LNCrawler

Capítulo 52.2 — 1 Vingança

A Cavaleira De Preto — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 52.2 — 1 Vingança

[Ou nos dá o que nos deve, ou ela será apenas a primeira que precisará enterrar]

Depois de ler aquele bilhete, teve certeza sobre quem tinha feito aquilo. Mas de nada adiantava, já que não existia mais lei naquele lugar.

O mais forte podia tudo, e o mais fraco estava limitado a apenas seguir o fluxo gerado pelos mais poderosos.

Sem poder fazer nada além de trabalhar ainda mais, esforçou-se muito mais do que seu corpo suportava. Porém, ainda assim, os juros só aumentavam.

Mas não existia outro caminho e desistir não era uma opção.

Queria apenas conseguir proteger seus filhos… queria apenas poder cumprir seu dever como pai.

Mas o mundo parecia estar contra ele.

— Haaa… — Parou e suspirou.

Por um instante, as lágrimas da esposa voltaram à sua memória. Aquela última expressão. Aquele último olhar.

Aquela última vez em que ela tentou dizer alguma coisa antes de partir.

Tudo retornou de uma só vez, quase sobrecarregando seu coração, mas, pelo seus filhos, a mão esquerda apertou o peito, em busca de estabilizar seus batimentos cardíacos e a direita apertou com força o saquinho que trazia.

Já estava em casa, depois de um longo dia de pescaria.

Tinha conseguido vender seus peixes e voltava para levar o pouco de dinheiro que tinha em casa para juntar com o que havia conseguido. Então, talvez, conseguisse pagar mais uma parte do que devia aos agiotas.

Endireitou as costas, limpou o desespero do rosto e o substituiu por um sorriso.

Precisava fazer isso.

Seus filhos estavam esperando.

— Pois é, parece que foram cinco desta vez. — Escutou, quando estava prestes a entrar. Olhou para trás e viu duas mulheres passando por ali.

— Cinco? Minha nossa…

— Bem, pelo menos não foi tanto como no mês passado. E, ah, ouvi também dos comerciantes que esse é o primeiro caso em que as vítimas têm algo em comum…

— Todas as cinco desaparecidas eram virgens e estavam prestes a se cas…

— Arzan, Lizva, cheguei! — Gritou, sem dar mais atenção àquela conversa, para chamar a atenção de seus dois filhos: o mais velho, de nove anos, e a mais nova, de cinco.

Empurrou o tecido grosso que servia de porta e entrou, esperando receber os abraços e beijos de seus filhos.

Era o momento em que podia ser verdadeiramente feliz.

Mas o que o recebeu foi o silêncio absoluto.

— Arzan!? — gritou mais uma vez, o cenho franzido. Ele nunca precisara chamar pelos filhos mais de uma vez. — Lizva? — Principalmente porque a mais nova parecia estar sempre esperando por ele, sendo sempre a primeira a se lançar em seus braços, enquanto ria e gritava de alegria.

Mauka…” — O nome de sua esposa lhe veio à mente.

Tinha sido parecido naquele dia. Sua esposa saíra para comprar o que deveriam comer e… não voltou mais.

As moedas que apertava entre as mãos caíram assim que aquele pressentimento macabro surgiu, e ele se lançou em disparada para o interior da casa.

— Arzan!! — gritou, o desespero que tentara esconder retornando à sua face com maior peso. — Lizva!!!

Empurrou tudo o que encontrou pelo caminho até chegar à sala de jantar/estar improvisada e… paralisou.

A mesa improvisada estava encharcada de sangue, e o pequeno corpo de Arzan estava ali estatelado, com uma grande fenda no peito.

Por um instante, Ravel morreu junto com seu filho; o coração não pulsava mais e os pulmões deixaram de buscar por ar.

Mas alguma coisa trouxe ele de volta, algo que lhe dizia que tinha existiam obrigações por cumprir.

Após a breve morte, sentiu as forças abandonarem seu corpo e caiu de joelhos.

A expressão apavorada naquela pequena face revelava que a morte não tinha sido pacífica.

Será que ele tinha gritado pelo pai até o fim?

Ravel tremia, os dentes se chocavam, os olhos, arregalados, tremulavam tanto quanto seu corpo e lágrimas rolavam sem previsão de paragem.

Será que ele morreu culpando seu pai?

— Arzan… — A voz saiu como um sussurro. Quando o homem se levantou, encaminhou-se até seu filho. — Meu menino… — Tremendo, tomou o filho imóvel em seus braços, manchando-se de sangue. — Me desculpa… me desculpa… me…

Sua face se contorceu com tristeza e, em meio à tremedeira, sua boca se abria e se fechava, como se o homem quisesse falar mais alguma coisa, mas as palavras morressem pelo caminho.

Então, fez tudo o que poderia fazer naquela situação…

—KGHAAAAAAAAA!!!!

Chorou.

O grito foi tão alto que certamente fora escutado por todo aquele vilarejo.

Mas ninguém veio.

A razão?

Gritos como aquele já haviam se tornado recorrentes.

Às vezes eram filhos chorando pelos pais, mortos pela fome.

Às vezes eram pais chorando pelos filhos, mortos pelos agiotas.

Ravel estava sozinho.

Depois de um longo tempo apenas chorando, apertando o cadáver de seu filho num abraço, finalmente conseguiu erguer a cabeça.

No mesmo instante, seus olhos avermelhados arregalaram-se e a morte quase voltou a abraçá-lo.

[Ruínas do Castelo do Conde.]

[Venha sozinho e traga o que é nosso, ou ela passará por algo bem pior.]

Já era noite quando Ravel chegou ao destino indicado na carta.

Era a maior ruína daquele lugar.

Com tudo o que tinha em mãos, entrou apressado até chegar ao que devia ter sido um grande salão um dia.

Os agiotas estavam lá.

Vinte deles.

E sua filha, amarrada por uma grossa corda, estava ao lado daquele que parecia ser o líder do bando.

— Trouxe?

Ravel não respondeu.

Apenas se aproximou até onde lhe foi permitido e despejou as moedas que trazia no chão. Sentia que, se tentasse falar, conseguiria apenas chorar.

O líder olhou para o dinheiro. Então para Ravel.

— Está de brincadeira!?

Quando viu o homem musculoso puxar a corda amarrada em sua filha, obrigando-a a gemer de dor, Ravel tentou se mover para ajudá-la.

Mas não conseguiu fazer nada quando uma faca foi colocada sobre o pescoço dela.

Estava estampado nos olhos arregalados e trêmulos da pequena…

Ela queria gritar.

Queria correr até seu pai.

Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo.

Apenas um pesadelo muito longo.

Mas ela só conseguia fixar o olhar no pai, o corpo tremendo por inteiro.

Estava traumatizada.

Como se alguém tivesse embutido nela a certeza de que qualquer mísera reação seria o mesmo que condenar quem amava.

— Você…!! — Ravel tentou gritar quando uma possibilidade desumana passou pela sua cabeça, mas se aquietou em seguida.

A faca havia sido pressionada com mais força e um fio de sangue escorreu pelo pescoço da menina.

“Ele… ele não seria capaz, seria?” — Ravel queria acreditar que não.

Que tipo de monstro faria uma coisa dessas?

Mas, no fundo, já sabia.

Sua filha provavelmente fora obrigada a presenciar a morte do irmão.

— Isso não é nem um terço do que me deve. — O líder do grupo voltou a falar. Tinha uma cicatriz de queimadura na lateral esquerda do rosto. — Você está mesmo decidido a…

— N-não, por favor!! — gritou Ravel, quando o outro homem ameaçou degolar sua filha ali mesmo. — E-eu juro… juro que pagarei… em breve… mas por favor… a minha filha…

Lágrimas escorriam pelo seu rosto

— Ahhh! Tá, tá! Eu não sou um monstro também, né? Não precisa chorar. — O líder disse aquilo quase como se estivesse fazendo uma gentileza, ao mesmo tempo em que cortava a corda que prendia a criança. — E outra, com o que mais poderei te ameaçar se te tirar ela também?

Ao ver sua filha caída no chão, a pele avermelhada nas regiões onde a corda apertara, o pescador quase não acreditou.

Ela estava viva.

Estava saudável.

— Meu finado chefe sempre dizia: “nunca tire tudo de um homem que te deve; um homem sem nada a perder é mais perigoso que uma horda de Bestas Corrompidas.”

Quando não havia mais cordas prendendo a menina, o líder a empurrou na direção de seu pai.

— Toma. Pode levar a sua filha.

Os olhos do pai até voltaram a brilhar após aquela fala e, como se esquecesse onde estava, conseguiu rir.

Sua filha…

Ao menos tinha conseguido salvar ela.

— O-obrigado… muito obrigado!

A pequena, após ouvir  sentença do homem e ver Ravel sorrir, com o rosto tomado pelas lágrimas, levantou-se e correu até seu pai.

— Papai!

Ravel caiu de joelhos e abriu os braços para recebê-la.

A pequena corria cada vez mais rápido.

— Papai!

— Minha filha… — Seu sorriso cresceu.

Pela primeira vez desde que entrara naquele lugar, Ravel sentiu que talvez ainda existisse alguma coisa pela qual lutar.

Ela se lançou em seus braços e, imediatamente, ele a envolveu e a apertou, como se para o mundo nunca mais arrancá-la dele.

— Vai ficar tudo bem. — Sua voz tremia, alegria e culpa misturados. — Vai ficar tudo…

Parou e seu sorriso desapareceu.

Sentiu alguma coisa contra as costas da menina.

— … bem.

Olhou para baixo, depois para as costas dela.

Uma faca estava cravada ali.

Por alguns segundos, Ravel simplesmente ficou olhando. Seu cérebro não conseguia compreender o que seus olhos estavam vendo.

Quando?

Quem?

Como?

— Você achou mesmo que eu estava falando sério? — A voz do líder o alcançou em seguida. — Já está claro que você não pode mais pagar. Ou seja, é inútil para mim. — Ravel ergueu lentamente os olhos. — Não leve para o pessoal. Esse é só o procedimento.

O líder sorriu, agachados diante do pescador. O corpo da menina teve um breve espasmo, quando a faca foi retirada.

Enquanto balançava a faca ensanguentada, o homem continuou: — Afinal, não quero um homem sem nada a perder vindo atrás de mim.

Ravel ainda não entendia o que estava acontecendo; seu cérebro parecia ter entrado em curto-circuito.

Sua filha, já morta, foi arrancada de seus braços e, quando ele viu, já estava deitado no chão.

Os agiotas espancavam-no; talvez, para eles, o tormento psicológico não tivesse sido suficiente, então queriam causar também dor física a ele

Mas era em vão.

Ele não sentia mais dor.

Seu cérebro simplesmente não processava mais as informações enviadas pelo corpo.

O pescador permaneceu com os olhos bem abertos durante toda a tortura, sempre encarando o cadáver imóvel de sua filha…

Fitando aqueles olhos constantemente abertos que pareciam julgá-lo…

Que pareciam culpá-lo.

E estavam certos.

Era tudo culpa dele.

Ele matou sua esposa.

Ele matou seu filho.

Ele matou sua filha.

Se tivesse escutado sua esposa… se nunca tivesse se endividado… se tivesse trabalhado mais… se tivesse sido um pai melhor…

Foi tudo sua culpa.

Não se sabe quando, mas seus olhos se fecharam.

Ao abri-los, encontrou sua filha jogada ao longe, os olhos ainda abertos e o espanto eternizado em sua face. Tentou se aproximar, mas o corpo não respondia.

Nada se mexia e sequer conseguia gritar.

“O que fazer quando se está desesperado?”

“Hmmm…”

“Vingue-se!”

“Esse é todo o consolo que sobra aos desesperados…”

“Vingança.”

Não se lembrava de quem tinha dito aquilo para ele, mas aquelas palavras inundaram seu ser e, como se por um milagre, seu braço se moveu.

Devagar. Com dificuldade, mas se moveu.

— Eco Silencioso do Fim — Conseguiu dizer, sua voz fraca, quase inaudível. Ao mesmo tempo, usando uma mistura de seu próprio sangue e de seus filhos como tinta, desenhou um círculo e um ponto no centro dele. — Consolo que Sobra aos Desesperados…

Desenhou um par de semicírculos nas laterais do círculo inicial, os menores para dentro e os maiores para fora.

— Juiz das Causas Perdidas — Partiu o círculo ao meio com uma grossa linha vertical. — Protetor Implacável…

Sua mão tremia, mas não o suficiente para fazê-lo desistir.

— A Ideia Crua que o Mundo Vomita — Finalizou com traços horizontais em cada semicírculo maior nas laterais, desenhando algo similar a uma balança distorcida. — Incorruptível Vingança!

Por dois segundos, Ravel ficou em silêncio, não por querer, mas por sentir que era necessário. A atmosfera tornava-se cada vez mais gélida e o ar ficava mais pesado, como se estivesse no fundo do mar.

Sentindo que não tinha mais tempo, cerrou os dentes e continuou: — Ofereço minha carne e sangue…

— Só te suplico…

— Faça-os pagar…

A explosão súbita de energia se esgotou e…

Ravel morreu.

…

…

…

Dois minutos depois…

Seu indicador se mexeu.