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Capítulo 50 — 1 Cavaleira de Preto

A Cavaleira De Preto — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 50 — 1 Cavaleira de Preto

[Kartumz: Templo da Vida]

A catedral branca, com uma majestosa cúpula dourada no topo, se erguia imponente a sudeste do Castelo Branco, destacando-se em toda a Rua das Vivências, a leste da circular, bela e repleta de rosas brancas, Praça da Luz.

Já era noite, mas a Praça da Luz continuava iluminada por pequenos cristais luminosos brancos, estrategicamente colocados pelo chão para iluminar a grande placa de pedra com o Emblema Sagrado da Vida entalhado.

Por sua vez, a Catedral parecia uma lâmpada no meio da noite, com a cúpula dourada irradiando luz própria.

Ainda do lado de fora daquela sagrada construção, já era possível escutar as cantorias que vinham de lá, abafadas pelas grandes portas duplas de madeira envernizada, que estavam fechadas.

— Laaaaaahaaaaaa~!

— Laaaaahaaaaaa~!

O som continuava sem cessar. Era lindo de se escutar, agradável aos ouvidos, como se anjos cantassem pessoalmente.

No interior da catedral, o amplamente conhecido Templo da Vida, bancos coletivos de madeira estavam perfeitamente arrumados pelo salão, entalhados com padrões cíclicos belíssimos.

Mais à frente, um grupo de homens em túnicas brancas, alguns jovens e outros já na faixa da meia-idade, estavam de joelhos, as faces erguidas, assim como seus braços abertos. Pareciam prontos para receber um abraço.

— Laaaaahaaaa~!

Eles cantavam com paixão e fé.

O som era mais alto no interior, mais nítido, mais santo e mais belo. Era linda e revigorante a aura divina que aquele som carregava em cada nota.

Diante do altar, ajoelhado e curvado, com a testa tocando o chão, estava um velho homem careca em túnicas douradas com detalhes em branco.

O Sumo Sacerdote da Vida.

Parecia orar fervorosamente, em silêncio, e suas lágrimas já formavam uma pequena poça ao redor da testa. Seu chapéu sacerdotal branco, com detalhes dourados, estava caído no chão.

Depois de horas sussurrando preces em meio àquelas cantorias santas, finalmente levantou a cabeça, sentado sobre as próprias pernas, ergueu os braços e falou:

— Oh, Digníssima Senhora da Vida! — Elevou a voz para dizer, seus olhos azuis fixos no dourado Emblema Sagrado da Vida bordado na grande cortina branca que escondia a parede atrás do altar. — Vós Sois a Progenitora e Guia de Toda Criatura Vivente!

Tinha um anel de ouro em seu anelar direito, com um pequeno cristal transparente que brilhou fracamente naquele instante.

— Luz Protetora Em Meio Às Trevas!

Como se tivesse terminado e aguardasse alguma resposta, o Sumo Sacerdote voltou a baixar a cabeça até o chão e ficou daquele jeito pelos próximos segundos.

Enquanto isso, o grupo de homens de branco continuou cantando sem desistir. Sua paixão foi tão ardente que acendeu as três velas no centro do altar, que, como um triângulo, cercavam uma pequena tigela de pétalas brancas pontilhadas de vermelho.

— Mãe dos Vivos, por favor, olhe para nós — suplicou, lutando contra a vontade de abrir os olhos e verificar seus arredores, já que a canção dos homens de branco estava cada vez mais distante, mais abafada, até que simplesmente não era mais possível escutá-la. — Oh, Grande Luz, Te imploro, atenda às nossas inquietações.

Assim que terminou aquela frase, um arrepio repentino se espalhou pela sua espinha, o que o fez apertar com mais força os olhos.

Swoosh.

Uma brisa calma e quente passou por ele logo em seguida, levando suas preocupações para longe.

— A Deusa se alegra de você, Amstel. — Escutou; mesmo sem levantar o olhar, sabia muito bem quem era o dono daquela voz. — Ela tem falado maravilhas sobre você.

— Alegra-te, criança, pois a Mãe aprecia grandemente seus esforços e bons feitos em prol da causa divina. — Lágrimas de alegria rolaram sem cessar pela face de Amstel. Ouvir aquelas palavras diretamente do Profeta, aquele que estava abaixo apenas da Deusa da Vida naquela religião, e saber que a Deusa se alegrava com ele enchia seu peito de alegria e confiança. — Saiba que Ela deposita grande confiança e expectativa sobre ti e espera que continues guiando suas crianças pelo caminho iluminado por Ela.

— Claro, claro! — Quase se exaltou ao responder, mas conseguiu conter sua animação. — Sempre.

— Agora ouça com atenção, Amstel, pois estas são as palavras que nossa Mãe te entrega… — O Sumo Sacerdote quase não acreditou no que ouvia, tanto que seus olhos se abriram, arregalados, mas rapidamente os fechou. — Assim diz a Mãe: “Tempos difíceis aproximam-se, trazendo consigo inúmeras variáveis inesperadas e a certeza de uma guerra.”

— “Diante disso, Amstel, você é chamado a agir. Reúna dentre os meus filhos os mais fiéis e prepare-se para a guerra.”

— Preparar-me para a guerra? — Estremeceu de leve. Em todas as Escrituras Sagradas, de todas as religiões, os confrontos entre os mortais sempre foram relatados como apenas isso, “confrontos”, e a palavra “Guerra” surge para descrever um único evento… a Guerra dos Mil Anos. — Então, o rei demônio…

— Não, criança, a vossa guerra será contra seres como vocês, humanos.

“Humanos?”

— Esses humanos não são exatamente iguais a vocês e carregam grande rancor…

— A vossa guerra, Sumo Sacerdote, será contra os Invocados!

[Em alguma cidade]

[Em algum momento]

A praça central daquela pequena cidade estava lotada. Homens, mulheres e crianças se amontoavam no mesmo lugar, todos querendo ver aquele que era dito ser o maior evento do ano.

Já fazia tempo que estavam todos ali sem acontecer nada, o que levou muitos a usar seus escravos como cadeiras para descansar as pernas.

— Já faz tanto tempo que estamos aqui. Será mesmo que o conde está falando a verdade? — perguntou uma mulher sentada sobre sua escrava a outra, que também usava seu escravo como assento.

— Estamos aqui para verificar isso, não é mesmo? — A outra respondeu. — Mas sejamos realistas, é da Bruxa da Retribuição que estamos falando, alguém que até mesmo o exército do reino de Salius não conseguiu capturar. Como um simples Conde conseguiu?

Antes que a primeira pudesse dar uma resposta, os escravos puderam finalmente descansar por um momento, quando uma trombeta soou e todos se levantaram. Bem, apenas alguns escravos descansaram, já que outros continuaram servindo de cadeiras para as crianças, e os mais azarados eram transformados em suportes para aumentar a altura daqueles mais atrás.

— Muitos murmuraram que era impossível! — Do centro da praça, o Conde daquela cidade gritou, cheio de orgulho. — Mas aqui está, capturada por mim, aquela que é a maior inimiga da humanidade atualmente, a infame Bruxa da Retribuição!

Não houve gritos após o discurso do Conde. Todos permaneceram incrédulos, não conseguindo acreditar naquela cena, mesmo tudo estando diante deles.

— É-é mesmo ela… — Alguns murmuraram, em choque.

Assim que o Conde se afastou, uma mulher ficou à vista de todos, de joelhos e curvada. Trajava roupas reveladoras de um fino tecido azul-marinho. Os braços estavam acorrentados para trás, os cabelos negros desgrenhados, molhados e com manchas de sangue que escondiam alguns poucos fios ruivos, caíam sobre o rosto, e uma coleira negra com letras místicas entalhadas brilhava em seu pescoço.

— Ela é tão… magra. — Os mais sensíveis comentavam. Mesmo conhecendo a fama daquela mulher, parecia impossível não sentir alguma pena ao ver a quantidade de ferimentos e cicatrizes em seu corpo e o quão esquelética era.

Era realmente certo uma mulher estar daquele jeito?

No entanto, ninguém parecia ter olhos para o tanto de mulheres e crianças negras que lutavam para esconder os gemidos, com medo de serem espancadas pela enésima vez.

— O que acham? — O Conde voltou a chamar a atenção de todos para si. — Será que ela tem alguma coisa para dizer antes de sua cabeça rolar?

Todos olharam para aquela mulher lamentável e aguardaram. Suas palavras só foram ouvidas dois minutos depois.

— Meus parabéns — murmurou e ergueu a cabeça, seus olhos cor-de-mel injetados de loucura. — Vocês caíram direitinho.

— Olha só, ela está nos ameaçando, Hahahaha! — O Conde achou graça. — Acha mesmo que nos dá medo agora?

— Se vos dou medo? Não, não sou eu quem devem temer, afinal, sou apenas a irmãzinha caçula problemática. — Sorriu, apresentando incríveis dentes perfeitos ensanguentados. — O que vocês devem temer ao se deparar com uma caçula é…

Ziiiihhmm.

— Seus irmãos mais velhos.

A sombra que cobria a cidade se agitou.

Uma comoção se deu início em meio a multidão, quando o que pareceu um apito abafado foi ouvido, mas antes que pudessem fazer qualquer coi…

Vraaw!

BAM !

Sangue espirrou para todos os lados, quando todas as pessoas naquela cidade foram partidas ao meio, assim como todas as construções.

Tudo desmoronou de um segundo para o outro, transformando aquela cidade num amontoado de destroços ensanguentados.

O mais espantoso era que não havia um corpo negro sequer entre as vítimas.

Tudo ficou em silêncio por alguns minutos.

— Cof! Cof! Coungh!

Um homem rastejou para fora dos destroços. Teve a sorte de estar dormindo quando tudo aconteceu.

—Você ainda está aí?

O som veio de uma pérola em seu pulso.

—O que aconteceu?

— Alguém nos atacou e destruiu a cidade — respondeu, ainda um tanto confuso.

—Atacaram a cidade? quem?

— Ainda não sei, estou… — Interrompeu sua fala quando viu uma silhueta em meio à poeira. — Tem alguém aqui.

— Alguém? Quem?

— Ainda não sei bem… — Aguardou por alguns segundos, em silêncio, até que conseguiu ver melhor quem se aproximava. — É-é uma mulher… ela… quê?

— O que foi? Quem é essa mulher?

— Não sei, nunca a vi — informou, um tanto confuso com o que via. — Ela está de armadura… uma armadura negra.

Ficou em silêncio por mais algum tempo, até que pôde ver na totalidade a mulher.

— Parece uma cavaleira…

— Uma Cavaleira de Preto.