Capítulo 52.1 — 1 Vingança
Capítulo 52.1 — 1 Vingança
[Vigésimo Oitavo dia, do Décimo mês, do ano Dois Mil Duzentos e Cinquenta e Oito]
Mesmo com aquilo diante de seus olhos, a mente de Hiryn ainda se recusava a aceitar que aquele lugar fora, um dia, uma grande cidade portuária.
As muralhas, antes firmes e imponentes, estavam naquele momento em ruínas, sem sequer uma sombra do que já foram no passado.
Na fotografia que trazia nas mãos, a cidade se apresentava com majestade. Grandes pagodes de, no máximo, quatro andares erguiam-se por entre as ruas, que brilhavam com a movimentação de moradores e visitantes. Até alguns vendedores tomavam pequenas parcelas das vias para fazer o seu trabalho e chamar a atenção dos transeuntes.
Pelo que ouvira, aquela cidade era a preferida por muitos quando o assunto era entretenimento noturno.
Mas, ao baixar a fotografia e erguer os olhos, a realidade lhe apresentava um contraste devastador do que aquela cidade já fora.
A conhecida e fabulosa Yaolan não existia mais e, provavelmente, nunca mais voltaria àqueles dias de glória.
Se algum visitante de outros mundos chegasse e ouvisse a história do que aconteceu, certamente não acreditaria. Afinal, o mar viera como uma avalanche imparável, derrubando e arrastando tudo o que encontrou pelo caminho.
O cais foi o primeiro a ruir; em seguida, foram engolidos aqueles que tiveram o azar de estar por perto. As construções de madeira praticamente não apresentaram resistência, nem mesmo as grandes muralhas conseguiram conter aquele avanço.
Apenas imaginar a enxurrada líquida engolindo as pessoas, em meio a gritos e choros de crianças, já deixava a Lihyf com o coração apertado.
Onde antes existiam ruas movimentadas, havia agora água salgada, lama negra com traços esverdeados, parecendo apodrecida, e pedaços de madeira.
Onde antes existiam casas de nobres, agora havia apenas paredes partidas, telhados inclinados e janelas vazias refletindo o céu cinzento.
Alguns barcos haviam sido arrastados para dentro da cidade durante a grande inundação e permaneciam presos entre as construções, como se tivessem sido abandonados no meio de uma tempestade que nunca terminou.
Dois anos haviam passado desde que aquele evento — que todos queriam esquecer — aconteceu.
Dois anos desde que uma imensa porção de terra afundara no oceano e lançara ondas capazes de alcançar cidades costeiras a centenas de quilômetros de distância.
As informações não eram claras; dizia-se apenas que as Terras Centrais afundaram devido a algum acontecimento desconhecido, o que resultara naquela destruição.
Mas nem todos foram abraçados pelo infortúnio. Alguns conseguiram, de algum jeito que nem eles mesmos conseguiam descrever, sobreviver. Com isso…
Os ricos partiram.
Os comerciantes partiram.
Os nobres partiram.
Resumindo: aqueles que tinham dinheiro suficiente para reconstruir suas vidas em outro lugar simplesmente abandonaram aquela cidade.
Ficaram apenas os que não possuíam para onde ir e, pouco a pouco, entre os destroços de uma cidade que já fora grandiosa, um pequeno vilarejo começou a nascer.
Barracas foram erguidas com madeira retirada das casas destruídas, portas de antigas mansões foram transformadas em mesas, barcos quebrados tornaram-se lojas e velhas tábuas passaram a servir como pontes sobre as regiões ainda inundadas.
A cidade havia morrido.
Mas seus habitantes não.
— Isso…
Hiryn, diante das várias cabanas praticamente coladas, feitas dos restos do que já foram lindas construções, não conseguia sequer encontrar palavras para dizer.
Pensar que Yaolan não fora a única cidade a sofrer com a grande inundação de dois anos atrás fazia o nó em seu peito apertar ainda mais.
Parou no meio da maior rua dali, que mais parecia um beco, e observou a pouca movimentação.
Depois de algum tempo, quando viu algumas pessoas tão desnutridas que os ossos começavam a se delinear sob a pele se aproximarem, Hiryn puxou um pouco mais o capuz sobre a cabeça.
Ela não sabia como o Rei do Sangue fazia, mas manter os chifres escondidos facilitava em muito a sua “infiltração” no território humano.
Depois de alguns passos, cobriu a parte inferior do rosto com o pano negro que descansava em seu pescoço, logo após torcer o nariz.
Depois de alguns passos, cobriu a parte inferior do rosto com o pano negro que descansava em seu pescoço, logo após torcer o nariz.
O vento carregava consigo o cheiro salgado do mar, misturado ao odor de peixe, madeira úmida e fumaça das pequenas fogueiras espalhadas pelo vilarejo.
Era um cheiro desagradável.
> Haaaah… não há nada que valha a pena por aqui.
A Água-Viva de sangue espreitou de dentro do capuz.
> Pele e osso… pele e osso e mais pele e osso. Me dá náuseas só de olhar.
— Será que você não tem sequer um pouco de compaixão? — Hiryn indagou, a testa franzida e as pálpebras apertadas. — Até mesmo nesta situação, tudo o que você pensa é sobre drenar o sangue das pessoas?
> No que mais eu pensaria? Você também ficaria preocupada se o teu gado parasse de engordar, não?
— !!! — Hiryn até pensou em responder, mas desistiu. Afinal, seria inútil. Aquele ser, por mais que estivesse cooperando com ela e até chegasse a vê-la como amiga, era um Espírito Corrompido, uma entidade maligna que só se segurava por conta do acordo que tinham. — Haaa… quanto mais ainda?
> Posso sentir a Presença dele lá na frente. Ele deve estar nos esperando.
Hiryn não falou mais nada após aquela fala e continuou caminhando. Seus olhos percorriam cada construção, cada rosto e cada pequeno caminho que encontrava
Sua Missão de Maioridade ainda parecia estar longe de terminar.
Sentia falta de seu lar, de não precisar dormir em lugares diferentes todas as noites, de seus conhecidos…
Mas não podia desistir; não podia voltar para casa ainda. Precisava encontrar as crianças da profecia. O futuro do mundo dependia daquilo.
Virou em uma esquina e foi tirada de seus devaneios quando esbarrou num homem que surgiu ali de repente.
— D-desculpa! — O homem disse assim que se levantou após o tombo e, sem sequer parar para ver em quem tinha esbarrado, continuou sua correria desesperada.
Seu nome era Ravel e, um dia, já tivera uma família, não próspera, mas minimamente estável. Contudo, tudo mudou dois anos atrás.
Logo após a grande inundação, perdeu tudo, e o que lhe restou foi a família. Não sabia como conseguiram sobreviver àquele desastre, mas estava feliz por ter sido daquele jeito.
Um ano após aquele evento desastroso, alguns comerciantes começaram a passar por ali, permitindo que os que tinham ficado pudessem continuar sobrevivendo. Mas não chegaram apenas eles. Não havia como seres tão pobres realizarem uma mísera transação, sem dinheiro, afinal.
Foi por conta disso que os agiotas chegaram junto dos comerciantes.
Ravel foi um dos que recorreram a eles; a lábia dos homens lhe dera esperanças de poder retornar à estabilidade perdida.
Mas foi tudo um sonho.
Passou tanto tempo e, mesmo tendo conseguido pagar o que emprestara, nunca conseguira pagar os juros.
Os cobradores foram até ele inúmeras vezes, cheios de ameaças, e até chegavam a agredi-lo. Mas ainda era suportável.
Não importava o quão difícil era, ele ainda tinha sua doce e gentil esposa, tinha seu filho prestativo, sempre disposto a ajudar com os afazeres de casa e tinha sua perpetuamente alegre filha.
Aquela menina era a luz na sua casa.
Ele era um pescador; conseguia alguma coisa vendendo os seus peixes. É claro que perdia quase tudo para os agiotas, mas ainda conseguia sobreviver com a sua família — mesmo nos dias em que precisava ficar sem comer para que seus dois filhos pudessem se alimentar. Apesar de tudo, ainda existia alguma esperança.
Desde que ainda tivesse sua família, ainda consegu…
Até que sua esposa foi assassinada.