos para o castelo e seus rituais de nobreza, devemos nos aproximar de uma pequena palhota localizada na área destinada aos escravos, à sudoeste do castelo principal. Ali, a realidade era outra.

Inúmeras outras palhotas de barro e palha seca formavam várias fileiras organizadas por uma vasta área de, talvez, setecentos e cinquenta metros quadrados. Era um terreno retangular, cercado por uma atmosfera de cansaço e resignação.

Se alguém olhasse de longe e não soubesse ao certo o que acontecia ali, seria fácil confundir aquele lugar com um pequeno e pacato povoado.

— Ghmmm…

Uma anciã grunhiu dentro da palhota em questão. O som foi baixo, quase um sussurro, e seus olhos fechados sugeriam que ela estava mergulhada em uma meditação profunda e perigosa, buscando respostas onde poucos ousariam procurar.

Sua cabeça careca estava um tanto curvada, revelando o couro cabeludo marcado pelo sol. Um cocar de penas pretas e vermelhas adornava-a, dando à velha mulher um tom místico e imponente quando associado às suas vestes rústicas de couro animal — consistindo apenas em um top, um pequeno manto sobre os ombros e uma saia curta —, que continha ainda algum pêlo áspero.

A pele preta dela reluzia sob o suor que escorria, refletindo o brilho trêmulo das quinze velas que iluminavam o ambiente pequeno.

As velas estavam dispostas em uma geometria sagrada: cinco velas formavam um pentágono exterior, que cercava o heptágono formado por outras sete, e, bem no centro de tudo, outras três velas formavam um triângulo perfeito.

Shiik! Shiik! Shiik!

Seus braços balançavam para cima e para baixo com uma cadência hipnótica. Ela realizava movimentos sincronizados com as mãos unidas, que prendiam algo lá dentro, produzindo um ruído seco que preenchia o silêncio da palhota.

— Hmmm…

O som repentino saiu de seus lábios e suas mãos separaram-se bruscamente, libertando sobre a pequena esteira de palha o que ela agitava com tanto fervor.

Ela se mexeu de leve para se sentar melhor na esteira desgastada e observou com atenção os pedaços de ossos amarelados e as conchas brancas que acabava de jogar. O arranjo parecia aleatório para qualquer leigo, mas para ela, eram letras de um alfabeto esquecido.

— Hmmm…

A mulher tinha a íris do olho direito totalmente branca, uma névoa leitosa que indicava que ela era cega de um olho. No entanto, o olho esquerdo via perfeitamente, brilhando com uma lucidez assustadora. Suas mãos flutuavam acima dos ossos e conchas que ela jogou, movendo-se em círculos lentos, sentindo a energia emanada pelos objetos.

— Haah! — Respirou profundamente, relaxando cada célula de seu corpo exausto, e tirou as mãos da frente para finalmente ler o que o destino havia lançado. Seu rosto se contorceu na mesma hora em uma careta de dúvida, realçando as suas rugas profundas como fendas na terra.

— Não! Isto não está certo — murmurou para si mesma, a voz rouca.

As conchas e os ossos estavam espalhados em sua frente, formando um padrão confuso. Mas havia um par que se destacava mais que todos os outros: um osso pequeno e uma concha espiralada. O que chamou mais atenção foi o fato de terem se separado drasticamente dos demais, isolando-se no canto da esteira.

— Hmm…

A anciã não pensou muito depois daquilo. Com um movimento rápido, recolheu os ossos e as conchas, fechando-os novamente entre as mãos seladas.

Shiik! Shiik! Shiik!

— Hmm…

Ela lançou os ossos e as conchas novamente, com mais força desta vez.

— Parece que perdi o jeito. — Seus ombros caíram pesadamente, um suspiro de cansaço escapou e sua cabeça tombou para frente. A frustração pesava em seu peito como uma pedra. — O que isso significa?

Assim como antes, o resultado se repetiu de forma idêntica: o pequeno osso e a pequena concha jaziam em frente dela, longe do grupo principal. Era impossível para ela esconder a preocupação crescente diante daquele resultado que ela não conseguia decifrar, algo que desafiava seu conhecimento.

“Uma vez é falta de prática, duas é coincidência, mas três… três vezes é o destino.”

Ela voltou a recolher as conchas e os ossos com dedos trêmulos. Agitou-os mais uma vez entre as mãos, sentindo o calor das peças, até que…

— XAMÃ!!

O corpo da anciã tremeu repentinamente. Foi um solavanco violento, apenas uma única vez, mas o suficiente para enviar um arrepio gélido por sua espinha e obrigá-la a abrir as mãos por puro reflexo. Os pedaços de ossos e conchas caíram ruidosamente na esteira de palha.

— I-isso é… — Os olhos dela arregalaram-se, viajando freneticamente pelos ossos e pelas conchas dispostas. O suor em sua pele ficou ainda mais notável sob a luz das velas e seu corpo não parava de tremer.

Ela estava conseguindo ver… O padrão agora era inegável. Vendo aquelas conchas agrupadas atrás de uma concha solitária, como soldados disciplinados à espera dos comandos de seu líder, assim como inúmeros ossos formando um arco perfeito na frente de um osso solitário, como um exército de elite protegendo o seu rei. Vendo aqueles dois grupos frente a frente, como dois exércitos opostos em um campo de guerra definitivo, a anciã congelou. Ela conseguia ver através do tempo… ela conseguia decifrar o amanhã.

— Guerra…! — murmurou, ainda em choque, sentindo o peso da revelação.

Tudo o que ela viu através daqueles objetos não foram apenas conflitos comuns. Viu dois lados opostos nascidos da mesma fonte original e… ANIQUILAÇÃO!!

ANIQUILAÇÃO TOTAL E COMPLETA!!