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Capítulo 53.1 — 1 Cadáver

A Cavaleira De Preto — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 53.1 — 1 Cadáver

[Vigésimo Primeiro dia, do Quarto mês, do ano Dois Mil Duzentos e Cinquenta e Nove]

A cidade de Tragor era barulhenta.

Não havia um único instante de silêncio. Algo bastante estranho, considerando a localização daquela cidade.

Tragor estava no extremo Nordeste da província de Remis, bem colada ao trecho da Floresta das Bestas que separava as províncias Remis e Movis.

Mercadores gritavam os preços de suas mercadorias, crianças corriam pelas ruas estreitas, carruagens disputavam espaço com carroças carregadas de alimentos e, por entre tudo aquilo, dezenas de vozes se misturavam numa espécie de música caótica que parecia ser própria daquele lugar.

Hiryn caminhava por uma das ruas principais, cercada por construções de pedra esculpida, que só ganhavam cor graças aos tecidos pendurados aqui e ali, que criavam suaves ondas ao soprar do pacífico e fresco vento trazido pelo mar.

Talvez por ser um pequeno trecho longe do centro da grande Floresta das Bestas, as árvores dali, mesmo sendo enormes e visíveis de dentro das imponentes e robustas muralhas de pedra, apresentavam uma coloração esverdeada… um verde bem pálido.

Aquele lugar parecia ter sido uma fortaleza algum dia e, mesmo tendo virado uma cidade, ainda era possível notar as suas raízes: soldados fortemente armados caminhavam no topo das muralhas e pelas ruas, e havia sempre soldados nas oito torres de vigia nas muralhas.

Fora graças àquela muralha que Tragor continuava viva, mesmo após a Grande Inundação causada pelo afundamento das Terras Centrais.

A convivência por ali parecia ser simples e saudável, pelo menos era a impressão que os vários sorrisos em todos os lados deixavam. E, como se fosse uma herança antiga, enquanto cabelos coloridos eram uma raridade nas outras cidades humanas, ali eram vistos em cada esquina.

Se havia pessoas com cabelos escuros, certamente não eram naturais de Tragor.

E, como resultado da adaptação de anos de combates, as roupas das pessoas dali eram feitas de um tecido bem grosso e resistente, algo que eles conseguiam deixar belo e colorido.

Hiryn estava trajada do mesmo jeito: o tecido vermelho de suas vestes parecia ter resultado da sobreposição de, pelo menos, cinco tecidos separados, tornando-se algo mais resistente que qualquer armadura de couro.

Nos pés, calçava simples e leves sandálias, que lhe permitiriam se mover com agilidade em qualquer situação. Nos tornozelos e pulsos, usava adornos similares a diversas argolas douradas unidas, enquanto uma série de anéis metálicos também envolvia seu pescoço. Sobre os ombros, pequenas ombreiras de metal protegiam as regiões mais vulneráveis, sem comprometer seus movimentos.

As pernas estavam cobertas por uma calça larga do mesmo vermelho intenso, parcialmente escondida por uma espécie de saia aberta nas laterais, que descia até pouco acima dos joelhos. Sobre ela, pequenas placas de ferro haviam sido presas umas às outras, formando uma proteção semelhante às escamas de uma criatura. Um largo cinto dourado completava a vestimenta, mantendo tudo no devido lugar.

Nesse dia, Hiryn não usava nenhum capuz, nem mesmo uma camuflagem. Por conta disso, eram muitos os olhares direcionados a ela, afinal, não era comum para os humanos verem uma mulher negra, chifruda e com mais de dois metros de altura andando por aí.

Enquanto isso, a própria Hiryn também “olhava” com estranheza para si própria, os olhos sempre nas órbitas, tentando ver os chifres na sua testa.

Já fazia alguns meses que estava daquele jeito, mas ainda não tinha se acostumado com o fato de seus chifres terem se curvado para trás, com as pontas apontando para os céus. Apenas o pequeno chifre no centro se mantinha inalterado.

— A cada dia que passa, você se torna ainda mais deslumbrante. — Havia um homem caminhando ao lado de Hiryn, mas não qualquer homem. Era um Hyem, mais alto que Hiryn por três cabeças, que trajava uma saia de couro animal e deixava o tronco todo nu. — Dizem que a Deusa do Amor é a mais bela de todas, mas acredito que até ela se ajoelharia diante da formosura de tua beleza.

— Haaaah… — Hiryn suspirou, os olhos fechados. Se ela olhasse só para a aparência, aquele homem, com seu tronco robusto e quatro braços poderosos, o que realçava sua aparência imponente, certamente chamaria a sua atenção, mas não era o caso. — Só para, Sastek. Já disse que isso não vai funcionar comigo.

— E eu estou começando a desconfiar que sim. — Sastek estava com as mãos superiores entrelaçadas sobre a nuca, logo abaixo do seu rabo de cavalo, e as inferiores na cintura. — Afinal, você acha que toda e qualquer investida minha carrega o único objetivo de te levar para cama…

— E não é assim?

— Pior que é, HAHAHAHAHAHA!

Enquanto ouvia a gargalhada estrondosa de seu companheiro de viagem, Hiryn pôde apenas fechar os olhos e balançar a cabeça, sem se importar muito com o fato de ele ter confessado tão rápido.

Ela nunca confessaria, mas gostava daquele jeito espontâneo e verdadeiro do Hyem. O que ela não gostava mesmo era do jeito que ele normalmente era.

Os Hyem eram criaturas mundialmente conhecidas e, com toda a certeza, não era por serem mestres na arte do artesanato. O que criou a fama dos Hyem mesmo era a sua insaciável luxúria.

Claro que aqueles daquela raça sempre buscavam reprimir aquele seu lado, principalmente quando diante de seres de outras raças, mas com Sastek era diferente. Como ele sempre dizia: “Se o criador me fez assim, quem sou eu pra ir contra?”.

Mas Hiryn tinha deixado de dar muita importância àquilo depois de alguns meses viajando com o Hyem, preferindo se focar na razão de ter o homem por perto…

O Olho da Verdade.

Sastek não era um qualquer dentre os seus, afinal, até aquele momento, era o único que tinha conseguido alcançar o segundo Estágio daquela habilidade ocular com um pouco mais de duzentos anos.

Com os olhos daquele Hyem ao seu dispor, Hiryn tinha certeza de que completaria a sua Missão de Maioridade bem mais rápido e, de bônus, não precisaria estar à mercê do Rei do Sangue.

Ela estava esperançosa quanto àquela parceria, confiante de que, quando ela menos esperasse, Sastek apontaria o dedo para uma criança e diria:

“É ela!”

No entanto, também não podia negar que estava nervosa, afinal, era o futuro do mundo que estava em suas mãos… e se as tais crianças da profecia não estivessem em nenhum dos locais que iria visitar? E se, no pior dos casos, ela chegasse tarde demais?

— Vai dar tudo certo… — Escutou repentinamente. A voz grossa e rouca a assustou um pouco. — Não precisa ficar tão nervosa.

Hiryn não disse nada e apenas olhou para o homem, que naquele momento olhava para o alto, as mãos superiores entrelaçadas na nuca, como se não tivesse falado há pouco.

Ela fixou o olhar no homem por longos segundos, sabendo que ele não tinha adquirido aquela informação analisando a linguagem corporal dela… era aquela habilidade.

Certamente, ela era um amontoado humanoide de palavras aos olhos dele e, talvez, a palavra “Nervosa” estivesse destacada ali.

Não que ela soubesse como aquela habilidade funcionava de fato.

— Me fala… — Hiryn piscou os olhos várias vezes, tentando entender como já estava colada ao Hyem. Foi só quando baixou os olhos que viu o braço esquerdo inferior do homem a segurando pela cintura. — De quem foi a ideia dessa coisa de Tratado de Reconhecimento?

— Isso veio do nosso lado, ou del…

— Se você não tirar essa mão, eu juro que corto ela fora! — Hiryn o interrompeu.

Quando o homem olhou para ela, deparou-se com aquele par de trevos, que deviam ser prateados, completamente embebidos em sangue.

Sastek não desviou o olhar de imediato, o que, por um instante, fez aquela cena parecer uma disputa de vontades. Contudo, depois de breves segundos, ele foi quem desistiu, soltando-a e desviando o olhar.

— Você… — Hiryn voltou a piscar algumas vezes e seus trevos voltaram ao tom prateado de sempre.

“Os olhos dele…” — Foi impressão dela, ou uma lágrima de sangue estava caindo dali?

> Essa é a parte chata de ter esses loucos por perto…

A Lihyf e o Hyem imediatamente se viraram em direção ao ombro direito da mulher, onde encontraram uma Água-Viva de sangue flutuando.

> Chega um tempo em que se torna um vício descobrir a verdade… mas acredite, muleque, existem verdades que não foram feitas para ser desenterradas.

Ao ouvir aquelas palavras, Hiryn olhou novamente para Sastek. As escleras dele, normalmente de um branco puro, estavam manchadas com raios vermelhos por toda parte e, naquele momento, ela sabia o porquê.

> Se você voltar a tentar olhar para mim, eu te prometo que te mostrarei toda a verdade que deseja desenterrar.

Sastek não desviou o olhar da criatura em momento nenhum. Não houve nenhuma Expansão de Presença, nem nenhum tipo de pressão exalada pela criatura, e nem precisava.

A ameaça verbal tinha sido o suficiente para o Hyem entender a situação, afinal, os mistérios guardados por uma criatura que andou junto aos deuses certamente não eram algo que um mero mortal suportaria observar.

Depois de alguns segundos de silêncio e solenidade, Sastek desviou o olhar, encontrando os olhos da Lihyf por um segundo, até que simplesmente voltou a olhar para frente, as mãos entrelaçadas sobre a nuca.

— Seu amiguinho é bem esquentadinho, hein — disse ele, sorrindo, enquanto voltava a caminhar. — Tanto murmúrio só por conta de uma espiadela.

Hiryn ficou estática por um segundo, encarando as costas robustas daquele homem negro, que deixava sua cauda balançar em diversão.

> Se ele me chamar de esquentadinho outra vez, vou transformá-lo numa poça de sangue e alimentar-me dele.

Hiryn escutou, mas não prestou muita atenção. Quando o Espírito desapareceu, ela se apressou para alcançar o Hyem.

Já estavam atraindo atenção demasiada dos humanos por perto por ficarem parados por tanto tempo. A cada passo que dava, sentia que o peso em suas costas só aumentava.

Como se já não bastasse ser responsável por uma missão que determinaria o futuro do mundo, agora, graças ao Tratado de Reconhecimento feito entre a humanidade e as outras raças, também era responsável por verificar se as terras humanas eram seguras e se havia alguma chance de existir algum tipo de relação entre ambas as partes.

— Pra onde vamos agora? — Hiryn perguntou, assim que alcançou o companheiro.

— Estou faminto e a ceninha de agora me deixou tenso. Vou ver se consigo provar alguma humana por aí.

— Haaa… — Depois de ver o sorriso maroto do homem, ela só pôde suspirar. — Vou procurar um lugar para passar a noite.

Já estava acostumada com as “escapadas” do homem e, já que ele sempre respondia com “Se você quer que eu fique, sabe o que é preciso”, apenas deixava isso para lá.

Naquele momento, uma carruagem negra, com detalhes em prata, passou pelos dois, puxada por quatro cavalos.

Sastek olhou para o lado naquele instante, o que permitiu que, no segundo em que a cortina vermelha balançou, ele visse o homem que estava lá dentro…

Um homem com uma cicatriz curva que partia do canto da testa, passava pela lateral do nariz e terminava na maçã do rosto.

Frainas Hulir era seu nome, e ele…

…

…

…

Eu me pergunto que tipo de situação tão grave teria acontecido para que eu fosse tirado de Kartumz para aqui.