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Capítulo 47 — 1 Demônio (9/10)

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Capítulo 47 — 1 Demônio (9/10)

A sombra recém-chegada apenas flutuava lá no alto, cerca de vinte metros acima daquele terreno, sua sobrecasaca balançando ao vento.

“Quem é aquele homem? Será um demônio?”

Para além da voz marcante e rouca, que certamente era a de um homem, os Apóstolos não conseguiam identificar mais nada.

Mas o desconhecido não permaneceu insondável por muito tempo, pois o homem no alto decidiu se juntar aos outros no solo.

Bam.

Ele simplesmente se largou do alto, caindo em queda livre, mas pousou sem nenhuma complicação, causando apenas um pequeno estrondo.

— Olhem só para vocês, alguns são dezenas de vezes mais velhos que este pobre ser… — O homem, de cabelos grisalhos perfeitamente penteados numa proporção 70-30, parecia não ter grande interesse pelos cinco. De costas para Daaran, estava de joelhos diante da nanica, enxugando suas lágrimas com um lenço branco tirado do bolso do terno. — Como podem ser tão vis com uma criatura de sua própria espécie?

— Quem… é você? — Daaran foi direto, preparando-se para qualquer coisa, com uma espada empunhada.

Não se permitiria ser manipulado novamente. Já confirmara que aquela coisa com aparência de criança humana era um demônio… a Rainha dos Demônios.

A lealdade das Bestas Corrompidas era a maior prova.

Portanto, precisava entender quem era aquele homem. Só então poderia criar uma contramedida, dependendo do que aquele homem fosse.

Mas, para ser sincero, ele queria muito que fosse apenas um aliado desinformado ou excêntrico.

Porém, era pouco provável.

— Vocês não têm um pingo de arrependimento, não é mesmo? — Kzar terminou de enxugar as lágrimas e observou o lenço úmido sobre a palma, as têmporas pulsando e os dentes cerrados. Era a segunda vez que enxugava o pranto da pequena, mas já estavam voltando a escorrer pelo rosto. — Machucaram tanto Ela e ainda agem como se Ela fosse a errada aqui… como se fossem os heróis.

— Me responda!! Quem é você!? — Daaran voltou a questionar, cansado de esperar. Se o homem não respondesse, atacaria em seguida.

No primeiro instante, o homem não lhe deu atenção, focando-se em limpar a nova onda de lágrimas que escorria no rosto de Vaiola.

— Quem sou? — Quando terminou com as lágrimas, olhou mais uma vez para o lenço úmido em sua palma. — Ah! É mesmo. Eu sempre me esqueço do disfarce.

As lágrimas retornaram ao rosto da pequena, mas o velho homem precisou deixá-las de lado e se levantar, virando-se para aquele que insistia em lhe dirigir a palavra.

— Sugiro que tirem as vendas do rosto e apreciem essa paisagem destruída, pois será a última que verão. — Enquanto falava, a pele de seu rosto derreteu, transformando-se no que parecia ser uma gosma vermelha como sangue, escorregando continuamente para o chão. — Queria ficar e fazê-los se arrependerem de tudo o que fizeram contra Sua Majestade, mas vocês têm sorte que cuidar dela é prioridade. Então, serei rápido.

“Claro que cuidar da Rainha é prioridade, mas não é só por isso.” — Sem que ninguém percebesse, expandia sua percepção para o mais longe possível. — “Que coisa é essa que está à espreita, que nem mesmo eu consigo detectar?”

O velho homem chegara ali há algum tempo e até pensara em agir muito antes, mas sentira uma presença poderosa por perto, algo que se decidisse atacar, nem mesmo se todos ali, incluindo os mortos, TODOS eles, e a Rainha, formassem uma aliança seriam capazes de vencer.

Alheio aos pensamentos daquele homem, Daaran estava focado em outra coisa:

“Sua Majestade?” — Era a confirmação que preferiria não ter recebido.

Acompanhando àquilo, conforme a pele no rosto derretia mais e mais, chifres se revelavam na cabeça do velho homem, um atrás do outro, formando uma coroa.

“Mas que…!!? Está de brincadeira!! Isso só pode ser brincadeira, não é!!?” — Aquele pensamento não foi apenas do Apóstolo da Guerra, mas de todos os cinco. — “N-nove… nove… chifres?”

Quando a pele derreteu por completo, Daaran só então conseguiu notar as feições do velho homem, percebendo apenas naquele momento que o recém-chegado devia estar usando alguma Peça Encantada.

Uma face quadrada, olhos que mais pareciam duas moedas de prata, barba em perfeita harmonia com o bigode, e duas cicatrizes: uma que, horizontalmente, partia de um canto do rosto, passava por cima do nariz e ia até o outro lado; e outra oblíqua que passava por cima do olho esquerdo, partindo da testa até a maçã do rosto.

E, o mais importante em todo aquele conjunto, aqueles nove chifres um tanto curvos, que formavam uma coroa.

“Devemos ser bem azarados mesmo…”

Daaran afrouxou o aperto na espada e deixou escapar uma risada baixa.

“Quando pensamos que está perto de acabar… isso acontece.”

A hierarquia dos demônios/Senthys era algo bem simples de se compreender. Funcionava da seguinte forma:

Mais chifres significava mais poder.

E, para se classificar, eles usavam títulos nobiliárquicos.

No topo, com dez chifres, estava o Rei. Logo abaixo deste, com nove chifres, estava o…

— Eu sou Kzar Uyal, Arquiduque da Peste.

Ou, simplesmente, na classificação humana: Arquidemônio.

— Haaa… — Daaran não tinha um plano e sequer se preocupou em criar um. Não existia a mais remota chance de vitória nem de fuga. — ATAQUEM!!!

Foi tudo o que conseguiu pensar.

O Apóstolo da Guerra conhecia bem a fama daquele Arquidemônio. Todos os Apóstolos conheciam; sabiam de seus feitos e do quão temido ele era.

Boatos diziam que, na ausência do Rei Demônio no último milênio, aquele demônio fora uma espécie de líder para a sua raça.

Se o boato fosse verdadeiro, tendo em conta que a força era lei entre os demônios, era seguro dizer que aquele diante deles estava abaixo apenas do próprio rei, sendo superior aos outros Arquidemônios.

Todavia, apesar de tudo, os Apóstolos se lançaram contra o demônio, prontos para morrer pela humanidade. Alegrar-se-iam se conseguissem ao menos arrancar um dedo da criatur…

— NGHH! — Mesmo com os dentes cerrados, o gemido de Daaran saiu mais alto do que o esperado.

Seu corpo se contorceu de dor, e a espada lhe caiu quando a mão perdeu a força.

Bam.

Não foi só Daaran. Todos os Apóstolos foram ao chão, um segundo depois de pensarem em atacar o Arquidemônio.

O Apóstolo da Guerra continuou se contorcendo, rolando pelo chão para tentar minimizar a dor, só para conseguir piorar sua situação.

— AAAAAHHHH! — Sem conseguir resistir mais, os Apóstolos gritaram, um após o outro, desde o menos resistente até o melhor.

Enquanto se contorcia, sem entender ao certo o que estava acontecendo, Jirion, Apóstolo do Sol, levantou a cabeça até encontrar a Apóstola da Justiça em seu campo de visão. Já que ela não vestia armadura, foi possível ver o que os afligia.

Blearg!

Tudo o que tinha no estômago foi lançado para fora no mesmo instante. Jirion não conseguia acreditar no que seus olhos viam.

Zarien estava repleta de ferimentos pútridos, que jorravam um pus amarelado e branco. Nos poucos centímetros de pele sem feridas, viam-se redes de veias negras saltadas.

Para além de se contorcer, gemer e gritar de dor, os Apóstolos não podiam realizar nenhuma outra ação.

— Aproveitem! — Kzar falou, virando-se de volta para a Rainha. Enxugou suas lágrimas mais uma vez e a tomou em seu colo, sem se importar com o sangue e as vísceras. — Terão bastante tempo para se arrepender.

E desapareceu.

Logo após, a sombra que cobria o Leste das Terras Centrais se agitou por um segundo e se acalmou no instante seguinte.

Ali, pelos próximos vinte minutos, os Apóstolos agonizaram sem poder sequer desmaiar, já que qualquer movimento resultava em dor extrema.

Todos eles morreram com expressões distorcidas, o desespero e a dor congelados eternamente no rosto.

— Acabou, finalmente. — Uma mulher surgiu no centro do círculo formado pelos cadáveres dos Apóstolos. Melhor dizendo: ela sempre estivera ali, apenas não era notada por ninguém. — Arquiduque? Até que aquele piralho tem algum potencial.

Seus longos cabelos verdes balançaram junto com a brisa repentina.

— Haaa. Levou tanto tempo para construir tudo isso. — A mulher continuou, caminhando em direção ao cadáver da Apóstola do Tremor. — Quem diria que seria reduzido a nada em menos de um dia.

Crack.

Com mais um passo, esmagou a cabeça da Apóstola.

— Bem, parece que não há mais nada para mim aqui. — Deu uma volta parada no mesmo lugar, então parou, virada para o Sudeste. — Você deve estar em boas mãos agora, minha pequena.

Era Lavina Hermês.

— Como você pediu, permiti que visses o que aconteceria com a sua filha. — Outra voz soou, e uma mulher de cabelos vermelhos como sangue se revelou. Seus olhos estavam eternamente fechados; uma cicatriz quádrupla, como se fosse o resultado de um confronto contra uma besta, passava por cima dos olhos, nariz e testa. — Agora, está na hora.

— Sabe, pensei que isso nunca aconteceria comigo, já que venho me preparando para este momento. Mas ver a minha filha me esquecer desse jeito me dá um aperto no peito. — Lavina voltou a falar, a cabeça curvada e, entre os lábios, um pequeno sorriso melancólico.

— Você sabe que não pode mudar isso, não importa o quanto queira. — A outra disse, não como uma explicação, mas como um aviso. — É o destino de todas nós deixar os nossos laços maternos para trás quando o tempo chega. Tome você mesma como exemplo: a mais poderosa dentre nós e, mesmo assim, não tem uma mísera lembrança de sua mãe.

— Talvez não seja assim com ela. — Lavina rebateu, tentando agarrar-se a qualquer esperança. — Ela certamente sonhou comigo…

— E daí? — A mulher foi curta e grossa, pegando Lavina desprevenida. — Aquilo foi só a Matriarca das Corujas mexendo com o que ainda sobrava de você no subconsciente dela. Você sabe muito bem.

Lavina abriu a boca para contestar, mas não o fez.

— Pois é. — Concordou, desistindo de alguns planos malucos que sua mente formulava. — Haaaah… estou pronta.

Levantou os pulsos, revelando correntes rubras como lava.

— Ótimo. Sendo assim… — Tirou um pergaminho castanho-amarelado do bolso da justa calça preta e o desenrolou com as duas mãos. — Lavina Hermês, a Primeira, você está presa pelo extermínio de toda a tribo Hermês responsável pela Dimensão Amarela!