Capítulo 46 — 1 Demônio (8/10)
Capítulo 46 — 1 Demônio (8/10)
Os olhos da nanica, que já percorriam toda a área devastada, rastreando cada rota que os Apóstolos haviam tomado, baixaram rapidamente e fixaram-se em seus próprios braços.
Seu sobrolho franziu-se no mesmo instante, enquanto as correntes apertavam cada vez mais aqueles pequenos membros, praticamente cobrindo-os por inteiro, incluindo mãos e dedos.
Aquelas correntes de sangue e a Formação Mágica escarlate sob seus pés… ela lembrava bem o significado daquilo.
“Promessa de Sangue.” — O pensamento atravessou sua mente como um vulto breve e rápido.
A pequena ainda não sabia muito sobre aquela maldição que só podia ser lançada sobre si mesma, mas aprendera que, quando certas condições impostas pela promessa, desconhecidas pelo amaldiçoado, fossem cumpridas, a maldição surgia para cobrar o prometido.
Vuum.
Vaiola quase caiu para frente quando as correntes, repentinamente, puxaram seus braços para frente, mantendo-os estendidos e aproximados.
Crack.
Vendo seus dedos se contorcerem, ela relaxou o corpo por inteiro, desistindo de lutar contra aquelas amarras, permitindo que a guiassem.
O processo todo não durou mais de um segundo e meio, terminando no instante em que as palmas da criança se juntaram e todos os dedos apontaram para a mesma direção.
Assim que sentiu que as correntes haviam cessado sua influência, Vaiola desviou o olhar delas, erguendo a cabeça de pouco em pouco.
“Haahh…” Iola suspirou; sua mandíbula tremia e um largo sorriso insano se desenhava em seu rosto, ao mesmo tempo que sua cabeça pendia para o lado. “A gente já ia matar ela primeiro mesmo.”
Para dar o toque definitivo de loucura àquela expressão, um brilho que mesclava vermelho e roxo irradiava de seus olhos.
Em contraste, Vaiola, assim que seu olhar encontrou o alvo indicado pela Promessa de Sangue, apenas levantou as sobrancelhas e entreabriu os lábios, como se dissesse: “Oh! Então era você.”
Tinha um nobre entre os sete Apóstolos. E era aquela que já se tornara o alvo prioritário para aquelas duas amigas. Mesmo se a Promessa de Sangue não tivesse surgido para cobrar, a Apóstola do Amor ainda seria a primeira a cair… da forma mais dolorosa possível.
Todo aquele instante de pausa durara dois segundos.
— Hihihi!
Os Apóstolos já haviam se distanciado consideravelmente daquele ser demoníaco. Contudo, por um instante apenas, seus corpos paralisaram-se, tomados por um arrepio e medo irracional.
Quando o breve instante de paralisia passou, o único Apóstolo que teve coragem de olhar para trás foi Daaran. Ele estava distante e continuava correndo, mas conseguiu ver que a Rainha Demoníaca ainda não tinha se movido um centímetro sequer, estando apenas com os braços levantados na altura do abdômen.
“O que foi aquilo?” — pensou, lembrando de sentir seus músculos travarem por um momento e sua visão se distorcer. — “Aquilo foi… medo? Mas ela ainda está lá… nada mud…”
Mesmo com a venda sobre os olhos, a mínima movimentação nela revelou o momento em que eles se arregalaram.
Algo mudara, sim.
Era um largo sorriso.
Um sorriso tão grande que dava a ilusão de ter empurrado as maçãs do rosto para ganhar espaço. Aquilo, associado à curva que os olhos faziam, parecendo um sorriso invertido, fazia a expressão daquela criatura parecer algo tirado das profundezas do Abismo.
Grrrr.
Vaiola moveu o pé para o lado e, com uma leve pressão, várias fendas surgiram no chão. Com um impulso que deixou para trás um estrondo similar a uma explosão leve, abriu uma pequena cratera que envolveu toda a área onde estivera parada.
Foram cinquenta centímetros de diâmetro e quinze de profundidade.
Ao longe, Lartia corria ofegante. Era uma Apóstola, tinha seus atributos físicos melhorados e era superior aos humanos comuns, mas, sem as Bênçãos, até um mero soldado venceria contra ela.
Não era uma Apóstola versada em combate e permanecia sempre na retaguarda, sem nunca precisar se envolver em batalhas. Além disso, nunca precisou se esforçar por nada em sua vida.
Sendo a única filha de um Conde, a irmã mais nova de quatro irmãos que a mimavam como uma princesa, bastava estalar os dedos e todas as suas dificuldades seriam resolvidas.
“Eu sabia… sabia que devia ter trazido… alguns escravos!”
Quando recebeu aquela missão, aquele foi seu primeiro pensamento: uma muralha de carne que se sacrificaria por ela sem hesitar, bastando uma pequena ordem.
Mas assim que o Sumo Sacerdote do Templo da Deusa do Amor soube disso, proibiu-a de realizar tal ação, dizendo que aquilo soaria como se a Igreja do Amor apoiasse a escravatura, sendo que as religiões haviam concordado em se manter neutras em relação àquilo.
Por ter seguido as orientações do Sumo Sacerdote, agora lá estava ela, correndo por sua vida, fugindo daquilo que, pelo que tudo indicava, tinha o potencial de se tornar um Deus Demônio.
Existia uma probabilidade de sobrevivência de um para sete para todos os Apóstolos. Para além do arrependimento, em sua mente ecoavam preces à Deusa do Amor, suplicando que aquela criatura fosse antes contra os outros.
Mas talvez… só talvez, a Deusa do Amor estivesse ocupada com coisas mais importantes.
Voosh!
Uma brisa repentina.
— Lartia!! — A voz da Apóstola da Vida soou em seguida.
Mas Lartia não teve tempo de reagir. Ela apenas viu um vulto roxo e sentiu um ardor descomunal em suas costas, algo que a obrigou a se contorcer por inteira.
Bam!
Naquele breve instante em que se contorceu, suas pernas tropeçaram uma na outra, levando-a imediatamente ao chão. Ela rolou por três vezes.
— NGHH! — Sequer conseguia gritar, podendo apenas soltar um alto gemido, levemente abafado pelos dentes cerrados.
Ao levantar o rosto, sua expressão se transformou em terror puro.
A Rainha Demônio estava parada diante dela, sorrindo como uma criatura extraída de um pesadelo, com o braço direito estendido. Preso em sua mão estava um pedaço do tecido de seu vestido. Mas não era só…
Um bom pedaço de sua pele estava ali também.
Depois do que aquela mulher fizera, depois de ver seus filhos se sacrificarem para fugir das correntes daquela mulher, VaIola já tinha planos de fazê-la sofrer para vingar suas crianças.
Só não esperava que ela fosse uma nobre.
VaIola tinha uma promessa a cumprir. Uma promessa MUITO específica…
Uma promessa que, naquele momento, ela iria adorar cumprir.
“Por quê!? Por que essa coisa… veio atrás de mim?” — No chão, Lartia tremia descontroladamente, lutando para resistir à dor e rastejar para longe daquele ser.
— Fica… ficalonge! Ficalonge! — Suas frases saíam tão rápidas que pareciam uma palavra só.
— Longe?
A Apóstola deu um pulo de susto e caiu de costas contra o chão, intensificando inúmeras vezes a dor em suas costas quando a terra entrou em contato com seus músculos desprotegidos.
Vaiola estava com o rosto praticamente colado ao dela.
— NGAHHH! — O grito escapou alto, e seu corpo se contorceu ainda mais.
— Tão… belo. — A voz de VaIola saiu distorcida e duplicada. Olhou para o pedaço de pele em sua mão por um instante, então o jogou longe, descendo a pequena mão em direção ao seio esquerdo da mulher. — Cante mais… passarinho.
Vraaw!
— AAAAAHHHH!!!!!!
O tronco da Apóstola do Amor arqueou durante o grito. Os cotovelos sustentavam o peso, as pernas rastejavam tentando ganhar estabilidade, e as mãos contorciam os dedos, cogitando aproximar-se do ferimento, mas desistindo no caminho.
“Meu… meu… m-meu peito!” — Restava apenas uma elevação naquela região; do outro lado, sangue escorria como uma cascata incessante.
— Hihihi! — VaIOLA deleitava-se com aquele sofrimento, segurando o seio decepado acima do peito da vítima, deixando que o sangue manchasse o predominante rosa da mulher. — Sua pele…
Ao dizer aquelas palavras, largou o peito da mulher, que caiu bem ao lado de sua cabeça.
— Eu vou arrancar ela… todinha.
Quando VaIOLA se curvou, apoiando as mãos nos joelhos dobrados, ao mesmo tempo que pendia a cabeça para o lado e a virava em sua direção, a mulher não resistiu ao pavor e desmaiou, a boca entupida de espuma branca.
“Acha que pode dormir?” Iola murmurou, e a nanica levou a mão em direção ao outro seio.
— JÁ CHEGA!! — Alliardes não suportou mais ver aquilo e, mesmo sabendo que não existia a mais mísera chance de vencer, decidiu avançar. Ao menos ganharia alguns segundos para os outros.
Afinal, faltavam apenas cinco segundos.
Uma auréola de cor âmbar materializou-se sobre sua cabeça e, abusando ao máximo de sua Bênção, seu corpo tornou-se esquelético e perdeu cerca de trinta por cento de sua altura.
— MORRA!! — esbravejou, puxando o cotovelo do enorme braço direito para trás.
Aquele membro parecia ter recebido toda a massa que antes se distribuía pelo corpo, tornando-se muito maior que ela própria.
Era tanto esforço que a pele, os músculos e os vasos sanguíneos estavam se rasgando, deixando sangue escapar.
Num piscar de olhos, a Apóstola do Tremor já estava ao lado de Vaiola, pronta para desferir seu mais poderoso golpe.
Foi tão rápida que a pequena quase não a viu.
Aquele ataque certamente deixaria sequelas irreversíveis nela, mas se pudesse ao menos causar algum dano naquela criatura…
Assim que viu a Rainha Demoníaca lançar um olhar em sua direção, Alliardes não perdeu mais tempo. Antes que a menor pudesse reagir, disparou o golpe.
BAAAM!
O impacto causado não foi nada exagerado, afinal, não era um ataque de área, mas um golpe concentrado.
Bam.
Coungh!
Alliardes tombou, com dificuldade até mesmo para respirar. Seu corpo estava completamente paralisado, mas, depois da tosse que escutou, parecia satisfeita.
“Mesmo que você resista, tenho certeza de que não sairá ilesa disso.”
— Interessante.
A Apóstola, certamente, teria arregalado os olhos e estremecido, se seu corpo ainda estivesse funcionando devidamente. Mas apenas conseguiu continuar imóvel após escutar aquela fala.
A cortina de poeira que se erguera logo se dissipou, revelando a criatura demoníaca, que segurava a Apóstola do Amor pelo pescoço, como quem usa um escudo para se proteger.
— Um golpe… que concentra todo poder… para derrubar um único alvo. — VaIola continuou a falar, observando o corpo da Apóstola do Amor, que tremia descontroladamente. — Interessante.
— Sua fraqueza… é a limitação… de poder atingir… apenas um único alvo.
A Rainha Demoníaca estava certa. Alliardes sabia daquela fraqueza. Aquele golpe fora nomeado apenas como “Último Ataque”, pois, após aquela investida, tanto o alvo quanto aquele que o desferia acabariam mortos… ou, se fosse resistente o suficiente, aquele que desferia o golpe acabaria apenas com sequelas vitalícias, caso resistisse ao “coice”.
O corpo de Lartia tremia cada vez mais a cada instante que passava, ao mesmo tempo que sangue escapava de todos os seus orifícios. Todos.
— Coungh!
Tossiu, o sangue escorrendo pelo rosto. Então, sem nenhum aviso, seu corpo simplesmente explodiu.
A última coisa que Alliardes viu foram os pedaços de carne, ossos e sangue de sua companheira Apóstola caindo sobre ela e se espalhando em outras direções.
Mais uma vez na história de Heternidade, o “Último Ataque” — um golpe que implantava um terremoto cuja frequência crescia exponencialmente em seu alvo — cumpriu seu propósito.
No mesmo instante, as correntes de sangue nos braços da nanica desapareceram.
Coberta de sangue e vísceras, totalmente irreconhecível, seus olhos se perderam ao longe, em todas as direções.
Os Apóstolos, depois de se distanciarem o que parecia ser o suficiente, haviam levantado voo para se distanciar ainda mais. Alguns viram o que acontecera com a Apóstola do Amor, mas ninguém mais reagiu. Todos seguiam as orientações de Daaran.
Ele chegara a instruir Alliardes a não voltar para ajudar, mas aquela teimosa não lhe dera ouvidos. Depois de ver o que aconteceu em seguida, ninguém mais pensou em mudar os planos.
Até que se esgotassem os dez segundos, ninguém voltaria para perto daquele demô…
Tok!
— QUE SE DANE!!
Faltavam dois segundos quando todos os Apóstolos simplesmente deixaram o plano de lado e, ainda voando, lançaram-se contra a Rainha Demônio, todos exibindo auréolas coloridas sobre suas cabeças.
Com o ápice de poder que podiam alcançar usando suas Bênçãos, os Apóstolos retornaram num instante.
Um segundo.
— MORRA!
Cercada por cinco Apóstolos, Vaiola apenas passou os olhos por eles. O mais chamativo era o Apóstolo do Sol em sua armadura de fogo, enquanto a Apóstola da Justiça era a mais distante, preparando-se para ditar uma regra.
Mas ela nem pensou em reagir. Podia exterminar todos eles naquele único segundo, e eles sequer perceberiam que já estavam mortos. Mas limitou-se a esgotar aquele segundo no simples gesto de levantar o braço direito e apontar para o alto.
Zero!
A expressão no rosto da menor se desfez no pior momento possível. Seus olhos fechados denunciavam sua falta de consciência, mas sua pose seguia intacta.
Os ataques estavam a centímetros de atingi-la; alguns, mais potentes, causavam dano mesmo sem tocá-la, deixando ferimentos em sua pele que cresciam continuamente.
Aquela intransponível resistência de outrora estava completamente adormecida.
— Vejam só!
Todos os cinco Apóstolos estremeceram ao escutar aquela fala. Sequer atingiram a nanica e recuaram vários metros.
— Humanos sendo humanos.
“O que… por que eu… voltei aqui?” — Daaran olhava para os arredores, confuso. — “Eu devia ter esperado o tempo chegar ao fim…”
“Por que voltei antes do tempo? Por que voltamos antes do tempo?”
Sua mente estava confusa, tentando conectar as lembranças baralhadas de poucos instantes atrás.
“Foi como se…”
Não lembrava muito bem do que acontecera. Tudo o que lhe vinha à mente era um estalo. Depois do estalo…
“C-como se minha vontade de fugir tivesse sido…” — Sua mente travou, procurando a palavra que melhor se encaixaria. — “… dissipada.”
Olhou para os seus companheiros e percebeu que todos estavam na mesma condição.
— Cadê a vossa honra? — Daaran tomou um leve susto. A confusão o fizera esquecer aquela voz. — Não se envergonham de atacar assim uma criança tão pequena? Não veem o quanto ela sofre?
Sem conseguir identificar de onde vinha a voz, a nanica logo entrou no campo de visão de Daaran. Ele não acreditou no que via.
Mesmo em coma, misturando-se ao tanto de sangue em seu rosto, Vaiola derramava lágrimas.
— Onde está a vossa aclamada “humanidade”?
Como se tivessem entendido algo, os cinco Apóstolos seguiram o braço levantado da menor, até que encontraram o que Vaiola apontava.
“Reforços? Ela não nos atacou porque seus reforços chegaram?”
Uma sombra flutuava no alto.