Capítulo 51 — Mais 1 Fracasso
Capítulo 51 — Mais 1 Fracasso
[Vigésimo Oitavo dia, do Décimo Quinto mês, do ano Dois Mil Duzentos e Cinquenta e Sete]
A estrada de terra parecia não ter fim.
O vento soprava com alguma força, levantando traços de poeira enquanto transportava o calor típico daquela região nos fins de ano.
Lá nos céus, o sol brilhava com tamanha intensidade que uma breve espiada já era suficiente para irritar os olhos.
Debaixo daquele calor quase infernal, lutando contra as momentâneas cortinas de poeira, uma mulher, vestida completamente de preto, caminhava sozinha por aquelas vias havia dias, com o capuz negro cobrindo boa parte do rosto e os passos seguindo um ritmo constante, quase mecânico.
Voosh!
Mais uma rajada repentina de vento soprou, lançando contra ela uma parede de poeira.
— Haaah!
Quando a poeira passou, a mulher estava parada, sua túnica coberta de pó. Chacoalhou-se de leve, o que acabou revelando sua cauda fina, que logo se escondeu.
Depois de quatro segundos, levantou a mão direita, e os trevos prateados de quatro folhas, mergulhados no dourado de suas íris, miraram o anel avermelhado, com entalhes místicos, em seu mindinho.
Os entalhes do anel brilharam por um instante, e algo começou a se formar sobre a palma da mulher, como se a realidade tecesse aquilo a partir do absoluto nada.
Primeiro surgiu a parte de baixo, assentada sobre a palma. Então, o resto do corpo foi se formando, levando algo em torno de dois segundos.
Era um cantil de água feito de pele.
A mulher baixou o tecido que protegia o nariz e a boca e, em seguida, tirou o capuz, revelando seus cabelos alaranjados e seus longos lóbulos.
Era a Lihyf, Hiryn.
— Haaaah!
Suspirou depois de consumir uma grande quantidade de água, de forma desesperada, a ponto de se molhar. O cantil sumiu num instante de sua mão e, enquanto enxugava o rosto, murmurou:
— Finalmente.
— É um pequeno vilarejo no extremo sul de Movis.
— Sim, o período de nascimento bate, por isso estou te informando.
— Por que acho que é aquela criança? É difícil de explicar… você vai entender assim que ver o olhar dela.
Aquelas lembranças retornaram mais uma vez. A razão pela qual ela estava ali.
— Parece que é aqui — falou para si mesma e suspirou mais uma vez.
Ao longe, um vilarejo se revelava. Não era grande, mas também não era pequeno. Mesmo de longe, já dava para perceber que não era um vilarejo como qualquer outro.
Uma cerca feita de troncos afiados no topo cercava o vilarejo. Devia ter cerca de três metros de altura, com torres de vigia a cada cinco metros, todas ocupadas por, pelo menos, três homens trajados com armaduras de couro.
— Então esse lugar é Tarsak.
Ela já tinha ouvido um pouco sobre a peculiaridade daquele vilarejo.
— Deve ser por causa daquilo lá.
Seus olhos olharam mais ao longe, para além do vilarejo, onde uma densa floresta se erguia, envolta em uma névoa acinzentada, com enormes árvores retorcidas, de troncos pretos e folhas de cores frias.
A Floresta das Bestas.
Era o que de mais perigoso a natureza tinha para oferecer no território humano.
Estando praticamente colado àquele lugar, certamente Tarsak não seria como os outros vilarejos pelos quais a jovem Lihyf de 201 anos passou.
Voltou a se cobrir com o capuz e o tecido no rosto e aproximou-se sem muita pressa, aproveitando para entrar com uma carruagem que chegou ali ao mesmo tempo.
Não houve muita burocracia. Ela apenas precisou pagar a taxa de entrada de 3 Centavos.
Já dentro da cerca que protegia o vilarejo, quanto mais avançava, mais detalhes conseguia perceber.
Tarsak não parecia ser um vilarejo particularmente rico. As casas eram simples, construídas principalmente de madeira e pedra, algumas com telhados baixos e outras com pequenas extensões improvisadas. Havia pouco espaço entre elas, formando ruas estreitas e tortuosas.
Mas existia algo diferente.
Armas.
Havia lanças apoiadas junto às portas. Arcos pendurados nas paredes. Machados presos a suportes. Até algumas casas possuíam pequenas aberturas próximas ao teto, provavelmente utilizadas para observar o exterior.
Depois de passar por vários grupos de moradores, a maioria deles armados com armaduras de couro e espadas na cintura, Hiryn olhou mais uma vez para a grande floresta que podia ser vista além das últimas construções.
Mesmo de longe, era possível sentir a aura nauseante que vazava de lá.
Com base no que ela tinha pesquisado sobre aquele lugar, Tarsak tinha uma espécie de tropa de defesa própria, já que se recusava a pagar os impostos de proteção ao baronato local.
Aqueles que confiavam na proteção do império e sabiam que isso tinha custos diziam que era questão de tempo até aquele lugar cair.
Com mais um passo, foi possível notar as várias torres de sinos posicionadas em locais estratégicos pelo vilarejo, altas o suficiente para serem vistas e ouvidas de qualquer lugar dali.
— Bleng! Bleng! Bleng!
Na curva a seguir, Hiryn escutou a imitação de um sino. Pela voz, certamente devia ser uma criança.
Voosh!
O vento soprou no instante em que ela foi ver o que era, lançando contra ela alguma coisa que se agarrou ao seu rosto.
— Rápido, o sino tocou três vezes. Isso significa que devemos ficar em casa. — Escutou enquanto tirava o que estava em sua face. — Mulheres e crianças para dentro.
A Lihyf se deparou com uma grande folha de papel castanho-amarelada, com várias informações escritas. Pelo que estava escrito no topo da folha, em letras enormes, usando os símbolos do idioma falado naquela região, o Qazak, aquilo devia ser um jornal.
Assim que bateu o olho, as informações simplesmente foram até ela:
[DESAPARECIMENTOS EM MASSA DEIXAM O IMPÉRIO EM ALERTA]
[Mais famílias continuam relatando o desaparecimento de seus parentes. Segundo as autoridades…]
Mas ela deixou de ler no instante seguinte, quando ouviu novamente as crianças:
— Não se preocupem, cidadãos, nós vamos proteger todos vocês. Os monstros não passarão das nossas muralhas.
Enquanto olhava as crianças, os meninos balançando suas espadas de madeira enquanto as meninas se escondiam em casinhas improvisadas feitas de diversos materiais, ela amassou o jornal e o jogou fora.
Deu um sorriso de canto ao ver aquilo, lembrando-se de sua casa, mas deixou tudo aquilo para trás. Afinal, tinha uma missão por cumprir.
Quanto mais seguia pela cidade, mais notava que a grande maioria das pessoas pelas ruas olhava para ela, seja por conta das vestimentas diferentes ou por conta da cor de sua pele.
Era de conhecimento geral que, no território humano, os negros ou não tinham autorização para andar por aí ou, quando tinham, estariam acorrentados dos pés à cabeça.
Hiryn não se importou. Já estava acostumada.
Depois de tanto tempo viajando sozinha pelo território humano, havia aprendido a reconhecer diferentes tipos de olhar.
Curiosidade.
Medo.
Desconfiança.
Cobiça.
Alguns simplesmente desviavam os olhos, enquanto os menos sutis faziam questão de continuar encarando.
Ela ignorou todos.
Não tinha vindo ali para discutir com ninguém. Precisava apenas cumprir sua missão.
Seguiu o fluxo de pessoas até o centro do vilarejo, onde estava concentrado o comércio e as pessoas se encontravam aos montes.
Sem cerimônias, aproximou-se de uma das pequenas lojas, cumprimentou o homem que organizava suas coisas e foi direto ao ponto:
— Procuro uma criança.
O homem levantou o olhar, os olhos mirando os dela.
— Por quê? — perguntou, depois de baixar a cabeça e voltar a remexer suas coisas.
— Fui chamada para cá. — Uma pequena folha de papel tinha se formado em sua palma, que ela entregou ao homem. — Conhece?
Tudo o que tinha ali eram os nomes de duas pessoas, um homem e uma mulher.
— Talvez…
Assim que viu o homem coçar a barba, a Lihyf imediatamente entendeu o que estava acontecendo.
Não importava onde fosse, sempre havia alguém disposto a tirar vantagem de uma situação.
— E agora? — Lançou uma moeda grande de cobre na direção do homem, 5 Centavos.
— Hmmm… deixa eu ver — começou, depois de colocar a moeda no bolso. — A mulher morreu logo após o parto. O homem, que ficou com o filho, teve uma grande maré de azar e acabou por tirar a própria vida. Houve até o caso da Ama de Leite da criança deles, que acabou devorada pelas Bestas da Floresta.
— Por conta disso tudo, dizem que esses dois tiveram uma criança amaldiçoada.
— Criança amaldiçoada?
Hiryn arregalou os olhos, e seu coração bateu mais forte.
“Deve ser…”
— Você sabe onde posso encontrar essa criança?
— Isso é fácil… — O homem fez uma pausa e voltou a coçar a barba. Só depois de receber uma pequena moeda de cobre, 1 Centavo, é que voltou a falar: — Você só precisa ir em direção àquela torre vermelha ali. Chegando lá, basta procurar a criança que mais parece um cadáver.
Hiryn não quis perder mais tempo ali. Estava esperançosa de que finalmente estivesse perto de completar ao menos uma parte de sua grande Missão de Maioridade.
— Espere.
Hiryn parou. O homem a encarava, hesitante.
— Você é uma Lihyf, não é?
Ela olhou por cima do ombro.
— Sou.
— Sabia! Esses seus olhos… — Coçou a nuca. — Ah… nunca tinha visto uma.
— Agora viu.
A conversa entre os dois terminou ali, e ela continuou em sua missão.
Não era a primeira vez que ouvia aquilo e provavelmente não seria a última. Talvez fosse aquele fato que impedia a grande maioria dos humanos que se deparava com ela de ousar atacá-la.
E tinha mais uma coisa. Depois de andar por tanto tempo por ali, surpreendeu-se por não se deparar com correntes pelas ruas…
… com humanos sendo usados como burros de carga…
Talvez fosse simplesmente porque aquele lugar não possuía riqueza suficiente para sustentar aquele tipo de prática.
Ou talvez houvesse outra razão.
Hiryn não se importou o bastante para descobrir.
Logo, encontrou a velha torre vermelha.
Não precisou nem chegar perto para encontrar quem devia ser a criança mencionada pelo homem anterior.
Havia um grupo de pessoas ali. Deviam ser os menos afortunados, e havia algumas crianças no meio. A maioria, ao notar a presença dela, imediatamente desviou o olhar.
“Você vai entender assim que ver o olhar dela.”
Aquela fala retornou em suas memórias.
Nos olhos de todos que a encaravam havia algo em comum: desamparo e tristeza. Nos olhos de algumas crianças, até era possível ver traços de medo.
Mas havia uma criança ali no meio, a mais esquelética, cujo olhar possuía apenas uma coisa:
Indiferença.
Era o olhar de quem olhava para a vida e dizia: “tanto faz”.
Parecia que morrer ou viver dava no mesmo para aquele menino. Aliás, o certo seria dizer que a morte talvez fosse algo bem melhor.
> Pode dar a volta.
— Quê?
Hiryn se assustou de leve com a voz repentina. Estava demasiado focada naquela criança.
> Não é ele.
— Não? — Os ombros dela caíram quando a minúscula Água-Viva de Sangue, que flutuava a centímetros de seu ombro direito, a assegurou. — Então… mais um fracasso?
> Pois é.
— Haaaah… nossa, eu estava tão esperançosa… — confessou, enquanto dava meia-volta e se afastava. Depois de alguns passos, parou e voltou a suspirar. — Já faz um ano… ndzi xuva Lantus (sinto saudades de Lantus).
> E eu não consigo acreditar que ninguém te atacou até agora.
— Quê?
> Pois é! Você é negra, os humanos estão escravizando os seus negros, então, por que ninguém tentou até agora?
> Já faz tanto tempo que não tenho sangue fresco.
— Isso é brincadeira, né? — Passou a mão pelo rosto e balançou a cabeça. — Deixa eu ver se entendi… está me dizendo que, para você, eu sou apenas uma isca?
> Eu nunca disse isso. Estou apenas te usando para atrair alguns “pontos de sangue ambulantes”.
— VO… — Travou. — Sabe, eu nem vou mais me incomodar. Só espero que você se lembre que combinamos que não pode matar ninguém.
> Lembro, lembro sim… assim como também lembro que essa regra cai por terra se você estiver em perigo.
— Haaaah… vamos logo voltar à nossa missão. Não quero passar mais um ano longe de casa.
Virou as costas e deixou seu Hayim para trás. Quando o Espírito não podia mais ver seu rosto, os cantos de seus lábios se ergueram por um segundo.
Atrás dela, o Rei do Sangue parou por um segundo, olhou para trás, para aquela criança cujos olhos não possuíam nenhum resquício de infância, ficou ali por dois segundos e então seguiu sua parceira.
> Você sabe que a missão só demorou tanto assim por você não me ouvir, né não?
— Quê?
> Pois é! Eu já te disse que, se é uma criança quebrada que você quer, então procure entre os nobres.
> Eles são especialistas nesse quesito.