Capítulo 45 — 1 Demônio (7/10)
Capítulo 45 — 1 Demônio (7/10)
Como chamas consumidoras de uma paixão desenfreada, a névoa rosada envolveu as Bestas Corrompidas, conferindo-lhes uma aparência ainda mais horripilante.
Vaiola permanecia imóvel dentro do Santuário criado pela Bênção da Apóstola da Justiça. Seus olhos estavam bem abertos, mas carentes de vida, como se a alma ali dentro ainda lutasse para se reajustar.
A escuridão que antes preenchia suas escleras já não ameaçava consumir a luz e a linha vertical vermelha que conectava os dois pontos, o azul e o roxo, havia desaparecido há muito.
— O que estão esperando!!? — A voz da Apóstola do Amor, antes carregada de entusiasmo, agora soava áspera e impaciente. As chamas rosadas que cobriam os Corvos Distorcidos tremeram e se intensificaram. — Mandei Matarem Logo Isso Aí!!
Sua voz saiu um pouco mais alta que um sussurro, desprovida de qualquer entusiasmo anterior. O sorriso evaporara de seus lábios, restando apenas uma expressão distorcida por uma fúria repentina.
Os outros Apóstolos não se moveram, limitando-se a observar, imóveis como estátuas.
Com vasta experiência em testemunhar a Cativação reverter o curso de batalhas que poderiam ter terminado desfavoravelmente, assistiam à cena com interesse genuíno; embora mantivessem os punhos cerrados e os pés firmes, prontos para intervir.
Suas Bênçãos vinham sendo empregadas continuamente desde o amanhecer. Se não parassem para descansar, em algum momento acabariam colapsando. Por isso, ter dez Bestas Corrompidas da Classe Desastre como aliadas seria de grande valia.
Todavia, alguns ainda encaravam aquilo com apreensão; o alvo era a Rainha dos Demônios, afin…
Voosh! Perfura!
Após breves instantes de pausa, as Bestas Corrompidas agiram em perfeita sincronia. Tão rápido que os Apóstolos sequer tiveram tempo de processar e reagir.
— Mas que…!? — Lartia gaguejou, incrédula, recuando meio passo. Seu cérebro ainda se esforçava para assimilar a informação que seus olhos arregalados lhe transmitiam.
— Haaa… — O Apóstolo da Guerra suspirou, enquanto observava a poça de sangue que se formava. — Então, o pior cenário se concretizou.
— Pois é. — Alliardes concordou, descruzando os braços e inclinando a cabeça, os dedos tamborilando na própria coxa. — Parece que nem mesmo uma Autoridade divina consegue abalar a lealdade dessas criaturas.
Diante dos Apóstolos, os Corvos Distorcidos estavam voltados uns contra os outros, suas longas asas atravessando os corpos de seus semelhantes.
— Essas coisas malditas!! — A Apóstola do Amor rosnou entre os dentes, batendo o pé no chão com violência. No mesmo instante, no lugar onde seus olhos estariam, a venda brilhou num intenso tom rosado. — EU MANDEI…!!!
— Não vai adiantar. — Daaran a interrompeu, estendendo a mão aberta na direção dela num gesto de contenção. A poça de alcatrão no chão ao redor das Bestas Corrompidas crescia a cada segundo. — Então essa é a lendária lealdade das Bestas Corrompidas para com seus reis.
— Já que esta é a primeira desse nível que enfrentamos, eu só havia ouvido as lendas. — Alliardes comentou, os olhos sob a venda fixos na cena diante deles, sem disfarçar que estava impressionada, ainda que apenas um pouco. — As criaturas mais leais de toda Heternidade.
— Parece que é verdade que preferem a morte a ter que atacar seu monarca.
— Poi…
Vraaw!!
Mais uma vez, as Bestas Corrompidas agiram em uníssono, balançando suas asas para os lados e rasgando os corpos umas das outras.
Kaaaahhh!!
Seus grandes bicos negros se escancararam para deixar escapar um grito estridente após os ferimentos. Contudo, enquanto o sangue negro e viscoso respingava para todos os lados, todos ali presentes puderam sentir…
Não era um grito de dor o.
Era uma lamentação genuína, impregnada de uma determinação inabalável.
As Bestas Corrompidas lastimavam por terem falhado em proteger sua Rainha, mas estavam resolutas a nunca se tornarem uma ameaça para ela.
As asas das criaturas se estenderam mais uma vez e desceram sobre seus semelhantes, uma e outra vez, rasgando a pele grossa e as penas resistentes.
Um após o outro, os Corvos Distorcidos tombaram sem vida, seus corpos completamente esquartejados, consumidos pela dor, mas em paz.
No fim, apenas um restava vivo.
O corvo tinha a metade inferior do corpo separada do tronco, sangue escorrendo das inúmeras fendas que cobriam sua carcaça, suas entranhas rastejando no chão manchado pelo líquido negro.
Mesmo naquela condição, a Besta Corrompida reuniu forças para se arrastar em direção à sua rainha. A névoa rosada da Cativação já não produzia efeito há muito.
Havia apenas um metro e meio entre o Corvo e a nanica. Contudo, a criatura conseguiu avançar apenas meio metro antes que suas forças se esgotas…
Voosh.
Os Apóstolos arregalaram os olhos e saltaram para longe em perfeita sincronia, rapidamente assumindo posições de combate.
— Não… — Daaran congelou por um segundo, então murmurou, sua mandíbula inferior tremendo, os dedos cravando-se no cabo do martelo. — Isso… isso é brincadeira, não é?
Nos seus últimos instantes de vida, o grande Corvo sentiu pequenas mãos acariciando a região abaixo do bico inferior e o topo de sua cabeça.
A Besta Corrompida congelou. Aquele perfume… aquela doce fragrância que nenhuma outra criatura possuía…
Sua Rainha estava ali.
— Não! Não, não, não, não! — A condição do Apóstolo da Guerra piorava a cada segundo, seus olhos fixos na cena. Suor escorria-lhe da testa, e suas mãos, também úmidas, mal conseguiam segurar o grande martelo que surgira em suas mãos. Ele recuou mais um passo, os calcanhares raspando o chão. — Como? Como isso é possível?
Seu rosto estava voltado para a nanica, que agora apoiava a testa na cabeça do Corvo, já sem vida.
Vaiola transbordava uma densa e sinistra névoa roxa de todo o corpo.
— Por quê!!? Por que ela é uma Campeã? — Daaran recuou outro passo, lutando para não tremer por inteiro. O martelo oscilou em suas mãos trêmulas. — Ela é a porra de uma Rainha Demônio!! Não devia usar Magia Negra!!?
— E isso importa!? — Lartia gritou do outro lado, gesticulando com os braços, sem se importar com o fato de que toda aquela energia roxa exalada pela nanica estava sendo redirecionada para seus pulsos e tornozelos, como se houvesse buracos negros naquelas regiões. — Todos nós sabemos o quão chato é enfrentar um Praticante de Magia Negra.
— Comparado a isso, um Campeão deve ser bem mais fácil. — acrescentou, confiante.
Naquele instante, Vaiola estava de pé, seus olhos percorrendo lentamente os arredores, observando o massacre que as Bestas Corrompidas haviam perpetrado contra si mesmas.
— Haaa… — Repentinamente, o tremor do Apóstolo da Guerra cessou. Ele endireitou a postura, o martelo firmemente apoiado no ombro. — Sabe, Lartia, estamos nesta aliança temporária, então queria evitar ofender qualquer um de vocês. Mas coloque-se no seu lugar! — A voz dele, antes trêmula, agora soava como um trovão abafado. — Quando o assunto é Guerra e Combate, todos vocês da Igreja do Amor não passam de meros fetos diante de nós.
Ele sequer virava o rosto para aquela a quem se dirigia, mantendo os olhos fixos na cratera.
— Então não venha com especulações. Num campo de guerra, quando eu digo que estamos na merda, você apenas aceita. Quando o assunto envolver Beleza e Amor, aí você pode opinar!
Lartia cerrou os dentes, os punhos se fechando com tanta força que as unhas cravam na palma, cogitando veementemente iniciar uma discussão sobre o assunto, mas conteve-se. Em vez disso, desviou o olhar e soltou um sopro irritado pelo nariz.
Aquela aliança permanecera intacta até aquele momento porque todos respeitavam as Autoridades das Divindades por trás deles. No instante em que isso se perdesse, tudo desmoronaria.
Ali era um campo de batalha. Ou seja, Daaran, sendo o Apóstolo da Guerra, era quem detinha a voz dominante; logo abaixo dele seguia Alliardes, Apóstola da Guerreira Mãe, que observava a discussão com os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas.
— Alliardes!
Assim que Daaran pronunciou aquele nome, uma baforada de ar quase empurrou os outros Apóstolos para trás. E, Antes mesmo que pudessem se recuperar, uma explosão repentina quase destruiu seus tímpanos.
BOOOM!!!
— Mas que…!!!
O chão tremeu, e fendas se formaram quase instantaneamente por todo um perímetro de pelo menos cinco metros de raio. Os Apóstolos pularam par longe e firmaram os pés para não cair, alguns se apoiando uns nos outros.
Mas não parou por aí.
O tremor do solo só se intensificou nos instantes seguintes, até que a terra se fragmentou em inúmeros pedregulhos que foram lançados para todas as direções.
Era como se uma bomba tivesse detonado ali.
Aquela cena durou apenas um breve momento, até que os pedregulhos cessaram de voar, o chão parou de tremer e a cortina de poeira se dissipou.
Ao verem os últimos traços de poeira se desfazendo ao vento, os Apóstolos não puderam evitar ficar de boca aberta diante de tamanha demonstração de poder.
Um círculo de destruição se formara. Uma cratera com quatro metros de profundidade, que provavelmente teria mais se os pedregulhos espalhados por toda a área fossem removidos.
— I-isso… — Mais uma vez, a Apóstola do Amor não conseguia acreditar no que via, a mão direita subindo instintivamente para cobrir a boca entreaberta. Na verdade, nenhum dos Apóstolos, além de Daaran, parecia assimilar aquilo com tranquilidade.
— Então, você ainda acha que vai ser mais fácil vencer um Campeão? — Indagou, todo o seu foco no centro da cratera, onde Alliardes permanecia imóvel, o punho ainda colado ao tronco da Rainha Demoníaca.
Fora aquilo que causara toda aquela destruição, uma mera onda de choque. Contudo, aquela que recebera o golpe em cheio mantinha a cabeça erguida, com uma indiferença profunda em seu olhar. Era como se dissesse: “É só isso?”.
— Coloque uma coisa na cabeça e vê se não esquece: Num campo de batalha, Campeões são Reis. — Daaran acrescentou.
Alliardes recuou quase que instantaneamente para perto dos companheiros, na borda da cratera.
— C-como? — Lartia balbuciou, ainda com a mão sobre a boca.
Alliardes limpou o punho na coxa — um gesto quase automático — e respondeu à questão, a voz grave e controlada, embora sua respiração estivesse levemente ofegante.
— É muito simples. — Começou, observando a nanica, que ainda permanecia no centro da cratera. A densa névoa roxa ao redor de seu corpo quase desaparecera, e barras duplas roxas se formavam em seus pulsos e tornozelos. Alliardes apontou para ela com o queixo. — Ela é uma Campeã agora, usuária de Ehm.
Daaran tomou a palavra, balançando de leve o martelo na mão direita enquanto falava, como se o peso do objeto o ajudasse a pensar.
— Ela tinha uma fraqueza no começo — acrescentou, apontando para a nanica com o cabo do martelo. —, mas agora pode simplesmente imbuir Ehm em seus ossos e órgãos, tornando-os tão resistentes quanto sua pele.
— Ah! — A Apóstola finalmente compreendeu, baixando a mão da boca e franzindo o cenho. — Mas… mas como vencemos isso agora?
Se nem os golpes de impacto funcionariam mais, o que eles poderiam fazer contra aquela criatura?
— Existe uma chance. — Do outro lado, o Apóstolo do Sol foi quem respondeu, estendendo a mão direita em direção à cratera. — Aquilo… é certo que ela acabou de Despertar como Campeã, ou seja…
— Surto do Despertar.
— Exatamente. — Daaran continuou, baixando o martelo e apoiando a ponta no chão, os dedos ainda enrolados no cabo. — Assim como Riwen disse, ela está passando pelo Surto de Energia causado pelo Despertar, ou simplesmente, Surto do Despertar.
Alliardes pigarreou, cruzando os braços novamente enquanto observava a nanica com cautela.
— A nossa grande desvantagem é que isso vai colocá-la no ápice de poder que seu Potencial pode alcançar. — Falou, a voz mais baixa. — Tendo em conta que ela é a Rainha dos Demônios, é bom já começarmos com a mentalidade certa: O Pontecial dela é monstruoso.
— Ela já era monstruosa sem Despertar, afinal.
— Isso aí. — Daaran anuiu, erguendo o martelo novamente e colocando-o sobre o ombro. — Mas, como Jirion disse, temos uma chance.
— Dez segundos.
— Ela ainda está no processo de Despertar, então não vai atacar por enquanto. — constatou, observando toda a situação lá embaixo. — Mas também não adiantará lançar ataques agora, como já viram.
— Mas, assim que o Despertar for concluído, o Surto do Despertar dura dez segundos, e logo após isso… — Daaran fez uma pausa, os olhos percorrendo o rosto de cada Apóstolo, um por um.
— Após um Surto do Despertar, todo e qualquer Campeão passa por um coma que pode durar até três dias. — A Apóstola do Tremor concluiu, desviando o olhar da cratera para encarar os companheiros. Sua voz era firme, mas seus dedos, inquietos, tamborilavam na própria coxa. — É aí que virá a nossa chance.
— Resumindo, devemos enfrentá-la, que provavelmente estará no Estágio de um Anjo, por dez segundos, até que a nossa chance apare…
— Haha… — Jirion, que falava, interrompeu-se. Virou levemente o rosto na direção de Daaran, mas não foi só ele; todos os outros fizeram o mesmo, estranhando a risada repentina. — Ha-ha-ha-ha. Is-isso só pode ser sacanagem.
Não era alegria. Todos perceberam assim que olharam para o Apóstolo, notando o suor que se acumulava em seu rosto como gotas grossas que escorriam pela testa e se perdiam na barba por fazer. Sua respiração acelerara, e seus olhos, mesmo cobertos pela venda, pareciam arregalados.
Ao perceberem que seu rosto estava voltado para o centro da cratera, todos também se viraram para lá e, instantaneamente, congelaram. O ar pareceu se tornar sólido.
A névoa roxa que emanava de Vaiola formara o corpo de uma jovem mulher de longos cabelos e dez chifres saindo da cabeça. A figura flutuava atrás da nanica, imóvel, mas inegavelmente presente.
Era Iola.
Era uma Essência.
— E-ela deu… deu forma… à sua Essência? — Alliardes quase caiu de joelhos, sentindo as forças abandonarem seu corpo. Suas pernas dobraram ligeiramente, e ela precisou apoiar-se no ombro de Fargeus, que também estava pálido. — U-um Semideus!!?
O potencial daquela nanica estava muito além do que poderiam imaginar. Muito, muito, muito, muito além.
— Ha-ha-ha. — Daaran riu novamente, mas aquele som era vazio, mecânico. — Ela tem uma Autoridade e é uma Campeã com Essência…
O Apóstolo da Guerra tentava compreender qual fora o grande pecado do mundo para que tal criatura tivesse nascido. Sua mandíbula tremia enquanto seus olhos, ocultos pela venda, fixavam-se na figura de Iola.
Aqueles dois elementos separados, mesmo poderosos, não eram algo absurdo. Mas o assunto muda quando se sabe que os Campeões têm potencial para alcançar a divindade, mas nunca chegam lá, pois o máximo que podem alcançar é o Estágio de um Semideus.
O que diferenciava um Deus de um Semideus?
Simples: um tinha Autoridade e o outro não.
Daaran sentiu o sangue gelar em suas veias. O martelo em suas mãos pareceu pesar o dobro. Sua mente, treinada por séculos para processar informações de combate, finalmente conectou os pontos.
— Um…
“Não pode ser.”
— A porra de um…
“Estamos condenados.”
— Um Deus Demônio! — Como poderiam vencer algo daquele calibre? Eram meros Apóstolos. A única coisa que podiam fazer numa situação como aquela era… — CORRAM!!!!
Ninguém parou para questionar. Num instante, todos já haviam sumido.
— DEZ SEGUNDOS! FAÇAM O MÁXIMO PARA SOBREVIVER POR DEZ SEGUNDOS!!!
Para aumentar as chances de sobrevivência de pelo menos alguns, dispersaram-se para todos os lados, as vendas brilhando enquanto ativavam suas Bênçãos para ganhar velocidade.
Ao mesmo tempo, o Despertar da nanica se concluiu. Um tremor percorreu seu corpo, e seus olhos, antes vazios, ganharam um brilho intenso e a linha vermelha retornou.
Mas, antes que pudesse fazer seu primeiro movimento, uma Formação Mágica carmesim surgiu sob seus pés, e dela emergiram correntes de sangue que se enroscaram nos braços de Vaiola.