Capítulo 03 — 1 Pescaria (1/3)
Capítulo 03 — 1 Pescaria (1/3)
Por um momento, enquanto caminhava de mãos dadas com o pai pela floresta, Vaiola tinha se perdido nas árvores, correndo o risco de se chocar contra elas, já que sua cabeça estava tombada para trás. Ela tentava ver o topo das copas.
As folhas das árvores começavam a acastanhar-se e secar antes de, uma a uma, caírem e cobrirem a terra. O mais fascinante — o que tomava a atenção da pequena — era a bela visão proporcionada quando a luz do sol era filtrada pelos galhos e folhas, parecendo inúmeras estrelas.
O fim da trilha logo entrou no seu campo de visão; ela soltou o indicador do pai na mesma hora e correu cheia de animação, só para parar depois de alcançar o outro lado da floresta.
O coração da pequena parecia um tambor de tanto que pulsava com empolgação e alegria. Toda aquela animação irradiava pelos seus olhos, que brilhavam mais uma vez, e pelos seus lábios, que se curvavam num sorriso de orelha a orelha.
Ela estava finalmente vendo o mar pela primeira vez. Seu maior desejo desde que se conhecera por gente.
O azul das ondas refletindo nos seus olhos, a brisa um tanto fria — da qual ela só tinha ouvido falar — alcançava-a mesmo antes de chegar à praia e parecia sussurrar segredos nos seus ouvidos. O som distante das gaivotas era uma melodia capaz de aprisionar corações.
Ela continuou andando, abandonou os chinelos e deixou os pés afundarem na areia branca, que parecia massagear os seus pequenos dedos. Seus olhos estavam fechados; ela queria aproveitar os sons antes de visualizar devidamente a vastidão.
Depois de alguns passos, Vaiola parou e abriu os olhos.
Ela se apaixonou.
Os vários diques de madeira montados na margem, os diversos barcos presos a eles flutuando na parte rasa do mar e aqueles navegando ao longe; os pássaros que circulavam sobre a vastidão das águas e aqueles que aguardavam pacientemente para agarrar alguns peixes com os seus longos bicos. As ondas sendo levadas pelo vento para lá e para cá.
O que ela devia fazer para nunca mais sair dali?
Aquele lugar parecia exercer um forte poder sobre ela, levando todo o seu peso, cansaço e dor.
— Pai… — Fechou os olhos e focou-se no seu olfato. O cheiro de peixe impregnado no seu pai, que a mãe odiava e ela amava, também pairava por ali. — Será que posso ser pescadora… quando crescer?
— Quem sabe? — Glamich sorriu. Seu coração parecia pegar fogo, assim como os seus olhos. A alegria de receber o reconhecimento da filha era impossível de medir. — Já prevejo a sua mãe ficando louca se isso acontecer. Hahaha!
— É mesmo. Heh Heh Heh.
— Nossa… será que eu ainda estou dormindo e pensei ter acordado? — indagou uma voz próxima, em tom brincalhão, embora a voz fosse bem grave. — Eu devo estar sonhando, não? — Vaiola alargou o seu alegre sorriso e seus olhos abriram-se como faróis. — Nanica, é você?
— Tio Dokin!! — A menor gritou, empolgada, e disparou em direção ao homem robusto, negro e de cabelos ralos.
— Não é que é você mesma! — Dokin jogou-se de joelhos no chão, com os braços abertos para receber Vaiola. — Que surpresa maravilhosa.
— Eu senti a tua falta, titio! — Ela já estava envolvida pelos braços do seu “tio de coração”, aquele que a conquistara com as suas histórias mirabolantes.
— Admita: você sentiu falta foi das minhas histórias, né não? — indagou ele, sorridente.
— Isso também, Heh Heh — confessou ela, com um sorriso maroto desenhado no rosto.
— Eu não te culpo, nanica. É impossível não amar as minhas histórias. Não é à toa que me chamam “O Narrador”. — Dokin exibia um sorriso divertido enquanto cumprimentava Glamich com um aperto de mão.
— Há quanto tempo — abordou Glamich. — Andou sumido.
— Pois é, irmão. Precisei resolver algumas pendências por aí — justificou Dokin, bagunçando os cabelos da menor, que sequer alcançava a sua cintura, feliz por vê-la novamente. — Perguntava-me quando você viria conhecer o mar, mas não pensei que já seria hoje.
— Haha, eu já vou fazer cinco anos! — A alegria inundava o peito da pequena, que permanecia agarrada a Dokin. — Eu já imaginava que o mar era lindo pelas suas histórias, titio, mas nada se compara a vê-lo de tão perto. O mar é belíssimo.
— Não é?! Agora você entende quando eu dizia que podia descer a porrada em quem ousasse blasfemar que existe algo mais belo que isto tudo?
— Ei!! — gritou Glamich em repreensão. Dokin estava com os braços abertos, parecendo querer abraçar o mar. — Olha lá o que você ensina a ela.
— Eu entendo, titio — respondeu Vaiola. Era como se não tivesse escutado o pai, que apenas chacoalhou a cabeça ao ouvir aquelas palavras, com a mão direita cobrindo o rosto. — E é por isso que eu já me decidi…
— Huh?! Se decidiu? Sobre o quê? — Dokin olhou para a menor, com os olhos irradiando curiosidade.
— Quando eu crescer, quero ser pescadora — explicou Vaiola. — Assim como você e o papai, titio.
— Hohoho! Esplêndido! — Vaiola baixou a cabeça de leve, forçada pela mão do tio que continuava a bagunçar-lhe o cabelo. — Sabe o que isso merece?
— Uma história?
— Exatamente!
— Aêê!! — comemorou ela, com os braços levantados. Parecia querer segurar os céus.
— Hmmm… deixa-me ver… — Dokin levantou o rosto para o céu enquanto a mão esquerda roçava o queixo. Estava escolhendo em sua mente qual história contar. Ele sentou-se sobre a fofa areia branca e Vaiola acomodou-se sobre a sua coxa. — Já sei! O que acha de eu contar sobre quando precisei pregar o retrato da minha senhora?
— O que pode acontecer de especial só pendurando um retrato? — indagou Glamich, cético. Ele conhecia a fama do amigo e já tinha escutado algumas de suas narrações, tendo sido tocado por uma história sobre um certo pirata que procurava pela filha no corpo de um garoto de dez anos. Mas era difícil acreditar que dava para criar uma história só pendurando um quadro.
— Para saber, você vai ter que escutar, meu caro amigo. Não é mesmo, nanica?
— É isso aí, titio.
— Bom, bom. Vamos lá! — iniciou Dokin. — Tudo começou naquela tarde calma e quente de verão. Eu estava na minha humilde casa, jogado na minha cadeira de balanço, achando que já estava tudo feito naquele dia. Mas logo a calmaria foi embora, expulsa por um vendaval que soprou a porta com ferocidade, jogou a minha coberta para longe e lançou um arrepio na minha espinha. Era a minha senhora.
— Oh! — Vaiola soltou um brilho de curiosidade no olhar.
— Ela olhou para mim com aquele olhar de gelar a alma, o rosto todo franzido — parecia uma Besta impaciente — e ordenou: “Levanta, seu folgado!”.
— Oh! E o que você fez, titio?
— O que eu fiz? Hehehe, eu olhei firme para ela, meus olhos ardendo com a chama da determinação e eu…
— Você fez o que ela mandou, não foi? — indagou Glamich, com olhos afiados.
— Bem, é claro! É da minha senhora que estamos falando — respondeu ele de imediato. — Acredite, você não vai querer dizer “não” para ela.
— Pois é, pois é — Vaiola concordou com um balançar de cabeça. — A titia é como a mamãe.
— É isso aí. Você sabe das coisas — confirmou Dokin com animação, a mão novamente bagunçando os cabelos dela. — Encarei a besta emperequetada que vestia aquele majestoso vestido vermelho, que combinava perfeitamente com os seus cabelos. Ela era uma brasa!
— Olha a boca! — Glamich protestou.
— Heh Heh! Certo, certo. Ela parecia apressada, mas tinha algo estranho com ela; algo que trazia na mão direita, algo que parecia tão importante que tinha embrulhado com montes e montes de fita de papel.
— O que era? O que era? — indagou Vaiola, com um sorriso carregando uma alegria capaz de contagiar até o mais frio dos seres.
— O que era? Eu não sabia a priori, mas o formato era quadrilateral e não era muito grande. Ela olhou para mim, levantou o que trazia e disse apenas uma palavra: “Pendure!”. Foi só depois disso, quando ela me jogou o embrulho e eu tirei todas as camadas de papel, que descobri que era “Ó Retrato”.