Capítulo 48 — 1 Demônio (10/10)
Capítulo 48 — 1 Demônio (10/10)
— Haaah…! No fundo, eu já sabia que este dia iria chegar. — Lavina murmurou em meio a um longo e arrastado suspiro. Enquanto observava as correntes enroscadas em seus pulsos, que pareciam ser feitas de lava viva, algumas memórias do passado invadiam sua mente. — É um assunto que eu precisava resolver. Pra falar a verdade, achava que vocês chegariam bem mais cedo. Heh heh.
Borrões e vultos desfocados se formavam em sua mente, tentando reconstruir lembranças há muito perdidas, mas foi em vão. Depois de alguns segundos e algumas tentativas falhas, as recordações que surgiram foram dos últimos dez anos.
Olhando para trás, para a mulher que fora, para a educação que recebera e as tradições que carregava, perguntava-se como diabos se apaixonara.
Como uma Hermês, devia apenas seduzir um homem, engravidar e gerar a próxima geração de Guerreiras DELE. Mas sua história tomara um rumo completamente diferente do que deveria ser sua “programação”.
Teria sido aquele jeito cuidador de Glamich que a conquistara? Ou teria sido a ironia de alguém cujo nome significava “trevas” ter se tornado a luz que mudara sua vida?
Pra falar a verdade, ela não entendia. E provavelmente nunca chegaria a uma resposta.
Havia também sua filha, que possuía um porte físico tão minúsculo que era impossível alguém olhar e aceitar que se tratava de uma Hermês.
Era estranho, mas ela só começara a amar aquele serzinho depois de tê-lo em seus braços. Antes, era apenas o cumprimento de suas obrigações, tanto que não fugira das tradições durante a gestação.
O tanto de pancadas que Vaiola recebera ainda no ventre… só sendo uma Hermês para sobreviver.
Mas o importante era que a nanica se provara forte e chegara ao mundo sem nenhuma sequela… aparentemente.
“Haaaah…”
Depois de dar à luz Vaiola, Lavina se apegara tanto que, inconscientemente, se tornara uma mãe, não uma Mestra, como era suposto ser.
O amor que sentia a fizera esquecer que, mesmo querendo muito ficar com aquela criança, o mundo acabaria a tomando de si, e ela não poderia fazer nada contra.
Afinal, aquele era o plano DELE para as Hermes.
— Já perdemos muito tempo aqui, Lavina… — A ruiva falou, de frente para aquela intitulada “a Primeira”, seus cabelos, que mais pareciam fios de seda, esvoaçavam ao vento, revelando cicatrizes no pescoço que desciam até o ombro direito e pareciam estender-se até o peito. — Devemos ir. Agora.
— Sim, eu sei. — Lavina concordou, seus olhos passeando na paisagem empoeirada e destruída atrás da ruiva. — Iremos… eu só tenho que fazer mais uma coisa.
Enquanto falava, já estava caminhando, passando pela cega após alguns passos, ainda contemplando o cenário devastado.
— Haaa… — A ruiva baixou a cabeça e suspirou. Era como se já tivesse previsto aquela situação. — Me responde uma coisa, Lavina Hermês, a Primeira…
Diferente de antes, sua voz não carregava mais nenhuma solenidade ao pronunciar aquele nome e título. O que restara era apenas sarcasmo e um tanto de desdém.
— O que você pretendia?
— Hã? — Lavina olhou para trás, por cima do ombro, e levantou uma sobrancelha. — Do que você está falando?
— Quando uma Hermês quer se esconder, não existe nada em nenhum mundo que será capaz de detectá-la. — começou a ruiva, elevando a cabeça aos céus, como se para apreciar aquela vastidão. — Estou errada?
— Nem mesmo as criaturas que se dizem divinas seriam capazes de tal proeza… — Lavina sorriu e pareceu repensar por um segundo, então acrescentou: — Nem mesmo ELE seria capaz.
— Exatamente. Então, por favor, me explique como um mero Arquiduque Senthy conseguiu te sentir? — A ruiva sequer esperou pela resposta; virou-se para a outra e caminhou em sua direção. — Por que a tua Presença estava vazando, hein?
— Vazando? Ela estava…?
— Não se faça de desentendida, Lavina Hermês, não combina com você! — Num piscar de olhos, ela já estava de frente para a de cabelos verdes. — Me diz, o que você estava esperando? Achava que a tua cria sentiria a tua Presença e correria até você em busca de conforto e proteção? Achou que ela seria a filha queridinha que corre aos braços da mãe ao enfrentar uma dificuldade?
Lavina não respondeu a nenhuma das questões e nem foi necessário. As duas sabiam que a resposta para ambas questões era “sim”. Mas…
— Hahahahaha! Como se isso fosse possível! — Seu tom mudou repentinamente, e seu rosto se contorceu e tremeu. Era um tanto mais baixa que Lavina e, quando ergueu a cabeça em sua direção, a de cabelos verdes podia jurar que sentiu o olhar da ruiva no dela. — Acorda pra vida, Lavina!!! Você é a porra de uma Hermês, a primeira de nós e mais velha que qualquer outra criatura viva em toda a Heternidade.
— Pare de agir como uma criança fazendo birra para não se separar da bonequinha favorita. — O dedo da ruiva pressionou o peito de Lavina, e seus lábios se aproximaram de sua orelha direita. — Dificuldades moldam as Hermes. Nós somos Guerreiras, não existem mães nem filhas entre nós.
— É apenas isso que somos: Guerreiras DELE!
— Hahaha! — Depois de tudo, Lavina apenas riu, quebrando completamente o clima solene que a ruiva construíra. Por um breve instante, uma barra escarlate surgiu nos pulsos da cega, quando a raiva a fez cerrar o punho, mas logo desapareceu. — Devo admitir, eu estava precisando desse choque de realidade. Mas, como eu disse, tenho mais uma coisa para fazer.
Com a cabeça erguida, deu um passo à frente, chocando o ombro contra a outra, empurrando-a para o lado, e continuou caminhando, até ser interrompida pela próxima fala da ruiva:
— Pare bem aí, Lavina! — Mais uma vez, a ruiva suspirou. Ambas estavam de costas uma para a outra. — Você é a Primeira, a mais poderosa dentre todas nós. Heh heh. Existem até crônicas escritas sobre o quão “Hermês” você é.
— Eu venho realizando todos os seus pedidos até o momento justamente por respeitar o que você representa, mas já basta de enrolação! — Colocou-se de frente para Lavina e ergueu os braços, como se para fazer uma apresentação. — Você pode até ser a mais forte, mas acredito que isso será problemático até mesmo para ti.
No primeiro instante, nada mudou. Até que a sombra sobre as duas se tornou ainda mais densa, e a de cabelos verdes finalmente sentiu as inúmeras Presenças que flutuavam acima de sua cabeça.
Ao erguer o olhar, deparou-se com dezenas de milhares de silhuetas que cobriam o céu, chutando o ar para se manterem no alto.
— Pra falar a verdade, não achávamos que você concordaria em vir, então todas viemos preparadas para te enfrentar. — A ruiva cerrou os punhos e se preparou. Mesmo não adotando nenhuma pose de combate, não havia brechas em sua defesa. — Você acha que consegue lidar com isso?
Lavina sentia os olhares fulminantes sobre si e a pressão causada pela Presença de dez mil Hermês era algo aterrador. Seu corpo inteiro se arrepiou.
— Hihihi… — Lavina tentou impedir que aquele riso escapasse ao levar a mão à boca, mas não adiantou. Ao escutá-la, tanto a ruiva quanto as dez mil mulheres lá no alto tremeram de leve e até se moveram para o lado, inconscientemente. — Você não devia brincar com essas coisas, ruivinha… Hihihi…
— Você já devia saber que eu não resisto a um desafio desses!
Lavina apenas lançou uma breve olhada por cima do ombro, mas a ruiva sentiu suas entranhas se contraírem e o sangue gelar.
A Presença avassaladora da “Primeira” subjugara sem dificuldade a pressão das outras.
Naquele instante, a ruiva assumiu uma pose de combate, e todas as dez mil Hermês desceram ao solo, cercando Lavina de todos os lados, prontas para a batalha que se iniciaria.
Na verdade, todas tremiam. Mas se apegavam à coragem, que beirava a loucura, que só uma Hermês possuía. Sabiam que as perdas seriam inúmeras se aquele confronto ocorresse. Afinal, Lavina estava sendo presa por justamente dizimar uma tribo Hermês, que geralmente era composta pela metade daquele número.
Mesmo assim, apegavam-se à esperança de que, depois de tudo, certamente conseguiriam prender aquela mulher.
A pressão da Presença daquela mulher era tanta que mais rachaduras surgiam no solo, e o chão, aos poucos, começava a tremer.
Todavia, quando parecia que aquilo escalaria para algo sem volta, Lavina suspirou e recolheu sua Presença.
— Haaa. É, até que vocês têm alguma determinação. — Sorriu e voltou a caminhar. — Mas, como já prometi que iria com vocês sem causar problemas, assim o farei. Eu só preciso resolver mais uma coisa.
Seus passos foram logo barrados quando uma muralha de músculos se formou à sua frente, composta por uma dezena de mulheres. As Hermês que bloqueavam seu caminho olharam para a ruiva, à espera de alguma instrução. Quando esta acenou com a cabeça, todas elas simplesmente desapareceram.
Lavina sabia que ainda estavam ali, mas, como já fora dito, quando uma Hermês se escondia, nada podia detectá-la.
Sem se importar, continuou caminhando e caminhando, seguida de perto pela ruiva.
Depois de vários minutos, Lavina finalmente parou.
Estava no exato ponto central das Terras Centrais.
— O que você está fazendo? — A ruiva perguntou. Lavina estava parada ali há cerca de dois minutos.
— Apenas lembrando do passado. — Fechou os olhos e suspirou, voltando a abri-los em seguida. — Com um soco, este lugar nasceu e deveria ser meu lar de descanso.
— Nós tínhamos um acordo… eles assinaram um Contrato… Fizeram uma Promessa! — Seu tom ficava mais áspero a cada frase. — Mas parece que deixei a humanidade se acomodar demasiado. Parecem ter esquecido o que acontece quando se mexe com uma Hermes.
Ela sorria… um sorriso distorcido pela loucura e pela fúria.
— Eu devia ter exterminado todos eles mil anos atrás. A Dimensão Amarela certamente teria se tornado o melhor mundo de todas as realidades se eles não existissem.
— Mas, haaaah… parece que a pequena é quem terá que fazer isso.
— De agora em diante, o acordo de paz entre a humanidade e as Hermês está… — Levantou o pé bem alto, até que a perna ficou em paralelo com o tronco, então desceu o calcanhar ferozmente. — Revogado.
BAAAAAAM!!!
Todas as Terras Centrais tremeram de uma só vez, chacoalhando até os mares ao redor. Mas tudo se acalmou dez segundos depois.
— Pronto. Terminei. Podemos ir agora.
Assim que aquelas palavras foram ditas, a realidade por ali simplesmente falhou, e inúmeras rachaduras surgiram em todos os lugares, como se aquele mundo fosse feito de vidro.
Mas nada grande aconteceu. Tudo voltou ao normal logo em seguida…
Bem…
As Hermês não estavam mais lá.