Capítulo 04 — 1 Pescaria (2/3)
Capítulo 04 — 1 Pescaria (2/3)
— “Ó Retrato”? Uauu… o que é isso?
— “Ó Retrato”, nanica, é algo como um retrato normal, mas o diferencial do “Ó Retrato” é que ele era o retrato daquela mulher cujos olhos pareciam o deserto sem fim, assim como a sua pele. Daquela mulher cujos cabelos ardiam como as chamas mais sagradas. Daquela mulher cuja b…
— A gente já entendeu — Glamich interrompeu-o, com os olhos girando pelas órbitas.
— Eu ia dizer boca… mas, bem, sim… o que fazia aquele retrato deixar de ser simples e ser “Ó Retrato” era o facto de ser o retrato da minha senhora — esclareceu.
— O que aconteceu depois?
— Ela nem me deu tempo de dar a minha opinião; quando dei por mim, ela já tinha saído outra vez. Contudo, eu sabia que a minha opinião não mudaria a ideia fixa na mente dela, não importasse o quanto eu tentasse…
— Até porque você concordaria em tudo com ela, não é mesmo? — Glamich riu. Ele conhecia o amigo e sabia que ele nunca discordava da esposa.
— Isso não está em discussão no momento. Continuando… já que eu sabia que não tinha mais nada a fazer, decidi fazer apenas o que ela pediu…
— O que ela “mandou”, você quis dizer, né, Dokin?!
— Você se acha engraçadinho, não é mesmo? — Dokin afiou os olhos, uma explícita ameaça emanando deles: “Eu te pego na próxima”. — Será que você pode me deixar terminar de narrar a história? — Glamich respondeu com um sorriso contido e levantou as mãos em rendição. — Esquerda, direita, cima, baixo… eu olhei para todas as direções e procurei em tudo o que era canto naquela pequena casa, mas não havia nenhum prego.
— Nenhum?
— Pois é, pois é… mas foi aí que eu fiz uma descoberta: eu nunca comprei um prego na vida. — Vaiola logo levou a mão ao rosto e chacoalhou a cabeça; seu pai fez o mesmo. Em sua mente, um pensamento reverberava: “Eu tenho um tio burro”. — Foi aí que decidi parar de procurar o prego e usar algum meio alternativo; só precisava descobrir qual. Entretanto… outro problema tinha surgido.
— Outro?
— É isso aí. Eu fechei os olhos várias vezes e os abri novamente; parecia ser uma ilusão, mas era verdade… “Ó Retrato” não estava mais na minha mão.
— Quê? Mas para onde ele foi?
— É o que eu também queria saber, nanica. Eu refiz o meu caminho todo por toda a casa e foi aí que descobri que tinha feito uma bagunça completa enquanto procurava os pregos que nem existiam. Eu andei para lá e para cá e arrumava tudo pelo caminho, só para não dar à Kihame dois motivos para me matar. Passei algumas horas naquilo, mas, finalmente, só faltava a sala e provavelmente o retrato estaria lá, né?
— Sim, sim!
— Bem, foi o que eu também pensei, mas o pior tinha acontecido.
— O quê? O quê?
— A minha senhora chegou. Eu não tinha pendurado o retrato e a sala estava toda desarrumada.
— Xiiihh… a titia não gosta de casa bagunçada.
— Pois é, nanica. Mas isso nem era o pior… — Suspirou com algum desânimo e chacoalhou a cabeça vagarosamente. — O retrato estava nas mãos dela.
— Quê? A titia encontrou? Isso é bom, né?
— Seria sim, nanica, se o retrato não tivesse virado dois.
— Quê? — soltou Glamich com espanto. — Hahahaha! Não me diga que ele estava…
— Quebrado, pois é — Dokin concluiu.
— Hmm…? — Vaiola pareceu mergulhar em pensamentos profundos repentinamente, o indicador pousado no queixo enquanto os olhos estavam fixos num ponto imaginário no chão.
— O que foi, nanica?
— Como você ainda está tão bem, titio? — indagou ela, ainda pensativa. — “DOKIN TAGEAR ACTUKCI!!! EU VOU MATAR VOCÊ!!!”, tenho certeza que a titia disse isso. E quando a titia ou a mamãe usam o nome todo…
— Hahahaha!!! Sério, que tipo de educação estamos dando à nanica? — Dokin apenas gargalhou, achando a situação cómica, enquanto Glamich fechou o rosto e deslizou a mão por ele. — Hahahaha!! Você conhece muito bem a tua tia, nanica. Ela realmente usou exatamente essas palavras.
— Então, como tudo acabou?
— Isso é simples… — Dokin abriu a palma esquerda e a colocou no centro, adotando uma pose de quem ia começar a narrar uma história de ação e aventura. — Parecia que ali seria o meu fim, eu até sentia o ar ficar mais denso a cada segundo e parecia que a terra estava engolindo os meus pés, mas…
— O quê? O quê?
— Você vai ter que vir outro dia se quiser saber o final — finalizou Dokin.
— Quê? Mas…
— Sem “mas”, nanica. Já está ficando tarde. Precisamos trabalhar.
— O seu tio tem razão, pequena — concordou Glamich.
— Viu?! É como eu disse: venha aqui noutro dia, que eu te conto como tudo acabou. — Ajudou Vaiola a levantar-se e fez o mesmo em seguida, ocupando-se logo a sacudir a areia colada às calças. — Foi bom ver-vos, mas tenho de ir.
Dokin despediu-se, deixando um beijo no topo da cabeça da pequena Vaiola, e não pôde partir sem dar um último abraço ao seu irmão de coração. Logo se distanciou, deixando para trás uma Vaiola curiosa e ansiosa por saber o final da história.
— O que será que a titia Kihame fez? — Vaiola indagou, enquanto o seu pai sacudia a areia presa às roupas dela e penteava os seus cabelos com os dedos.
— Eu não faço a mínima ideia. É difícil saber, ela é um tanto… imprevisível — Glamich comentou; o seu foco estava em amarrar aqueles cabelos num coque para que não atrapalhassem a pequena. — É como o teu tio disse: você vai ter de voltar para saber.
— Eu posso?
— Claro. Sempre que você quiser.
— Ebááá…!!!
— Agora vamos! Quero apresentar-te o “Borboleta”.