Capítulo 41 — 1 Demônio (3/10)
Capítulo 41 — 1 Demônio (3/10)
A cada estalido doloroso e crocante que emanava daquele pequeno corpo, mais os Cavaleiros Templários se inclinavam para trás, os rostos contorcidos, como se sentissem a agonia de cada rangido ósseo, numa vontade visível de fugir, embora os pés parecessem presos em concreto.
Inconscientemente, muitos chegavam a segurar a respiração, sem saber ao certo como reagir a algo daquela magnitude.
Todos ali não tinham mais de dois anos como membros daquela unidade. Os Cavaleiros Templários haviam sido criados há pouco tempo, seguindo as ordens dos Deuses. A maioria já entrara em confronto e até derrubara seitas e cultos malignos, mas isso era o ponto alto dos seus serviços prestados até aquele momento.
Resumindo, nenhum deles tinha experiência enfrentando um verdadeiro demônio.
Ao verem aquela criança, que antes parecia tão inocente e pura, se retorcer daquele jeito, com aqueles olhos diabólicos e aquele sorriso carregado de diversão e malícia, todos puderam sentir:
… Um demônio tinha rastejado das profundezas do Abismo até ali.
Era algo muito diferente de tudo que já tinham enfrentado. Mesmo já tendo combatido habilidades heréticas e possuindo dons concedidos pelos deuses, sentiam que aquilo diante deles estava num patamar que ainda não poderiam enfrentar.
Do outro lado, Vaiola sentia sua consciência oscilar entre a escuridão e a penumbra; num instante, flutuava no vazio; no outro, suas sensações se assemelhavam ao estado de afogamento.
Cada músculo latejava dolorosamente, e os ossos pareciam se reconectar depois de quebrados… como se remodelassem o corpo.
Em seu coração, aquela mistura turbulenta de emoções tinha se chocado e se transformado em outra coisa…
Um vazio.
Tudo fora arrancado dela.
Ela só queria que, ao abrir os olhos, seu pai estivesse a aconchegado em seu colo, que seu tio estivesse lá, como sempre, com um largo sorriso entre os lábios e lhe dissesse que aquilo fora apenas um longo e doloroso pesadelo
… Que tudo estava bem.
Por quê?
Por que não era desse jeito?
A escuridão que a acolhera recuou logo em seguida, trazendo de volta aquela visão dolorosa tomada pelas chamas.
A densa fumaça negra, espalhada pelos ventos, carregava o cheiro de carne e pelos queimados, sufocando os já cansados pulmões da nanica e causando-lhe tonturas regulares e momentâneas.
Se vacilasse por um só segundo, aquilo certamente a derrubaria.
Os dois pontinhos em cada olho, abraçados pelo breu assombroso das escleras, fitaram a unidade de Cavaleiros Templários ao longe, que tremiam ao ponto de seus membros ficarem sem forças.
Se não fosse a fé que tanto tinham em suas divindades, muitos ali já teriam largado as armas e fugido por suas vidas.
— Por quê? — Ela murmurou aquela questão, que foi facilmente ofuscada pelo crepitar das chamas. Cambaleante, deu um passo em direção aos soldados. — Por quê!? — Quando avançou, os soldados, inconscientemente, recuaram. — Por que estão recuando?
Ela queria entender. Não estavam atrás dela? Não era ela o demônio que tanto caçavam, aquele que os levara a dizimar um povo inteiro? Então, diante dela — aquela que tanto buscavam —, por que recuavam?
Não seria aquele o momento ideal de provar o seu ponto? Não seria aquele o momento perfeito para reunir o máximo de coragem e demonstrar que não fora em vão? Que todos aqueles não morreram em vão?
Então…
— HAHAHAH! — Ela desistiu de tentar entender. Todos estavam mortos. Seus aguçados sentidos não detectavam nenhum ser humano vivo em todas as Terras Centrais. Não importava mais. — Hahahaha! — Para não ser sufocada pela própria tristeza, ela ria. Ria para tentar manter a sanidade. — Se vocês não vêm… — Todos ali eram obstáculos, agindo contra os seus objetivos; todos queriam impedi-la de obedecer à última ordem de seu pai, então… — Eu irei!
A pequena deu um passo à frente, as mãos levantadas e os dedos se contorcendo em preparação para a batalha, como se existissem garras ali.
Os Cavaleiros Templários trocaram olhares por um momento, tentando encontrar entre eles aquele que seria imprudente ou corajoso o suficiente para avançar contra aquela criatura.
Vaiola era tão minúscula naquele cenário, mas não era seu tamanho que enchia os outros de medo… a Presença dela era simplesmente opressora demais.
— MATEM ELAAA!! — Todos os Cavaleiros Templários olharam para trás, surpreendidos, quando um daqueles no fundo da unidade ergueu a espada e avançou.
— AAAAAHHHH!! — Os demais reagiram alguns instantes depois, como se aquela ação tivesse injetado o pingo de coragem — ou loucura — de que precisavam para agir.
— Heh. — O sorriso da nanica se alargou ao ver aquilo. Todos tremiam, mas, mesmo assim, decidiram avançar. É, ela estava certa… o único jeito de sair viva dali era destruindo tudo. — Tão… lentos.
Os soldados davam o seu melhor para alcançar a pequena Rainha Demônio o mais rápido possível, mas, aos olhos da dita cuja, todos pareciam meras lesmas numa corrida inútil.
Vaiola deu mais um passo à frente e se posicionou para reagir, mas seu sorriso se fechou quando olhou para trás e viu o corpo do pai estatelado ali.
Desviando o olhar do corpo de Glamich, seus olhos viajaram por toda a favela, relembrando seus dias de paz e alegria.
— Pai… tio e todos… — suspirou. — Me desculpem por isso.
Iola estava ali ao lado, também observando as condições em que a favela se encontrava.
“De novo… isso aconteceu… de novo…” Seus murmúrios não chegaram aos ouvidos da nanica. Em seguida, seus olhos se voltaram para a unidade e sua voz soou mais nítida. Sua face nebulosa parecia uma rocha inexpressiva. “O que está esperando? O papai nos deu uma ordem!”
Quando os olhos da menor se voltaram para a unidade de Cavaleiros Templários, que ainda se aproximava em câmera lenta, Vaiola desapareceu.
“Viva!” — com o eco daquela ordem pairando em sua mente, reapareceu de frente para o Cavaleiro na dianteira, parecendo flutuar no ar.
O soldado, com a espada banhada em luz dourada erguida sobre a cabeça, pareceu sentir a aproximação da nanica e seus olhos até conseguiram baixar e se fixar nos dela. Mas era só isso. Seu corpo não reagiu rápido o suficiente.
Como se não tivesse plano algum, Vaiola pousou a mão esquerda sobre o pescoço do soldado e a outra no ombro do mesmo. Sem nenhum esforço, quando abriu os braços, o som de carne e ossos sendo rasgados ecoou.
Sangue respingou para todos os lados, banhando a mais nova. O corpo do Cavaleiro, partido em dois, tombou no chão, com as entranhas vazando sobre a poça escarlate.
Ao escutarem os baques, os Cavaleiros Templários paralisaram os passos e olharam para aquela direção, onde encontraram a pequena pingando sangue das roupas e cabelos.
Nenhum deles falou nada; sabiam que não tinham tempo para palavras. Portanto, fortaleceram os apertos nos cabos das armas e se voltaram contra a Rainha demoníaca.
Contudo…
— GHAAAHHH!
Gritos e mais gritos cobriram aquele lugar. Não importava o que faziam, sem que sequer vissem, seus companheiros caíam um a um, seus corpos rasgados em duas ou mais partes, deixando para trás um grito estridente e doloroso.
Era como haviam imaginado: sequer conseguiam acompanhar o caminhar daquela criatura.
— S-s-seu demônio imundo e sem honra!! — esbravejou um dos Cavaleiros, as mãos trêmulas e os pés mergulhados em sangue. — Mostre-se e lute comigo de forma justa!
Inquieto, o soldado tentava olhar para todos os lados ao mesmo tempo, esperando poder adivinhar de onde viria o próximo golpe.
— Lutar… — Ao escutar aquela voz tão gélida que lhe dava calafrios, o soldado se virou de supetão e seus olhos encontraram a nanica, que flutuava chutando o ar, sua expressão uma mistura de ironia e fúria. — … de forma justa?
Sem falar mais nada, desviou o olhar para o que sobrava da Favela do Leste. Onde estava a tal justiça deles quando atacaram aquele lugar? Era justo soldados armados atacarem civis que nunca tocaram numa espada?
Sem precisar ouvir os questionamentos de Vaiola, o soldado entendeu o que ela queria insinuar, mas não permitiu que sua determinação e fé fossem abaladas.
“Estavam todos corrompidos.”
Hunf.
“Seriam uma ameaça sem precedentes se se espalhassem pelo mundo.”
Hunf.
“Agora, pelo menos, as suas almas têm a chance de descansar em paz.”
Aqueles foram os seus pensamentos, antes de chacoalhar a cabeça, apertar o cabo da espada com firmeza e avançar, sua lâmina coberta por um fogo belo e dourado.
— Se você nunca tivesse existido… — Ele sabia que era um ataque suicida, mas avançou mesmo assim, orando interiormente para que o [Monarca Bendito] fortificasse as bênçãos depositadas nele. Queria poder causar ao menos um leve arranhão. — … Nada Disso Teria Acontecido!!
— Huh!? — Com os olhos arregalados, o corpo de Vaiola foi travado pelo choque.
Assim que parou de chutar o ar, seu corpo retornou ao solo, e a espada do Cavaleiro passou com um swoosh acima da sua cabeça.
Se ela… se ela não tivesse existido…
“Todos estariam realmente bem?”
Se todos aqueles moradores da Favela Arco-íris nunca a tivessem conhecido, será que ainda estariam usufruindo de suas felizes e pacatas vidas?
Ela…
“Eu estraguei tudo…”
Aqueles soldados chegaram ali procurando ela…
A destruição chegou vindo ao seu encalço.
“É tudo minha culpa.”
“Haaa. Você é mesmo uma criança.” Aquela fala se sobrepôs aos pensamentos de Vaiola. Era Iola. “Acha mesmo que é como eles falaram? Que tudo aqui foi destruído e todos eles foram mortos porque no futuro ameaçariam o mundo?”
“No futuro? O DESTINO DE NINGUÉM FOI ESCRITO!! Todos devem traçar seus destinos como bem entenderem, todos têm o direito de escolher como vivem.”
“Eles dizem que fizeram isso porque os deuses afirmaram que tudo aqui seria perigoso no futuro?”
“Pelo que eu saiba, nenhum dos sete deuses tem Autoridade sobre o Tempo ou Destino… sendo assim, como podem ter tanta certeza? De onde tiraram essa informação?”
Escutando as palavras de sua amiga, o brilho retornou aos olhos da nanica… o brilho da dúvida.
Iola estava certa. Se nenhum deus podia ver o futuro ou ler o destino, como poderiam saber o que as pessoas dali se tornariam no futuro?
“Você é a Rainha Demônio? Claro que não! Eles te transformaram nisso e você aceitou no fim.” Iola continuou. “Agora, cotoco, assuma tal manto. Já que decidiram fazer de você um demônio… então torne-se o pior deles. Livre-se de qualquer culpa ou remorso e encarne a maldade absoluta.”
“Não dê ouvidos a esses. Seja uma boa menina e deixe o papai orgulhoso.”
Quando o discurso de Iola chegou ao fim, a espada do Cavaleiro Templário retornou, tendo o pescoço de Vaiola como alvo.
Plang.
O ataque foi poderoso, porém inútil.
A espada se quebrou assim que o choque com o pescoço ocorreu.
O soldado arregalou os olhos, incrédulo. Existia um jeito de vencer aquela criatura?
Notando a Rainha demoníaca ali, imóvel, os outros soldados se desviaram das rotas que tomavam e se lançaram contra ela.
— MORRAAA!!!!
Contudo…
— Coungh!
Todos os Cavaleiros Templários cessaram os passos. Eles sequer conseguiam entender. A Rainha Demônio, num piscar de olhos, se transformara num borrão. Quando voltou a se mostrar, flutuava novamente, as mãos cravadas no peito do Cavaleiro diante dela até a metade do antebraço.
“Vou deixar…”
Crack!
À medida em que seus braços se separavam, o corpo do soldado rasgava-se ao meio. Vaiola quebrava ossos como quem rebenta um fio de cabelo.
Crack.
“… o papai orgulhoso.”
Ela se tornaria uma boa menina.
— Gh… — O Cavaleiro ainda estava vivo, sentindo cada segundo de dor. — GHAAAAAAAAHHH!!!
Para os outros, o terror de ver aquilo foi diferente, mais intenso.
Antes, eles só viam corpos caídos despedaçados, sem presenciar o processo. Ver aquilo, a forma como um corpo humano numa armadura de ferro era rasgado sem um mínimo esforço aparente, era apavorante.
O sorriso da nanica cresceu. A felicidade de poder encher seu pai de orgulho em seu leito de morte era avassaladora.
Quando o corpo do Cavaleiro, rasgado em duas partes, caiu espalhando sangue e entranhas, Vaiola já estava na frente de outro soldado, os dedos cravados em seu pescoço, antes de arrancar sua cabeça.
— ATAQU… — O soldado que gritava sequer teve chance de terminar a fala. Sua cabeça explodiu quando a cabeça do outro, arremessada pela nanica, se chocou contra a dele.
Aquilo não foi uma batalha… foi um massacre.
Em menos de dez segundos, toda aquela unidade fora aniquilada, restando apenas uma montanha de corpos jogada sobre uma grande poça de sangue.
Vaiola estava lá, parada no topo do monte de pedaços de corpos humanos, suspirando.
“Heh. Parece que eu…”
Estava tão perto de voltar a ser uma boa menina.
Mas…
Thing! Voosh!
Ainda existiam obstáculos que ela precisava ultrapassar.
Quase não percebeu o que a atingira. Viu apenas um vulto surgir ao seu lado, empunhando alguma arma pesada, que foi usada para golpear seu abdômen.
Seu corpo rolou e quicou várias vezes pelo chão enegrecido, ficando coberto de fuligem e cinzas, até que conseguiu se apoiar e parar aquela situação.
— Como foi dito… você é realmente uma ameaça, não só para a humanidade, mas para o mundo como um todo. — O vulto que a atacou falou, sua silhueta se delineando na cortina de poeira que cercava a pequena. — Você deve morrer aqui, custe o que custar.
Gradualmente, a poeira dissipou-se, e a figura de um homem numa armadura metálica preta se revelou, segurando um grande machado duplo.
— Não há sequer um arranhão. — Possuía cabelos longos feito a noite e seus olhos estavam cobertos por uma venda vermelha aparentemente comum. — Então você é resistente nesse nível.
Era Daaran, Apóstolo da Guerra.
Enquanto Vaiola tentava medir ao menos a média da força daquele homem, outros seis vultos pousaram ao redor dela, cercando-a.
— Parece que não será uma batalha fácil. — Uma mulher falou, de longos cabelos castanhos amarrados num rabo de cavalo. Seu enorme porte físico a tornava o maior humano que a mais nova já vira, com músculos bem definidos. Vestia apenas uma calça, e os seios estavam escondidos debaixo de várias camadas de faixas brancas.
Era Alliardes, Apóstola do Tremor. Seus olhos se escondiam atrás de uma venda castanha.
— Pois é. — Quem falava estava atrás de Vaiola. Era uma mulher também, mas esta tinha um corpo mais feminino e esguio. Ninguém entendia por que ela insistia em usar óculos sobre a venda branca. Empurrou algumas mechas esverdeadas para trás da orelha, suspirou e estendeu a mão direita para frente. — Vamos começar isso logo, então!
— Huh? — Vaiola espiou por cima do ombro para ver quem falava, surpreendendo-se ao ver que a mulher carregava um livro cujo título era: [As Leis da Justiça].
— Quem não serve aos Deuses… — A mulher de óculos voltou a falar, sua voz emitindo uma vibração estranha que agitava o ar. Vaiola até sentiu seus instintos protestarem, mas não teve tempo de reagir. — Está proibido de se mover neste lugar.
“Hã!!?” — A nanica arregalou os olhos. — “E-eu… não consigo… me mover!!?”
Seu corpo estava paralisado.
— É AGORA!!! — A mulher de óculos gritou.
Era Zarien, Apóstola da Justiça.