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Capítulo 44 — 1 Demônio (6/10)

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Capítulo 44 — 1 Demônio (6/10)

[????]

Era uma pequena casa de um único cômodo, dividida ao meio por uma fina tábua de madeira.

A escuridão reinava ali.

— Hã?! É sério que essa é a sua pergunta? — Uma voz ecoou de um dos lados da divisão. Era a voz de uma mulher, carregada de zombaria. — Sério que existe alguém que não sabe a resposta para isso? Todo mundo sabe, não?

— Não é a resposta de todo mundo que busco. — Outra voz se fez ouvir, desta vez a de um homem, cujo tom transbordava determinação. — O que quero é a Tua resposta!

Era um jogo de perguntas e respostas, e aquela era a vez de o homem fazer a sua pergunta.

— O que acontece se uma Hermês se tornar inimiga do mundo? — tornou a perguntar.

— Ahhhh… que pergunta ridícula. — A outra suspirou. Não conseguia entender a razão que levava o homem a sacrificar sua última questão em busca de uma resposta que poderia encontrar em qualquer lugar. — Que merda! — Voltou a suspirar. Era impossível fazê-lo mudar de ideia quando decidia alguma coisa. — É claro que…

— Seria o nosso fim!

[Terras Centrais: Centro]

[No trajecto entre Sarrak e Favela do Leste]

— Mais rápido! Temos de nos apressar! — gritava a plenos pulmões o homem sobre o cavalo negro na dianteira, sua armadura vermelha emitindo ruídos metálicos a cada solavanco da montaria.

— Merda!!! — A mulher montada no cavalo castanho ao lado dele rosnou em seguida, olhando para o cristal que brilhava em vermelho no seu pulso. — O que diabos está acontecendo lá!!?

— Como você quer que a gente saiba!? Esqueceu que estamos juntos desde cedo!?? — Com a expressão carregada de preocupação e uma sutil raiva, o homem sobre o cavalo cinza respondeu logo em seguida, também lançando olhares, de vez em quando, para o cristal que pulsava num vermelho vivo em seu pulso.

— Seja lá o que for, com certeza não é nada simples… Se fosse, os Apóstolos não teriam ativado o Alerta Vermelho. — Montado no cavalo branco, ao lado do cavalo negro, outro homem declarou, tentando manter a calma.

De tanto que a terra tremia por ali, se houvesse alguma alma viva nas proximidades, certamente fugiria em busca de um abrigo seguro, convencida de que aquilo era um terremoto.

Afinal, nenhuma criatura imaginaria que aquele abalo estivesse sendo causado pela marcha de um pequeno exército de quatrocentos Cavaleiros Templários.

Eram as outras quatro Unidades.

Somente aqueles quatro na dianteira, os Capitães das Unidades, possuíam cavalos; todos os demais precisavam seguir viagem a pé.

Ninguém tinha certeza do que estava acontecendo. Sabiam apenas que, assim que terminaram a Purificação do lado deles, em Sarrak, os cristais de comunicação dos Capitães começaram a brilhar na cor do sangue, abandonando o habitual tom transparente.

— Vocês acham que… — A única mulher entre os capitães rompeu o silêncio alguns segundos depois. Sua voz carregava uma hesitação incomum. — Acham que “ele” apareceu?

Nenhum dos outros capitães respondeu.

Os três apenas baixaram a cabeça, mergulhados nos próprios pensamentos.

O Rei Demônio.

Eles haviam chegado às Terras Centrais com um único objetivo: exterminar aquele ser.

O que não esperavam era ver a própria fé e determinação se desgastarem aos poucos durante a campanha, ao ponto de sentirem alívio quando a criatura que caçavam não apareceu.

Tinham sido patéticos.

Indignos das bênçãos divinas que receberam.

Mas aquilo nem era o pior.

Afinal, a fé de qualquer pessoa pode vacilar um dia.

O que realmente os enchia de vergonha era perceber que aquele medo havia retornado no instante em que o cristal assumiu a cor vermelha.

Mesmo depois de receberem tantas bênçãos…

Mesmo depois de terem sido protegidos e guiados pelos deuses durante tanto tempo…

Como ainda conseguiam duvidar?

Seria aquilo apenas o medo da morte?

Todos ali sabiam que, se um combate contra o Rei Demônio começasse, a maioria jamais voltaria para casa.

Seria esse o verdadeiro problema?

— É PARA ISSO QUE ESTIVEMOS NOS PREPARANDO!!! — alguém gritou em meio aos Cavaleiros Templários, atraindo a atenção de todos. — Vamos lá salvar o mundo!!

Quando o soldado ergueu sua espada envolta por uma chama dourada e bradou aquelas palavras, todos os demais fizeram o mesmo, tomados por uma motivação ardente.

— ÉÉÉÉHH! VAMOS SALVAR O MUNDO!!

— AÊHHH!

É…

Eles precisavam apenas se reunir aos Apóstolos e derrotar o Rei dos Demônios.

Tinham as bênçãos dos deuses.

Tinham os Apóstolos.

Mesmo que muitos tombassem, se aquela criatura fosse destruída, seria uma vitória.

Não apenas para a humanidade.

Mas para o mundo inteiro.

— Ahhhh… — O Capitão sobre o cavalo negro suspirou e sorriu de olhos fechados. — Ele tem razão. Nós nos preparamos para isso durante muito tempo. Agora é o momento de…

Uma faca rasgando a alma.

As palavras do capitão morreram na garganta quando aquela sensação aterrorizante tomou conta de todo o seu ser.

Quis abrir os olhos para entender o que estava acontecendo, mas as pálpebras pareciam pesar toneladas.

Seus instintos gritavam.

Principalmente quando percebeu que já não conseguia ouvir os gritos de guerra dos soldados.

Os segundos se arrastaram.

O desespero crescia.

O ar lhe faltava.

A sensação persistente de ter sua alma dilacerada por uma lâmina continuava lá, enquanto ele permanecia preso à mais completa escuridão.

— Urtial! Urtial! Você consegue me ouvir!? — Até que uma voz conhecida ecoou em sua consciência, trazendo consigo as forças que ele tanto buscava. — Urtial!!! Você ainda está vivo, certo!!?

Subitamente, seus olhos se abriram.

“Como assim? Por que está me perguntando se ainda estou vivo!?”

Enquanto aquele pensamento ecoava em sua mente, Urtial finalmente conseguiu erguer as pálpebras…

Apenas uma delas.

“O que—?”

O choque tomou conta dele.

Estava caído de costas, incapaz de mover o corpo.

Seu companheiro de longa data, o grande cavalo negro, jazia sobre ele, prensando-o contra o chão.

“O que aconteceu… aqui?”

Todos os soldados, que poucos instantes antes marchavam com o moral renovado, agora estavam estatelados no solo, espumando pela boca.

— URTIAL!!

Ao ouvir novamente aquela voz, virou a cabeça para o lado e encontrou a única mulher entre os capitães.

“Daerina…”

Toda a metade inferior de seu corpo estava ensanguentada.

Músculos e ossos permaneciam expostos, como se tivesse sido esmagada repetidas vezes por alguma força monstruosa.

Foi então que Urtial percebeu outro detalhe.

Seu cavalo também espumava pela boca.

— É… eu sei… é bem feio. — Ela murmurou, forçando um sorriso que deformou sua expressão de dor. — Os cavalos enlouqueceram repentinamente… O meu, em especial… ficou bastante… brutal…

“Quê…? Quando isso aconteceu?”

Ele só fechara os olhos durante um simples sorriso…

— Todos os soldados… caíram de uma só vez… e… eu não consegui ver direito porque desmaiei… por causa da dor e da perda de sangue… mas alguma coisa muito rápida… passou por aqui… e acho que… devorou os outros dois…

“Mas…”

— Você sentiu aquilo, não foi?

Urtial arregalou os olhos, lembrando-se imediatamente da sensação de ter a alma rasgada por uma faca.

— Aquela Presença… será que foi “ele”?

“Aquilo… foi apenas a expansão da Presença do Rei Demônio?”

Fazia sentido, finalmente.

Agora ele entendia por que o cristal brilhara na cor do sangue.

“É sequer possível vencer uma coisa daquelas?”

— Se a mera presença “dele” pode fazer isso… — Daerina enfraquecia a cada palavra. No fim, sua voz reduziu-se a um sussurro. — Será que o mundo… poderá ser salvo… desta vez…?

[Terras Centrais: Favela do Leste]

Boom!

Com a explosão repentina, os Apóstolos saltaram para longe daquele círculo sagrado criado anteriormente pela Apóstola da Justiça.

— Mas… — Fargeus ergueu a cabeça em direção à explosão, o cenho franzido em confusão. — O que está acontecendo?

De todos os presentes, o mais chocado era Jirion, Apóstolo do Sol. Debaixo da venda, seus olhos permaneciam arregalados. Ele simplesmente não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo.

— Como? — Aquela que permanecera em silêncio até então finalmente se pronunciou, voltando de imediato o rosto para a mulher de óculos, a Apóstola da Justiça, Zarien. — Como isso é possível? — No centro da densa cortina de poeira erguida pela explosão, uma vaga silhueta começava a se formar. — As suas regras… aquilo quebrou a sua regra?

Era uma mulher de longos cabelos cor-de-rosa, usando uma venda da mesma cor.

— Não. — Zarien sentia claramente o poder da Justiça ainda agindo, sem qualquer interferência naquele santuário. — Não quebrou…

O problema era outro.

A regra imposta naquele santuário — “Criaturas impuras não têm poder neste Santuário.” — simplesmente não detectava nenhum alvo dentro daquela área.

— Espera… você não está querendo dizer que… — A mulher de cabelos cor-de-rosa não teve coragem de concluir a pergunta.

Nenhum dos outros Apóstolos teria.

Afinal, se a única forma de escapar das regras da Apóstola da Justiça era não ser um alvo delas, então…

“Não há nenhuma criatura impura lá.”

Os sete chegaram à mesma conclusão.

Contudo, no mesmo instante, recusaram-se a aceitá-la.

Havia, sim, uma criatura impura naquele santuário.

A regra não funcionava porque…

Porque…

Era porque… Zarien ainda não era poderosa… o suficiente.

Sim.

Essa conclusão fazia muito mais sentido.

“Claramente é isso.”

Depois de chegarem àquela resposta, os sete voltaram sua atenção para a silhueta, que se tornava mais nítida a cada segundo.

Tinham certeza de que alguma coisa havia mudado.

A Presença que sentiram durante a explosão — e que continuavam sentindo, suportando sua pressão apenas graças ao olhar divino que repousava sobre eles — era prova disso.

Não podiam permitir o surgimento de uma nova variável naquele momento.

Assim, posicionaram-se rapidamente, comunicando-se apenas por breves acenos de cabeça, prontos para avançar contra a Rainha Dem…

Kaaaahhh!!

A coordenação dos sete, porém, foi interrompida abruptamente quando uma horda de, pelo menos, dez pássaros grotescos surgiu nos céus, mergulhando velozmente naquela direção.

Bam!

Não demorou.

Num instante, já estavam alinhados como uma muralha entre os Apóstolos e a nanica.

“Como esperado… ela é mesmo a Rainha dos Demônios.”

“Os deuses estavam certos.”

Aquela aparição repentina fortaleceu a convicção dos Apóstolos, incendiando ainda mais a fé que, por alguns breves segundos, havia vacilado.

As criaturas recém-chegadas estavam longe de serem pássaros comuns.

Nenhuma delas possuía olhos.

O enorme bico negro, com quase meio metro de comprimento, ocupava praticamente todo o rosto.

Seus corpos, incluindo as asas, pareciam ser constantemente sugados por um buraco negro, torcendo pele e penas em espirais deformadas, entre as quais despontavam ossos ainda ensanguentados.

Bestas Corrompidas.

Servos diretos dos Demônios.

E cada uma media cerca de quatro metros de altura.

Kaaaahhh!

Quando todos aqueles bicos se abriram ao mesmo tempo, os Apóstolos precisaram proteger o rosto contra a violenta rajada de vento.

Por muito pouco não foram empurrados para trás.

— Então… vieram proteger sua Rainha! — declarou a de venda rosada, abrindo um largo sorriso.

— Vieram logo dez Corvos Distorcidos… — comentou Alliardes em seguida, estalando os dedos. — É tão raro ver tantas Bestas Corrompidas da Classe Desastre reunidas num só lugar.

— Devem estar tentando ganhar tempo para alguma coisa que ela esteja fazendo. — Daaran falou em seguida, fazendo uma longa espada surgir em sua mão. — Devemos acabar com is…

— Ninguém se mexe! — ordenou a Apóstola com a cor rosa como dominante.  Sobre sua mão esquerda estendida, alguma coisa brilhava num delicado tom rosado. — Esta é a minha área…

— Parece que eles não vão se mover enquanto não atacarmos. — Eram apenas uma muralha pronta para defender. Ela pretendia tirar proveito disso. — Alvos fáceis.

A luz sobre sua palma cresceu exponencialmente, assumindo rapidamente o formato de um coração.

Sem demora, o coração de energia cor-de-rosa já possuía praticamente o mesmo tamanho de sua conjuradora.

— Continuem paradinhos aí… — murmurou entre pequenos sorrisos, posicionando os braços atrás do coração, como se segurasse um arco invisível. — E, em breve… — Pela postura que assumiu, era evidente que dominava a arte do arco e flecha.

Quando a Apóstola firmou a posição, a energia do coração começou a ser sugada em sua direção, moldando rapidamente um arco e uma protuberância que se estendia do centro do coração até os dedos de seu braço recuado.

No espaço de um instante, o coração transformou-se numa fina flecha, cuja ponta possuía o formato de um pequeno coração vertical.

— … poderão ser…

Um círculo daquela mesma energia rosada desenhou-se no chão sob seus pés. Da circunferência, uma coluna de energia disparou rumo aos céus como uma rajada furiosa, criando pequenos corações etéreos que passaram a flutuar ao redor da Apóstola.

— Meus cachorrinhos mais leais.

Ela soltou a flecha logo em seguida.

Quando o projétil de energia rosada alcançou as Bestas Corrompidas, simplesmente explodiu, cobrindo toda aquela área e erguendo um enorme “cogumelo de coração”.

— Cativação.

Alguns instantes depois, a energia rosa dissipou-se, revelando as Bestas Corrompidas completamente intactas.

— Agora, meus servos… matem a coisa atrás de vocês!

As Bestas não ofereceram qualquer resistência àquela ordem, tomando aquelas palavras como absolutas.

Por entre as frestas dos seus longos bicos negros capazes de devorar a luz, uma densa névoa rosada vazava.

Então…

— Matem a vossa Rainha!

… Voltaram-se contra a nanica.

Aquela era Lartia, Apóstola do Amor.