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Capítulo 12 — 1 Profecia (3/3)

A Cavaleira De Preto — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 12 — 1 Profecia (3/3)

[Sudoeste do Continente Sudoeste: Damis]

A luz e o calor confortável do sol daquela manhã iluminavam lindamente aquela floresta, dando vida às árvores colossais e a todas as outras criaturas que pela floresta perambulavam. O ar carregava um frescor úmido, misturado ao perfume doce de flores silvestres que se abriam para receber o novo dia.

A grama no chão brilhava com um verde vibrante, preenchendo todo o chão daquela floresta como um mar de esmeraldas, repondo-se e erguendo-se com vigor sempre que alguma besta selvagem passava por cima dela, apagando quaisquer rastros de destruição.

Havia pássaros de plumagens exóticas voando pelas copas das árvores, lançando cantorias similares a vários sinos com diferentes tons, o que criava uma sinfonia rica e harmoniosa, linda de se ouvir. Era uma sinfonia que acalmava a alma e fazia o tempo parecer andar mais devagar. Os pássaros não ficavam parados por muito tempo; pulavam de galho em galho pelas árvores ancestrais, acompanhando com curiosidade aquela que caminhava pelo chão.

As raízes das árvores que espreitavam a superfície da terra se estendiam de forma inteligente para se conectar umas às outras e formar uma espécie de passadeira natural, garantindo que aquela que caminhava não pisoteasse a grama sagrada. Aquela mulher não suportaria se uma única planta morresse por culpa dela, afinal.

Ela, uma Lihyf, não conseguia manter os seus olhos dourados como ouro — que aprisionavam um trevo azul de quatro folhas no centro — num só lugar. Apreciava cada detalhe daquela floresta como se fosse a sua primeira vez ali, embora ela já tivesse mais de sete mil anos de idade; ou seja, já tinha estado naquele exato caminho muitas, muitas vezes ao longo dos milênios.

Sua pele verde-clara reluzia com um brilho suave sempre que a luz do sol se chocava contra ela através das frestas na copa. Levantou sua cabeça para o alto, onde as folhas densas filtravam a luz solar, criando uma ilusão bela e hipnotizante, como se o céu estrelado estivesse tão perto que pudesse ser tocado. Os cabelos verde-escuros, que alcançavam as suas nádegas em ondas suaves, não balançavam com perfeição ao vento, já que estavam pesados e cobertos por lindas flores roxas de quatro pétalas. Aquelas flores tinham crescido ali para mostrar a todos que ela já era maior de idade, tendo ultrapassado os seus 200 anos.

Nos ombros dela estavam sentadas pequenas criaturas do tamanho de um indicador de um adulto, nove delas no total. As criaturas tinham formas humanoides, mas, certamente, dariam medo a quem as visse pela primeira vez: a pele delas se contorcia em padrões bizarros, criando deformações horríveis e assustadoras, e ainda parecia derreter continuamente, como se as criaturas tivessem mergulhado em lava incandescente. Nem mesmo um rosto aquelas criaturas possuíam; apenas uma marca lisa e escura que cobria toda parte da frente de sua cabecinha, deixando-as ainda mais aterrorizantes sob a luz do dia. Eram aqueles os nove Hayim dela.

O sorriso dela sumiu subitamente quando ela alcançou o centro da floresta, e a face dela ficou carregada de indiferença e frieza.

Diante dela estava um alto e majestoso edifício como nenhum outro já inventado pela mão humana, um edifício construído pela própria natureza: o Templo de Reuniões. O edifício era feito unicamente de árvores frondosas enfileiradas com precisão milimétrica, cujos galhos se entrelaçavam no topo para formar um teto vivo coberto por camadas de folhas verdejantes. Quem olhasse para o alto teria a impressão de olhar para o céu da manhã cheio de estrelas, mas o teto tinha a capacidade de se fechar completamente caso fosse necessário, como em dias de tempestade.

As árvores enfileiradas serviam como pilares robustos e os espaços entre os troncos eram todos cobertos por cipós extremamente resistentes. Esses cipós se enroscavam de tal forma que não deixavam nenhuma fresta para o exterior, formando paredes que se diziam ser tão resistentes quanto o diamante.

No interior, havia duas árvores enfileiradas no centro para dar maior estabilidade ao teto imenso, e entre os dois pilares de árvores estava uma grande mesa circular, formada por plantas que enroscavam os seus galhos e raízes para moldá-la. Todo o lugar era iluminado por flores brancas similares às lótus, que abriam suas pétalas para revelar um núcleo que brilhava num tom azul como um cristal luminoso; ou seja, como uma lâmpada da modernidade. Aquelas flores, as “Linites”, estavam espalhadas estrategicamente pelo teto, cerca de cinco delas, e outras tantas pelas paredes, banhando o salão com uma luz etérea.

Quando a mulher chegou no interior do Templo de Reuniões, lá já estavam seis outros Lihyfs, que se levantaram das suas cadeiras ao redor da mesa redonda assim que a viram atravessar o portal de cipós.

— Hoyo-Hoyo, Hosikati! (Bem-vinda, Rainha!) — Todos os seis Lihyfs colocaram as mãos no peito e se curvaram em simultâneo, em um gesto de respeito absoluto.

A mulher que acompanhávamos, aquela que tinha um par de asas douradas de borboleta nas costas, era Celyn Lovincius, a Rainha dos Lihyfs. Carregando a mesma indiferença que adotou minutos atrás, Celyn acenou simplesmente com a cabeça e caminhou com elegância até ao assento de honra, aquele com o espaldar mais alto e adornado por flores naturais, e se sentou, permitindo que todos os outros se sentassem em seguida.

Deixando o assento de honra, havia ao todo quinze cadeiras ao redor da mesa redonda, mas apenas seis estavam ocupadas por aqueles seis conselheiros da Rainha, deixando um vazio que ecoava a gravidade do momento.

— Hosikati, requisitamos esta reunião para discutir acerca do pedido de aliança enviado pelo imperador humano. — Um Lihyf macho se levantou e ditou a ordem da reunião do dia com uma voz solene. Ele tinha a pele amarela quase laranja e um par de pequeninos chifres na testa, que pareciam pequenas navalhas pretas com um degradê vermelho. Seus olhos tinham escleras douradas e da sua pupila com formato de losango partia uma fina linha que formava uma espiral em toda a esclera, assim como todos os machos Lihyfs tinham. Ele também, assim como todo o macho daquela raça, não tinha íris; as suas pupilas eram vermelhas e profundas.

Celyn apenas lançou um olhar cortante para o conselheiro e acenou de leve com a cabeça, esperando que ele continuasse o raciocínio.

— Eu digo que ainda é necessária uma avaliação minuciosa quanto a esta aliança, Hosikati — disse outro conselheiro, um de pele negra, o único que não possuía asas naquela sala. Ele tinha chifres grossos que cresciam para trás, dando-lhe um aspecto robusto.

— Concordo com o Arzel, Hosikati — comentou o conselheiro ao lado do conselheiro negro, um de pele branca, pupila castanha, cabelos pretos e longas asas pretas similares às de um pombo. —, os humanos já nos traíram uma vez, já tentaram nos escravizar, e, quando não conseguiram, decidiram escravizar a sua própria raça, chamando de inferior aqueles com pele negra. Como confiar em tais selvagens?

— Heh, Heh. E eles ainda ousam chamar a nós de selvagens, sendo que são eles com crueldade o suficiente para levantar um chicote contra os seus semelhantes — zombou outro conselheiro, um de pele vermelha, careca, pupilas azuis, um par de pequenos chifres afunilados e um par de longas asas cinza. —, não tem como confiar naqueles.

— Ouvi que o atual imperador está implementando novas reformas no continente humano, tanto que ele já aboliu a escravidão na capital do império, Kartumz, mas os outros nobres se recusam a fazer como ele, ou seja, mesmo que o imperador seja confiável, o império ainda não é. — Um conselheiro azul comentou, mantendo suas pupilas azuis fixas na Rainha, buscando qualquer reação em seu rosto de pedra.

— Eu sugiro que arquivemos este pedido de aliança por agora, deixemos ele pendente enquanto observamos o andar do império Humano, depois poderemos decidir com mais clareza. — O último conselheiro falou, um de pele verde-azulada e pupilas cinza.

— Sendo assim — a voz suntuosa da Celyn reverberou pelo salão e todos os conselheiros prestaram atenção imediata nela. —, que deixemos o…

— HOSIKATI!!! — Um grito desesperado reverberou pelo templo depois que os cipós que serviam de porta meio que foram “sugados” para os lados com violência. — Ndzi tisa mahungo ya Mimoya! (Trago notícias dos Espíritos!)

— Ku humelele hini, xana? (O que aconteceu?) — A Rainha questionou, seu olhar ainda sem vida e carregado de autoridade, mesmo depois de se levantar abruptamente da cadeira de honra.

— I vuprofeta… (É uma profecia…) — O Lihyf branco, que acabara de entrar com as vestes desalinhadas, parou por um momento e coçou a garganta seca, antes de continuar: — Kahle, kahle… (Na verdade…) são dois fragmentos de uma só Profecia.

— Xana… — Celyn saiu da frente da cadeira e caminhou a passos largos em direção ao recém-chegado, a indiferença no seu olhar sumindo lentamente para dar lugar a uma curiosidade alarmada. — Xana Mimoya yi hi byela yini? (O que os Espíritos nos dizem?)

— A terra já foi preparada… — O recém-chegado Lihyf leu o primeiro pergaminho que trazia, suas mãos trêmulas, voltou a enrolá-lo e se apressou para ler o outro. — … trazendo a promessa de uma destruição que há muito vem sendo evitada…

[Ao mesmo tempo]

[Centro do Continente Norte: Kansi]

Dentro da sala do trono do reino Kalmatek, o clima era de uma tensão gélida que combinava com as montanhas ao redor.

— Então, você está me dizendo que, cinco anos depois do anúncio do Rei dos demônios, os Espíritos enviaram outra Profecia? — Calmo e controlado, indagou Zaztek Kalma, Rei dos Hyems, do reino Kalmatek. Seus afiados dois pares de olhos vermelhos fitavam o Santo em sua frente com uma intensidade que parecia perfurar a alma.

— O uca hocha, hizocgigo! (É isso mesmo, majestade!) — O Santo respondeu com a voz reverente. Dois pergaminhos já estavam em suas mãos, sob o olhar atento dos dois sábios que se posicionavam nas laterais do Rei como estátuas vivas.

— Toui, gas nimas! (Leia, por favor!) — A barba cheia e os bigodes trançados do Rei, ambos de um prateado brilhante, balançavam a cada movimento preciso da sua mandíbula.

— Em ordem decrescente o tempo está contando… — O Santo leu o primeiro pergaminho com voz clara e se preparou para ler o segundo sem hesitação. — … aguardando apenas a semente e os frutos destinados a abalar esta terra desesperada.

— Hmm… — ponderou o sábio à direita do Rei, deslizando a mão superior direita pela longa barba grisalha e densa, que alcançava a sua barriga. — Isso não faz sentido.

— Uca hia gomosui nicos cohguga! (Isso não deveria fazer sentido!) — resmungou o sábio à esquerda do Rei, sua aparência idêntica à do outro sábio, mesmo que ambos não fossem gêmeos de sangue. — E, quando isso acontece…

— A regra é que exista outra parte para dar sentido à profecia — completou o Sábio da direita, fechando os seus olhos em reflexão. —, ou seja…

— Gsogisohco! Mihac iDamis! (Preparem-se! Vamos a Damis!) — O Rei concluiu ao se levantar de seu trono de pedra, balançando as duas tranças prateadas que caíam nas laterais da sua testa, daquele cabelo que estava amarrado firmemente num pequeno rabo de cavalo.