Capítulo 11 — 1 Profecia (2/3)
Capítulo 11 — 1 Profecia (2/3)
— XAMÃ!!
A voz que antes clamava do lado de fora soou agora com um desespero ainda mais cortante, rasgando o silêncio denso da palhota e arrancando de imediato a anciã do seu transe profético. O eco do grito pareceu vibrar nas paredes de barro, dispersando as imagens de guerra que ainda nublavam a mente da velha mulher.
— XAMÃ, POR FAVOR, SE APRESSE! A CONDESSA… precisa de ajuda.
— Estou indo. — A anciã respondeu simplesmente, sua voz saindo rouca e firme apenas um segundo depois de se recuperar dos acontecimentos perturbadores de antes.
Com um movimento mecânico e urgente, ela ignorou o arranjo fatídico sobre a esteira; não demorou para esquecer os ossos e as conchas, priorizando a vida que clamava por sua perícia.
Já sabendo exatamente qual deveria ser a natureza da emergência, visto que se tratava da gravidez de risco da Condessa, a anciã levantou-se com uma agilidade que desafiava sua idade. Nem sequer deu a si mesma o tempo de apagar as velas que formavam os polígonos místicos no chão; apenas girou sobre os calcanhares e foi em direção à saída.
— Vamos rápido! — exclamou a mulher negra que viera buscá-la. Marta, a jovem escrava, também não tinha cabelos e vestia roupas simples de couro que deixavam transparecer sua tensão muscular. Seus olhos estavam arregalados, refletindo o brilho das estrelas que inundavam o pátio externo.
As duas saíram sem demora para a noite excessivamente iluminada. A anciã deixou para trás o seu cocar de penas, que caiu suavemente sobre o chão de terra, e a porta de madeira e palha da palhota fechou-se logo em seguida, isolando o interior do mundo exterior.
Foi então que uma risada gélida e desarmônica reverberou no interior da palhota agora “vazia”.
— Kukukukukekeke!!! — As chamas das quinze velas, que antes lutavam contra a escuridão, apagaram-se todas de uma só vez, como se uma mão invisível as tivesse esmagado. Uma voz sinistra, carregada de um terror ancestral e uma insanidade vibrante, soou no breu absoluto. — Quase que aquela velha viu mais do que devia.
Repentinamente, no centro da palhota, a própria escuridão começou a se comportar como se fosse líquida. O chão pareceu derreter, contorcendo-se com uma violência silenciosa, formando um vórtice similar a um redemoinho de sombras… não! Dois vórtices distintos surgiram, girando em sentidos opostos.
Logo, os dois redemoinhos de trevas aquietaram-se e, do fundo daquela escuridão abissal, abriram-se dois olhos vermelhos. Eles não eram opacos; brilhavam com uma intensidade que rivalizava com as estrelas lá fora. O brilho carmesim daqueles globos era tão poderoso que chegava a banhar as paredes de barro com um tom de sangue, iluminando boa parte do interior da pequena habitação.
— Vocês não gostariam de receber spoilers tão cedo, né não? Kukukukukekekeke!!! — As trevas acumularam-se sobre a esteira de palha, onde os instrumentos da Xamã ainda jaziam. A sombra contorceu-se e ganhou volume, formando um braço longo, cadavérico e desproporcional, conectado a uma mão nebulosa com garras negras e enormes. — Está na hora do verdadeiro protagonista desta história nascer.
A voz do ser era uma cacofonia insuportável, assemelhando-se a uma frequência de rádio com problemas técnicos graves, onde parecia que inúmeros demônios falavam simultaneamente, sobrepondo-se uns aos outros.
A mão feita de trevas puras deslizou pela esteira, deixando para trás uma trilha de névoa preta que sufocava o cheiro das ervas secas. Seu dedo indicador, terminando em uma garra afiada, esticou-se e tocou no osso principal, aquele que era “protegido” pelo arco dos demais.
— “Osso principal”? Sério Narrador? Podia ao menos chamá-lo “Osso Profético”, né não?
…
— Kukukukekeke!! Não vai nem me responder? Você não muda mesmo, né não!?! Bem, vamos logo ao que interessa.
— Seja bem-vindo de volta, Primordial!!
Assim que as palavras foram proferidas, o osso tocado pela garra nebulosa foi instantaneamente consumido pelas trevas. A cor branca e calcária desapareceu, tornando-se um objeto totalmente preto, opaco e denso como um buraco negro. Após aquela sentença final, a palhota foi totalmente consumida por um silêncio absoluto e vazio.
Inconscientes do horror sobrenatural que se manifestara em sua moradia, a Xamã e a jovem Marta corriam pelos corredores de pedra do castelo de Helmet. O ambiente era luxuoso, mas opressivo, iluminado por candeeiros de metal trabalhado cheios de cristais luminosos vermelhos. A luz emitida por essas pedras mágicas dava um ar crepuscular e sangrento às paredes, projetando sombras longas que pareciam perseguir as duas mulheres.
Elas subiram rapidamente os lances de escada em caracol até alcançarem o segundo andar. Ali, a arquitetura permitia que a luz anormal das estrelas se infiltrasse pelas janelas altas, misturando o azul prateado do céu com o vermelho dos cristais internos.
Não precisaram aproximar-se muito do quarto principal, que era rigorosamente protegido por dois soldados armados e de armaduras polidas, para escutar os gemidos e grunhidos de dor lancinante. A Condessa, protegida por aqueles aposentos de carvalho e seda, parecia estar atravessando um calvário, ofegando de forma rítmica e desesperada, uma vez após a outra.
— Senhor, a parteira! — gritou um dos guardas, batendo com a base da lança no chão antes de abrir as portas pesadas e permitir a entrada das duas escravas.
Quem entrou primeiro foi Marta, a escrava que buscara a anciã. Ela sentiu o peso da atmosfera carregada e imediatamente se curvou ao contornar a pesada cortina de veludo que isolava o leito. Ao guiar a Xamã para dentro, viu o homem que dominava a cena: o Conde de Helmet segurava com uma força quase bruta a mão da esposa, que se contorcia freneticamente sobre os lençóis.
— Por que demoraram tanto!!? — O homem gritou da beira da cama, sua face se contorcendo em uma máscara de ansiedade, preocupação, medo e uma raiva latente que buscava um alvo. — É meu filho quem vai nascer e vocês ousam levar todo esse tempo!!!
— Perdão, conde — a anciã respondeu, curvando o corpo em sinal de submissão profunda. — As nossas palhotas estão demasiado distantes e o caminho…
Plam!!
O som do impacto foi seco e violento.
— Não quero saber!! — O homem de pele branca, cabelos loiros impecáveis e olhos verdes gélidos rosnou para a Xamã. Ele a esbofeteou com as costas da mão direita, uma mão pesada e adornada com anéis de ouro e pedras preciosas em cada dedo. — E é melhor que o meu filho nasça saudável, ou esse será o vosso último dia de vida.
A bochecha da anciã foi tingida por um vermelho vivo imediatamente após o golpe; um hematoma feio começou a inchar sob a pele escura, e o canto direito de seus lábios partiu-se, expelindo um filete de sangue. Contudo, nem ela nem Marta ousaram protestar. Apenas responderam com um aceno positivo de cabeça e permaneceram curvadas enquanto o nobre, impaciente e furioso, se retirava do quarto.
O que se seguiu foi um pesadelo de gritos e mais gritos. A Condessa tentava com todas as suas forças restantes expulsar a criança de seu ventre, mas o esforço parecia em vão. Ela cravava os dedos com força descomunal na estrutura da cama, os nós dos dedos brancos, enquanto seu corpo ficava totalmente encharcado por um suor frio e pegajoso.
Após trinta minutos de agonia contínua, a Xamã e Marta trocaram um olhar rápido. Suas sobrancelhas estavam caídas e as expressões carregadas de um peso sombrio. Contrariamente ao processo natural de um parto, a genitália da mulher não estava expelindo o bebê; em vez disso, jorrava sangue e mais sangue, transformando os caros lençóis brancos em um mar vermelho e viscoso.
Quando uma hora se completou, a Condessa de cabelos ruivos perdeu totalmente a consciência. Suas forças se esvaíram e ela desmaiou sobre os travesseiros, incapaz de continuar o trabalho de parto.
Preocupada e trêmula, Marta perguntava-se em silêncio se o bebê teria morrido asfixiado no ventre da mãe, mas a Xamã mantinha uma expressão de convicção absoluta. Ela fechou o único olho funcional e estendeu a mão sobre o ventre dilatado; sentia uma vida pulsando ali dentro… ou melhor, sentia algo vibrando com uma intensidade fora do comum.
Sem perder mais tempo, a anciã agiu. Aqueceu uma faca de metal cirúrgico usando a chama de uma vela próxima e, com mãos que não tremiam apesar do hematoma no rosto, abriu o ventre da mulher desfalecida para extrair a criança.
BADHUMM!!
Os corações das duas escravas pareceram falhar em uníssono. Seus olhos arregalaram-se tanto que as escleras brancas ficaram totalmente visíveis. Elas cambalearam um passo para trás, chocadas, quase esquecendo que o ar precisava entrar em seus pulmões.
Três surpresas monumentais as aguardavam naquele corte.
O primeiro choque vinha do fato de que a realidade havia desafiado a previsão da Bruxa Curandeira, algo considerado impossível naquelas terras. Não era apenas uma criança que emergia do ventre ensanguentado; eram dois meninos, dois gêmeos nada parecidos.
“Como pode? Nunca uma Bruxa Curandeira falhou nisso.” — Marta pensou, sentindo um calafrio percorrer seu corpo.
O segundo assombro manifestou-se quando a razão técnica da falha no parto normal ficou clara. Os dois bebês, os gêmeos tão distintos, nasceram enrolados um ao outro pelos seus cordões umbilicais, criando um nó complexo de carne e sangue. À primeira vista, parecia que estavam em um abraço fraterno, mas bastava um olhar mais atento para perceber…
“E-eles estavam… lutando?” — A percepção cruzou a mente da Xamã como um raio. Eles não se abraçavam por amor, mas sim em uma disputa por espaço e primazia desde o útero.
O terceiro abalo, contudo, foi o que mais causou estranheza e um medo irracional nas duas mulheres. Os Condes de Helmet eram ambos de pele alva como a neve e linhagem puramente caucasiana, mas, desafiando todas as leis da natureza e da linhagem sanguínea
… um dos bebês nascera negro.