Capítulo 39 — 1 Demônio (1/10)
Capítulo 39 — 1 Demônio (1/10)
Depois de correr por tanto tempo, Vaiola estava completamente coberta de suor e traços de poeira.
Diante da enorme fogueira alimentada pelas ruínas da Favela do Leste, a nanica permanecia imóvel, paralisada pelo desespero crescente que esmagava seu coração.
Depois de avistar o enorme pilar de fumaça negra e densa, ainda alimentava alguma esperança de que não fosse nada grave. Porém, ali, diante daquelas labaredas dançantes, ela sequer conseguia respirar.
Sua mente havia travado e, junto com ela, todas as funções do corpo congelaram. O coração parecia ter parado de pulsar e o peito afundava sobre os pulmões.
Nada permanecia de pé. As cores vibrantes, marca registrada daquela favela, haviam desaparecido, substituídas pelo negro da fumaça e pelo vermelho-alaranjado das chamas.
O corpo da pequena sofreu um leve espasmo quando a falta de ar se tornou extrema, despertando suas funções vitais à força.
— Huuuunf! Huuunf! Huuunf!
Parecia haver tentáculos sufocando seus pulmões, enroscando-se violentamente neles e bloqueando a entrada e a saída de ar. O pouco oxigênio que conseguia inspirar parecia composto por finos fios de aço, quase rasgando suas fossas nasais a cada arfada.
O coração precisou ser massageado para voltar a pulsar. A mão pressionada contra o peito quase rasgava a pele e quebrava os ossos.
As lágrimas rolavam sem cessar, enquanto a mandíbula subia e descia em frenesi. Diversos sentimentos explodiam em seu interior, uma mistura de desespero, preocupação, dor e inúmeras emoções que ela sequer conseguia identificar.
— Pa… — Sua voz, um sussurro praticamente inaudível, rastejou pela garganta, quase rebentando suas cordas vocais.
Ela tentou avançar, mas o corpo congelado pelo pavor não suportou. Perdeu o equilíbrio.
Não restavam mais forças nela, e aquele simples passo foi o estopim que enviou seu corpo em rota de colisão contra o solo.
Bam.
— Pa… — Ergueu a face úmida de suor, com terra colada à pele como uma máscara. Olhou para as ruínas em chamas, o rosto se contorceu em tristeza, prenunciando um choro, então estendeu a mão, cravou os dedos na terra e se arrastou. — Pa… i…
À medida que aquela pequena face se deformava pela dor, a máscara de areia foi se desfazendo aos poucos. Em pouco tempo, as lágrimas concluíram a limpeza.
Já não eram apenas os pulmões.
O coração também parecia ser esmagado dentro do peito, afundando cada vez mais naquela maré de tristeza descomunal.
Depois de rastejar por algum tempo, quando sentiu um mínimo de força retornar, Vaiola obrigou o próprio corpo, membro após membro, até conseguir se colocar de pé novamente.
— Pai… — Sua voz foi imediatamente engolida pelos estalos das chamas.
Seus passos rápidos e trêmulos a conduziram para mais perto do incêndio, enquanto seus olhos vasculhavam sem parar, procurando qualquer sinal de sobreviventes.
Mas apenas cadáveres permaneciam espalhados pelo chão.
Corpos e mais corpos devorados pelas chamas, negros como carvão e já quase sem pele ou músculos.
As têmporas pulsavam dolorosamente, como o tic-tac desesperador de uma bomba prestes a explodir, e aquela dor extrema a obrigava a mover a cabeça de forma robótica.
Quanto mais se aproximava das labaredas furiosas, mais seu corpo perdia as poucas forças existentes.
Depois de mais alguns passos, diante das ruínas consumidas pelo fogo, Vaiola caiu de joelhos sobre o solo enegrecido e quente.
Não sobrava mais nada.
Restava apenas uma pergunta em sua mente.
O quê?
O que tinha acontecido ali?
— Ficar aqui está me dando náuseas.
Os olhinhos da menina se arregalaram e uma pequena faísca brilhou neles.
Aquela voz vinha de dentro das chamas.
— O cheiro da corrupção está impregnado em tudo aqui.
Duas silhuetas se formaram entre as labaredas, grandes figuras que logo se revelaram como homens vestindo armaduras prateadas com detalhes dourados.
Eles não estavam sozinhos.
Vários outros soldados surgiram logo depois.
Quem eram aquelas pessoas?
O que queriam ali?
E, mais importante, como estavam caminhando entre as chamas sem se queimar?
Vaiola tinha muitas perguntas, mas permaneceu em silêncio, principalmente quando percebeu outros homens e mulheres trajando armaduras vindo de todas as direções para se reunir naquele lugar.
— Huh!? Sobrou um?
Os soldados pararam a certa distância, claramente surpresos por encontrar a nanica ali.
— Como não a notamos antes? — perguntou outro soldado, torcendo o nariz. — Essa daí está fedendo a corrupção.
— Vocês ainda não perceberam? — Outra voz, solene e serena, ecoou por toda a área. — É ela.
— Como não a notamos antes? — perguntou outro soldado, torcendo o nariz. — Essa daí está fedendo a corrupção.
— Vocês ainda não perceberam? — Outra voz, solene e serena, ecoou por todo aquele lugar. — É ela.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, Vaiola ergueu o rosto e viu, flutuando bem alto nos céus, sete borrões humanoides.
Diferente da nanica, os soldados compreenderam o significado daquelas palavras e, imediatamente, sacaram as armas e assumiram posições defensivas, prontos para reagir a qualquer coisa.
A pequena observou todos ao redor, tentando entender a origem daquele nervosismo que os soldados se esforçavam para esconder; Porém, o suor repentino em seus rostos denunciava.
Ziiiim .
Contudo, antes que encontrasse uma resposta, algo rasgou o ar acima dela e, ao erguer novamente o olhar, viu uma lança de fogo descendo em sua direção.
— Por quê!!!?
Assim que ouviu aquele questionamento, Vaiola sentiu um forte impacto contra as costelas, que a lançou para longe de onde estava.
Quando a lança de fogo atingiu o chão, não houve explosão; as chamas apenas se espalharam por toda aquela área.
Mas não era um fogo comum. O calor era insuportável, embora a terra sob ele parecesse sequer sentir sua presença.
Depois de rolar para longe da zona atingida, Vaiola virou-se naquela direção e, após alguns segundos procurando, finalmente viu uma silhueta se desfazendo entre as chamas.
Já não dava para identificar quem era, mas aquela pessoa havia salvado sua vida.
— Vocês já destruíram tudo… já assassinaram todos!!! — A voz de antes voltou a soar.
De joelhos, Vaiola olhou para o meio das chamas e quase não reconheceu aquele corpo em combustão, cuja metade esquerda do tronco havia sido transformada em carvão e continuava derretendo.
— O que ainda querem de nós? Por que continuam atormentando uma criança?
Aquela figura monstruosa parecia algo que havia rastejado para fora do inferno. A voz embargada e as lágrimas escorrendo do único olho ainda intacto eram os únicos vestígios de humanidade que restavam nela.
“Senhora Sonhadora…”
Vaiola se lembrava daquela pessoa.
Mesmo para uma criança com dotes intelectuais como os dela, ainda era difícil compreender por que alguém tão gentil precisava terminar daquele jeito.
Não era para aquela mulher morrer com um largo sorriso no rosto, abraçada ao seu amado Ogro?
— Nós destruímos? Nós matamos? — As perguntas vieram de cima, dos sete vultos que permaneciam suspensos nos céus. — Vocês já estavam destruídos e nem sequer sabiam disso… A vossa ignorância em relação à corrupção que habita em vocês chega a ser assustadora.
— Deviam ser gratos aos Deuses por nos enviarem para purificar este lugar e todos vocês. — Outra voz ressoou lá do alto. Era uma mulher. — Se não fossem as ordens divinas, vocês acabariam como mais um amontoado de almas atormentadas no Abismo.
Outra lança de fogo foi disparada contra a nanica, mas, novamente, não encontrou ninguém onde ela estava.
— Não se preocupe…
Vaiola arregalou os olhos.
Aquela voz sempre alegre e marcante.
Ela conhecia muito bem seu dono.
— Vai ficar tudo bem, nanica.
Sua mandíbula tremeu na tentativa de chamar pelo homem que a havia resgatado. A voz ficou presa na garganta e o coração disparou.
Não havia mais nada conectado ao ombro direito de seu amado tio Dokin, e toda a lateral direita de seu rosto estava escurecida, derretendo continuamente.
Lágrimas rolaram por suas bochechas.
Então ela desabou.
— UWAAAAAHH!!!