Capítulo 43 — 1 Demônio (5/10)
Capítulo 43 — 1 Demônio (5/10)
— No fim, parece que superestimamos ela. — Assim que o pequeno corpo da Rainha Demônio caiu imóvel sobre o chão, a primeira a falar foi Alliardes, que encarava a nanica com uma sombra de desprezo no olhar. — Apesar de tudo, o fato dela ter suportado tantos golpes, principalmente dois Impactos do Tremor, foi realmente surpreendente.
Os sete Apóstolos estavam reunidos ao redor do corpo aparentemente sem vida da menina e, mesmo em silêncio, todos compartilhavam do mesmo pensamento:
“Não podemos deixar isso amadurecer.”
Aquela Monarca Demoníaca havia se mostrado aterrorizante, mesmo possuindo um corpo tão pequeno e uma idade tão jovem. Que tipo de monstruosidade ela se tornaria no futuro caso saísse dali viva?
Nenhum deles possuía a capacidade de enxergar o futuro, mas apenas imaginar aquela possibilidade já era suficiente para causar arrepios. Se aquela menina se tornasse uma mulher, talvez não existisse neste mundo alguém capaz de pará-la.
— Ninguém superestimou ela. — Daaran rebateu após alguns segundos de silêncio.
Seus olhos permaneceram fixos na derrotada Rainha dos Demônios, mas, diferente da sombra de desprezo presente no olhar da Apóstola do Tremor, aquilo que brilhava nos seus olhos era algo mais profundo… mais inquietante.
— Apenas tivemos sorte de chegar no momento certo para derrotá-la.
Após aquelas palavras, os Apóstolos permaneceram em silêncio por alguns segundos, todos absorvendo aquela realidade.
Afinal, aquilo era a pura e cruel verdade.
Eles podiam sentir que, se tivessem chegado nem que fosse apenas um mês depois, aquela batalha provavelmente teria um resultado completamente diferente.
Mas ninguém comentaria mais sobre aquilo.
O simples fato de terem precisado unir forças para vencer já era frustrante e vergonhoso o bastante. Apenas imaginar que, sem um pouco de sorte, eles — sete Apóstolos e quinhentos Cavaleiros Templários — poderiam ter sido derrotados por uma única menina fazia com que se questionassem se realmente eram dignos das bênçãos que receberam.
No fim, o fato dela ser a Rainha dos Demônios não mudava a realidade:
Ela ainda era apenas uma criança.
E talvez justamente a sua falta de experiência tivesse sido o fator decisivo para a vitória dos Apóstolos.
— Vamos acabar com isso de uma vez. — O próximo a falar foi Jirion, Apóstolo do Sol.
Ele deu um passo à frente após pronunciar aquelas palavras, suspirou e abriu os braços, como se fosse abraçar algo ou… iniciar um louvor.
— Reis… — Enquanto Jirion se preparava, Zarien, Apóstola da Justiça, sem falar com ninguém, aproximou-se do corpo da nanica.
Ela ajoelhou-se com a perna direita no chão e colocou a mão sobre o peito da menina. De fato sentiu o poder da Justiça fluir pelo seu corpo, esperando apenas ser canalizado para que pudesse ditar a lei.
Contudo…
Sua garganta pareceu congelar.
As palavras simplesmente não saíram.
“Como da última vez.”
Era exatamente como quando aquela batalha começou.
Seu plano inicial naquela ocasião era ditar uma lei que apontasse diretamente para aquela coisa que agora jazia no chão. Algo que a restringisse por completo incondicionalmente.
Mas, assim como acontecia atualmente, o mesmo ocorreu daquela vez. Sua garganta pareceu congelar e as palavras simplesmente não saíram.
Nada aconteceu, porém, quando ela adaptou a lei para não apontar diretamente para aquela existência.
Era como se…
“Eu ainda não sou forte o suficiente para afetá-la diretamente…”
Se fosse criar uma lei contra aquela criatura, precisava ser algo capaz de atingi-la, mas sem ser direcionado diretamente contra ela.
— Haaa… — Acalmou a própria mente e o coração, levantou-se e começou a falar:
— Criaturas impuras… — Estendeu o indicador e o dedo médio enquanto falava, e um círculo de aproximadamente um metro de raio desenhou-se no chão ao redor deles. — Não têm poder neste Santuário.
Assim que terminou sua declaração, a próxima a agir foi Riwen, Apóstola da Vida. Ela ajoelhou-se e tocou o solo, sem pronunciar uma única palavra.
Após aquele gesto, a terra dentro do círculo ganhou vida instantaneamente, criando braços que prenderam completamente a nanica contra o chão, deixando visível apenas sua cabeça coberta de sangue.
Por fim, Fargeus, Apóstolo da Arte, segurou seu pincel com elegância sobre os braços de terra e, depois de milésimos de segundos de espera, uma gota de tinta negra caiu sobre os membros de terra.
Com um simples movimento do pincel, aquela tinta espalhou-se pela superfície, transformando-se em armaduras ameaçadoras cobertas por pontas afiadas, além de criar correntes que reforçavam ainda mais aquela prisão.
— Vou começar.
Quando todos acreditaram que aquilo seria suficiente para impedir a nanica, mesmo que um milagre acontecesse, Jirion prosseguiu.
— Ó Monarca Bendito, cuja Luz jamais conhece o ocaso. Aquele que dissipa as trevas com Sua presença. Aquele cujo calor conforta os justos e consome os impuros.
— Pela Luz que revela toda mentira. Pelo Calor que acolhe os virtuosos. Pela Chama que purifica. Pelo Fogo que tudo incinera…
[Ao mesmo tempo]
Um tanto distante dali, nas alturas, uma nuvem negra havia se desgarrado das outras e flutuava a uma altura anormal, bem mais abaixo das demais.
— Iaau… — Sobre a nuvem, uma mulher se espreguiçava. Estranhamente, as roupas que vestia, se é que aquilo podia ser chamado de roupa, pareciam a mais pura escuridão, que se delineava em seu corpo como uma longa saia larga e o que parecia um top de mangas cumpridas, deixando pra fora sua barriga definida. — Pois então, uma Hermês ameaça destruir o mundo…
Ela parou por um segundo e nunca saberemos para onde seus olhos miravam, já que uma venda preta, com uma lua de prata cercada por quatro estrelas estampada no centro, cobria-os.
— Pff…!
Rapidamente, cobriu a boca com ambas as mãos e até conseguiu se conter por alguns segundos, mas a gargalhada não demorou a explodir.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
Quando as mãos abandonaram a boca, a esquerda foi até a cintura e a direita subiu e desceu, praticamente espancando a própria coxa.
— HAHAHAHAHAHAHA!!
A alegria dela era tamanha que, sem conseguir mais se controlar, a mulher caiu sobre a nuvem e começou a rolar de um lado para o outro repetidas vezes enquanto segurava a barriga.
— HAHAHAHAHAHA!
Ela permaneceu daquela forma por um bom tempo, chegando até a molhar sua venda com as lágrimas que derramava.
— Haaa…
No fim, suspirou e limpou o excesso de lágrimas que começava a escorrer da venda para o rosto.
— Eu estava precisando disso. — Voltou a se espreguiçar, estalando alguns ossos do corpo. Então, sua face se voltou para uma direção específica. — Quem diria que os deuses são comediantes tão bons… Hahaha. Como se fosse possível a carne DELE destruir o que ELE construiu.
Um sutil brilho prateado emanou da lua no centro da venda e, no instante seguinte, ela estava completamente seca.
— Eu não estava esperando que a Rainha dos Corvos fosse interferir… para ter conseguido fazer aquela reclusa agir, aquela menina deve ser bem especial, não é mesmo? — Ela parecia falar com o ar, mas nada era como parecia. — Bem, parece que agora é a nossa vez de ajudar…
Ela pareceu fazer alguma associação e sorriu.
— Assim que os outros souberem disso, certamente vão chamar de…
Fez uma pequena pausa dramática e colocou as mãos à frente do corpo, como se para fazer uma apresentação.
— A Aliança das Rainhas…
Afinal, ela estava ali por parte da Majestade Maldita.
— Não vai ser nada extravagante como o que a Dama Pálida fez, mas, se você é uma Hermês de verdade, deve ser o suficiente…
Ela apenas estalou os dedos e, depois de breves instantes, sorriu.
— Está feito.
Não houve sinal de mudança alguma.
— Até a próxima.
Levantou a mão e balançou os dedos em despedida.
Quando os dedos pararam de balançar, sua pele se desprendeu do corpo, como as cascas finas de uma maçã, revelando músculos vermelhos e suculentos que derreteram e escorreram, junto com o sangue, pelo esqueleto, que se desfez em pó logo em seguida, até formar uma poça sobre a nuvem.
[Enquanto isso]
Vaiola se viu cercada pelo absoluto breu, incapaz de sequer enxergar o próprio corpo.
Abraçada por aquela escuridão sem limites, a pequena sentia-se em paz consigo mesma e com o ambiente.
Era como se todas as suas inquietações já estivessem resolvidas.
“Você pode descansar agora…”
Ela nem se preocupou em procurar a dona daquela voz, sabendo que seria inútil naquele vazio insondável, mas reconheceu que era a sua amiga imaginária, Iola.
— Eu… posso mesmo?
Havia alguma hesitação ali, como se ela quisesse permanecer naquele lugar, mas sentisse que ainda tinha a obrigação de retornar para cumprir a última ordem de seu pai.
“Claro que pode. Você deu o seu melhor, fez o que te era possível fazer naquela situação…”
A voz da amiga imaginária soava tão próxima, mas também tão distante. Estranhamente, aquele eco dava um tom quase hipnótico ao som.
“Você pode ter certeza, o papai está orgulhoso.”
Vaiola sorriu.
Ela podia, enfim, descansar e deixar tudo para trás.
— Se é assim, vou só…
Em meio à escuridão, deitou-se no chão e fechou os olhos, sua voz tornando-se cada vez mais etérea.
Mas…
— Vaiola Hermês!
Seu corpo estremeceu.
Aquela voz. Aquele tom que fazia com que ela se sentisse minúscula.
Ela conhecia muito bem.
— Que palhaçada é essa?
Vaiola abriu os olhos abruptamente e ergueu o tronco, tentando inutilmente encontrar a dona daquela voz.
“É mesmo… eu ainda tenho a minha…”
— Mãe?
Ela tinha esquecido completamente da existência da sua mãe, aquela que havia dito que estaria logo atrás… que a encontraria depois de resolver alguns assuntos.
Finalmente…
Finalmente ela tinha chegado.
— Você cheg…
As lágrimas já escorriam, mas a fala foi interrompida.
— Parece que você já se esqueceu das tuas raízes.
A voz da Lavina ecoou. Confusa, Vaiola apenas murmurou:
— Quê?
— E daí se o que você já fez for o suficiente para deixar o Glamich orgulhoso!? Você acha que isso é motivo para se jogar aí e desistir?
A voz vinha de todos os lados, parecendo cada vez mais próxima.
— “Já fiz o suficiente”, esse é o tipo de pensamento de merda que uma Hermês nunca deve ter. — O tom se tornou cada vez mais rígido e bravo. — Nunca é o suficiente se os nossos inimigos ainda estão de pé.
— Qualquer outro pode pensar assim, mas você não é qualquer um, você é uma Hermês.
Após um suspiro, Lavina continuou, parecendo mais calma, como se para dar um conselho.
— Eu já disse isso uma vez, mas você parece ter esquecido, então voltarei a dizer:
— Arrancaram seus braços, então use as pernas e esperneie até que elas sangrem.
— Estás sem as pernas também, então use os dentes. Morda de novo e de novo, até que eles caiam.
— Sem os dentes? Então continue dando cabeçadas até derrubar o seu oponente.
— Escuta bem, pequena, e nunca mais volte a esquecer…
Um segundo de silêncio.
— Não é sobre você. Não é questão de escolha. Toda E Qualquer Hermês É PROIBIDA De Desistir.
— Agora, levanta daí e mostra pra todos eles o que acontece quando se metem no caminho de uma Hermês!
— Purifica aquilo que nasceu impuro. Ilumina aquilo que se perdeu na escuridão. Incinera aquilo que desafia Tua vontade. — Jirion continuava seu cântico, sua postura, apesar de ereta, demonstrava reverência e adoração.
— Que Teu Julgamento desça dos céus. E que Tuas chamas devolvam toda corrupção ao nada.
Em meio às chamas que consumiam o que ainda restava das Terras Centrais, um pilar de luz desceu dos céus assim que o Apóstolo do Sol terminou sua oração.
A coluna luminosa caiu exatamente no centro do círculo formado pelos sete Apóstolos, onde o corpo da Vaiola permanecia aprisionado.
“Pilar da Purificação.”
O nome da conjuração atravessou a mente de Jirion enquanto ele mantinha os braços abertos diante daquela manifestação divina.
“Tão gracioso…”
O Apóstolo estendeu a mão e tocou o pilar. Os outros, incapazes de ignorar aquela sensação, fizeram o mesmo.
Não era a primeira vez que aquela técnica era utilizada por aquele grupo, mas a Luz e as Chamas Purificadoras contidas naquela coluna sempre carregavam a mesma sensação…
Uma paz absoluta.
Uma alegria quase infinita.
“Inofensivo para seres puros, mas letal para criaturas corrompidas… principalmente demônios.”
Nem mesmo a terra seria destruída por aquela técnica. A Luz e as Chamas Purificadoras atravessariam tudo até alcançar apenas o alvo designado, apenas aqueles cuja essência estivesse corrompida.
“É a maneira mais segura de encerrar isso.”
Contudo, também era a mais lenta.
Por isso, era essencial que o alvo permanecesse dentro da área de atuação do pilar até o fim da purificação.
Os Apóstolos permaneceram em alerta, observando atentamente qualquer possível “milagre” que pudesse vir a acontecer.
“Mesmo que você volte a se levantar…”
“Mesmo que, de alguma forma, encontre forças para lutar novamente…”
“Não permitiremos que saia daqui.”
O Pilar da Purificação permaneceu ativo por quase cinco minutos.
Cinco minutos que pareceram uma eternidade.
Até que, de repente, a imensa coluna começou a diminuir, recolhendo toda a sua luz em direção ao solo.
E, no último instante…
Explodiu.
Fragmentos luminosos se espalharam por todos os lados, iluminando aquelas terras destruídas por breves segundos.
A intensidade era tamanha que até os Apóstolos precisaram erguer os braços diante dos rostos, mesmo usando suas vendas.
Quando a claridade finalmente desapareceu, todos soltaram, internamente, um suspiro de alívio.
Tudo havia chegado ao fim.
…
Crack!
Ou pelo menos…
Era o que eles pensavam.