Capítulo 49 — 1 Condenação
Capítulo 49 — 1 Condenação
Parecia que não havia mais nada para acontecer naquele pedaço de terra desolado.
As chamas dançavam para lá e para cá, o vento levava traços de poeira para todas as direções, e inúmeros corpos continuavam estatelados pelo chão.
A terra toda preta e os diversos buracos enormes no solo, em associação com o resto do cenário, faziam aquilo parecer uma cena extraída de contos apocalípticos.
As Terras Centrais pareciam um terreno há muito abandonado, depois de uma dura e longa guerra.
Vooosh!
Após a partida das Hermês, parecia que aquele cenário continuaria intocado por muito mais tempo. Mas o vento que soprou, misturando poeira e fumaça, foi repentinamente perturbado por uma nova silhueta.
A figura em meio à poeira e à fumaça balançou o braço direito, dispersando aquela mistura gasosa que escondia seu caminho, e deu mais um passo à frente.
Tap!
Seu passo trouxe um eco anormal, um som que não deveria ser escutado naquele chão de terra queimada. Era como se a silhueta andasse sobre uma calçada de pedra, calçando algum tipo de calçado de sola seca.
Tap!
Contudo, ela estava descalça.
Quando a fumaça e a poeira se dispersaram, a silhueta revelou-se uma mulher negra de cabelos tão longos que chegavam a rastejar pelo chão.
Aqueles fios de seda negra deviam alcançar facilmente três metros de comprimento.
Com cerca de 1,80 metros de altura, a mulher possuía dotes femininos de dar inveja a qualquer outra. E aquele vestido negro, cujas lantejoulas colocadas em pontos estratégicos brilhavam como estrelas no céu noturno, encaixava-se perfeitamente naquele corpo, delineando lindamente suas curvas inconfundíveis.
Em sua bela face fina, pequenos e fofos lábios roxos se destacavam, mas não mais que o seu único e grande olho, que ocuparia o espaço dos dois olhos numa face humana.
Um pequeno nariz pontudo completava aquele conjunto de perfeição.
Tap!
Com apenas mais um passo, a criatura de aparência esplêndida percorreu vários metros de distância, surgindo instantaneamente diante de um dos corpos carbonizados.
— Isso já está ficando irritante — disse ela, sua voz angelical quase transformando aquele inferno num paraíso. — Sério! Para com isso!
Seu rosto se contorceu com alguma raiva. Talvez ela não soubesse, mas aquilo não a tornava assustadora — pelo contrário, aquele toque de irritação a deixava imensamente mais fofa.
Podia dizer-se que ela era a própria definição de beleza e fofura.
O equilíbrio perfeito.
— Se Não Parar Com Isso, Juro Que Eu Te Mato! — Elevou ligeiramente o queixo, seu único olho roxo, repleto de incontáveis pontos brilhantes, similar às estrelas na vastidão do espaço, olhando para o cadáver de cima.
Aquela expressão furiosa, de quem estava prestes a matar quem amava, só a torn…
— Estou Falando Sério!
— Dokin Tagear Actukci!
— P-parei! Parei! — O cadáver se levantou de imediato; sequer parecia que havia uma espada atravessando suas costas e abdômen, e que estava severamente devastado pelas chamas.
Era o tão amado tio da nanica, Dokin.
A bela mulher observou o cadáver vivo por cerca de dois segundos. O rosto estava derretido, faltava-lhe um braço, e ferimentos graves de queimadura se espalhavam pelo corpo.
— Haaah… parece que você deu um espetáculo e tanto por aqui — falou enfim, apreciando o estado do cenário que os cercava.
— Poucas vezes tenho a liberdade de poder participar das histórias que narro… — Dokin disse em resposta, e seu braço simplesmente surgiu onde era seu lugar. Não! Não foi regeneração, mas algo como se aquele membro nunca tivesse sido arrancado dali. — Decidi aproveitar ao máximo.
— Aham! Percebi. — Ela sequer tentava disfarçar a ironia em seu tom. — Você aproveitou tanto que se apegou ao seu alvo de observação.
— Ãhh, me apeguei? — Ela não respondeu, limitando-se a apenas lançar-lhe um olhar. — Q-quer dizer… eu não diria que me apegueeei, sabe?
Desviou o olhar e gotículas de nervosismo se formaram na sua testa.
— Foi… foram só… os ossos do ofício, sabe? Ha Ha. — Coçou a nuca em meio a risada sem graça. Ao mesmo tempo, seu rosto voltou ao normal. — Bem, melhor deixar isso pra lá, não acha?
A espada que o atravessava caiu, e ele simplesmente colocou a mão sobre o ferimento no abdômen e, como quem tira um adesivo de uma superfície qualquer, arrancou o machucado que tinha. A fenda sangrenta nas costas caiu ao chão como um pedaço de papel logo em seguida.
— Estava com tantas saudad…
— Nem vem! — Com aquelas palavras, a mulher travou Dokin, que se aproximava dela em busca de carinho.
— M-mas… é só um beijinho. — Aquele tom meloso pareceu apenas piorar a situação, já que a mulher estava com a cara ainda mais amarrada. — Nossa! Então era isso que significava aquilo de “o destino pode ser bem cruel às vezes”.
— Mas é sério que você precisa ser tão cruel até com o seu marido, Kihame?
Kihame não se abalou com a choradeira do homem, suspirou e fez a pergunta que lhe importava.
— E então… — Por um segundo, pareceu hesitante, mas continuou mesmo assim. — Como foi?
Dokin sorriu com animação, cruzou os braços e respondeu: — Uma experiência inesquecível.
— Narrar a história da nanica é algo que, com certeza, não me esquecerei.
— Eu também não, afinal, você se apegou tanto em ser o tiozão dela que esqueceu de resolver suas Devragações . — Olhou para longe, para o Oeste, e continuou. — Você aumentou a nossa carga de trabalho.
— Eu sei… me desculpa.
— Haaah… Táhhh~! Não temos tempo para isso. — Apontou o dedo numa certa direção. — Olha!
Dokin ergueu a cabeça após a ordem e viu a grande ilha que eram as Terras Centrais se agitar ferozmente, com rachaduras surgindo em toda a sua superfície, rapidamente se transformando em grandes fendas.
De onde tudo aquilo vinha, o epicentro daquela destruição que se aproximava, não era segredo para ninguém.
Tudo começara no exato ponto central daquele lugar.
— Parece que essa é a nossa deixa. — Kihame escutou aquelas palavras, olhou mais uma vez para o colapso eminente e, por fim, voltou-se para seu marido.
Voosh!
Uma poeira repentina foi levantada por um vento ainda mais repentino. Quando tudo se dispersou no instante seguinte, o casal não estava mais lá.
Com a partida daqueles dois, as fendas e o tremor, que antes se aproximavam com lentidão, ganharam velocidade de supetão e, em poucos segundos, já se espalhavam por todas as Terras Centrais.
Grrrrrrr!
Crack!
Guuuhh!
Os sons de destruição eram variados, até que foram substituídos por apenas um.
Splash!
Como se fosse noite de tempestade, os três mares daquele mundo agitaram-se com fúria, enquanto pedaço por pedaço das Terras Centrais afundava nos oceanos.
As ondas criadas chegaram a quase vinte metros de altura, e as cidades costeiras dos três continentes foram invadidas pelas águas. As mais pequenas foram levadas pela correnteza e as mais robustas sofreram apenas uma pequena inundação.
E foi assim que, naquele dia, o vigésimo oitavo do décimo mês, as Terras Centrais afundaram por completo no mar, sem deixar um único vestígio.
[Durante a madrugada]
[Kartumz: Palácio Branco]
Toc, Toc, Toc!
Allius despertou de seu sono no instante em que escutou aquelas batidas frenéticas na porta de seus aposentos.
Sua concubina ao lado também despertou num sobressalto, assustada.
— O-o que… aconteceu? — perguntou, ainda tremendo levemente por conta do susto.
— Vou lá ver. Descansa!
O homem se levantou, completamente nu, com suas várias cicatrizes de cortes e perfurações exibidas para quem quisesse ver.
Caminhou até onde estava seu roupão, cobriu o corpo bem treinado, e dirigiu-se à área de lazer, separada por uma parede e uma cortina de missangas.
— Oh, Majestade. Finalmente. — Quem o recebeu foi seu mordomo, Daasaf, que parecia desesperado, andando de um lado para o outro. Seu monóculo ameaçando cair a cada volta. — Algo… algo muito, muito estranho aconteceu…
— Algo estranho? Do que você está falando? — Allius já estava com o cenho franzido. Se o seu mordomo estava daquele jeito, então era algo verdadeiramente inédito e preocupante.
— São as Ter…
— ONDE ESTÁ O IDIOTA QUE VOS GOVERNA!!!? — Antes que o mordomo pudesse terminar sua fala, ele e seu rei olharam em direção à porta. Gritos repentinos vinham do lado de fora. — MANDEI TRAZEREM ATÉ MIM O MALDITO QUE NOS CONDENOU!!!!
— O que está…
— Quem é você!? — As vozes dos guardas do lado de fora se sobrepuseram à do imperador. — Ataquem!!
BAM!
Pelos sons que ecoaram, os guardas devem ter se esforçado para manter o desconhecido do lado de fora, mas não foram fortes o suficiente, já que seus corpos foram usados para arrombar aquela porta dupla.
Barras alaranjadas surgiram imediatamente nos pulsos de Allius.
— Quem é você!? — A voz do imperador saiu rouca e confusa. Ele não conhecia a invasora.
— Então é você… — A velha tinha longos cabelos grisalhos encaracolados e vestia trajes feitos de pele animal.
— Sou eu. E quem seria você?
— Quem sou eu!!?
Swoosh!
Allius arregalou os olhos e pulou para longe, assim como seu mordomo.
A velha estava praticamente com o rosto colado ao dele.
“Tão rápida…”— Ele não vira sequer um mísero movimento. —“Quem é ela?”
— Eu sou Tempestade Negra, Guardiã do Tratado… — Seus olhos vermelhos contrastavam com sua pele negra. — Tratado esse que parece que você quebrou!
— O que diabos você fez com as Terras Centrais!?
— Terras Centrais? — Allius levantou uma sobrancelha, confuso. Do que aquela velha estava falando?
Ele não a conhecia, não conhecia seu título e não fazia ideia do porquê ela estava mencionando as Terras Centrais naquele momento.
“Uma defensora dos escravos?”— Parecia o mais lógico, tendo em conta seu tom de pele. —“Mas, se for assim, de que tratado ela está falando? E por que mencionar as Terras Centrais?”
— Majestade, era sobre isso que eu vinha relatar. — Daasaf falou. O Imperador franziu ainda mais a testa, sentindo que a notícia que receberia mudaria por completo o mundo. — Não se sabe como, mas as Terras Centrais afundaram e agitaram os mares de tal forma que várias cidades costeiras ficaram inundadas.
— Quê?!
— “Não se sabe como”? NÃO SE SABE COMO!!? — A velha estava incrédula, abrindo e fechando a boca repetidamente, sem saber o que mais dizer. Por vezes, soltava algumas risadas, como se estivesse prestes a enlouquecer. — Espera! Espera! Vocês estão me dizendo que acabaram de condenar a humanidade e nem sabem como?
— Quê? Do que você está falando?
— Das Hermês, Porra!!! — A paciência dela parecia ter se esgotado. — Você é a porra do imperador, não é!? Não devias saber o que aquelas terras representam!?
— O que representam? — Allius imediatamente se lembrou dos últimos segundos de vida de seu pai, o anterior imperador. Naquele dia, certamente, seu pai quisera dizer alguma coisa, parecia uma informação sobre as Terras Centrais, mas o velho homem morrera antes de repassá-la.
Allius chegara a investigar, mas não encontrara nada.
— Aquilo era a porra de um território intocável, inalcançável para qualquer raça! — A velha continuou, seu tom variando entre irritação, indignação e preocupação. — UMA HERMÊS MORAVA LÁ…
Quando escutaram o último trecho, o imperador e seu mordomo finalmente entenderam a gravidade da situação.
“Um… um território… Hermês…?”— Como se a gravidade tivesse sido aumentada diversas vezes, os dois homens sentiram seus corpos pesados e as pernas quase fraquejaram.
Hesitante, a velha não parou por ali:
— Foi Ela quem criou as Terras Centrais… foi Ela quem separou os três continentes… usando apenas um soco.
— Assinamos um tratado de paz com Ela. — A velha pareceu perder as esperanças conforme falava, até que desabou numa cadeira. — Ela prometeu nunca nos atacar… nunca quebrar o tratado. Havia apenas uma cláusula no contrato, onde estava claro que o tratado seria revogado se a humanidade atacasse aquele lugar primeiro.
— As Terras Centrais eram o próprio contrato e, se esse lugar foi destruído, significa que o tratado…
— Me diga! — Ergueu a cabeça, fixando os olhos nos de Allius. — Quem foi o filho da puta que atacou aquele lugar?
— Quem foi o merda que nos condenou!!?
[Prólogo: A Vilã da História]
[FIM!]