Capítulo 08 — 1 Atração Para Os Olhos (3/4)
Capítulo 08 — 1 Atração Para Os Olhos (3/4)
— Mnm… — Vaiola sentiu a consciência retornar ao corpo após o que pareceu uma eternidade mergulhada na escuridão. — Hmmm… — Seus olhos se abriram lentamente, e a primeira visão que teve foram as largas costas onde estava apoiada. — P-pai?
— Huh? Vaiola? — Glamich sorriu de imediato, o brilho da esperança retornando ao seu olhar cansado. — Você acordou, filha. Finalmente.
Ele agachou-se no mesmo instante para pousar a menina no chão. Virou-se e envolveu-a num abraço apertado, antes de começar a analisá-la minuciosamente. Seus dedos trêmulos apalpavam os braços e ombros da pequena, movidos por uma preocupação latente.
— Você está bem? Está sentindo alguma coisa? Quebrou algum osso? Seus olhos, como estão? Sente alguma dor agora? — As perguntas saíam em disparada, tão aceleradas que pareciam gravadas em velocidade triplicada.
— Hahaha!! — Ela soltou uma risada cristalina, e o som relaxou o semblante do pai na mesma hora. — Eu nem consegui entender metade do que você perguntou, pai. Mas eu estou bem, juro.
— Mesmo? Tem certeza de que não há nenhum incômodo? Nada te machucando?
— Tenho, pai! — confirmou ela, mas seus olhos acabaram baixando para o próprio ombro. — Huh?!
O ferimento que antes era uma fonte de agonia excruciante já não doía. Para sua surpresa, a pele apresentava uma cicatrização avançada. Quanto tempo teria se passado desde o ataque no mar?
— Passamos pelo mercado logo após o… incidente — explicou Glamich, notando o espanto da filha.
— Passamos? A gente correu tanto que aquilo pode ser considerado teletransporte, isso sim — brincou Tirius, massageando as próprias coxas exaustas.
Só então Vaiola notou os dois auxiliares parados logo atrás. Tirius e Ferin carregavam uma grande sacola improvisada, feita de vários sacos de estopa cosidos uns aos outros.
— Isso não vem ao caso agora — cortou Glamich, tentando manter o foco. — O importante é que conseguimos um bom preparado medicinal por lá. Felizmente, não demorou a fazer efeito.
— Nos custou 1 Linn. Foi praticamente um roubo — reclamou Tirius, inconformado. — O vendedor ia se ver comigo se não tivesse um efeito tão rápido.
— Realmente — concordou Ferin. — Em condições normais, um frasco pequeno daquele preparado não vale mais de 7 Centavos. Se não fosse pela urgência da situação, jamais teríamos aceitado aquele preço. Aquele mercador nem sequer era das Terras Centrais.
Nas províncias que compunham o Império Humano, o sistema monetário baseava-se em três designações principais, cada uma com o seu valor e material específico.
Havia os Centavos, moedas de cobre onipresentes no cotidiano. Circulavam em versões pequenas de 1 Centavo e unidades maiores de 5 Centavos. Acima deles, vinham os Linns, notas de um papel branco-prateado muito resistente. Existiam as cédulas de 1, 5 e 10 Linns. Na cotação local, cada Linn equivalia a exatos 15 Centavos.
No topo da hierarquia econômica estavam os Vells. Estas notas eram de um tom verde vibrante e representavam a verdadeira riqueza. As denominações variavam entre 1, 5, 10 e até 50 Vells. Cada Vell equivalia a 25 Linns, uma quantia considerável para qualquer trabalhador comum.
Embora as Terras Centrais não fizessem parte oficial do Império Humano, a região era habitada majoritariamente por humanos, o que tornava o uso das moedas imperiais a norma comercial absoluta.
Vaiola observou a conversa dos mais velhos evoluir para um debate acalorado sobre a inflação e o preço dos suprimentos básicos naquelas paragens. Ela apenas sorriu, sentindo o calor do sol na pele.
— Obrigada, pai. — Seus olhos irradiavam uma gratidão sincera.
Glamich fixou o olhar no rosto da filha. A imagem dela derramando lágrimas de sangue e desmaiando após a derrota do monstro marinho ainda o assombrava. Ela estaria realmente recuperada?
— Você não precisa me agradecer… mas tem certeza absoluta de que não sente nada estranho?
— Eu sou uma Hermis, pai — respondeu ela com naturalidade. Glamich arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Sua filha era, de fato, uma Hermis; um “monstro”, tal qual da mãe. Ele já deveria ter se acostumado àquela natureza extraordinária.
Contudo, a lembrança da dor dela no barco ainda pesava.
— Eu devia… — Glamich baixou o rosto, as sobrancelhas caídas e o coração subitamente preenchido por uma culpa amarga por não ter podido evitar o sofrimento da menina.
— Heh Heh! A mamãe vai ficar louca — alertou Vaiola, percebendo o tom melancólico do pai. Ela não queria deixá-lo mergulhar em remorsos. Seus pequenos dedos deslizaram pela cicatriz no ombro, descascando levemente a pele queimada que agora tinha uma textura endurecida.
— Ah, é mesmo! — Glamich levantou a cabeça, despertado do transe. Tinha se esquecido por um momento do temperamento da esposa. — A Lavina vai me matar por ter deixado isso acontecer.
— Claro que não, pai. — Ela sorriu com ainda mais vivacidade. — A mamãe vai te encher de beijos, isso sim. Já esqueceu de como ela falava com orgulho da sua primeira “marca de batalha”?
— Ah! — A ficha finalmente caiu para o pescador. — Você tem razão. Sabe, por um breve momento, cheguei a pensar que estava casado com uma mulher normal.
— Hahahahahaha! — Ambos caíram na gargalhada, recordando a frase icônica que Lavina repetia como um mantra: “Você só pode dizer que está vivo depois de enfrentar o mundo e sair vitorioso, levando consigo uma medalha, uma cicatriz”. Por vezes, ela olhava para a filha e dizia: “Você só vai entender o verdadeiro valor de estar viva depois que ganhar a sua primeira marca, pequena”, sempre que Vaiola questionava o porquê de a mãe valorizar tanto aqueles vestígios de ferimentos passados.
— Já faz tempo que a mamãe vem querendo que eu ganhe uma cicatriz. — Vaiola acrescentou, seus dedos ainda acarinhando a cicatriz ali deixada. — Ela tinha razão, é realmente incrível ter uma.
— Por que você tem de ser tão parecida com ela? — Glamich balançou a cabeça, fechando os olhos com um suspiro conformado. — É, pelo visto, sou o único normal nesta família.
O grupo retomou a jornada logo depois. Glamich tentara, sem sucesso, convencer a filha a seguir o trajeto em suas costas, mas foi prontamente derrotado pelos argumentos da pequena. Vaiola insistiu que o exercício ajudaria o corpo a recuperar-se de forma definitiva, fortalecendo a nova pele que surgia sob a marca.
Enquanto caminhavam, o pai explicou que o destino não era a casa deles, mas sim o extremo norte das Terras Centrais. Eles precisavam entregar a encomenda mencionada por Amália. O que Tirius e Ferin carregavam com tanto esforço eram os corpos dos dois Barbatanas Douradas que os atacaram no oceano. Caçar aquelas Bestas Mágicas nunca estivera nos planos originais, tanto que o barco “Borboleta” jamais se aproximaria do habitat natural delas por vontade própria, mas, já que o destino as colocara no caminho, eles não desperdiçariam tamanha fonte de lucro.
O grupo caminhou por cerca de quatro horas e meia. Glamich revezava-se com os jovens para ajudar com o peso da sacola, cruzando um terreno difícil. Finalmente, avistaram ao longe a névoa escarlate que cobria o oceano a noroeste. Era uma bruma densa e inquietante, responsável pelo nome dado ao oceano daquela região: o Oceano Escarlate.
Avançaram mais um pouco por um solo peculiar, composto por terra vermelha que lembrava lama endurecida pelo tempo, entremeada por rochas de coloração negra e sanguínea.
Não precisaram caminhar muito mais para avistar, recortadas contra o horizonte enevoado, duas figuras imponentes com pouco mais de dois metros de altura.