Capítulo 54.1 — 1 Alma Pura
Capítulo 54.1 — 1 Alma Pura
Capítulo 54.1 — 1 Alma Pura
[Sexto dia, do Sexto mês, do ano Dois Mil Duzentos e Sessenta]
[Sudeste de Remis: Condado Helmet]
Helmet era diferente de todos os outros Condados.
Não havia uma muralha cercando a cidade; pelo contrário, ela estava totalmente desprotegida, com uma simples cerca de tábuas que servia apenas para delimitar o território.
Em contrapartida, o castelo, moradia dos Condes de Helmet, era cercado por uma alta e grossa muralha, posicionada com imponência no topo de uma pequena colina, de onde todos naqueles domínios podiam avistá-lo sem nenhum esforço.
As casas de madeira nos vários “vilarejos” que formavam aquela cidade não tinham identidade alguma, como se tivessem sido construídas com o único intuito de servir como abrigo, sem representar nenhuma cultura específica.
Tirando as vias principais, que conectavam o castelo ao exterior, o restante das ruas parecia nunca ter recebido atenção alguma, sem dimensões constantes, e algumas delas, inevitavelmente, tornavam-se pequenos becos que existiam apenas para separar duas construções.
Ao longe, lá no alto, ouviam-se músicas tocadas com animação, e viam-se as decorações nas muralhas e no castelo que elas protegiam.
Em contraste, os moradores daquele lugar andavam arrastando os pés, sem empolgação alguma, conversando entre si sobre um assunto ou outro, com perceptíveis olhares de inveja, ganância e alguma raiva sempre que erguiam os olhos para a construção na elevação distante.
— Devo dizer… — Sastek comentou, olhando para a cidade ao seu redor, onde não havia sequer um prédio. — Estou realmente surpreso.
— Pensei, de verdade, que situações como esta seriam recorrentes por aqui — continuou, sem se importar em expressar a sua total descrença na humanidade. — Mas parece mesmo que eles estão mudando… bem, pelo menos, alguns estão.
— Pois é. — Hiryn olhava para o castelo distante. — Um gesto que não precisa de explicação: “Somos diferentes”.
— De lá, eles certamente teriam mais tempo para preparar a sua fuga, enquanto os moradores servem de isca — continuou. — Bem condizente com a humanidade que conheço.
A Lihyf sentia que naquele momento estava, finalmente, vendo a verdadeira face da Humanidade.
Já tinha passado por várias outras cidades, vilas e vilarejos humanos, e quase todos, de alguma forma, pareciam perfeitinhos demais para o que ela conhecia daquela raça…
Não que tivesse alguma experiência no assunto referente à humanidade, mas as histórias de seu povo eram sempre claras:
“Nunca confie num sorriso humano… duvide sempre de suas boas ações… todos os humanos são culpados até que se prove o contrário.”
As atrocidades que os humanos cometeram ao longo da história eram algo que não podia ser simplesmente esquecido.
Afinal, por conta daquela raça gananciosa e maldosa, existiam os demônios/Senthys na Dimensão Amarela de Heternidade.
Enquanto para alguns era apenas uma desconfiança de que os humanos acabariam, novamente, por trair as outras raças, para ela era uma certeza.
Mesmo que passassem milhões de anos, a Lihyf acreditava que ainda não seria suficiente para mudar aquela espécie.
— Pois é… crash! — Hiryn estreitou os olhos, tirada de seus devaneios por aquele repentino som crocante.
Com a sobrancelha erguida, olhou para Sastek pelo canto do olho por dois segundos, até virar o rosto por completo em sua direção e se deparar com o companheiro de viagem mastigando um pedaço de pão visivelmente duro e seco.
Permaneceu assim por cerca de dez segundos, em silêncio, até ser notada por ele.
— Quê? — indagou ele, dando outra mordida, produzindo um alto som de crocância e espalhando migalhas pela barba trançada do Hyem.
Quando Hiryn continuou apenas encarando-o mastigar, Sastek se viu na obrigação de falar:
— Nem vem! Você come coisas bem mais estranhas — comentou, mordendo o pão outra vez. — Por que me olha desse jeito, como se eu tivesse cometido um crime, só por estar comendo um pão seco?
— Não é o que você está comendo, Sastek — suspirou. — Não está ouvindo?
— Ouvindo o quê?
— Você mastiga que nem um cavalo, Sastek — continuou, os olhos fitando a mandíbula do homem descer e subir, enquanto os lábios nunca se selavam. — É assim tão complicado manter a boca fechada ao mastigar?
Quando engoliu o que mastigava, Sastek não respondeu de imediato à pergunta de sua companheira. Manteve o olhar no dela por alguns segundos, até parecer ignorar tudo o que ouvira e, lentamente, levar o pão em direção à boca, sem nunca desviá-lo.
Crash!
Sem desviar o olhar do dela, esticou a língua para localizar o pão e deu uma grande mordida.
Crash! Crash! Crash!
Pareceu nunca ter ouvido a reclamação, pois continuou mastigando como sempre mastigava.
— … — Sem palavras, Hiryn estreitou os olhos, como se ameaçasse o homem, mas o corajoso repetiu o gesto imediatamente após engolir o que já tinha na boca. — Haaa… vamos apenas terminar isso e seguir para o próximo lugar.
— Essa é uma ótima ideia — respondeu o homem, dando a última mordida no pão seco e abrindo um sutil sorriso ao notar que ela tinha suspirado para esconder a elevação dos cantos de seus lábios.
Quando a Lihyf começou a se distanciar, Sastek seguiu logo atrás, observando tudo e todos.
— Nem preciso usar meus olhos para dizer que esse lugar é um daqueles que irão para a lista negra.
Hiryn não respondeu ao comentário e continuou caminhando sem nenhum rumo exato. Aquele lugar nunca estivera em sua rota original, mas lá estava ela, tendo que seguir o cronograma estabelecido pelo programa do Tratado de Reconhecimento.
Amava trabalhar pelo seu povo, mas sentia-se cada vez mais sobrecarregada, prestes a desabar a qualquer momento, como se o peso de mil montanhas tivesse sido colocado sobre suas costas.
“Já se passaram quatro anos…”
Eram quatro anos longe de casa, não porque não pudesse voltar, mas porque não se sentiria à vontade se voltasse de mãos vazias.
Seu orgulho não permitia que ela voltasse sem sequer uma pista.
Como as outras olhariam para ela se voltasse daquele jeito? Não a chamariam de incompetente por não ter conseguido, mesmo tendo a ajuda de um Hyem com olhos capazes de desvendar qualquer mistério e, simplesmente, do Espírito mais poderoso que Heternidade já vira?
“Não posso voltar ainda.”
Sentia saudades e ansiava retornar à sua casa, estar entre as suas e retomar a sua vida normal, mas ainda não podia, já que sua honra como Guerreira dependia de sua Missão de Maioridade.
— Alguma coisa por aq… — Suas palavras morreram na boca quando se virou e notou que já fazia algum tempo que Sastek não a seguia.
Ele estava parado, estático a cerca de três metros dela.
“Haaa… não vai me dizer que é uma mulher… de novo.”
Depois de tanto tempo com aquele Hyem, ele havia se tornado, de certo modo, previsível aos olhos dela. Hiryn nem sequer se surpreenderia se ouvisse dele algo como “é uma beleza de paralisar o coração”.
— O que foi desta vez? — perguntou.
Devia admitir que, viajando com Sastek, os seus momentos de frustração muitas vezes têm sido amenizados pelas loucuras dele, mas havia ocasiões em que ela queria dar um soco nele.
“Não que eu me importe com a vida que ele leve.”
— E ele…
— Quê? — Arqueou uma sobrancelha, sem conseguir entender o murmúrio do homem.
— Hiryn… — Sastek ergueu as suas duas mãos direitas e apontou em certa direção. — A criança… — Virou o rosto para ela, revelando os olhos arregalados em choque e o suor que escorria pela face.
Hiryn não entendeu de primeira os murmúrios do Hyem, mas voltou o olhar para a direção apontada assim que viu a expressão dele.
Ao longe, na direção indicada pelo companheiro de viagem, estava um grupo de escravos acompanhados por soldados.
Os mais velhos, com as faces enrugadas pelo pesar, cobriam os olhos e os ouvidos dos mais novos, e alguns também desviavam o olhar.
“O que…?”
Tentando entender o que tinha deixado Sastek naquela condição, procurou melhor por ali, até conseguir, finalmente, ver e ouvir.
Splat!
Splat!
Splat!
No terceiro estalo, ela até se assustou, e seu corpo tremeu de leve. O som soava tão alto, um indício claro da força empregada para balançar aquele chicote.
— Você acha que sou um animal?!!! — Hiryn escutou os berros de um homem, o mesmo que subia e descia a chibata sem cessar, com veias saltando nos braços, no pescoço e até na cabeça careca. — Acha que sou a merda de um animal?!
Baixou o olhar, querendo entender que tipo de ser desgraçado estaria recebendo todo aquele ódio.
— Você está muito ousado esses dias, sua coisa miserável!!!
Hiryn travou.
Era uma criança. Uma criança negra que, pela estatura corporal, não devia ter mais de quatro anos.
— Acha mesmo que eu vou beber a porra desta água morna!!?
“Quê?!”
O carmesim pintou os trevos presos em seus olhos, mas foi só por um instante.
“Isso tudo é só por ele ter trazido água morna?”
O menino, encolhido como um feto no chão, já estava coberto de sangue, que vazava de fendas profundas em sua carne.
Em certos pontos, era possível ver até os ossos.
A Lihyf cerrou os dentes, querendo fazer alguma coisa, mas precisando se conter, pois estava ali por um tratado e, segundo uma de suas cláusulas, não podia interferir nos assuntos daquela raça.
“Espera…!!”
Olhou para o lado, para um Sastek que ainda apontava naquela direção, com os olhos arregalados agora voltados para lá.
Os murmúrios dele ecoaram em sua mente, uma e outra vez, até que fizessem sentido.
“Não…”
Voltou a olhar naquela direção. O chicote ainda subia e descia com força.
— Não…
Lágrimas já rolavam em sua face, que se contorcia pouco a pouco.
— Não…
> Eu te falei, não falei?
A Água-Viva de sangue já flutuava sobre seu ombro direito.
> Eles são mestres na arte de transformar pureza no mais profundo desespero que, cedo ou tarde, se transforma em ódio.
— Sastek… — Sua voz saiu embargada. O choro estava claramente entalado em sua garganta. Ao olhar para o homem, esperava mesmo ouvir que não era o que pensava.
Aquele era o seu maior medo desde que vira o tempo passar tanto: chegar tarde demais.
Sastek não respondeu com palavras ao se virar para ela; aquela expressão de desamparo já dizia tudo.
Sastek já tinha visto muita coisa feia com aqueles olhos.
Não era isso que o incomodava. O que o incomodava era a forma como o olho funcionava de vez em quando: sem que ele quisesse, sem pedir, quando alguma coisa o chamava de verdade. Era como uma pessoa que ouve o próprio nome ao longe e se vira sem pensar.
Ele só queria olhar.
O mundo se dissolveu num amontoado de palavras, algo que ele prontamente ignorou, já que aquela visão lhe era normal. Seus olhos foram atraídos por algo mais chamativo, algo que nunca vira antes, nem mesmo entre os Lihyfs, considerados a raça mais pura de Heternidade.
A maioria das escritas ao redor era cinza, opaca, quase sem brilho algum, com algumas exceções, como as crianças e a própria Hiryn ao lado. Mas o menino…
O garoto negro que continuamente tinha a pele e a carne rasgadas era um amontoado humanoide de palavras destacadas em negrito.
E o mais espantoso nem era o quão destacadas estavam aquelas palavras, mas a falta de uma única palavra cinza.
Era como um oceano que a humanidade nunca descobriu.
Era um monte…
Um monte enorme, denso, desproporcional ao corpo da criança: Gentil. Amoroso. Paciente. Curioso. Atento. Generoso. E muitas outras.
Palavras claras, quase quentes, uma por cima da outra como pães saindo do forno, todas se empurrando para ocupar espaço, todas tentando respirar.
Sastek sorriu sem perceber. Havia anos que não via uma alma tão limpa… tão pura.
Algo que aquele mundo nunca mais experimentaria.
Mas aquela breve alegria se desfez quando a verdade se revelou.
Naquele mesmo dia, aquele menino completava quatro anos.
E então as palavras começaram a tremer e, como se o menino fosse uma folha nas mãos de uma criança, borrões foram surgindo sobre elas.
Não todas de uma vez. Primeiro uma: A moros o , e as bordas dela perderam a nitidez, como se alguém tivesse passado o polegar molhado por cima. Depois G enti l . Depois P acient e . Uma a uma, as palavras boas iam sendo borradas, apagadas aos poucos, e por baixo delas, bem fundo, algo se mexia.
Outras palavras.
Carmesim. Não o vermelho vivo do sangue, mas um tom mais fundo, mais antigo, que parecia ter sido deixado de molho por muito tempo. Elas ainda não tinham forma. Eram só traços: uma curva, um corte, o começo de uma letra que não terminava. Mas estavam ali, desenhando-se por baixo do garoto, lenta e pacientemente, como quem sabe que tem todo o tempo do mundo.
Sastek tremeu.
Tentou parar, mas seus olhos insistiram em ver mais, mesmo quando seus instintos gritavam para que não o fizesse.
— Cof !! Cof! Cof!
Quando deu por si, estava de joelhos e sentia algo escorrer pela face.
— Sastek! — Ouviu a voz de Hiryn, mas, antes de se virar para ela, viu o que lhe escorria pelo rosto pingar no chão. Era denso e escarlate. Era sangue. — Você está bem?
— Aquela criança! — O suor lhe escorria pelo rosto bem mais que antes, e seu corpo todo tremia. — Precisamos tirá-la das mãos deles…
— Tem algo… — continuou. — Tem algo corrompendo-o.