Capítulo 01 — 1 Encomenda (1/2)
Capítulo 01 — 1 Encomenda (1/2)
A porta foi aberta abruptamente, puxada para o interior, e as dobradiças rangeram por conta do repentino solavanco.
— Haaa!
Lá estava a culpada, com uma mão ainda na maçaneta de ferro de uma fechadura há muito avariada e a outra no batente. Seus olhos estavam fechados, sua cabeça levemente levantada para que os raios solares atingissem o seu rosto. E os seus finos lábios se curvaram para formar um sorriso que irradiava expectativa e alegria.
Seu corpo, com uma altura de apenas um pouco mais de três quartos de metro, continuou lá por alguns segundos, imóvel, apenas sentindo a brisa morna que se chocava contra o seu rosto pequeno.
Combinava uma calça preta e um vestido amarelo com pintas pretas, que já parecia ser uma blusa um tanto larga para ela. E o seu cabelo azul-ciano estava amarrado num rabo de cavalo por uma fita vermelha, deixando apenas algumas mechas caindo nas laterais do rosto.
Ela abriu os olhos, revelando os dois pares de círculos em cada um deles, inspirou profundamente e soltou todo o ar de uma só vez, como uma leve rajada. Seus lábios juntaram-se por um momento, mas não levou muito tempo até estarem novamente curvados para cima.
— É hoje — disse, depois de uma breve pausa para admirar os seus arredores —, finalmente!
Seus olhos voltaram-se para o céu, onde aquele lindo sol, como sempre, já tinha nascido pelo Sudeste há cerca de duas horas.
Abandonou a sua casa, deixando que a porta se movesse lentamente até se fechar, e começou uma corrida lenta pelo beco que passava pela sua residência, levantando e alternando os joelhos de forma alegre, como uma dança. Ao mesmo tempo, balançava os braços para frente e para trás, obrigando-os a acompanhar a animação das pernas, agitando-os de forma molenga, como se não tivessem ossos.
No ápice da sua diversão, ela dava alguns pulinhos e giros em dados momentos, exibindo para os quatro ventos o seu largo sorriso e o intenso brilho de empolgação em seus olhos violetas e azul-marinho.
— Vaiola! Me espere! — gritou o homem careca, de olhos verdes, que saíra da mesma casa que a garotinha, fechando a porta desengonçadamente na pressa para alcançar a menina. — Você não deve andar por aí sozinha!
Ela fingia não escutar as palavras do pai e continuava a cantarolar alegre e animadamente enquanto corria pelo beco, cercada por casas e mais casas que formavam a denominada Favela do Leste. Contudo, os moradores dali costumavam chamar, carinhosamente, aquela favela de “Arco-íris”, por conta da diversidade de cores por todo aquele lugar. Cada casa era uma cor diferente.
— Oh! Cuidado aí, crianças! — alertou Glamich assim que o seu corpo foi atropelado por duas crianças que corriam uma atrás da outra.
No entanto, nenhuma delas deu ouvidos a ele e apenas continuaram perseguindo uma à outra, dando sorrisos e risadas.
— Vaiola!? — O garoto na dianteira parou os seus passos e gritou: — Preparada para hoje?
— Você sabe que eu sempre estou, Alin — respondeu Vaiola, com olhos desafiadores.
— Hoje à tarde, então, no prado — declarou Alin, seus olhos irradiando o mesmo brilho que os de Vaiola —, vou te fazer comer poeira hoje.
— Heh Heh! Vai sonhando — disse Vaiola, por fim, e o garoto continuou a correr para outro beco, à direita.
Alin tinha Vaiola como sua rival desde que a garota roubara a sua posição como o mais rápido entre as crianças de cinco anos. Portanto, ele a desafiava sempre que tinha uma oportunidade.
— Até logo — murmurou com timidez a menina que perseguia Alin ao passar por Vaiola, balançando a mão.
Vaiola respondeu com um aceno e observou as crianças se distanciando. Girou mais uma vez, seus olhos passando brevemente por aquelas ruas desniveladas e esburacadas, por aquelas paredes coloridas e rachadas. Era como se um mísero suspiro pudesse derrubar tudo por ali.
“Vês estas paredes? Vês como elas parecem ruínas prontas para desabar? E, no entanto, vês como elas ainda continuam formando casas resistentes? Assim é como são os moradores da Favela do Leste: todos são fracos sozinhos, mas invencíveis unidos.”
Vaiola lembrou-se das palavras da sua mãe, de quando lhe foi apresentada a favela há cerca de dois anos. Ela nunca mais esqueceu aquelas palavras. Não existia povo mais unido que aquele da Favela do Leste.
Ela riu. Vaiola não era como as outras crianças da favela e sabia disso. Não, não era só pelo par de íris e pupilas a mais nos seus olhos. Vaiola tinha mais facilidade em compreender as coisas.
“Ela é superdotada”, diziam os outros, mas, para ela, era tudo resultado da pressão imposta sobre ela pela sua mãe. No sentido positivo da palavra, claro. O que Vaiola mais amava em relação ao seu cérebro era o fato de ele continuar sendo apenas o cérebro de uma criança de cinco anos, mesmo desenvolvendo-se tão rápido.
— Bom dia, tia Lia — cumprimentou Vaiola a tia rechonchuda que saía de uma das casas, carregando uma cesta de palha cheia de roupa.
— Olá, Vaiola — Lia respondeu com entusiasmo e acenou para a menina que logo passou por ela, cantarolando e dançando.
— Bom dia, Lia — Glamich cruzou-se com ela logo em seguida.
— Bom dia, Glamich — Lia riu. — A Vaiola parece bastante animada.
— Pois é. Vou levá-la ao mar hoje.
— Ah, sim! Está explicado, então — disse Lia com compreensão. Todos sabiam o quão ansiosa Vaiola estava para conhecer o mar. A pequena não falava de outra coisa.
Eles logo se despediram e cada um seguiu o seu caminho. Se ninguém notava os olhos de Vaiola? É claro que não tinha como não notar. É só que aquele era um povo que apostava no caráter e não em superstições.
Vaiola travou os seus passos depois de algum tempo e elevou os olhos ao céu; nenhuma nuvem ofuscava a beleza azul. Ela continuou girando e fazendo a sua dancinha, balançando os braços e pernas. Isso até que o seu corpo foi envolvido por braços fortes que chegaram como serpentes.
— Peguei você, sua fujona! — Ela escutou. Era a voz do seu pai.
— Hahahaha… eu não estava… — A gargalhada escapou dela, cheia de alegria, enquanto se debatia para tentar escapar do ataque de cócegas repentino. — Fugindo… Hahaha… pai…
— É mesmo? — As cócegas cessaram e ela parou de se debater ao ser pousada no chão. — Você só estava fingindo não me escutar, não é mesmo?
— É! — Um sorriso maroto fez-se presente entre os lábios da pequena. Ela soltou-se e voltou logo a correr.
— Como é, garota? — O mais velho fingiu indignação e perseguiu a filha, com passos contidos para lhe dar alguma vantagem.
Vaiola corria pelos becos com animação, virando-se, em alguns momentos, para ver se o pai chegava perto. A alegria, o calor em seu peito, impedia-a de sentir-se incomodada com as irregularidades do chão; aquilo só a deixava mais animada. Seu pai a seguia a uma distância segura para não a perder de vista e sempre cumprimentava aqueles que encontrava pelos caminhos.
— Ai! — Vaiola reclamou com alguma dor quando tombou de bunda no chão, após se chocar contra o que parecia ser uma parede dura, mas estranhamente… acolchoada? Ela só se tinha virado por um momento para ver se o pai estava perto.
— Vaiola Hermis! — O corpo dela enrijeceu e um calafrio involuntário percorreu a sua espinha. Era uma ação automática que o seu corpo sempre executava quando aquela voz mezzo-soprano dizia o seu nome completo. Era assim que ela sabia que tinha feito algo errado.
— M-mãe…!? — Levantou o olhar rapidamente e sentiu a temperatura baixar alguns graus quando os seus olhos se cruzaram com os da mulher imponente como uma muralha. Aqueles olhos a faziam sentir-se uma formiga lutando para sobreviver num oceano, sem ter sequer uma jangada.