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Capítulo 3: A Aproximação do Verão e o Presságio de uma Batalha Feroz

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Capítulo 3: A Aproximação do Verão e o Presságio de uma Batalha Feroz

JUNHO já estava quase na metade. Desde o exame especial realizado no fim de abril, não houve nenhum outro novo, e basicamente havíamos retornado à nossa rotina normal na escola. Também não havia qualquer sinal de que o aluno da Sala Branca encarregado de me perseguir estivesse fazendo algum movimento.

O único inconveniente que enfrentei foi a visita de Amasawa, mas não existia nenhum perigo iminente de expulsão. Ainda assim, parecia que aquele incidente havia deixado uma marca profunda em mim e em Kei, considerando que, mesmo agora, continuávamos evitando tentar nos beijar novamente. Mesmo quando o clima entre nós ficava bastante favorável, era como se existisse uma parede invisível nos separando.

Embora eu quisesse derrubar essa barreira e seguir em frente, provavelmente não havia necessidade de apressar as coisas. Com o tempo, Kei deveria conseguir ultrapassar essa parede sozinha e avançar naturalmente para o próximo passo. Talvez isso fosse até mais eficaz, no sentido de ajudá-la a amadurecer emocional e mentalmente.

O verão se aproximava constantemente.

Ao mesmo tempo, eu estava vivendo uma rotina diária quase boa demais para um estudante do ensino médio. A temperatura lá fora começava a subir lentamente, como em todos os anos anteriores. Nos dias mais ensolarados, os termômetros já alcançavam trinta graus.

Estávamos realmente naquela fase de transição entre a primavera e o verão.

Depois de passar tanto tempo vivendo essa vida estudantil despreocupada, comecei a notar certos assuntos que surgiam frequentemente nas conversas das pessoas. Um deles parecia trivial: qual era sua estação favorita do ano?

No entanto, o tema acabava se revelando surpreendentemente profundo e interessante. Até mesmo pessoas que cresceram no mesmo lugar e tiveram a mesma criação davam respostas completamente diferentes para essa pergunta.

Eu já havia experimentado as quatro estações naquela escola e estava ansioso pela chegada do calor novamente. Agora que pensei nisso, percebi que o verão era minha estação favorita. Talvez fosse por isso que o céu azul daquela época do ano parecesse tão bonito e deslumbrante.

— Bom dia, Ayanokoji-senpai.

Enquanto caminhava olhando para o céu azul brilhante, ouvi uma voz vindo da minha frente. Era Nanase Tsubasa, aluna da Classe 1-D. Ela parecia estar indo para a aula sozinha, já que não havia nenhum amigo por perto.

— Ah, bom dia — respondi.

Considerando que ela estava andando à minha frente, provavelmente apenas se virou por acaso e me viu. Ou então tinha algum assunto comigo e estava esperando por essa oportunidade.

— Tem alguma coisa no céu? — perguntou ela.

O motivo de eu não ter percebido Nanase era porque estava concentrado olhando para o céu. Ela devia estar me observando havia algum tempo para notar aquilo.

— Nada. Eu só estava olhando o céu.

— O céu?

Agora ao meu lado, Nanase também ergueu o olhar para cima, imitando-me. Hoje o céu estava completamente azul, sem uma única nuvem.

— O tempo está ótimo hoje, não é? — comentou Nanase.

— É. E já faz um tempo, aliás.

Apesar de nos cruzarmos ocasionalmente pelos corredores, fazia bastante tempo desde a última vez que realmente conversamos assim.

— Sim. Já deve fazer cerca de um mês e meio desde a última vez que falamos — respondeu Nanase.

Nanase havia colaborado com Housen no plano para me expulsar da escola. Portanto, não seria surpresa se, assim como Amasawa, ela se sentisse desconfortável em se aproximar de mim normalmente.

— Tenho a sensação de que fiz algo realmente terrível com você, Ayanokoji-senpai — disse Nanase, ainda olhando para o céu.

Aparentemente, aquilo pesava mais em sua consciência do que eu imaginava.

— Você me odeia? — perguntou ela.

— Não tenho realmente um motivo para isso. Aquilo fazia parte de um exame especial, certo? Então não há muito o que discutir. Além disso, eu vi você tentando me proteger.

Embora Nanase tivesse participado do plano de Housen, no fim ela correu para me defender sem se importar com o perigo. Lembrei-me dela enfrentando Housen quando ele estava particularmente agressivo.

— Aquele exame especial já terminou? Não ouvi nada sobre um prazo final — perguntei.

— Não, ainda está em andamento. O prazo só termina no início do segundo semestre — respondeu Nanase.

Então, pelo visto, aquelo exame especial ainda continuaria por bastante tempo. No entanto, se esse fosse o caso, eu achava estranho o fato de Nanase e Housen terem permanecido em silêncio por quase um mês e meio.

— Você não acha estranho o fato de eu não ter tentado entrar em contato com você? — perguntou Nanase.

— Seria mentira dizer que isso não me preocupa. Fico pensando se vocês não estão tramando alguma coisa nos bastidores.

— Considerando o que aconteceu da última vez, fiquei convencida de que, mesmo que elaborássemos um novo plano, ele não funcionaria tão facilmente. Além disso, agora que você conhece nosso objetivo, Ayanokoji-senpai, ficou extremamente difícil encurralá-lo no cotidiano da escola — explicou Nanase.

— Então vocês estão esperando por outro exame especial envolvendo várias séries, é isso? E quanto aos outros alunos do seu ano?

— Não tenho certeza absoluta, mas acho que eles já sabem que Housen-kun fez sua jogada.

— Então, depois da falha do Housen, vocês decidiram que não podem agir de forma imprudente? Acho que esse é um dos poucos benefícios do meu ferimento.

— Não sei se valeu a pena sacrificar sua mão esquerda por isso — respondeu Nanase.

Entre todos os alunos do primeiro ano, Housen Kazuomi era alguém que chamava atenção, para o bem ou para o mal. O fato de ele ter sido o primeiro a agir talvez tenha sido, de certa forma, uma sorte.

A questão era: quem sabia sobre esse exame especial secreto?

Seria fácil simplesmente perguntar isso diretamente para Nanase, mas… Tentei encará-la algumas vezes, porém ela desviava o olhar toda vez. Então desisti e voltei a olhar para frente.

Mesmo que eu perguntasse, não era como se Nanase fosse responder. Os alunos das outras três turmas ainda permaneciam escondidos para que eu não descobrisse suas identidades. Eu tinha certeza de que Nanase não os entregaria, para manter a imparcialidade.

A única coisa que ela fez foi me informar sobre a existência desse exame especial, compensando assim a desvantagem da Classe 1-D.

— Agradeço sinceramente pela sua compreensão — disse Nanase, como se tivesse entendido exatamente o que eu estava pensando após meu silêncio prolongado.

Como já estávamos indo para a sala de aula de qualquer maneira, resolvi mudar completamente de assunto.

— Parece que você já se acostumou totalmente à vida nessa escola.

Pelo jeito como agia, dava para perceber que ela já havia perdido a inocência que tinha quando chegou, misturando-se naturalmente ao restante dos alunos.

— Sim. Acho que os alunos da minha turma, inclusive eu, estão começando a lidar melhor com as circunstâncias especiais desta escola. Não sei o quanto os veteranos sabem sobre isso, mas nós, do primeiro ano, tivemos nosso segundo exame especial no final de maio — contou Nanase.

Assim como nós, do segundo ano, tínhamos nossas próprias batalhas, os alunos do primeiro ano também enfrentavam as deles.

— Não recebi essa informação diretamente de ninguém, mas ouvi dizer que um aluno foi expulso — disse Nanase.

Nós, do segundo ano, também tínhamos ouvido falar disso. Um estudante havia sido expulso no último exame especial do primeiro ano.

— Então você também ficou sabendo. Como eu imaginava. O expulso foi um garoto da Classe 1-C — continuou Nanase.

Descobrimos isso porque o nome de um aluno desapareceu da lista no OAA. Ele tinha nota A em desempenho acadêmico, então provavelmente sofreu algum tipo de penalidade.

— Sempre surgem rumores quando acontece uma expulsão.

— Amigos que estavam rindo juntos no dia anterior simplesmente desaparecem nesta escola. É cruel. Isso me fez perceber mais uma vez que preciso viver aqui sem deixar arrependimentos — disse Nanase.

Embora sua turma pudesse enxergar o problema dos outros como algo distante, ninguém sabia quando chegaria a vez deles enfrentarem algo semelhante. Era especialmente importante manter esse senso de alerta, como Nanase fazia. Ainda assim, eu não sabia nada sobre a situação dos Pontos de Classe das outras séries.

Ou seja, não tinha nenhuma informação sobre quem estava vencendo ou perdendo.

— E quais foram os resultados da sua turma nos exames especiais? — perguntei.

— Infelizmente, não fomos muito bem. Ficamos em último lugar na prova anterior e em terceiro nesta. Porém, dessa vez a disputa entre nós, a Classe A e a Classe B foi extremamente equilibrada, então a diferença de Pontos de Classe é bem pequena — respondeu Nanase.

Parecia que Nanase acreditava que sua turma tinha capacidade suficiente para não ficar para trás em relação às Classes A e B — talvez até competir de igual para igual com elas.

Por outro lado, a Classe C afundou na classificação, provavelmente porque um aluno deles acabou expulso.

— Então o Housen anda mais calmo ultimamente? Ou…

— Eu estaria mentindo se dissesse que ele não continua apresentando comportamentos problemáticos. Porém, ele não esteve envolvido nesse recente caso de expulsão. Isso porque parece estar completamente obcecado por você, Ayanokoji-senpai.

Nanase, que passou um bom tempo olhando para o céu, virou-se diretamente para mim pela primeira vez desde o início da conversa, exibindo um sorriso irônico.

— Embora seja fácil dizer isso agora, olhando em retrospecto… acho que Housen-kun acabou se acalmando um pouco graças a você, Ayanokoji-senpai. Tenho a impressão de que as emoções intensas que ele antes direcionava apenas aos alunos do nosso ano agora também estão voltadas para os veteranos.

Ela deu uma pequena pausa antes de continuar:

— Ultimamente ele vive dizendo coisas como: "Quero cair na porrada com os alunos do segundo ano logo!" E, sinceramente… isso me deixa aliviada.

Bem… Acho que isso realmente era uma boa notícia para os alunos do primeiro ano.

Às vezes eu cruzava com Housen pelos corredores — sua figura grande e chamativa era impossível de ignorar — e, se me lembrava corretamente, o olhar que ele me lançava parecia dizer algo como: "Anda logo. Tô esperando."

— Mais cedo ou mais tarde, talvez chegue o dia em que teremos que enfrentar sua série — respondi.

Até agora, havíamos cooperado apenas uma vez. Mas, se as políticas de Nagumo continuassem sendo apoiadas pela escola, o dia em que acabaríamos competindo uns contra os outros não estava tão distante assim.

— Pretendo viver minha vida nesta escola sem arrependimentos — disse Nanase.

— Isso é bom.

Assim como ela havia comentado antes, um amigo que estava rindo ao seu lado hoje poderia simplesmente desaparecer amanhã. Essa era exatamente o tipo de escola em que estávamos.

Por isso precisávamos valorizar cada dia que passava e não tratar nada como garantido. Porque, uma vez passado, aquele dia jamais voltaria. Ele se tornaria apenas parte do passado.

— Ayanokoji-senpai… você também deveria viver sua vida nesta escola sem arrependimentos — disse Nanase.

Ela falou de uma forma que fazia parecer que meus dias naquela escola estavam contados. E havia algum tipo de convicção poderosa em seu olhar enquanto me encarava.

— Claro. Vou me certificar de não deixar nenhum arrependimento para trás — respondi.

Depois de ouvir minha resposta, Nanase assentiu, aparentemente satisfeita.

— Bem, então, com licença.

Ela fez uma reverência e seguiu seu próprio caminho quando já estávamos próximos do prédio da escola.

*

Considerando que os alunos do primeiro ano tiveram seu segundo exame especial no final de maio, não seria estranho se um novo exame especial para nós, do segundo ano, fosse anunciado a qualquer momento.

Já estava na hora de nos prepararmos para isso. Então, como se estivesse testando nossa determinação, a habitual aula matinal começou.

— Parece que todos estão presentes. Muito bem.

Depois de terminar a chamada, Chabashira-sensei começou a mexer em seu tablet, provavelmente para projetar algo no monitor. Pouco depois, ela terminou o que estava fazendo e a tela ficou completamente branca.

No mesmo instante, todos os alunos ergueram o olhar para ela.

— Já estamos juntos há bastante tempo. Então imagino que vocês provavelmente já tenham uma ideia do que isso significa — disse Chabashira.

Um novo exame especial estava prestes a começar. Embora todos claramente tivessem algo que queriam dizer, permaneceram em silêncio, esperando o anúncio de Chabashira.

Após alguns instantes de silêncio, ela soltou uma leve risada enquanto observava os olhares concentrados da turma.

— Sim, certamente vamos falar sobre um exame especial. Porém, vou deixar vocês em suspense por mais um pouco. Falaremos disso depois. Primeiro, vou conversar com vocês sobre as férias de verão — disse Chabashira, baixando os olhos para o tablet.

Uma imagem apareceu no monitor. Primeiro, a foto de um luxuoso navio de cruzeiro. E nossa turma certamente tinha lembranças de um navio semelhante.

— Agora, vou começar explicando um pouco sobre como serão estas férias de verão — disse Chabashira.

Os alunos trocaram olhares por um instante, seus rostos demonstrando a alegria provocada pelas doces palavras que acabavam de sair da boca de Chabashira. No entanto, a combinação das palavras "navio" e "férias" acabou trazendo à tona memórias bem diferentes, profundamente gravadas em todos nós. Essas lembranças nos fizeram perceber que não havia a menor chance de esta escola permitir que desfrutássemos de uma fantasia tão agradável.

Enquanto éramos lembrados disso, a imagem no monitor mudou de uma vista externa do navio para imagens do interior. O roteiro de viagem também foi exibido logo em seguida.

— Do dia 4 ao dia 11 de agosto, vocês poderão aproveitar suas férias de verão livremente e ao máximo neste luxuoso navio de cruzeiro. Serão oito dias e sete noites no total. Vocês poderão assistir a peças, desfrutar de refeições deliciosas e, além disso, não haverá nada sequer parecido com um exame especial acontecendo durante o cruzeiro — explicou Chabashira.

Em outras palavras, estavam nos prometendo férias verdadeiras e genuínas por cerca de uma semana inteira. Até os alunos mais desconfiados relaxaram um pouco ao ouvir aquilo. No entanto, esse breve alívio desapareceu assim que a imagem na tela sumiu. Foi quase como se tivessem despejado veneno diretamente em nossos olhos.

— Contudo, para aproveitarem plenamente esse cruzeiro, vocês precisarão concluir com sucesso o próximo exame especial — declarou Chabashira.

Após aqueles breves momentos de felicidade quase ilusória, meus colegas foram imediatamente puxados de volta à realidade. Normalmente, criar expectativas nos alunos apenas para destruí-las logo em seguida causaria uma enorme decepção. Porém, todos mudaram instantaneamente de postura, assumindo uma atitude que deixava claro que estavam prontos para aceitar a batalha que viria.

— Parece que vocês realmente aprenderam — comentou Chabashira, exibindo um sorriso satisfeito, como se admirasse nossa reação.

Não era como se ela tivesse mencionado primeiro a parte das férias apenas por maldade. Provavelmente queria provar que, apesar de ainda sermos a Classe D, já éramos diferentes de um ano atrás. Depois de todas as dificuldades que enfrentamos, aprendemos a nos preparar mentalmente e a manter o foco.

A primeira pessoa a fazer uma pergunta foi Horikita, sentada exatamente no centro da sala.

— Quando esse exame especial vai começar?

— Normalmente, quando fazemos esse tipo de anúncio, a prova começa no mesmo dia ou no seguinte. Infelizmente, desta vez ainda falta algum tempo. O próximo exame especial acontecerá durante as férias de verão — respondeu Chabashira.

Então a escola realizaria a prova durante as férias, depois do fim do primeiro semestre? Nesse caso, o que me intrigava era o fato de parecer cedo demais para os professores estarem explicando as regras agora. Qual era o objetivo daquele anúncio, se ainda faltava mais de um mês para o exame?

De qualquer forma, gostássemos ou não, havia um exame especial específico que imediatamente veio à mente de todos os alunos ao ouvir aquilo. E, como se tivesse percebido exatamente no que estávamos pensando, Chabashira falou outra vez, transformando nossos pensamentos em realidade.

— Vocês participarão novamente de um teste de "Sobrevivência em Ilha Deserta" e competirão uns contra os outros.

o exame especial de sobrevivência em uma ilha deserta. A batalha entre as classes realizada durante as férias de verão do nosso primeiro ano estava profundamente gravada em nossas memórias. Naquela prova, cada classe competia usando uma quantidade limitada de Pontos de Classe. Além disso, havia regras adicionais, como tentar descobrir quem era o líder de cada turma e ganhar pontos ocupando áreas específicas.

— Então vamos ter que fazer aquilo de novo este ano… — murmurou Keisei, provavelmente se lembrando do que havia acontecido naquela ocasião.

Ele normalmente escutaria toda a explicação em silêncio, mas talvez tivesse falado porque nossa classe enfrentou grandes dificuldades naquela época, incluindo conflitos intensos entre os garotos e as garotas.

— Tenho certeza de que todos vocês estão se lembrando da prova de sobrevivência na ilha deserta que fizeram no ano passado. No entanto, a prova deste ano será diferente. Ela será mais rigorosa e mais exaustiva do que qualquer outro exame especial até agora. Claro, a quantidade de Pontos de Classe e Pontos Privados que vocês poderão ganhar também será significativa — explicou Chabashira.

No ano passado, tínhamos liberdade para lutar da maneira que quiséssemos naquela prova. Quem estivesse realmente decidido a vencer precisava economizar recursos, mas quem aceitasse abrir mão da vitória podia passar o tempo relativamente à vontade. Era esse tipo de exame. Não havia punições severas como expulsão, desde que ninguém violasse regras importantes.

Ela havia dito que esta prova seria mais rigorosa e desgastante, mas quais mudanças seriam implementadas em relação ao ano anterior? No entanto, eu nem precisei me preocupar em procurar uma resposta, porque Chabashira parecia disposta a explicar tudo imediatamente.

— Vamos começar analisando o cronograma. Vocês poderão baixá-lo em seus dispositivos depois e analisá-lo com calma, então não há necessidade de anotarem nada agora — disse Chabashira.

Como havia prometido, ela exibiu o cronograma do exame especial, e o monitor voltou a se iluminar.

19 de julho: Reunião no campo esportivo. Saída de ônibus. Embarque no cruzeiro no porto. Partida.

20 de julho: Início do exame especial. Explicação das regras, distribuição de suprimentos etc.

3 de agosto: Encerramento do exame especial. Divulgação do ranking a bordo do cruzeiro. Entrega das recompensas.

Os Pontos Privados referentes ao mês de agosto serão distribuídos após a aplicação dos resultados do exame especial da ilha deserta.

4 de agosto: Início do período livre no cruzeiro.

11 de agosto: Chegada ao porto. Retorno ao campus. Encerramento.

A cerimônia de encerramento do primeiro semestre aconteceria na sexta-feira, dia dezesseis. Estava programado que partiríamos três dias depois. Além disso, pelo cronograma, dava para perceber que a duração desta prova seria o dobro da anterior: duas semanas inteiras.

— Sensei, olhando esse cronograma… nossas férias de verão não vão ficar muito mais curtas? — perguntou Nishimura, lançando sua dúvida como uma flecha.

As férias de verão normalmente duravam cerca de quarenta dias, mas, mesmo contando os dias livres passados relaxando no cruzeiro como parte das férias, ainda assim teríamos apenas cerca de vinte e quatro dias. Não era surpresa que os alunos estivessem insatisfeitos.

— Infelizmente, não haverá compensação pelo tempo perdido. O fato é que as férias de verão deste ano serão definitivamente mais curtas. É assim que as coisas são — disse Chabashira.

A escola havia parado a flecha lançada por Nishimura no ar sem dificuldade. Vaias ocasionais eram inevitáveis. Para muitos estudantes, dias de folga eram mais valiosos do que dias passados estudando na escola.

— Por outro lado, pensem pelo lado positivo. Vocês passarão uma semana em um cruzeiro de luxo. Dependendo da forma como enxergarem isso, essa semana no navio pode acabar sendo mais valiosa do que as duas semanas comuns que vocês perderão. E, como eu já disse antes, poderão aproveitar esse período puramente como férias — continuou Chabashira.

Parecia que Chabashira estava tentando nos incentivar a aceitar a situação. No ano anterior também havíamos viajado em um cruzeiro, mas tivemos pouquíssimo tempo para realmente aproveitá-lo. Depois do exame de sobrevivência na ilha deserta, fomos imediatamente jogados no exame do zodíaco.

Para os alunos que viviam confinados no campus, o mundo exterior era algo novo e empolgante. E, mesmo estando a bordo de um navio, ainda assim seria uma experiência diferente da nossa rotina habitual. Talvez pudesse acabar sendo as melhores férias de verão de nossas vidas.

Até os alunos que reclamavam pareciam relativamente satisfeitos agora. Afinal, se você não aceitasse a situação, não conseguiria seguir em frente. Além disso, diferente do ano anterior, todos já tinham recuperado uma certa quantidade de Pontos Privados, então não parecia que sofreríamos por falta de dinheiro durante o cruzeiro. Isso provavelmente também ajudava a aliviar o estresse dos alunos.

— Agora, vamos ao assunto principal. Esta prova é semelhante ao exame de sobrevivência na ilha deserta que vocês fizeram no ano passado, mas a maior diferença desta vez está na escala. Além de o período da prova durar duas semanas inteiras, a ilha utilizada será maior do que a anterior — explicou Chabashira.

No monitor apareceu a imagem de uma ilha deserta em meio ao oceano. As fotografias pareciam ter sido tiradas do alto.

— E, desta vez, não serão apenas alunos do mesmo ano competindo entre si. Estudantes de todos os anos participarão da competição.

Ou seja, a escala da disputa seria muito maior em vários aspectos.

— Portanto, o número de oponentes que vocês terão de enfrentar também será maior do que nunca — acrescentou Chabashira.

Aquilo foi inesperado. O teste de sobrevivência envolveria todos os anos da escola e, além disso, os alunos não enfrentariam apenas adversários da própria série. Essa parte em especial pegou todos de surpresa.

— Então, espera aí… Isso não significa que os alunos do primeiro ano estarão em grande desvantagem, enquanto os do terceiro ano terão vantagem? — perguntou Hirata, um aluno que detestava desigualdade.

Se fosse um exame em que formaríamos equipes com alunos de outros anos, então todos estariam em condições iguais. Mas não parecia ser esse o caso desta vez. Sendo assim, a diferença de capacidade física e experiência causada pela idade criaria uma desvantagem considerável.

— Entendo o que você quer dizer, mas vou adiantar uma coisa: nenhuma prova será cem por cento justa. Mesmo considerando apenas vocês, alunos do segundo ano, existe quase um ano de diferença entre quem nasceu em abril e quem nasceu em março do ano seguinte, e ainda assim todos competem no mesmo palco, não é? — respondeu Chabashira.

Em outras palavras, isso significava que, em certos casos, alunos de séries separadas por apenas um ano poderiam ter quase dois anos completos de diferença de idade. Era uma desvantagem relevante.

— Se um aluno do primeiro ano vier pedir conselhos a vocês, cabe a vocês, como senpais, oferecer algum tipo de resposta. Contudo, o conteúdo da resposta depende inteiramente de vocês. Da mesma forma, vocês também podem pedir a opinião de alunos do terceiro ano — explicou Chabashira.

Então, embora não houvesse problema em conversar livremente ou trocar informações quando necessário, isso basicamente equivaleria a ajudar o inimigo.

— Haverá uma pequena compensação baseada no ano escolar, mas, no geral, todos estarão competindo em condições equivalentes. Então, como compensaremos a diferença entre as séries? Simples: quanto menor o ano do aluno, maiores serão as recompensas e menores serão as penalidades que ele terá de enfrentar — disse Chabashira.

O que, por consequência, significava que quanto mais avançada fosse sua série, menores seriam as recompensas e mais severas seriam as punições. A estrutura parecia um pouco semelhante o exame especial realizado em abril, aquele em que precisávamos encontrar parceiros. Naquele exame, as disputas eram as mesmas para todos, mas os alunos do segundo ano enfrentavam risco de expulsão, enquanto os do primeiro ano sofriam apenas alterações na quantidade de Pontos Privados recebidos. Era uma diferença enorme.

— Enfim, levando tudo isso em consideração, vamos continuar. Agora vou explicar parte das novas regras do exame de sobrevivência na ilha deserta — anunciou Chabashira.

A palavra "parte" fez os alunos trocarem olhares.

— Isso significa que nem todas as regras serão reveladas hoje — acrescentou ela.

Chabashira pediu que ouvíssemos a explicação em silêncio e então exibiu uma nova imagem no monitor. Erguemos os olhos para a tela, onde a palavra "grupo" se destacava de forma evidente.

— Para que vocês compreendam as regras da batalha de sobrevivência na ilha deserta, precisamos começar pelas regras referentes à formação de grupos — disse Chabashira.

Parecia que a fase preparatória deste exame especial seria muito mais longa do que qualquer outra que já tivemos. Isso também sugeria o quão intensa seria a batalha que nos aguardava.

— O próximo exame especial de vocês — ou seja, a batalha de sobrevivência na ilha deserta — possui uma regra que permite formar grupos grandes, com até seis pessoas, para cooperarem entre si. A primeira coisa que devem lembrar é que esses grupos podem ser formados com qualquer aluno do mesmo ano escolar, independentemente da classe — explicou Chabashira.

— Então isso significa que… os outros alunos do segundo ano são nossos aliados…? — murmurou Horikita baixinho para si mesma.

Até aquele momento, ela havia assumido que qualquer pessoa fora da nossa própria classe era um inimigo. Seu monólogo silencioso ecoou pela sala. Eu tinha certeza de que as palavras murmuradas por Horikita haviam chegado aos ouvidos de Chabashira, mas ela continuou a explicação sem responder diretamente à pergunta.

— Durante as próximas quatro semanas, começando hoje até o fim da sexta-feira, dia 16 de julho, vocês, alunos do segundo ano, terão o direito de formar pequenos grupos de até três estudantes com quaisquer parceiros da sua escolha dentro da própria série. Esses grupos serão a base para a formação dos grupos maiores. Contudo, embora eu tenha dito que vocês podem escolher livremente seus parceiros, existem algumas restrições. Uma delas é justamente o que acabei de mencionar: vocês só podem escolher alunos do próprio ano. Não é permitido formar grupos com alunos do primeiro ou do terceiro ano — explicou Chabashira.

Podíamos trabalhar com qualquer pessoa do nosso ano. Em outras palavras, alunos da Classe A poderiam formar equipe com alunos da Classe C. Pelo visto, os alunos do primeiro ano poderiam formar pequenos grupos de até quatro integrantes, enquanto os do terceiro ano poderiam montar grupos de até três, assim como nós do segundo ano. Aquilo provavelmente fazia parte das desvantagens e vantagens aplicadas a cada série.

A regra apareceu claramente no monitor.

Talvez fosse possível que todas as quatro classes do segundo ano cooperassem entre si para formar os grupos mais fortes da competição. Se tivéssemos liberdade para montar grupos ideais, naturalmente teríamos uma chance real de vencer. Por outro lado, se os outros anos também fossem capazes de criar as formações mais eficientes possíveis, precisaríamos reunir toda a nossa força para competir contra eles.

— Agora, sobre a proporção entre os gêneros. No caso de pequenos grupos mistos, as garotas devem representar pelo menos dois terços do grupo — disse Chabashira.

Então grupos com dois garotos e uma garota, ou apenas um garoto e uma garota, não seriam permitidos. As combinações possíveis apareceram no monitor:

[1 Garoto] [2 Garotos] [3 Garotos]

[1 Garota] [2 Garotas] [3 Garotas]

[1 Garoto & 2 Garotas]

Sete configurações possíveis. Isso significava que formações como [2 Garotos & 1 Garota] ou [1 Garoto & 1 Garota] seriam rejeitadas.

— O que acontece se alguém não formar um grupo? …Ou se não conseguir formar um grupo?

— Como vocês podem ver pela lista de combinações possíveis, também é permitido formar "grupos" compostos por apenas uma pessoa. Esse método oferece menos benefícios, mas não é proibido. O próximo exame especial pode ser realizado independentemente do número de integrantes do grupo. Se alguém quiser enfrentar a prova sozinho, poderá fazê-lo, independentemente do gênero — respondeu Chabashira.

Embora fosse óbvio que quanto mais pessoas houvesse no grupo, melhor seria, parecia que ainda assim era possível participar da prova sozinho sem grandes problemas.

— Tenho certeza de que alguns alunos podem se sentir mais confortáveis ficando sozinhos, mas quanto maior o grupo, melhor. Além das vantagens naturais de simplesmente ter mais pessoas, também existem benefícios especiais concedidos a grupos maiores. Recomendo fortemente que ninguém escolha enfrentar esta prova sozinho, exceto como último recurso — continuou Chabashira.

Se alguém fosse capaz o bastante, talvez conseguisse se virar sozinho. Porém, estudantes incapazes de formar grupos seriam praticamente obrigados a enfrentar a prova em desvantagem. Isso significava que integrar um grupo de três pessoas era, basicamente, o requisito mínimo para um aluno comum competir de maneira adequada.

— Existem muitos benefícios em formar um grupo, mas há uma condição importante. Uma vez que o grupo seja estabelecido, nenhum integrante poderá mudar para outro grupo sob hipótese alguma — disse Chabashira.

Ou seja, depois de formar um grupo, você ficaria preso àquelas pessoas como aliados até o fim do exame especial.

— Entendo que não podemos trocar de grupo, mas o exame especial permite grupos de até seis pessoas, certo? Até agora só ouvimos falar sobre pequenos grupos de até três integrantes. Poderia explicar melhor essa parte? — perguntou Hirata, dirigindo-se a Chabashira.

— Sim, esse é um ponto essencial. Quando o exame especial começar oficialmente, os pequenos grupos poderão se unir entre si. Dois grupos de três pessoas podem se juntar, assim como três grupos de duas pessoas ou até mesmo seis indivíduos separados. Entretanto, também existem condições para a formação dos grupos maiores. Em grupos de quatro pessoas ou mais, pelo menos cinquenta por cento dos integrantes devem ser garotas — explicou Chabashira.

Então a regra de proporção entre gêneros mudaria, exigindo que metade do grupo fosse composta por garotas, em vez da proporção anterior de dois terços. Se essas restrições mudariam depois, talvez começar com um grupo pequeno de apenas uma ou duas pessoas fosse uma estratégia viável.

— Depois de tudo o que ouviram até agora, imagino que alguns de vocês estejam pensando que basta formar grupos depois que a prova começar. Mas não é tão simples assim. Embora vocês tenham liberdade para formar grupos com quem quiserem, será extremamente difícil montar o grupo ideal durante o exame. Haverá muitos casos em que vocês desejarão formar grupos de até seis pessoas, mas simplesmente não conseguirão fazê-lo — afirmou Chabashira.

Então parecia que estar em um grupo menor não era necessariamente algo sem vantagens. Ainda assim, considerando os riscos de ter que sobreviver sozinho em uma ilha deserta do começo ao fim, provavelmente era mais seguro formar um grupo de três pessoas logo nessa etapa inicial.

Se não contássemos os alunos expulsos, havia quarenta estudantes em cada turma de todos os anos. Com quatro turmas por série, isso totalizava 160 alunos por ano. Como a escola havia declarado claramente que os grupos poderiam ter no máximo seis estudantes, o número mínimo de grupos possíveis nesse exame, considerando todas as séries juntas, seria oitenta e um. Como também não havia garantia de que seria possível formar grupos de seis pessoas durante a prova em si, dependendo de como as coisas se desenrolassem, era possível que o número de grupos competindo entre si chegasse à casa das centenas.

— Entendo que vocês devam estar confusos depois de receberem a instrução de simplesmente formar pequenos grupos com quem quiserem. Se vocês não sabem o conteúdo do exame, também não conseguem definir que tipo de pessoas precisam — disse Chabashira, certa de que todos na sala já haviam chegado a essa conclusão.

Ela continuou:

— Não posso dizer exatamente o que será avaliado no próximo exame especial. Mas posso comentar superficialmente sobre os tipos de habilidades que talvez sejam necessários. Algo nesse sentido.

Ela observou os alunos, cujas expressões haviam ficado tensas.

— Tenho certeza de que muitos estudantes ficaram frustrados com o exame de sobrevivência na ilha deserta do ano passado, sentindo que não conseguiram demonstrar totalmente seu potencial. Porém, podem assumir com segurança que o exame deste ano irá testar todo tipo de habilidade: capacidade acadêmica, habilidade física, força emocional e capacidade de comunicação. Também existe uma grande possibilidade de que outras qualidades além dessas possam ser úteis.

Então não bastava simplesmente ser bom nos estudos ou nos esportes. Pelo jeito, os alunos mais versáteis teriam vantagem. A relação entre uma ilha deserta e desempenho acadêmico era difícil de imaginar, mas certamente havia muitas maneiras de isso funcionar.

Por exemplo, poderia existir uma regra em que você não receberia comida caso não conseguisse responder corretamente a uma pergunta primeiro. Um grupo formado apenas por pessoas fisicamente fortes poderia acabar eliminado rápido demais.

— Embora seja importante escolher pessoas com quem vocês tenham uma boa relação, as capacidades gerais de um grupo provavelmente estarão diretamente ligadas ao desempenho nesse exame especial. Recomendo que escolham cuidadosamente os integrantes certos ao formar seus grupos — explicou Chabashira.

Isso significava que alunos talentosos em várias áreas naturalmente teriam melhores chances se se unissem. Porém, como Chabashira dissera, escolher pessoas com quem você se dava bem também era importante. Como ainda não sabíamos exatamente que tipo de exame seria esse, havia grandes chances de que cooperação fosse essencial.

— Embora eu tenha dito que quanto mais pessoas houver no grupo, mais vantagens vocês terão, isso não significa apenas ter seis cérebros ou seis corpos trabalhando juntos. A verdadeira razão é que este exame possui uma regra que implementa um sistema de eliminação. Vamos comparar o que aconteceria se Hirata tentasse concluir o exame sozinho e o que aconteceria se ele estivesse em um grupo de três pessoas junto com Sudou e Hondou.

Ela então digitou algo em seu tablet. Logo depois, dois grupos apareceram no monitor. Um consistia apenas em Hirata, enquanto o outro era um grupo de três pessoas, incluindo Hirata. Todos os nomes exibidos estavam em azul.

— Vamos supor que, durante o exame especial, Hirata sofra algum acidente infeliz que o impeça de continuar. Naturalmente, se ele estivesse fazendo a prova sozinho, isso significaria que seu grupo seria desclassificado naquele momento, e ele receberia uma penalidade.

No quadro do grupo de uma pessoa, o nome de Hirata ficou vermelho, indicando desclassificação.

— Por outro lado, o que aconteceria se Hirata fosse forçado a abandonar o exame enquanto estivesse em um grupo de três…?

Embora o nome de Hirata no grupo de três também tivesse ficado vermelho, os outros dois nomes permaneceram azuis.

— Hirata seria desclassificado e enviado de volta ao navio, mas os dois membros restantes do grupo poderiam continuar o exame sem problema algum. E, se o grupo conseguisse permanecer até o fim e conquistasse o primeiro lugar no exame, Hirata também seria considerado vencedor, já que fazia parte do grupo — explicou ela.

Então, mesmo que um integrante abandonasse a prova, tudo bem desde que o restante do grupo sobrevivesse. Ainda assim, perder qualquer membro certamente causaria um impacto negativo.

— Não importa quantas pessoas vocês percam no caminho. O grupo continuará funcionando normalmente até que a última pessoa seja eliminada. Em outras palavras, quanto mais pessoas houver no grupo, mais "vidas" vocês terão, para simplificar — acrescentou ela.

Entendo. Isso confirmava o quão importantes os grupos eram. Não importava o quão capaz um estudante pudesse ser, acidentes ainda poderiam acontecer, como se machucar ou adoecer. Para minimizar esse risco, a formação de um grupo de seis pessoas era essencial para vencer.

— Agora que vocês entendem a importância dos grupos, vamos falar sobre as recompensas — disse Chabashira.

Agora o verdadeiro impacto dessa batalha de sobrevivência na ilha deserta finalmente começaria a ficar claro para nós.

Recompensas

Grupo em Primeiro Lugar

300 Pontos de Classe, 1.000.000 de Pontos Privados, 1 Ponto de Proteção

Grupo em Segundo Lugar

200 Pontos de Classe, 500.000 Pontos Privados

Grupo em Terceiro Lugar

100 Pontos de Classe, 250.000 Pontos Privados

Grupos no Top 50% (incluindo do primeiro ao terceiro lugar)

50.000 Pontos Privados

Grupos no Top 70% (incluindo do primeiro ao terceiro lugar)

10.000 Pontos Privados

Os Pontos de Classe concedidos aos três primeiros colocados serão transferidos das séries dos três grupos que ficarem nas últimas posições.

Os Pontos de Classe serão divididos igualmente entre as turmas, independentemente do número de estudantes (com arredondamento).

Pelas recompensas exibidas no monitor, os prêmios em Pontos de Classe e Pontos Privados eram consideravelmente altos. Se uma única turma dominasse as três primeiras posições, o ranking das classes sofreria uma mudança drástica.

Mas havia alguns detalhes estranhos que chamavam atenção.

— Esta é a lista de recompensas para este exame específico. É importante notar que vocês não podem formar grupos com estudantes de outras séries, então, essencialmente, cada série estará competindo separadamente. No entanto, os efeitos das recompensas e penalidades serão aplicados com base na composição de cada grupo. Em outras palavras, se um grupo composto apenas por alunos da Classe D ficar em primeiro lugar, todas as recompensas irão para a Classe D. Por outro lado, se um grupo formado por estudantes das quatro turmas conquistar o primeiro lugar, as recompensas serão divididas igualmente entre as quatro classes. Portanto, se vocês criarem um grupo com os melhores e mais capazes alunos de cada turma, talvez aumentem suas chances de vencer, mas sua posição em Pontos de Classe provavelmente não mudará muito — explicou Chabashira.

E como o número de pessoas em um grupo não influenciava esse cálculo, os 300 pontos seriam simplesmente divididos igualmente entre as quatro classes. Ou seja, mesmo ficando em primeiro lugar naquela situação, não seria possível reduzir muito a diferença nos Pontos de Classe. Bem, pensando melhor, como só podíamos formar grupos de até três pessoas naquela etapa, nem seria possível criar um grupo com alunos das quatro turmas ainda. Isso provavelmente impediria qualquer discussão ideal nesse momento.

— E mais… Os Pontos de Classe totais concedidos aos três primeiros colocados, um total gigantesco de 600 pontos, serão retirados igualmente das séries que ocuparem os três últimos lugares. Por exemplo, suponham que o grupo em primeiro lugar seja formado por alunos do segundo ano, enquanto o grupo em último seja composto por alunos do primeiro ano. Isso significa que Pontos de Classe serão retirados de cada uma das turmas do primeiro ano. A recompensa do segundo lugar corresponderá ao grupo que ficar em penúltimo, e o terceiro lugar receberá seus pontos do grupo que terminar em antepenúltimo — explicou Chabashira.

Então parecia haver uma grande possibilidade de que séries diferentes tentassem roubar pontos umas das outras.

— Agora, para comparação, vou explicar o que acontece caso grupos da mesma série terminem em primeiro e último lugar, respectivamente. Nesse caso, teremos uma situação um pouco especial. As turmas incluídas no grupo que ficou em último terão que pagar cem Pontos de Classe para as turmas do grupo vencedor. O penúltimo lugar pagará sessenta e seis pontos. O antepenúltimo, trinta e três pontos. Se um grupo composto apenas por estudantes de uma única turma ficar em primeiro lugar, ele ainda receberá os 300 pontos normalmente. Porém, se outro grupo daquela mesma turma também terminar em último lugar, cem pontos serão deduzidos, então a turma vencedora acabará recebendo apenas 200 pontos — explicou Chabashira.

Isso significava que, se um grupo composto por estudantes das quatro turmas vencesse, cada classe receberia setenta e cinco Pontos de Classe. Não importava quantos estudantes da sua turma estivessem em primeiro lugar; se também houvesse alunos da sua turma em um grupo nas últimas posições, era possível acabar saindo no prejuízo.

— Além disso, caso os Pontos de Classe coletados pela escola não sejam suficientes para cobrir o pagamento das recompensas, a escola compensará e pagará a diferença. A mesma regra se aplica ao recolhimento de pontos das outras séries também — acrescentou ela.

Aparentemente, mesmo em situações nas quais não houvesse Pontos de Classe suficientes para pagar, as recompensas ainda seriam garantidas.

— Bem, supondo que um grupo formado por estudantes das quatro turmas termine em último lugar, a quantidade que terão de pagar será reduzida, mas apenas um pouco. O último lugar terá que pagar setenta e cinco pontos. O penúltimo, cinquenta pontos. E o antepenúltimo, vinte e cinco pontos. Acho que podemos dizer que todos compartilham igualmente o fardo — disse Chabashira.

Eu suponho que isso pudesse ser considerado uma espécie de bônus em um exame onde cooperar seria bastante difícil.

— E, claro, os grupos que terminarem nas últimas posições naturalmente sofrerão penalidades. Os grupos que ficarem entre os três últimos perderão Pontos de Classe, como mencionei anteriormente. Mas isso não é tudo. Os estudantes dos cinco grupos mais mal colocados serão expulsos — declarou Chabashira.

Os alunos prenderam a respiração. Cinco grupos inteiros significavam que até trinta estudantes poderiam ser expulsos.

— M-Mas, se apenas estudantes da nossa turma acabarem sendo expulsos, então…

— No pior cenário possível, restariam apenas nove de vocês. Mas não precisam se preocupar com isso. Na improvável eventualidade de serem penalizados, vocês poderão pagar seis milhões de Pontos Privados para se salvarem. Esse valor será dividido pelo número de integrantes do grupo. Portanto, em um grupo de seis pessoas, cada aluno precisaria pagar um milhão de Pontos Privados — explicou Chabashira.

Então, mesmo na improvável hipótese de sermos atingidos pela penalidade de expulsão, ainda parecia haver maneiras de nos salvarmos.

— Há uma condição, porém. Vocês precisam ter em mãos, em seus próprios celulares, a quantidade necessária de pontos para pagar essa taxa e salvar alguém antes de embarcarem no navio. Não será possível emprestar ou transferir Pontos Privados depois que o exame começar.

Isso significava que não teríamos a opção de ajudar uns aos outros mais tarde. Precisávamos conseguir esses pontos antes do exame.

— Mas, dentro do grupo penalizado, imagino que haverá alunos que podem pagar e outros que não podem. O que acontece se um dos estudantes do grupo não tiver pontos suficientes para cobrir sua parte?

— Não se preocupe com isso. Mesmo que cinco das seis pessoas de um grupo não consigam pagar sua parte, a sexta pessoa, aquela que tiver pontos suficientes, ainda poderá salvar a si mesma pagando um milhão de Pontos Privados — disse Chabashira.

Basicamente, se você tivesse pontos suficientes, não precisaria se preocupar em ser arrastado para baixo pelos outros.

— Posso fazer uma pergunta? — perguntou Horikita, erguendo a mão enquanto estava sentada bem em frente a Chabashira. — As regras dizem que, se você formar equipe com outras turmas, cada turma receberá uma parte igual das recompensas. No fim das contas, isso não faria os alunos escolherem formar grupos apenas com colegas da própria turma?

Horikita estava dizendo que, mesmo que você se esforçasse ao máximo para vencer, seria inútil se tivesse que dividir os Pontos de Classe entre várias turmas.

— Se vocês decidirem que não há vantagem nisso, então podem simplesmente optar por formar grupos apenas com colegas da própria classe. Só isso — respondeu Chabashira, deixando que descobríssemos por conta própria o que fazer.

Não havia uma resposta definitiva para aquela questão. No entanto, se havia algo de que podíamos ter certeza, era que, se tentássemos monopolizar todas as recompensas e formar grupos apenas com alunos da própria turma, os grupos restantes, compostos por uma mistura de alunos menos capazes que não foram escolhidos para os grupos principais, seriam colocados em uma situação difícil. Ao mesmo tempo, isso criaria grupos que provavelmente correriam um grande risco de expulsão.

Por outro lado, se você aumentasse o número de turmas representadas em seu grupo, as recompensas seriam menores, mas seria mais fácil montar um grupo mais amplo e controlar o risco de sofrer penalidades. Claro, outros riscos também poderiam surgir.

Quanto à formação dos grupos para o teste de sobrevivência na ilha deserta… aqui estava um resumo das informações que Chabashira havia nos apresentado até então.

Sobreviver em uma ilha deserta por um período máximo de duas semanas

Uma grande variedade de habilidades será necessária, e um alto nível de capacidade geral será vantajoso, mas a coesão do grupo não pode ser ignorada

Recompensas especiais, como Pontos de Classe, Pontos Privados e um Ponto de Proteção, serão dadas aos grupos mais bem colocados (embora os Pontos de Classe sejam divididos igualmente conforme o número de turmas)

Os grupos serão formados com no mínimo uma pessoa e no máximo seis, e quanto mais pessoas houver no grupo, mais vantagens ele terá (a classificação do grupo será determinada pelo momento em que o último integrante for eliminado)

Os grupos que ficarem nas últimas posições receberão penalidades, e a expulsão também é uma possibilidade

De acordo com as regras, podemos formar livremente pequenos grupos dentro da nossa série (até o máximo de três pessoas)

Formar um grande grupo durante o exame não será fácil

Esse era um panorama geral de tudo até agora, mas aquela explicação sozinha ainda não era suficiente para nos dar uma visão completa da situação.

— Entendo que já foi muita informação para absorver até aqui, mas ainda há muito a ser explicado — disse Chabashira.

Ela respirou fundo antes de passar para a próxima parte da explicação.

— Por favor, deem uma olhada nisso.

O monitor mudou, exibindo agora oito itens na tela.

Visão Geral das Cartas Básicas

Head Start: os pontos disponíveis no início do exame são multiplicados por 1,5.

Bônus: quem possuir esta carta receberá o dobro das recompensas em Pontos Privados.

Half Off: reduz pela metade a quantidade de Pontos Privados necessária para pagar uma penalidade. Válido apenas para o aluno que possui esta carta.

Free Ride: no início do exame, escolha um grupo específico. Você receberá metade da quantidade de Pontos Privados que esse grupo ganhar. Este efeito desaparece caso você se junte ao grupo escolhido.

Insurance: se o dono desta carta normalmente fosse desclassificado do exame devido a problemas de saúde, receberá um dia inteiro para se recuperar. Não é válida em casos de desclassificação por trapaça, entre outros.

Visão Geral das Cartas Especiais

One More: o dono desta carta pode entrar em um grupo como sétimo integrante. O efeito entra em vigor após o início da parte principal do exame e não é afetado pela regra de proporção entre gêneros.

Nullify: os Pontos Privados necessários para pagar uma penalidade são reduzidos a zero. Válido apenas para o aluno que possui esta carta.

Trials and Tribulations: usar esta carta permite ganhar 1,5 vez mais Pontos de Classe como recompensa no exame especial. Contudo, se o grupo não ficar entre os 30% melhores colocados, sofrerá penalidades. A escola cobrirá o aumento das recompensas.

— O-O que é tudo isso?

— Essas cartas são itens que afetarão o exame de sobrevivência na ilha deserta. Todos receberão uma carta. Com uma exceção, não há desvantagens em possuir nenhuma delas. A utilidade de cada uma pode ser compreendida, de forma geral, lendo a descrição presente nas cartas — explicou Chabashira.

Havia um total de oito tipos de cartas disponíveis, variando entre cartas que concediam vantagens no exame especial e cartas focadas em proteção. Estas últimas eram úteis no sentido de manter você seguro, mas, considerando que basicamente serviam para situações em que você já estava preparado para a derrota, provavelmente seriam avaliadas de maneira diferente.

A carta mais complicada do conjunto era "Trials and Tribulations", a única que possuía um aspecto claramente desvantajoso. Se usada de maneira eficaz, tinha um potencial maior do que qualquer outra recompensa, mas não seria fácil ficar entre os trinta por cento melhores.

— Cada estudante receberá uma dessas oito cartas, escolhida aleatoriamente. As cartas serão distribuídas amanhã de manhã. As cartas obtidas poderão ser transferidas ou trocadas com alunos de outras turmas do mesmo ano até o início oficial do exame especial. Qualquer pessoa poderá ver quem possui qual carta pelo aplicativo OAA. Vocês podem vender suas cartas para quem quiser comprá-las. Também podem adquirir várias cartas e manter mais de uma consigo. No entanto, os efeitos de cartas iguais não se acumulam, então não há absolutamente nenhuma vantagem em possuir duas da mesma carta — explicou Chabashira.

Visão Geral e Regras das Cartas

Tanto as Cartas Básicas quanto as Cartas Especiais podem ser trocadas com alunos do mesmo ano escolar. Não é possível trocá-las com alunos da própria turma. Além disso, uma vez que uma carta muda de dono, ela não pode mais ser negociada novamente. Mesmo que múltiplas cópias de uma mesma carta sejam usadas, seus efeitos não se acumulam.

Isso significava que um único estudante poderia, teoricamente, possuir até oito tipos diferentes de cartas ao mesmo tempo e usar todas elas. Entretanto, como as cartas possuíam aplicações tanto positivas quanto negativas, não era como se fosse possível ativar todos os efeitos simultaneamente. No fim das contas, elas apenas ampliavam o leque de opções disponíveis.

— Além disso, sobre as cartas especiais… Existem três tipos de cartas especiais, e elas também serão distribuídas aleatoriamente, mas apenas uma de cada tipo será entregue por ano escolar. Portanto, existe a possibilidade de que, por pura coincidência, uma única turma acabe ficando com as três cartas. É só isso — disse Chabashira.

Primeiro veio a explicação sobre o exame especial da ilha deserta, seguida pelos detalhes sobre recompensas e penalidades. Depois, a explicação sobre a distribuição dos itens chamados cartas. E assim chegamos ao fim da longa introdução sobre o exame de sobrevivência na ilha deserta.

— Tenho certeza de que alguns de vocês talvez não tenham entendido tudo o que acabamos de explicar, mas, até a hora do almoço, o manual do exame especial será enviado automaticamente para seus tablets, então poderão conferir as informações por lá — disse Chabashira, agora tendo terminado toda a explicação.

O sinal tocou alto e claro, anunciando o fim da primeira aula.

— Sugiro que pensem com bastante cuidado sobre qual estratégia de grupo pretendem montar. Vocês têm tempo.

Depois de nos dar aquele conselho, Chabashira deixou a sala de aula.

Logo em seguida, os alunos começaram a se reunir em pequenos grupos. Koenji, que estava sentado bem à minha esquerda, com uma carteira vazia entre nós, levantou-se e saiu para o corredor. Parecia apenas estar agindo conforme seus caprichos egoístas de sempre, mas ele estava andando mais rápido do que o normal.

Senti que havia algo estranho em seu comportamento, então decidi segui-lo.

Tentei suavizar meus passos e evitar qualquer coisa que pudesse denunciar minha presença para que ele não percebesse que estava sendo seguido. Ainda assim, havia um limite para o que eu podia fazer. Diferente da ilha, não existiam infinitos lugares atrás dos quais eu pudesse me esconder.

No entanto, pessoas comuns normalmente não vivem o dia a dia preocupadas em serem seguidas. Mesmo que um amador tentasse seguir outro amador, o alvo provavelmente apenas suspeitaria vagamente de que havia algo estranho.

Pouco depois, ouvi as vozes de Chabashira e Koenji vindo da esquina do corredor. Escondi-me perto da curva, prendendo a respiração enquanto escutava a conversa deles.

— Então, sobre o que você queria falar comigo, Koenji?

— Bem, professora, não consigo deixar de sentir que a senhora omitiu um detalhe crucial em sua explicação — respondeu Koenji.

Imaginei que Chabashira estivesse agora frente a frente com ele, aguardando sua pergunta.

— Um detalhe crucial? — perguntou ela de volta.

— Mais especificamente, se uma pessoa que estiver fazendo o exame completamente sozinha acabar sucumbindo a uma doença ou ferimento, o que aconteceria com ela? — perguntou Koenji.

— Ah, então era isso que você queria perguntar. Que questão trivial — respondeu Chabashira.

Mesmo sem vê-la, dava para imaginar um leve sorriso divertido em seus lábios enquanto dizia aquilo.

— Se bem me lembro, você abandonou o último exame por causa de uma doença. Infelizmente, isso não vai funcionar este ano. Nenhuma exceção especial será feita. Você receberia uma penalidade, o que significa que teria de pagar seis milhões de pontos se quisesse permanecer na escola. E, considerando quantos pontos você possui atualmente, isso seria impossível — disse Chabashira.

— Fufu, sim, isso certamente é verdade. Afinal, sou o tipo de homem bastante liberal com seus gastos, então parece que me encontro numa situação bastante delicada.

Como esperado, parecia que Koenji já planejava abandonar até mesmo este exame especial da ilha deserta. Mas, para alguém participando sozinho, não existia rota de fuga.

— Nesse caso, o que pretende fazer? Manter sua liberdade e ser expulso? — perguntou Chabashira.

— Hmm, quem sabe? Sim, sim, quem sabe… Bem, não me importo se a senhora já quiser ir embora, professora.

Koenji parecia satisfeito com a resposta que recebera de Chabashira, porque simplesmente mandou que ela fosse embora. Logo comecei a ouvir passos ecoando pelo corredor. Eles rapidamente se afastaram até desaparecerem por completo.

Imaginei que Koenji também começaria a se mover em breve. Sendo assim, não havia motivo para eu continuar ali por muito tempo. Decidi sair silenciosamente. Mas então…

— A propósito, quem é a pessoa escondida aí, me espionando? — perguntou Koenji.

Koenji havia percebido que eu estava escondido. Pelo modo como sua voz ecoou pelo corredor, dava para perceber que ele havia se virado.

— Vir ou não à tona depende inteiramente de você — acrescentou.

Não parecia algo que ele tivesse dito ao acaso. Era quase como se possuísse os instintos aguçados de um animal…

Embora eu pudesse simplesmente voltar para a sala sem revelar minha presença, decidi encará-lo honestamente.

— Oh ho, Ayanokoji-boy. Será que você tem algum assunto a tratar comigo?

Ele não parecia surpreso nem um pouco. Se havia alguma reação, era apenas indiferença à minha presença ali, agindo com total naturalidade. Não era exatamente como se ele esperasse que eu estivesse ali. Era mais como se simplesmente não se importasse com quem estivesse.

— Horikita me pediu para ficar de olho em você. Ela disse que não consegue prever o que você vai fazer — respondi.

— Hmm.

Koenji me observou como se estivesse me avaliando e então começou a caminhar lentamente em minha direção.

— Você parece ser muito bom em criar uma fachada para esconder suas verdadeiras intenções. Mas não vejo nem verdade nem mentira em você, Ayanokoji-boy. Não consigo confiar nas palavras de alguém assim — disse Koenji.

— Nunca achei que você fosse o tipo de pessoa que confia em alguém, de qualquer forma — respondi.

— Fufufu, bem, isso certamente é verdade. Não confio em ninguém além de mim mesmo. Em absolutamente ninguém. Ou talvez fosse mais correto dizer que eu simplesmente não tenho interesse nos outros.

Quando Koenji chegou bem ao meu lado, parou completamente.

— E, claro, isso também se aplica a você, Ayanokoji-boy — acrescentou.

Mesmo depois de eu ter tirado nota perfeita na parte de matemática da prova, Koenji não demonstrara nenhuma reação diferente do habitual ao sair da sala mais cedo. Também não havia dado qualquer sinal de que tivesse perguntado a alguém sobre isso. Não consegui detectar mentira alguma em suas palavras.

— O que você pretende fazer neste exame especial? — perguntei.

— Hmm, sim… Tenho certeza de que ainda haverá muito a discutir, mas poderia me incluir no seu grupo? — perguntou Koenji.

Eu estava curioso para saber como ele responderia à minha pergunta. Entendi. Então era assim que ele pretendia agir. Se se juntasse a pelo menos uma pessoa, Koenji poderia abandonar o exame logo no início sem dificuldade alguma.

— Desculpe, mas vou ter que recusar. Não tenho margem para aceitar alguém que praticamente já está garantido de desistir assim que o exame começar — respondi.

— Fufufu. Entendo. Bem, nesse caso, suponho que seja isso — disse Koenji.

— Mas você acha mesmo que pode pensar dessa forma? Mesmo que encontre um grupo disposto a aceitá-lo, no fim das contas estará colocando o destino da sua expulsão nas mãos de outra pessoa.

— Sim, isso certamente é verdade. Isto é, se eu simplesmente desistir sem fazer nada — respondeu Koenji.

Ele voltou a caminhar, passando por mim. Porém, antes de ir embora, lançou uma última observação.

— Vou pensar cuidadosamente em como pretendo superar isso antes do início do exame.

Com isso, retornou à sala de aula.

*

— Exames especiais em ilhas desertas por dois anos seguidos. Não é como se eu nunca tivesse considerado essa possibilidade, mas…

— Eu já esperava algo assim, e aconteceu.

Quando voltei para a sala, vi que as discussões sobre o exame especial já haviam começado. Era praticamente um ritual que acontecia sempre que tínhamos provas desse tipo.

Quase toda a turma, incluindo Yousuke, havia se reunido perto da carteira de Horikita, na primeira fileira, tentando organizar a situação. Koenji já havia retornado ao seu lugar e admirava apaixonadamente o próprio reflexo em seu precioso espelho de mão.

— A parte mais importante deste exame especial é que, embora existam certas condições, podemos formar equipes com qualquer pessoa do nosso ano escolar.

Aquilo era definitivamente uma regra nova, algo que não tínhamos visto em nenhum dos exames especiais anteriores. Além disso, a simples existência de uma regra assim parecia fugir completamente do padrão esperado daquela escola.

— Mas e quanto à distribuição dos Pontos de Classe quando você vence? Quer dizer, eu até entendo mais ou menos a ideia, porque já passamos por algo parecido antes. Só que eu não vejo vantagem nenhuma em formar equipe com outras turmas — disse Sudou.

Era natural que Sudou levantasse aquela questão imediatamente.

Este exame especial era uma disputa entre os diferentes anos escolares, mas também entre as próprias turmas do mesmo ano. A maneira mais eficiente e eficaz de concluir o exame seria um grupo composto exclusivamente por alunos da própria classe conquistar o primeiro lugar.

Ainda assim, a escola realmente havia criado regras interessantes.

Era muito mais fácil disputar as posições mais altas se o grupo fosse composto por vários estudantes do mesmo ano escolar. Isso diminuía os riscos, mas também reduzia as recompensas.

"Baixo risco, baixo retorno", como costumam dizer.

Por outro lado, quanto mais restrito fosse o foco do grupo, maior seria a oportunidade de obter altas recompensas — mas também maiores seriam os riscos.

A solução ideal seria formar dois grupos de três pessoas dentro da mesma turma e depois uni-los em um grupo de seis mais tarde. No entanto, Chabashira havia mencionado anteriormente que não seria fácil reunir grupos da maneira que quiséssemos depois do início do exame.

Se não tivéssemos garantia de que poderíamos formar grupos livremente de antemão, o prejuízo seria enorme caso tentássemos algo assim e falhássemos. No entanto, também era fato que este exame especial possuía um poder destrutivo imenso. Supondo que as três primeiras posições fossem dominadas por uma única turma, o total de Pontos de Classe obtidos poderia chegar a 600.

E, se nossa turma conseguisse alcançar algo assim, seria praticamente um bilhete expresso mágico para subir diretamente à Classe B de uma só vez.

— Mas, se tentarmos fazer isso apenas com pessoas da nossa própria turma, tenho certeza de que haverá lacunas de habilidade que não conseguiremos compensar. Além disso, se formarmos um grupo só com alunos da nossa classe e… bem, e se as outras turmas resolverem cooperar entre si? No pior cenário possível, talvez sejamos a única turma deixada para trás.

Nem era preciso dizer que conquistar o primeiro lugar neste exame usando apenas alunos da própria turma seria o ideal. Mas era apenas isso: um ideal. Se qualquer turma escolhesse lutar sozinha, criaria o risco de ser cercada pelas outras três. E, caso essa turma isolada acabasse derrotada, não haveria "alto retorno" algum nessa situação.

— Uma coisa seria se a preocupação fosse apenas não conseguir vencer. Mas, se formos eliminados cedo, correremos o risco de expulsão. Em outras palavras, a menos que tenhamos uma confiança absurda… Não, a menos que tenhamos absoluta certeza de vitória por conta própria, formar um grupo de seis pessoas misturado com alunos de outras turmas é praticamente um requisito.

Este exame especial, em que as outras turmas seriam simultaneamente aliadas e inimigas, estava se moldando em algo verdadeiramente sem precedentes.

Considerando isso, era natural concluir que incluir estudantes de outras turmas desde o começo, com o objetivo de alinhar interesses, seria uma estratégia importante. Porém, não havia garantia alguma de que conseguiríamos nos alinhar facilmente com as demais classes.

Mesmo entendendo que aparentemente não havia vantagens em formar grupos apenas com alunos da própria turma, no fim das contas era natural querer superar as outras classes, especialmente porque uma grande quantidade de Pontos de Classe estaria em jogo.

Isso era ainda mais verdadeiro para as turmas das posições inferiores.

Assim, nosso ponto de partida seria decidir qual caminho seguir, partindo da premissa de que primeiro precisaríamos formar grupos.

— Como vocês acham que Sakayanagi-san, Ryuen-kun e Ichinose-san vão agir? — perguntou Horikita.

Para ajudar a turma a chegar a uma decisão, Horikita iniciou a discussão justamente com essa pergunta, direcionando-a a Yousuke.

— Bem, tenho certeza de que a Classe A não está nem um pouco preocupada em formar alianças com outras turmas, já que eles possuem uma vantagem enorme sobre o restante de nós. Não importa qual grupo vença, isso não será exatamente um problema para eles, desde que a diferença de Pontos de Classe não diminua demais. Por outro lado, as demais turmas — inclusive a nossa — definitivamente querem reduzir essa distância de alguma forma — respondeu Yousuke.

Sudou, que vinha ouvindo atentamente a conversa, resolveu se manifestar, apresentando uma ideia que não era ruim.

— Então tá. Que tal formar uma aliança entre nós três? B, C e D? Se a Classe A tá tão na frente do resto da gente, não seria má ideia começar trabalhando junto com a B e a C pra tentar diminuir essa diferença, certo? — disse Sudou.

A ideia era estabelecer um inimigo em comum e trabalhar juntos para atacar a Classe A por todos os lados.

— Afinal, existe o ditado "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Tentar isolar a Classe A não é uma má ideia. E há uma boa chance de que Ichinose-san aceite essa proposta — respondeu Horikita.

— Mas, se sugerirmos isolar a Classe A, vamos precisar estar preparados para suportar um enorme ressentimento. Conhecendo a personalidade da Sakayanagi-san, tenho certeza de que ela dedicaria todos os recursos possíveis para caçar até mesmo nós, da Classe D, a turma mais baixa — disse Yousuke.

Normalmente, seria natural imaginar que alguém na posição dela focaria seus esforços em derrubar a turma logo atrás, a Classe B. Porém, como Yousuke havia dito, Sakayanagi tinha o hábito de perseguir persistentemente qualquer um que escolhesse como alvo.

— Precisamos diminuir discretamente a distância entre nós e as turmas superiores, o máximo possível — acrescentou ele.

— Se B, C e D forem lutar juntas, é melhor que não sejamos nós a propor isso — disse Horikita.

A ideia era colocar outra pessoa como porta-voz desse plano e deixar que ela recebesse a ira de Sakayanagi e do restante da Classe A.

O difícil não era discutir a estratégia, mas colocá-la em prática.

O problema deste exame especial era que nem tudo podia ser resolvido apenas com debates dentro da própria turma. Não importava o quão acaloradas nossas discussões se tornassem dali em diante: nada avançaria.

Se não entendêssemos o que as Classes B e C estavam pensando, e se não conseguíssemos alinhar nossas intenções e colocar planos em ação, tudo não passaria de teoria de cadeira.

Também não seria fácil simplesmente reunir nossas três turmas para uma conversa. Ichinose não seria um problema, mas era difícil imaginar Ryuen concordando tão facilmente. Além disso, se Sakayanagi descobrisse qualquer informação sobre isso, naturalmente tomaria providências imediatamente.

— Parece que vamos ter que tomar uma decisão realmente difícil…

Mesmo tendo mais de um mês de prazo para formar os grupos, se demorássemos demais para agir, as outras turmas começariam a se movimentar por conta própria, formando seus grupos um após o outro. Não podíamos simplesmente ficar parados sem assumir uma posição clara.

— Seria uma enorme ajuda se alguma das outras turmas propusesse um plano parecido por conta própria… — disse Yousuke.

Os alunos da Classe D quebravam a cabeça tentando encontrar uma solução.

— Só descobrir como devemos montar os grupos já está sendo uma dor de cabeça enorme — comentou Horikita.

Além da importante tarefa de formar grupos, ainda havia outras questões a resolver. Existia também o problema das cartas, cada uma com efeitos diferentes.

Na manhã seguinte, todos os alunos receberiam uma dessas cartas exclusivas, que não poderiam ser transferidas entre colegas da mesma turma. Além disso, uma vez que uma carta fosse transferida, sua posse se tornaria definitiva e ela não poderia retornar ao dono original.

Ou seja, a única maneira de obter uma carta específica com certeza seria trocando com um aluno de outra turma ou através de compra e venda.

— Parece muito provável que todo mundo comece a agir amanhã mesmo.

— Sim. E reunir cartas úteis para o grupo também vai ser um ponto importante que precisaremos considerar.

Aquele era o dia em que a escola havia oficialmente permitido que começássemos a formar grupos para o próximo exame especial. Naturalmente, a situação estava prestes a mudar drasticamente. E isso incluía nossa Classe D também.

*

DEPOIS QUE AS AULAS TERMINARAM, os celulares dos estudantes classificados como excepcionais em capacidade acadêmica ou física começaram a tocar sem parar. Horikita aproximou-se de mim enquanto observava atentamente a situação ao redor.

— Parece que já começaram a agir imediatamente. Imagino que seja natural tentarem atrair os alunos mais talentosos para o lado deles — disse Horikita.

Independentemente da política adotada pela turma, não havia mal algum em começar garantindo algumas reservas provisórias.

— Você recebeu alguma ligação ou mensagem? — perguntei.

— Nenhuma.

— Entendo. Bem, o número de pessoas que realmente têm seu contato é extremamente limitado — respondi.

— Você sabia disso e, mesmo assim, fez questão de dizer algo só para me irritar. Isso prova o quanto você é insensível. E então, Ayanokoji-kun? Mister "nota perfeita em matemática" ? Ninguém tentou entrar em contato com você? Seu celular parece surpreendentemente silencioso, não acha? — rebateu Horikita.

Horikita respondeu à altura com palavras afiadas. Resolvi olhar para meu celular, que realmente não estava tocando.

— Infelizmente, minha bateria acabou. Faz uns dois ou três dias que não carrego.

— Se você não usa muito o celular, realmente não precisa carregá-lo com frequência — disse Horikita.

Por mais que eu quisesse negar, ela estava certa. Quando você quase não usa o celular, acaba esquecendo de carregá-lo.

— Você não deveria avisar nossos colegas de turma? Se começarem a formar grupos sem pensar direito, isso pode causar problemas depois — adverti.

— Não preciso explicar nada a eles. Já dei minhas instruções. Resumi tudo em uma mensagem bem fácil de entender e enviei para todos. Você só não percebeu porque seu celular estava descarregado — respondeu Horikita, mostrando a tela do aparelho.

Não finalizem nenhuma formação de grupo antes de discutirmos a situação dentro da Classe D.

Caso precisem confirmar um grupo imediatamente por algum motivo, entrem em contato com Horikita.

Parecia que Horikita já havia previsto algo assim e estabelecido algumas regras mínimas.

— Claro, essas regras não são obrigatórias. No fim das contas, cabe a cada indivíduo decidir por conta própria — disse Horikita.

De fato, cada pessoa tinha o direito de decidir com quem formar grupo ou não. Não dava para interferir em questões de afinidade pessoal e, além disso, expulsões estavam em jogo. Mesmo que as quatro turmas cooperassem, não existia uma combinação perfeita capaz de garantir completamente a segurança de todos contra a expulsão.

Levando isso em consideração, o máximo que se podia fazer era oferecer conselhos.

Eu sempre carregava um carregador portátil comigo, então conectei o celular e me levantei da cadeira. Imaginei que talvez houvesse alunos escutando as conversas na sala.

— Alguma notícia da Ichinose? Não seria estranho se ela sugerisse que todo o nosso ano trabalhasse unido — perguntei.

— Ainda não recebi nada de ninguém. E também não houve nenhuma proposta vindo da Classe A ou da Classe B. Se todo o nosso ano fosse realmente se unir como um só, deveríamos presumir que já haveria alguma tentativa de alinhar interesses neste momento — respondeu Horikita.

Se os alunos simplesmente começassem a formar grupos aleatoriamente de acordo com suas vontades, ficaria cada vez mais difícil coordenar as coisas depois. Se não houvesse algum tipo de discussão logo no início, isso praticamente significaria aceitar que as turmas do nosso ano iriam lutar entre si. Se Horikita realmente queria cooperação entre as classes, precisava agir agora.

Horikita não demonstrou nenhum sinal visível de irritação quando me levantei. Em vez disso, ela também se levantou e me seguiu. Parecia que ainda havia mais coisas que queria dizer.

Depois que saímos para o corredor e ela se certificou de que não havia ninguém por perto, voltou a falar comigo.

— Sobre este exame especial… Você conseguiria ficar em primeiro lugar sozinho? — perguntou.

— Não seja absurda. Tudo o que sabemos até agora é que haverá um teste em uma ilha deserta — respondi.

— Só imaginei que alguém como você, que tirou nota perfeita em matemática, nem precisaria de grupo — disse Horikita.

Que tipo de lógica era essa? Parecia apenas uma provocação jogada ao acaso, exigindo o impossível.

— Desde que fiquemos em primeiro lugar, nossa turma terá resultados positivos. Não me importo se os alunos do primeiro e do terceiro ano ficarem em segundo e terceiro lugares. Prefiro isso a deixar alguém do nosso próprio ano ocupar essas posições — disse Horikita.

Mais fácil falar do que fazer.

— Bem, nesse caso, acho que poderíamos formar grupos de uma maneira que evitasse o máximo possível de expulsões, e isso facilitaria as coisas, mas… — respondi, fazendo uma breve pausa.

No entanto, se direcionássemos nossos esforços para criar grupos fortes capazes de vencer, inevitavelmente acabaríamos formando alguns grupos fracos também.

— Mas não é como se todo mundo fosse conseguir pagar a quantidade necessária de Pontos Privados para se salvar — acrescentei.

— Sim, é verdade. Gostaria de reunir o máximo possível de Pontos Privados para os alunos que ainda estão inseguros. Mas, se os estudantes de quem eu pegar pontos emprestados acabarem recebendo penalidades e sendo expulsos, isso seria horrível demais até para imaginar — disse Horikita.

Havia poucas coisas mais inúteis do que tentar salvar os outros e acabar caindo junto com eles.

— Se você odeia a ideia disso acontecer, então só precisa pedir pontos para estudantes que tenham sobra — respondi.

Isso certamente funcionaria. Porém, nesse caso, o número de alunos para quem poderíamos recorrer seria bastante limitado.

— Existem maneiras de fazer isso sem deixar ninguém ser expulso, embora eu duvide que alguém realmente queira seguir por esse caminho — acrescentei.

— Você quer dizer a ideia de fazer certas pessoas desistirem deliberadamente logo no início? — perguntou Horikita.

Aparentemente, Horikita também havia percebido algumas brechas existentes neste exame.

De acordo com as regras, apenas os cinco primeiros grupos eliminados seriam expulsos. Nesse caso, se preparássemos cinco grupos especificamente para serem sacrificados e os deixássemos deliberadamente serem eliminados, não precisaríamos nos preocupar com expulsões após isso.

No entanto, para colocar essa ideia em prática, seria necessário preparar um total de trinta milhões de Pontos Privados.

E, mais importante ainda, os anos escolares que ocupassem as três últimas posições do exame acabariam entregando Pontos de Classe para aqueles que ficassem nas três primeiras posições.

Mesmo que alunos do mesmo ano ocupassem simultaneamente as primeiras e últimas colocações, as recompensas ainda seriam reduzidas um pouco. Ou seja, assumir deliberadamente o papel de "grupo sacrificial" inevitavelmente causaria perdas.

Suponho que o fato de as três primeiras posições estarem ligadas às três últimas fosse justamente a maneira que a escola encontrou para impedir trapaças óbvias.

— Acho que vamos ter que sobreviver por conta própria de algum jeito — falei.

— Sim… realmente parece ser o caso. Posso voltar a consultá-lo mais tarde? — perguntou Horikita, parando de andar.

— Desde que seja algo em que eu possa ajudar, claro.

— Isso já basta. Obrigada.

Horikita parecia ter algo para discutir com outra pessoa, porque voltou para dentro da sala de aula. Depois de observá-la retornar, decidi seguir em direção à saída.

*

ENQUANTO EU CAMINHAVA pelo corredor em direção à entrada principal…

— E aí!

Enquanto eu olhava para a tela preta do meu celular, esperando que ele finalmente ligasse, o aluno que me chamou não era outro senão Ishizaki Daichi, da Classe 2-B. Ele exibia um sorriso enorme no rosto. Imaginei que algo bom devia ter acontecido com ele.

— Ei, cara. Tentei te mandar mensagem, mas você não respondeu. Aí pensei em vir aqui pessoalmente.

— Desculpe. Minha bateria acabou.

— Relaxa, sem problema. Ei, só vou precisar de você por um minutinho, beleza? — disse Ishizaki.

— Estou sendo assaltado agora ou algo assim? — perguntei.

— Quê? Ah, fala sério, cara, essa foi boa. Existe alguém nesta escola capaz de te assaltar? — respondeu ele, entrando na brincadeira. — O quê? Você tinha alguma coisa pra fazer?

— Não. Eu estava indo de volta para o dormitório.

— É, imaginei. Então não tem problema nenhum, né? Bora — disse Ishizaki.

Com um sorriso despreocupado no rosto, Ishizaki fez sinal para que eu o seguisse.

Ele começou a andar cada vez mais rápido, praticamente me obrigando a acompanhá-lo. Se eu simplesmente ficasse parado, provavelmente o perderia de vista em segundos.

Por outro lado, se começássemos uma conversa ali mesmo no corredor e fizéssemos algum alarde, acabaríamos chamando atenção desnecessária.

Como eu tinha tempo livre naquele momento, decidi segui-lo. Mas, no instante em que virei a esquina, uma parede absurdamente enorme surgiu bem diante dos meus olhos.

Não… espera. Não era uma parede.

Era Yamada Albert, colega de turma de Ishizaki. Ele usava óculos escuros e, com um ar intimidador, colocou a mão direita sobre meu ombro.

— Hey — disse ele em inglês.

— Hey.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, então simplesmente respondi da mesma maneira que ele havia falado comigo. Mas o que exatamente era aquilo? Aquele "assalto" que parecia brincadeira começava a parecer um pouco mais real.

— Olá, Ayanokoji-kun.

Ao lado do gigantesco Albert — que eu inicialmente confundira com uma parede — estava Hiyori.

— É meio incomum ver vocês três juntos — comentei.

— Talvez você tenha razão — respondeu ela.

Eu tinha certeza de que Ryuen também apareceria, mas aparentemente isso não iria acontecer.

— Enfim, não é muito bom ficar parado aqui. Vamos nos mover — disse Ishizaki.

— Nos mover? Para onde? — perguntei.

— Hmm… é… Na verdade, eu não pensei nessa parte ainda — respondeu Ishizaki, esfregando a parte de baixo do nariz com o dedo indicador esquerdo enquanto soltava uma risada sem graça.

— Olha, estou com um mau pressentimento sobre isso tudo, então vocês poderiam simplesmente me deixar ir embora agora? — perguntei.

Eu tinha a sensação de que aquilo não terminaria bem de jeito nenhum, então pedi permissão para sair dali.

— Ei, qual é, cara? Você tá livre, não tá? A gente não vai deixar você escapar.

— Vocês… não vão me deixar ir? — repeti.

Albert, que estava atrás de mim, usou toda a força do seu enorme corpo para me segurar, prendendo meus braços para trás. Então Hiyori também segurou meu braço, aproximando-se de mim.

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Os dois haviam me capturado.

— Sinto muito, Ayanokoji-kun. Não podemos deixar você escapar.

— Hã…?

Finalmente, minha teoria de que eu estava sendo assaltado começava a parecer cada vez mais plausível.

…Certo, já chega dessa piada.

De qualquer forma, os três pareciam planejando me levar para algum outro lugar.

— Vamos chamar atenção aqui. Vamos para outro lugar, Ishizaki-kun.

— É. Mas pra onde? — perguntou ele.

— Essa é uma boa pergunta… Bem, que tal o seu quarto, Ishizaki-kun? — sugeriu Hiyori casualmente.

— Hã?! M-Meu quarto? N-Não, isso aí é meio… quer dizer! Nem pensar! Não dá! — gritou Ishizaki em pânico depois que ela sugeriu irmos para o quarto dele.

— Por quê? É inconveniente ou algo assim? — perguntou Hiyori.

— Bem, é que… ah, tem vários motivos. Quer dizer, você perguntou isso tão de repente e…

— Acho que ninguém se importaria se o seu quarto estivesse um pouco bagunçado, certo? — disse Hiyori, virando-se para Albert em busca de opinião.

Albert moveu lentamente sua enorme cabeça para cima e para baixo, concordando.

…Posso assumir que ele entende japonês?

Quer dizer, obviamente ele precisa acompanhar as aulas e fazer provas, mas eu gostaria de ouvi-lo falando japonês pelo menos uma vez.

— É-É isso aí! E não é só um pouco bagunçado, é tipo… extremamente bagunçado! Você nem teria onde pisar, de tão ruim que tá. Ah, droga, que pena! — disse Ishizaki.

— Não precisa se preocupar. Se for necessário, podemos ajudar a limpar — respondeu Hiyori.

— Não, não, não! Tem tipo… lenços e umas coisas lá, definitivamente não é o tipo de coisa que eu quero que uma garota ajude a limpar! — lamentou Ishizaki.

Ishizaki acabou deixando escapar exatamente o tipo de coisa espalhada pelo quarto dele.

— Lenços… e umas coisas? O que isso quer dizer? — perguntou Hiyori, inclinando a cabeça confusa.

— Enfim, meu quarto tá fora de questão! E-Então vamos pro quarto do Albert! — disse Ishizaki, mudando de assunto enquanto ainda entrava em pânico. — Isso! Quer dizer, o quarto do Albert deve ser perfeito, né? Né? Né?!

Ishizaki jogou a sugestão como se estivesse tentando fugir desesperadamente da situação.

— OK.

Então Albert realmente entendia japonês.

Ele respondeu brevemente, aceitando a proposta de Ishizaki. Em seguida, começamos a nos mover, com Albert me carregando nos braços.

— Então… eu realmente vou ser carregado assim até lá? — perguntei.

— Está tudo bem. Yamada-kun é muito forte — disse Hiyori.

É… esse não é exatamente o problema aqui. Se fosse para apontar um problema, era o fato de estarmos chamando atenção demais daquele jeito.

— Está tudo bem. De certa forma, isso também serve como uma espécie de mensagem — disse Hiyori, mantendo o mesmo sorriso gentil de sempre enquanto liderava o caminho.

— Isso aí! Boa, Shiina! Excelente ideia! — gritou Ishizaki.

O que diabos eles pretendiam fazer me arrastando desse jeito? Com essa dúvida em mente, fui levado até os dormitórios.

*

ERA A PRIMEIRA VEZ que eu visitava o quarto de Albert.

Embora ele fosse muito maior fisicamente do que os outros estudantes, o layout e a estrutura do quarto eram naturalmente iguais aos de todos os demais. Ainda assim, cada aluno decorava seu espaço de maneira diferente, e o quarto dele era um tanto peculiar.

Uma grande bandeira dos Estados Unidos e uma do Japão estavam penduradas no centro do quarto — e elas não eram as únicas. Havia inúmeras outras, incluindo a bandeira da China, da Itália, de alguns países africanos e muito mais.

As outras eram menores, mas estavam espalhadas por todas as paredes. A decoração transmitia uma certa paixão, especialmente porque as bandeiras não eram apenas impressões em papel, mas bandeiras de tecido de verdade.

— O Albert é meio fanático por bandeiras. Surpreso? — perguntou Ishizaki.

Ele devia ter visitado o quarto de Albert várias vezes antes, já que explicou aquilo de maneira totalmente natural.

— Sim, parece mesmo — respondi.

Depois que Albert finalmente me soltou, fez sinal para que eu me sentasse. Assim que confirmei que todos já estavam acomodados, resolvi perguntar logo o que queriam comigo.

— Então… o que exatamente vocês três querem?

Os três trocaram olhares entre si. Por algum motivo, todos exibiam sorrisos satisfeitos, como se estivessem se divertindo com aquilo. Então Ishizaki, representando o grupo, tomou a palavra.

— Vou mandar logo na lata. Aqui vai nossa proposta… Forma um grupo com a gente no próximo exame especial! — declarou Ishizaki.

Bem, essa era uma das possibilidades que eu já havia considerado. Então realmente tinha relação com o exame especial.

— Formar… um grupo? Pode explicar seu plano com mais detalhes? — perguntei.

— Como assim "mais detalhes" ? Isso já é tudo.

— Não, isso está longe de explicar tudo. Não faço ideia de com quem exatamente eu deveria formar parceria.

Havia quatro pessoas naquela sala naquele momento. Ou seja, uma delas estava sobrando. Além disso, Hiyori, por ser garota, não poderia participar devido às restrições de proporção entre gêneros. Era quase certo que Ishizaki queria sugerir que eu me juntasse a ele e Albert, mas como ele ainda não tinha explicado claramente o plano, eu não podia ter certeza.

— Sinceramente, tanto faz com quem. A gente não liga. Pode ser comigo, com o Albert, com a Shiina, qualquer um. O ponto é que queremos que você forme equipe com gente da nossa turma — disse Ishizaki.

Uau. Que proposta ousada e sem rodeios. Em certo sentido, era exatamente o tipo de ideia que só poderia surgir porque foi Ishizaki quem a propôs.

— Então você está dizendo que quer que eu forme um grupo com duas pessoas da Classe B?

— Isso mesmo. Aí, quando o exame começar, vocês se juntam com outro grupo de três pessoas da Classe B e formam uma equipe de seis. Vai ficar perfeito. Com cinco pessoas da Classe B e você, Ayanokoji, dá até pra mirar o primeiro lugar — disse Ishizaki.

Ele falava como se aquela ideia fosse algo tão sublime que chegava a emocionar. Mas era importante discutirmos aquilo com calma.

— Hiyori… Você explicou corretamente as regras do exame especial para o Ishizaki? Nos termos mais simples possíveis? — perguntei.

— Não — respondeu ela imediatamente. — Achei que, se eu interrompesse antes, acabaria tendo que corrigir alguma coisa dele depois de apenas cinco segundos. Então pensei que seria melhor deixá-lo terminar tudo primeiro.

É… eu realmente precisava questionar isso. Não acho que tenha sido a melhor escolha. Bem, era verdade que, apenas cinco segundos depois de ele começar a explicar a proposta, já dava para perceber claramente que havia várias coisas que ele não entendia sobre o exame…

— Certo. Embora existam muitos pontos que eu gostaria de levantar, vou me limitar a duas… não, três perguntas por enquanto. Primeiro: quando o exame especial começar, não há garantia nenhuma de que vocês conseguirão formar esse grande grupo tão facilmente assim — expliquei.

Na verdade, nossa professora já havia nos dito claramente que isso não seria simples. Se formar equipes fosse algo tão fácil quanto "Ei, vamos montar um grupo!" "Claro!", então não haveria sentido algum em nos obrigar a criar grupos de três pessoas nesta fase.

Se fosse pensar bem, isso apenas nos colocaria em desvantagem. O fato de termos liberdade para escolher nossos companheiros agora existia justamente porque formar grupos maiores durante o exame seria difícil.

— Hã? É mesmo? — Ishizaki claramente não entendeu absolutamente nada.

Ele inclinou a cabeça confuso e olhou para Hiyori em busca de explicação.

— Se você organizar tudo o que foi explicado até agora, então sim, dá para perceber isso. Em resumo, dependendo de como a situação evoluir, talvez sejamos obrigados a cooperar com grupos com os quais não esperávamos nos juntar — explicou Hiyori.

— Ah. E qual é a dessa? Não tô entendendo nada disso, cara.

— Durante o exame, pode haver certos pré-requisitos necessários para formar grupos com determinadas pessoas ou montar certas equipes. É disso que estamos falando.

— E que diabos isso quer dizer? — perguntou Ishizaki.

Suponho que, se ele entendesse o significado disso, não estaria tão perdido agora.

— Ainda não sabemos os detalhes. Mas, pelo que a escola explicou, podemos ter certeza de que não será simples — disse Hiyori.

— Mas… mesmo que existam condições, a gente precisa se preparar, né? A gente tem que começar a agir pensando em formar grupos, certo? — perguntou Ishizaki.

— Bem, colocando dessa forma… Sim, isso é verdade.

— Então tá tudo certo, não é? É só a gente seguir com o plano que eu falei e pronto. Vai dar tudo certo.

O fato de ele conseguir simplificar tudo daquele jeito era, honestamente, algo que eu até respeitava. Hiyori também escutava a proposta de Ishizaki com um olhar divertido.

— Quer dizer, não tem motivo pra eu ficar preocupado com coisa que nem entendo direito, né? — disse Ishizaki.

Será que eu podia considerar isso um dos encantos de Ishizaki Daichi?

— Bem, enfim… indo para o meu segundo ponto — continuei.

Como percebi que seria impossível fazê-lo compreender o primeiro, resolvi simplesmente seguir em frente.

— Além de mim, com quem mais vocês conversaram? Ou pretendem conversar com mais alguém? — perguntei.

— Não conversamos com mais ninguém, não. E também não estamos planejando falar com ninguém mais. Né? — disse Ishizaki, olhando para os outros dois em busca de confirmação.

Ambos assentiram em concordância.

— Então vocês falaram apenas comigo. E a razão disso seria…?

— Ué, não é óbvio? Você é tão incrível quanto o Ryuen-san… Não, pensando bem, acho que você tá até mais incrível que ele agora. Tipo, você é absurdamente forte em luta, e o próprio Ryuen-san reconheceu sua capacidade de pensar rápido. E, além disso tudo, você ainda tirou nota perfeita em matemática, cara. Isso é insano. Na minha visão, quem tiver o Ayanokoji praticamente controla o exame especial. Como eu não ia querer te convidar? — disse Ishizaki.

— Nossa, isso é um grande elogio, Ayanokoji-kun. Contudo, concordo com tudo o que ele disse — acrescentou Hiyori.

Albert também assentiu imediatamente, sem hesitar. Eu havia dito que levantaria apenas três pontos, mas agora queria fazer uma quarta pergunta. Quanto japonês Albert realmente entendia e falava?

Eu nunca o tinha visto participando nas aulas ou algo assim, mas obviamente ele estudava em japonês, então…

De qualquer forma, Ishizaki não negou que estavam basicamente tentando me recrutar…

— Certo, então o terceiro ponto… O que exatamente eu ganho com isso? Qual seria a minha vantagem? Porque, se eu assumir que todos os outros integrantes do meu grupo serão da Classe B e conseguirmos ficar em primeiro lugar nesse exame, então a única turma que realmente vai sair ganhando será a de vocês — falei.

Os Pontos de Classe que receberíamos poderiam até ser iguais, mas a quantidade de Pontos Privados obtida seria completamente diferente.

— Ah, cara, relaxa, não é nada demais. Claro que não vamos te prejudicar a ponto de você ser o único a sair perdendo. Certo? Quando subirmos para a Classe A, vamos pagar vinte milhões de pontos para te aceitar na nossa turma, Ayanokoji. O que acha? — disse Ishizaki, respondendo à minha pergunta de maneira confiante e cheia de certeza.

— Basicamente, ou você leva sua própria classe até a A, ou a nossa classe chega lá. Não importa de qualquer jeito. Tem 50% de chance de você se formar na Classe A.

O sorriso orgulhoso no rosto dele parecia dizer: "E aí, o que achou?"

O raciocínio dele até faria sentido se todas as quatro classes tivessem a mesma chance de chegar à Classe A. Nesse caso, minhas chances por meio da minha classe ou da dele seriam 50%. Mas não era assim que funcionava. Cada classe tinha um nível diferente, o que tornava impossível calcular com precisão as chances de cada uma chegar à Classe A.

Ainda assim, não dava para negar que ter mais uma classe na qual eu poderia potencialmente me mover era uma vantagem.

— Hiyori e o Albert também concordam, certo? — perguntou Ishizaki.

— Sim. Nós o receberíamos de braços abertos — disse Hiyori.

— Yes — disse Albert, em inglês.

Os dois aceitaram a proposta de Ishizaki com naturalidade, mesmo sabendo que aquilo era uma loucura. O que estava acontecendo aqui? Se eu fosse considerar aceitar essa proposta absurda por enquanto, havia um ponto importante que eu precisava esclarecer antes de qualquer coisa. Decidi fazer outra pergunta.

— Foi o Ryuen quem decidiu me convidar? Ou foi uma decisão só sua, Ishizaki?

Até então, Ishizaki tinha respondido tudo de forma descontraída, mas agora ele demonstrou pela primeira vez um semblante tenso.

— Foi minha decisão. O Ryuen-san não sabe de nada.

Então ele tinha elaborado aquele plano e tomado essa decisão sozinho. Eu já suspeitava disso, mas… ainda assim, era imprudente demais. Se fosse esse o caso, então agora eu entendia por que Ibuki, que normalmente ficava com Ishizaki, não estava ali.

Será que isso significava que Albert e Hiyori eram cúmplices dele?

— E você pensou no que pode acontecer se o Ryuen descobrir isso? — perguntei.

— Não. Nem precisei pensar nisso! Além disso… eu estou preparado.

Mesmo tremendo, Ishizaki tentava desesperadamente manter uma postura confiante.

— As regras dizem que não há problema em formar grupos com pessoas de outras classes, né? Então, se eu decidir te convidar, o que tem de errado nisso?

Isso era verdade. Se a política da classe deles fosse formar grupos apenas entre si, o Ryuen não teria motivo para reclamar da decisão de Ishizaki.

— A chave desse exame especial é garantir que os Pontos de Classe fiquem com o nosso ano e não sejam tomados por ninguém. Naturalmente, isso significa que precisamos mirar o topo do ranking geral. E o Ayanokoji-kun é indispensável para alcançar esse objetivo — disse Hiyori.

— Isso!

— Bem, embora ainda existam muitos pontos dessa sua proposta que me preocupam… eu entendo de onde você está vindo — eu disse.

— Então você vai entrar no nosso grupo? — perguntou Ishizaki.

— Apesar de não achar que você tenha feito algo errado ao me convidar, não posso aceitar agora.

— M-Mas por quê?

— Porque o Ayanokoji-kun precisa considerar a própria classe dele — disse Hiyori.

Mesmo tendo apoiado a proposta de Ishizaki, ela ainda entendia minha recusa sem precisar perguntar.

— Além disso, acho que os termos que oferecemos ao Ayanokoji-kun não são suficientes — acrescentou.

— Não suficientes…? O quê, você tá dizendo que vinte milhões de pontos não é suficiente?

— Não é isso. Em termos de quantidade de pontos, sim, é um valor excepcional. Porém, na prática, tudo o que estamos oferecendo a ele é o direito de se transferir para a nossa classe, correto?

— M-Mas a gente não pode simplesmente entregar vinte milhões e deixar ele ir pra classe da Sakayanagi ou algo assim…

Se eles me dessem liberdade total de uso desses pontos, obviamente eu iria para a classe com maior chance de se tornar Classe A no final. Evidente. Assim, a própria classe de Ishizaki não ganharia reforço algum ao me recrutar.

— Além disso, você disse ao Ayanokoji-kun que ele poderia se juntar a qualquer pessoa da Classe B, Ishizaki-kun. Mas isso também é um problema. Sobreviver em uma ilha deserta não é tarefa para uma única pessoa. Se vocês realmente pretendem lutar pelo primeiro lugar, as chances aumentam muito com companheiros capazes.

Hiyori, que até então apenas ouvira a proposta de Ishizaki em silêncio, passou a apontar friamente cada falha no plano dele. E a cada observação, Ishizaki ficava mais desesperado, suando frio.

— B-Bem, então qualquer um serve!

— Se fosse eu a escolher um grupo agora… sim. Eu escolheria Ryuen-kun, Kaneda-kun e Ayanokoji-kun para formar um grupo de três. Eu aceitaria substituir Kaneda-kun por Yamada-kun, mas o Ryuen-kun é indispensável — disse Hiyori.

Em termos de capacidade de liderança, ele era um dos melhores do nosso ano, além de ter a ousadia de quebrar regras com seus esquemas. No ano anterior, ele foi o único sobrevivente da sua classe na ilha deserta. Ele também tinha resistência física e mental suficientes para suportar aquilo tudo sozinho até o último momento.

Os outros dois citados eram Kaneda, o melhor aluno da classe deles, e Albert, que possuía uma força física impressionante. Era verdade que dois entre esses três seriam praticamente essenciais para maximizar as chances de vitória.

— Não fala coisa louca! Você acha mesmo que o Ryuen-san vai aceitar esse plano?! — gritou Ishizaki.

— Acho que ele vai recusar imediatamente — disse Hiyori.

— Óbvio! — berrou Ishizaki.

— E tenho certeza de que o Kaneda-kun também recusaria. Ele não ignoraria as ordens do Ryuen-kun para apoiar uma estratégia tão imprudente — continuou Hiyori.

— Então o que diabos a gente faz?! — lamentou Ishizaki.

— Não há muito o que possamos fazer, realmente. Pelo menos não neste momento — disse Hiyori.

— Urgh… isso é uma droga…

Ishizaki cruzou os braços e começou a quebrar a cabeça numa tentativa desesperada de ter alguma ideia, mas nada parecia vir à sua mente.

— De qualquer forma, conseguimos transmitir os desejos do Ishizaki-kun e os nossos, e acho que isso já deve ser suficiente — disse Hiyori.

Parece que esse tinha sido o objetivo dela o tempo todo. Ela já sabia desde o início que não seria fácil me convencer a entrar no grupo, então concluiu que o mais importante era apenas me mostrar que eles queriam trabalhar comigo.

Talvez Albert também tivesse entendido que aquilo era uma tentativa imprudente por parte de Ishizaki, porque deu um leve tapinha no ombro dele.

— Tá, entendi. Nesse caso, acho que não tem muito o que eu possa fazer…

Apesar da relutância, Ishizaki parecia convencido, pelo menos superficialmente, depois de ouvir a resposta ao seu plano.

— Não sei se consigo atender às suas expectativas. Vou pensar nisso por enquanto — eu disse.

Julguei que essa era a melhor resposta que eu poderia dar naquela situação. Dito isso, eu não tinha intenção de formar grupo com ninguém naquele momento, por causa de Tsukishiro e do aluno da Sala Branca que estava escondido entre os alunos do primeiro ano.

O primeiro semestre já estava quase no fim. Não havia chance de deixarem as coisas continuarem como estavam, permitindo que eu seguisse minha vida normalmente naquela escola.

O próximo exame especial provavelmente seria o campo de batalha final entre mim e Tsukishiro. Em outras palavras, era muito provável que ele lançasse um ataque contra mim sem se preocupar com aparências.

Se eu formasse um grupo, acabaria arrastando outras pessoas para isso.

E, se isso acontecesse, eu precisaria garantir que apenas eu fosse expulso. Seria o mínimo que eu poderia fazer — uma questão de cortesia, se nada mais.

Assim, reafirmei a situação em minha mente.

*

QUANDO TERMINEI de me arrumar para ir à escola na manhã seguinte, liguei meu celular. Recebi uma notificação informando que havia um e-mail privado da escola. Na mensagem, estava indicado que eu havia recebido a carta chamada "Trials and Tribulations".

— Nunca imaginei que acabaria recebendo uma das cartas especiais… — murmurei para mim mesmo.

Justo quando eu pensava que a fama de ter conseguido nota perfeita em matemática finalmente tinha esfriado… isso acontece. A carta "Trials and Tribulations" era poderosa, mas tinha um efeito de dupla face. Possuí-la provavelmente chamaria atenção.

Era mais seguro e preferível trocá-la com outro aluno que precisasse dela, mas como seu efeito podia ser tanto positivo quanto negativo, não era algo que poderia ser facilmente repassado a alguém de outra classe.

Se o grupo para o qual eu a entregasse ficasse em primeiro lugar, a responsabilidade cairia inteiramente sobre mim. Era possível que Tsukishiro tivesse colocado essa carta em minhas mãos de propósito para me expor e me expulsar, mas, considerando que as cartas eram transferíveis, essa estratégia seria fraca demais para realmente me eliminar.

Era mais natural interpretar isso como pura sorte do sorteio. As duas outras cartas especiais pareciam estar com Amikura Mako, da Classe C, e Yano Koharu, da Classe A, respectivamente.

A primeira havia recebido a carta "One More", e a segunda, "Nullify". Pelo menos, era uma sorte que as cartas tivessem sido bem distribuídas. Saí do dormitório um pouco mais cedo do que o habitual, refletindo sobre o que faria a partir dali.

Quando entrei no elevador, encontrei Shinohara.

— Bom dia.

— Bom dia — ela respondeu.

Mesmo sendo colegas de classe, não éramos particularmente próximos, então nos limitamos a essa troca simples enquanto descíamos até o saguão.

A viagem foi curta. Quando chegamos ao primeiro andar, apertei o botão de abrir e deixei Shinohara sair primeiro. No saguão, vimos Ike, que normalmente chegava relativamente tarde à escola. Ele olhou na minha direção, parecendo um pouco inquieto.

Achei que talvez estivesse esperando Sudou, mas não parecia ser o caso, já que ele apenas a cumprimentou rapidamente ao cruzarem e ficou observando-a sair. Logo depois que ela saiu, porém, ele a seguiu.

Eu reduzi meu ritmo, mantendo certa distância dos dois para não interferir.

— Ei, Shinohara — disse Ike.

— O quê? — ela respondeu.

Quando saí do prédio, consegui ouvir a conversa dos dois levada pelo vento, embora apenas fragmentos.

— Então, sobre esse lance do exame da ilha deserta e formar grupos… só queria saber se você já falou com alguém sobre formar equipe — perguntou Ike.

— Não, ainda não falei com ninguém… por quê? — respondeu Shinohara.

— Ah, não é nada demais. Só curiosidade.

— Entendi… e você? Vai se juntar com o Sudou-kun e o Hondou-kun, né?

— Isso é ruim? Quer dizer, seria divertido ficar com aqueles caras — disse Ike.

— É, acho que sim…

Shinohara riu como se estivesse zombando dele, mas Ike não pareceu se importar. Parecia que ele tinha algo a dizer, mas estava lutando desesperadamente para colocar em palavras.

— É que… sei lá. Acho que eles conseguem se virar sozinhos mais ou menos… e o Ken é forte, então, em termos de força de trabalho, ele já daria conta do grupo inteiro, eu acho — disse Ike.

— Hmm.

Apesar da reação um pouco fria de Shinohara, não parecia que ela desgostava de conversar com Ike.

— Tá, não sei bem como dizer isso, mas… eu posso te ajudar quando precisar, sabe? Então, se você estiver com problemas… bem, você pode formar um grupo comigo, ok? — disse Ike.

— Que história é essa? Olha você, todo convencido — respondeu Shinohara.

— Ei, você me viu em ação no ano passado, não viu? Eu sou bom nesse tipo de coisa que esse exame pede — disse Ike.

Ele estava tentando convencer Shinohara de que ela poderia aproveitar as habilidades dele. Mas, na prática, o motivo de Ike fazer aquilo parecia ser simplesmente o desejo de formar dupla com ela.

— Bem, acho que posso pensar nisso… Você quer mesmo entrar no mesmo grupo que eu? — perguntou Shinohara.

— Ah, e-ei, não vai entendendo errado, tá? Olha, você é tipo… uma das pessoas que corre risco de ser expulsa, certo? Por isso estou dizendo que eu, um cara bondoso como sou, vou me sacrificar pra te proteger — disse Ike, sem conseguir expressar o que realmente queria e acabando por soltar algo que certamente irritaria Shinohara.

— Como é?! Sacrifício? O quê? Eu não me lembro de ter pedido isso! — gritou ela.

E claro, considerando a forma como Ike havia colocado sua proposta, não havia a menor chance de Shinohara aceitar aquilo de maneira tranquila.

O clima entre os dois começou a azedar rapidamente. Justo quando a atmosfera ficava pesada, Kushida se aproximou e chamou Ike por trás.

— Bom dia, Ike-kun. Você tem um minuto?

No instante em que ouviu Kushida, Ike desviou o olhar de Shinohara e acenou animadamente para ela.

— Ooooh, o que foi?! Tô totalmente livre agora! — exclamou ele.

Ele deixou Shinohara e foi até Kushida. Shinohara apenas observou enquanto ele se afastava, com um olhar frio.

— Na verdade, Kobashi-san da Classe C disse que queria te convidar para o grupo dela, Ike-kun. Acho que ela já está na escola agora. Você acha que poderia conversar com ela? — perguntou Kushida.

— Sério?! Beleza, vamos lá! Agora mesmo! — gritou Ike, claramente empolgado por estar sendo chamado por uma garota.

— Ah, mas parece que você estava falando com a Shinohara-san agora há pouco… Tudo bem o Ike-kun ir falar com ela? — perguntou Kushida, querendo garantir que estava tudo bem.

— Tá tudo bem sim. Ele já tava me irritando com aquela falação toda. Pode levar ele — disse Shinohara.

— Ei, você que tá me irritando! — gritou Ike.

Os dois não se seguravam. Ike era o principal culpado ali, mas mesmo assim ele saiu com Kushida saltitando de empolgação. Shinohara permaneceu parada, observando-os se afastar com um olhar um pouco solitário.

Não demorou muito até que eu passasse por ela. Como posso dizer… Ike era o tipo de pessoa que se empolgava com facilidade demais. Ele parecia ter ficado tão eufórico por ser convidado por uma garota que acabou deixando passar algo importante.

— Satsuki.

De repente, ouvi alguém chamar o primeiro nome de Shinohara por trás. Não pude deixar de me virar para ver quem era.

— Ah, Komiya-kun… bom dia — disse Shinohara.

Era ninguém menos que Komiya Kyougo, da Classe 2-B.

— O que houve? Você está chorando? — perguntou ele.

— Hã? P-Por que diz isso? — respondeu ela.

— Seus olhos estão vermelhos.

— Ah, deve ser poeira ou alguma coisa que caiu no meu olho agora há pouco… ai — disse Shinohara, tentando disfarçar e fingir naturalidade.

— Ah, isso me lembra… o Sudou-kun disse que você vai ser titular no time de basquete. É verdade? — perguntou ela.

— É. Finalmente.

— Bom, você sempre treina até tarde, então não dá pra dizer que não merece — disse Shinohara.

Ela permaneceu parada enquanto conversava com Komiya, então a distância entre nós aumentou enquanto eu seguia andando. Conforme avançava, as vozes deles foram ficando cada vez mais distantes, até que eventualmente não consegui mais ouvi-las.

*

— Vejo que você também teve sua dose de azar ao tirar a carta "Trials and Tribulations" . Aposto que já está chamando atenção de novo — disse Horikita assim que chegou à sala de aula.

— É… eu estava passando pela mesma agonia mental esta manhã.

— Seria bom se pudéssemos trocar cartas livremente dentro da nossa própria classe. Um aluno que não tem confiança para vencer com certeza não quer a carta "Trials and Tribulations", mas também não podemos simplesmente entregá-la a alguém confiante de vitória — disse Horikita.

A carta que Horikita havia tirado era a "Half Off".

Era útil em caso de penalidade, mas, para um aluno que estivesse mirando posições mais altas no ranking, não era grande coisa.

— Em todo caso, já que as coisas chegaram a esse ponto, você vai ter que se esforçar, ficar entre os trinta por cento melhores e, se possível, ganhar o prêmio — disse Horikita.

— Você está falando comigo como se eu fosse um estranho. Não está nem um pouco preocupada comigo, como colega de classe? — perguntei.

— Se você realmente quiser tanto depender de mim assim, eu te ajudo, claro.

Horikita estava ficando cada vez mais ousada. Ou melhor, mais difícil de lidar do que antes. O olhar incendiário que ela me lançava parecia dizer: "O que foi agora?". Isso só me dava menos vontade ainda de contar com ela.

— Desculpa, mas se eu encontrar alguém que queira, posso acabar passando para essa pessoa — respondi.

— O que você decidir fazer é totalmente por sua conta. Espero que você consiga encontrar alguém para ficar com isso, de verdade. A carta "Trials and Tribulations" afeta não só o dono, mas o grupo inteiro. É um risco perigoso — disse Horikita.

Era até educado da parte dela explicar assim, mas para mim soava como sarcasmo.

— Só para deixar claro, eu estava sendo sarcástica — acrescentou ela.

— Eu imaginei.

— Isso é um pagamento por todas as vezes que você me atormentou — disse Horikita.

— Eu não me lembro de ter te atormentado assim.

Enquanto a carta "Trials and Tribulations" era um fardo, também podia funcionar como uma espécie de proteção. Eu podia esperar que o número de pessoas dispostas a fazer grupo comigo diminuísse sem que eu precisasse fazer nada. No pior dos casos, teria que considerar começar o teste na ilha deserta sozinho, com essa carta em mãos.

— Já que estamos falando de você, posso assumir que vai dar conta? — perguntou Horikita.

Eu podia contar com Horikita como líder da classe, mas certamente havia alunos que precisavam do apoio dela. Seria melhor não sobrecarregá-la.

— É… vou tentar fazer o meu melhor — respondi.

Disse a Horikita que lidaria com aquilo sozinho e me sentei. Enquanto investigava quem havia recebido quais cartas, ouvi um grito alto de Ike, que havia chegado atrasado à sala.

— Hã? Espera… você já encontrou alguém pra formar grupo?! — berrou Ike.

— Sim, encontrei. Tem algum problema nisso? — respondeu Shinohara.

Aparentemente, Shinohara havia decidido formar grupo com alguém enquanto esteve separada de Ike. Provavelmente, o parceiro era…

— Qual é! Eu te chamei pra entrar no meu grupo antes! E além disso, a gente nem pode formar grupo sem permissão da Horikita! Isso é proibido! — gritou Ike.

— Não é proibido. De qualquer forma, o grupo nem está confirmado ainda… embora eu pretenda confirmar hoje — disse Shinohara.

— O quê—?

— E além disso, do que você está falando? Que convite? Quem foi que ficou babando por outra garota e me ignorou? — disse Shinohara.

— Ei, não foi nada disso! Eu até recusei ela por sua causa, sabia! — gritou Ike.

— Ah, agora recusou, é? Ugh, você está me irritando. Você é a pior pessoa do mundo — disse Shinohara.

— Com quem você formou grupo, afinal? — perguntou Ike.

— O que isso tem a ver com você? — ela retrucou.

— Nada… só curiosidade — disse Ike.

— Komiya-kun, da Classe B. Ele me convidou logo depois que o exame especial começou ontem — disse Shinohara.

Então era Komiya mesmo. Provavelmente um dos dois tinha mencionado isso enquanto iam para a escola juntos.

— Komiya? Espera, aquele Komiya? O exibido do time de basquete? Não brinca! — disse Ike.

No fundo, Ike provavelmente achava que Shinohara entraria no grupo dele. Ele devia estar preso a essa suposição arrogante.

— Ele não é exibido. Ele combinou de me encontrar no café depois da aula para conversarmos — disse Shinohara.

Depois disso, ela virou as costas para Ike. Para os colegas que ouviam aquilo na sala, aquilo provavelmente soava como mais uma discussão comum entre os dois.

Depois da aula, Shinohara saiu imediatamente, como disse que faria. Ike a observou em silêncio, mas logo depois também saiu da sala, como se tivesse tomado uma decisão.

Yousuke, tendo visto a situação, se aproximou de mim depois que Ike saiu.

— Ei, tem um minuto? — perguntou ele.

Talvez para evitar que alguém ouvisse, ele disse que queria falar no corredor, então fui com ele.

— Sobre o Ike-kun… acho que não é uma boa ideia deixar isso como está — disse Yousuke.

— Sim. Apesar de ele ser meio egoísta, é claro que o conhecimento e a experiência dele vão ser úteis no exame da ilha deserta. É possível que esse incidente com a Shinohara atrapalhe o desempenho dele — respondi.

— Também acho. E, considerando como ele estava, estou preocupado com o que pode acontecer se ele vir a conversa entre a Shinohara-san e o Komiya-kun.

Dava para entender a preocupação de Yousuke. Não era uma boa hora para conflitos com a Classe B.

— Eu queria ir ver como está a situação. Você se importaria de ir junto? O Ike-kun não gosta muito de mim — disse Yousuke.

Se me perguntassem, eu também não tinha certeza se Ike gostava de mim. Ainda assim, era compreensível o receio de Yousuke.

— A Shinohara-san disse que ia se encontrar com o Komiya-kun no café, certo? — perguntou Yousuke.

— Sim. Talvez devêssemos ir até lá por enquanto — respondi.

— Certo — disse Yousuke.

Decidi ir até o café do Keyaki Mall junto com o Yousuke. No caminho, conversamos um pouco sobre os planos de formação de grupos.

— Eu queria sugerir um plano em que toda a nossa série trabalhasse junto contra os alunos do primeiro e do terceiro ano, mas pelo que parece, as outras classes não têm intenção de colaborar. Se apenas os alunos do segundo ano se unissem e concordassem em não deixar ninguém da nossa série ser expulso, não seria impossível passarmos sem perder ninguém. Embora, claro, isso provavelmente traria bastante sofrimento se fosse colocado em prática — disse Yousuke, pensativo.

Eu já havia discutido algo parecido com a Horikita no dia anterior. Poderíamos garantir que ninguém fosse expulso ao perdermos o exame de propósito. No entanto, a série que executasse esse tipo de plano inevitavelmente sofreria um dano considerável. Era irreal esperar que todos estivessem dispostos a dividir esse peso.

— Acho que tudo o que podemos fazer é formar grupos dos quais não vamos nos arrepender — eu disse.

— É… — ele respondeu.

— Tenho certeza de que você já deve ter sido convidado por bastante gente, não é, Yousuke? — perguntei.

Era impossível que ele não tivesse sido abordado. Ele era popular entre garotos e garotas, e suas habilidades eram equilibradas em todos os aspectos.

— Pessoalmente, acho que quero escolher duas pessoas da Classe D. Em vez de mirar no topo, quero tentar enfrentar esse exame de um jeito que evite penalidades — disse Yousuke.

Se fosse para proteger alguém, seriam os alunos da Classe D, não os das outras classes. Isso era natural. Estudantes talentosos e populares não teriam dificuldade em encontrar parceiros, mas os menos capazes não teriam a quem recorrer, nem mesmo dentro da própria turma.

— E a Sakura-san está bem? — perguntou Yousuke.

Ele estava preocupado com a Airi, que fazia parte do meu círculo de amizades e era a mais fraca em termos de capacidade.

— Por enquanto, ela está pensando em formar grupo com o Akito e a Haruka — respondi.

— O Miyake-kun é atlético e tem boa coordenação motora, então esse grupo não parece desbalanceado — disse Yousuke.

Embora o Keisei tenha ficado de fora desse grupo, ele já havia sido abordado várias vezes por alunos de outras classes que queriam recrutá-lo por causa da sua inteligência. Se escolhesse alguém que compensasse sua fraqueza física, ele poderia formar um grupo bastante forte.

No entanto, enquanto seguíamos o Ike, surgiu um problema. Alguém estava nos seguindo. Quem quer que fosse, antes evitava ser notado, mas agora parecia estar permitindo que eu percebesse sua presença, como se estivesse preparado para isso.

O Ike entrou direto no Keyaki Mall, então agora éramos apenas eu, o Yousuke e o seguidor atrás de nós. Essa situação de múltiplas "perseguições cruzadas" continuou. Ignorar essa pessoa não seria difícil, mas se isso se repetisse no futuro, poderia se tornar um problema. Quando nos aproximamos do Keyaki Mall, parei por um instante.

— Desculpa, Yousuke. Você se importaria de ir na frente? — perguntei.

— O que houve? — ele perguntou.

— Lembrei de uma coisa que preciso resolver. Acho que te alcanço em uns dez minutos, mais ou menos — respondi.

— Tudo bem. Se acontecer alguma coisa, me liga ou manda mensagem — disse Yousuke.

Sem pedir mais detalhes, ele entrou no Keyaki Mall e desapareceu de vista. Logo depois, a pessoa que nos seguia se aproximou, como se entendesse que aquele era o momento.

Era minha colega de classe: Matsushita Chiaki.

— Você não parece surpreso. Percebeu que eu estava te seguindo desde o começo? — ela perguntou.

— Só não demonstro surpresa no rosto — respondi.

Essa era a primeira vez desde as férias de primavera que eu conversava a sós com a Matsushita. Não, na verdade, mesmo sem contar o "a sós", também era a primeira vez desde então.

— Sobre o que você estava falando com o Hirata-kun? Sobre o Ike-kun? Sobre o exame da ilha deserta? — ela perguntou.

Matsushita, agora ao meu lado, olhava para mim como se tentasse me decifrar.

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— E o que isso tem a ver com você, Matsushita? — perguntei.

— Bem, eu diria que não é tanto um assunto meu, mas sim nosso. Afinal, você é alguém particularmente importante para nós conseguirmos chegar à Classe A, Ayanokoji-kun — disse Matsushita.

Ela parecia ter uma opinião bastante elevada a meu respeito, mas o que exatamente ela queria?

Considerando o quão perspicaz a Matsushita era, ela deveria saber que uma tentativa sutil de persuasão por meio de elogios não funcionaria comigo. Ainda assim, eu não conseguia imaginar que ela tivesse vindo até mim sem nenhum motivo.

— Não precisa ficar tão alarmado. Eu vim falar com você hoje porque tinha algo que precisava te dizer o quanto antes — disse Matsushita.

— Algo para me dizer? — repeti.

— A carta " Trials and Tribulations " é um item com efeitos poderosos, mas difícil de lidar. Se você estiver com problemas, eu gostaria de te oferecer minha ajuda, Ayanokoji-kun. O que acha? — perguntou ela.

Deixando de lado minhas próprias intenções e pensamentos, ela demonstrava disposição para me ajudar a qualquer momento, por estarmos no mesmo lado. Quando não respondi, ela pareceu um pouco desconfortável.

— Acho que você não vai me dar uma resposta se eu não falar diretamente, não é? — disse Matsushita.

Eu não estava tentando ser rude com ela, mas também não queria entrar numa conversa desse tipo com tanta gente indo e vindo por perto. Era depois da aula, e já havia vários alunos circulando. Não era como se a Matsushita não tivesse percebido isso também. Ainda assim, sem esperar minha resposta, ela continuou:

— Você precisa ficar entre os primeiros colocados para evitar penalidade, então está tendo dificuldade em encontrar pessoas para formar grupo, certo? Foi por isso que eu quis que você pudesse contar comigo, caso estivesse em apuros — disse Matsushita.

Depois disso, como se tivesse se esquecido de algo importante, ela acrescentou rapidamente:

— Claro, eu pretendo seguir completamente suas instruções durante o exame, Ayanokoji-kun.

Aparentemente, essa era a mensagem que ela queria me transmitir, chegando ao ponto de me seguir deliberadamente para isso.

— Sinceramente, fico feliz que esteja se oferecendo para ajudar, mas se não ficarmos entre os trinta por cento melhores, você também será penalizada. Entende que está assumindo esse risco, Matsushita? — perguntei.

— Entendo. É exatamente por isso que acho importante cooperar com você, ajudando, Ayanokoji-kun.

Não era como se eu achasse que ela não tinha boas intenções. Mas eu sentia que a verdadeira essência do pedido dela estava em outro lugar.

Enquanto reprimia a vontade de encerrar logo aquilo e me encontrar com o Yousuke, virei-me para a Matsushita, que caminhava ao meu lado.

— Você concluiu que suas chances de sobrevivência são maiores se formar um grupo comigo? — perguntei.

Em termos simples, normalmente seria de se esperar que o grupo com a carta " Trials and Tribulations " tivesse uma chance maior de ser eliminado. Ainda assim, Matsushita havia se oferecido para me ajudar sem demonstrar preocupação com o risco. Eu não conseguia interpretar aquilo como algo feito apenas por boas intenções.

— Acho que fui descoberta, hein? — disse Matsushita, sorrindo abertamente, como quem se rende. — Eu pensei que não seria difícil para você se manter entre os grupos de melhor desempenho, Ayanokoji-kun. Afinal, é você. Mesmo que não chegue ao topo, é praticamente certo que ficará entre os trinta por cento melhores. Seria mais perigoso para mim priorizar amigos e entrar em um grupo aleatório sem pensar — disse Matsushita.

Esses eram seus verdadeiros sentimentos. Ela me comparou aos outros alunos que poderia ter escolhido e acabou optando por mim.

— Eu achei que você poderia acabar sendo "levado" por alguém, Ayanokoji-kun — acrescentou.

Então ela veio falar comigo o quanto antes. Assim, era mais fácil entender suas intenções, já que ela havia vindo com sua avaliação pronta. Eu agradecia a oferta, mas desde o início não pretendia tomar uma decisão definitiva ali. E isso não era culpa da Matsushita. Teria sido o mesmo, independentemente de quem tivesse vindo até mim.

— Não vou decidir meu grupo agora, pelo menos não este mês — eu disse.

— Quer dizer que vai apenas observar o que acontece? — perguntou ela.

— Quero ver o que as outras classes vão fazer — respondi.

Dei uma resposta plausível. Mas o que me preocupava era bem diferente do que um aluno comum consideraria. Um exame especial na ilha deserta exigia preparação extensa. Era impossível imaginar que Tsukishiro não estivesse envolvido nisso de alguma forma.

Já havia se passado um mês e meio desde o último exame especial, e ainda não havia nenhum movimento significativo da parte dele. Com o passar dos dias, nos afastávamos do plano original de me expulsar até o fim de abril. Como o aluno da Sala Branca vinha agindo por conta própria, os planos de Tsukishiro haviam se desviado do curso.

Algo provavelmente aconteceria neste estágio, durante a formação dos grupos. Esse período podia ser chamado de batalha preliminar. Havia um elemento de perigo que nem mesmo a Matsushita seria capaz de enxergar. Se ela se envolvesse, não conseguiria sair facilmente depois.

— Bem, parece que não vou conseguir uma resposta satisfatória agora. Entendi. Nesse caso, por favor, pense mais um pouco sobre isso — disse Matsushita.

Ela provavelmente não tinha intenção de insistir muito no assunto, já que logo recuou, acenando com a mão em despedida.

— Ah, quase me esqueci. Aqui estão meus dados de contato pessoal — acrescentou.

Ela me entregou um papel com seu ID escrito. Parecia ter preparado aquilo com antecedência.

— Bem, eu disse o que queria dizer.

Matsushita falou de forma rápida e eficiente, sem perder tempo. Depois de fazer sua proposta, virou-se e voltou em direção ao dormitório.

— Não é ruim receber o contato de outra garota — murmurei para mim mesmo.

Por enquanto, não estava claro se eu conseguiria corresponder às expectativas de Matsushita no futuro.

Depois disso, me encontrei com Yousuke no Keyaki Mall.

— Qual é a situação? — perguntei.

— Bom… não acho que vá ser o pior cenário ou algo assim, mas… — respondeu ele.

Segui o olhar de Yousuke e vi Shinohara e Komiya conversando alegremente na cafeteria, em uma conversa descontraída. Um pouco mais afastado deles, avistei Ike de costas, curvado, com uma postura abatida, observando os dois em silêncio.

— O que devemos fazer? — perguntou Yousuke.

— Por enquanto, se ele não mostrar sinais de que vai perder o controle e invadir lá dentro, acho melhor apenas observarmos. Chamá-lo agora pode não resolver nada — respondi.

Yousuke concordou com um aceno.

— Enquanto isso, acho que devemos investigar mais sobre o Komiya. Não sei quais são as intenções dele ao convidar a Shinohara para o grupo, mas não podemos agir antes de entendê-las — acrescentei.

— Vou pensar em quem seria a melhor pessoa para o Ike fazer dupla, caso ele não consiga ficar com a Shinohara, só por precaução — disse Yousuke.

— Por favor — respondi.

Ambos concordamos em nos separar e reunir informações individualmente.

*

Depois de me separar de Yousuke, liguei para Ishizaki, que estava na turma do Komiya, e pedi para ele vir até mim. Ele disse que ainda estava na escola, então fui até onde ele estava. Assim que nos encontramos, Ishizaki correu até mim com um enorme sorriso no rosto.

— Ei, cara! Você já decidiu fazer grupo com a gente?!

— Não, ainda não decidi. Desculpa. Na verdade, queria falar com você sobre outro assunto hoje — respondi.

Quando disse isso, ele pareceu um pouco desapontado, mas logo se recompôs.

— Qual foi, cara? Fala aí — disse Ishizaki.

Eu estava prestes a ir direto ao assunto quando notei uma garota se aproximando dele. Era Nishino Takeko, da Classe 2-B.

— O que é isso? Então o seu compromisso era encontrar o Ayanokoji-kun? — disse Nishino.

— Hey, eu te disse pra não me seguir, não disse, Nishino? Desculpa, Ayanokoji — disse Ishizaki.

Depois de se desculpar comigo, ele tentou mandar Nishino ir embora em direção ao Keyaki Mall. Ela não obedeceu e, em vez disso, se aproximou de mim.

— Você é próximo do Ishizaki, hein? É meio surpreendente ver vocês dois juntos — disse Nishino, me observando com atenção.

Percebi também que ela não usou nenhum honorífico ao falar do nome dele.

— Ei, você nunca escuta ninguém! É por isso que todo mundo te evita! — gritou Ishizaki.

— Evita? — repeti.

— Ah, é… ela meio que tá sozinha na nossa turma. Não tem nenhum amigo. É meio problemático — explicou Ishizaki.

— Sozinha? Não me incomoda muito — disse Nishino.

Isso me lembrou que Ibuki também era um tipo de pessoa solitária. Nishino parecia ser semelhante a ela.

— Enfim, vai andando, tá? — disse Ishizaki.

— Não — respondeu Nishino.

— Não? Ei, qual é… desculpa, Ayanokoji, espera só um pouco. Vou tirar ela daqui — disse Ishizaki.

— Só estou curiosa. Por que você está se encontrando em segredo com o Ayanokoji-kun, Ishizaki? — disse Nishino.

Eu nunca havia conversado com Nishino antes, mas ela parecia ser do tipo que fala o que pensa sem hesitar. Esse tipo de pessoa costuma arrumar muitos inimigos, mas, como eu e Ishizaki estávamos nos encontrando ali, era compreensível que ela achasse estranho. Ignorá-la sem explicar talvez não fosse produtivo.

Decidi então explicar a Nishino o motivo do meu encontro com Ishizaki. Primeiro, dei um pouco de contexto antes de ir direto ao ponto.

— O Ishizaki e eu estivemos no mesmo grupo durante o acampamento do ano passado. Ficamos amigos lá — expliquei. — Eu o chamei porque quero saber algumas coisas sobre o Komiya da Classe B. E como não queríamos que isso fosse ouvido por outras pessoas, pedi para ele me encontrar aqui.

— Sobre o Komiya-kun? O que você quer dizer? — perguntou Nishino.

Ela, aparentemente, não deixava de usar honoríficos quando se tratava do Komiya. Dito isso, continuei explicando o que estava acontecendo.

— Ouvi dizer que ele prometeu formar um grupo com a Shinohara, da minha classe. Vocês sabiam disso? — perguntei.

— Não, é a primeira vez que ouço isso. Mas, tipo… não é tão estranho assim, né? — disse Ishizaki.

Formar grupo com alguém de outra classe não era, de fato, nada fora do comum. Então não era estranho que Ishizaki estivesse curioso sobre o motivo da minha pergunta.

— Então, qual é a questão? — acrescentou ele.

— Mesmo no melhor dos cenários, a Shinohara não é o tipo de pessoa que se sai bem no exame da ilha deserta. Nossa classe está preocupada se formar um grupo com o Komiya pode acabar sendo um problema. Eu queria saber que tipo de pessoa ele é — respondi.

— Acho que ele é um cara normal e gente boa, sabe? É bem coordenado e tal, joga basquete, então tem resistência — disse Ishizaki.

Ele então virou para Nishino, buscando confirmação, com um olhar que dizia "não é?". Ela pareceu concordar, já que respondeu com um aceno imediato, como se não houvesse problema algum.

— Pelo que parece, um dos dois convidou o outro pra formar grupo. Eles estão saindo ou algo assim? — perguntei.

— Hã? Uh… não sei, acho que não… — disse Ishizaki.

— Não tem como você descobrir isso perguntando pra ele. O Ishizaki não sabe absolutamente nada sobre amor — disse Nishino.

— Cala a boca! E você, sabe alguma coisa?! — gritou Ishizaki.

— Eu sei mais do que você, pelo menos. Não acho que eles estejam namorando, mas tenho quase certeza de que o Komiya-kun gosta da Shinohara-san — disse Nishino.

Aquilo pareceu ativar a memória de Ishizaki, que então comentou:

— Uou, sério? O Komiya gosta da Shinohara? Ah, mas agora que você falou… acho que ele já comentou algo sobre gostar de uma garota de outra turma… mas é só uma lembrança meio vaga — disse Ishizaki.

Se estudantes vão formar um grupo, naturalmente procuram certos fatores: talento, laços de amizade… ou até sentimentos românticos, talvez. Se, como Nishino disse, Komiya tivesse sentimentos pela Shinohara, não seria estranho ele querer formar grupo com ela.

— Mas por que você se importa com isso, afinal? — perguntou Ishizaki.

— Eu os vi juntos hoje de manhã. Como o Komiya chamou a Shinohara pelo primeiro nome, imaginei que fossem próximos. Achei que poderia estar acontecendo alguma coisa — respondi.

— Hã… espera aí. Ayanokoji, você… por acaso… gosta da Shinohara? — perguntou Ishizaki.

— Não.

Respondi imediatamente, mas Ishizaki abriu um sorriso satisfeito, como se algo tivesse se encaixado na cabeça dele.

— Cara, então você só tá fingindo ser esse sujeito quieto, mas na verdade tem uma garota que você gosta. Tá, entendi — disse Ishizaki.

— Eu disse que não é verdade.

— Ah, não tenta esconder de mim. A gente não é parceiro? — disse Ishizaki.

Eu não achava que fôssemos tão próximos assim até o exame do acampamento, mas era verdade que, ultimamente, ele tinha se tornado mais próximo de mim do que muitos colegas da minha própria turma.

— Mas, sério, cara… conhecendo você, podia conseguir uma garota muito mais bonita — disse Ishizaki.

Se isso continuasse, havia chance de começarem rumores completamente distorcidos. E, se isso acontecesse, a relação entre Ike e Shinohara poderia piorar ainda mais.

— É o Ike. O Ike da minha turma. Ele é quem gosta da Shinohara — expliquei.

— Hã? O quê? Então não é você, Ayanokoji? — disse Ishizaki.

— Por isso estou aqui, tentando descobrir o que está acontecendo — acrescentei.

— Tá, agora entendi o que você quer dizer. Mas amor não é algo em que a gente possa simplesmente se intrometer, sabe? — disse Ishizaki.

— Concordo. Acho que se envolver nisso seria errado — disse Nishino.

— Normalmente, sim, eu concordaria. Mas, no caso da nossa classe, essa é uma situação que não podemos ignorar, já que a participação do Ike nesse exame é essencial — respondi.

Quanto mais a relação entre Ike e Shinohara ficasse abalada, maior era a chance de ele acabar tomando decisões impulsivas. E isso não era bom, considerando que o exame da ilha deserta — onde suas habilidades poderiam ser úteis — estava se aproximando.

No entanto, o que eu estava pedindo não trazia benefícios para a Classe B. Na verdade, era como ajudá-los a beneficiar um inimigo. Não era algo que eles aceitariam tão facilmente. Pelo menos, era o que eu pensava.

— Tudo bem. Se precisar, eu te dou uma mão. O que eu devo fazer? — perguntou Ishizaki.

Ishizaki se ofereceu para ajudar sem se importar com nada.

— Espera, Ishizaki… você tá falando sério? Você não é amigo do Komiya? — disse Nishino.

— E daí? Eu vou simplesmente abandonar o Ayanokoji aqui, quando ele tá em apuros? — respondeu Ishizaki.

— Sim, deveria abandoná-lo. Entendo que vocês são amigos, mas vocês deveriam ser inimigos — disse Nishino.

— Dizem que inimigos de ontem podem ser amigos amanhã, né? — respondeu Ishizaki.

Tecnicamente, ele deveria ter dito "amigos de hoje", mas deixei passar.

— É gentil da sua parte oferecer ajuda, mas pode ser complicado se você estiver esperando algo em troca — respondi.

— Em troca? Nada disso, cara. Não tô pedindo nada. É normal ajudar um amigo quando ele tá em apuros — disse Ishizaki.

Ishizaki não sabia mentir. Ele parecia realmente disposto a me ajudar sem exigir nada em troca. Eu era grato por isso, mas, considerando que ele era amigo do Komiya, eu não podia fazer um pedido absurdo. Além disso, se eu tentasse separar Komiya e Shinohara de forma descuidada, isso provavelmente seria mal visto, especialmente por Nishino.

— Então, nesse caso… você poderia tentar fazer o Komiya dizer o que ele realmente sente? — perguntei.

— Você quer saber se ele realmente gosta da Shinohara? — disse Ishizaki.

— Sim. Mas, por favor, mantenha em segredo o fato de que alguém está querendo saber disso — respondi.

— É, claro que vou. Mas como é que eu vou perguntar isso pra ele? Tem alguma ideia? — disse Ishizaki.

Ishizaki estava em dúvida porque não tinha um motivo real para perguntar aquilo a Komiya, mas Nishino interveio para ajudá-lo.

— Ayanokoji-kun, você viu os dois juntos se divertindo, certo? Então por que vocês não fingem que foi o Ishizaki quem viu isso, e ele usa isso como motivo para perguntar se eles estão namorando? Não funcionaria? Além disso, o Ishizaki não é muito popular, né? Então ele provavelmente se incomodaria se um amigo dele o deixasse pra trás nesse tipo de coisa — disse Nishino.

Ishizaki aceitou imediatamente a proposta, já que não tinha muitas ideias melhores.

— Bom, é meio fraco como motivo, mas… tá, eu faço isso. Espera um segundo. Ainda não começou o clube, então… — disse Ishizaki.

Ele disse que achava que o plano poderia funcionar e então ligou para Komiya.

— Ah, oi, Komiya? Desculpa te ligar antes do treino do clube. É que queria te perguntar uma coisa. Você tava falando com a Shinohara da Classe D hoje de manhã? …Cara, eu sabia. Pô, achei que a gente fosse tipo irmãos de guerra, sem namorada e tudo. E você já foi me deixando pra trás assim… — disse Ishizaki.

Ele conduziu a conversa melhor do que eu esperava.

— Ah, então vocês não estão namorando? Então deve ser isso mesmo. Mas se eu descobrir depois que você tava mentindo, a gente vai ter um problema, tá? — disse Ishizaki.

Ele confirmou que os dois não estavam namorando e fez um gesto de "ok" na minha direção. Mas, de repente, sua expressão mudou um pouco.

— Hã… sério? Ah… entendi, entendi…

Até então eu conseguia acompanhar a conversa, mas de repente ficou mais difícil captar o que estava sendo dito. Ishizaki passou a ouvir com atenção o que Komiya falava do outro lado da linha.

— É isso? Hã… tá, entendi. É, cara, eu te entendo. Acho que chegou a hora de você virar homem. Tô torcendo por você, claro. Me avisa depois, beleza? — disse Ishizaki.

Pelo rumo da conversa, consegui entender mais ou menos o que Komiya havia dito. Quando terminou a ligação, Ishizaki me olhou com uma expressão um pouco desconfortável.

— Então… o Komiya tá planejando se declarar pra Shinohara. Ele vai fazer isso na ilha — disse Ishizaki.

— Entendo — respondi.

Se eles formassem um grupo, ficariam juntos na ilha o tempo todo, 24 horas por dia. Haveria muitas oportunidades para ele se declarar.

— E agora? Não tem como impedir isso, né? — disse Ishizaki.

Ele estava certo. Komiya tinha o direito de se declarar. Além disso, tanto Ike quanto Shinohara ainda não tinham dado o primeiro passo. Se alguém os ultrapassasse nesse momento, talvez fosse simplesmente assim que as coisas deveriam ser.

— Enfim, valeu pela ajuda. Vou conversar com a Horikita sobre isso. E se a Nishino estiver com dificuldade para formar grupo, pode me chamar. Talvez eu consiga ajudar — respondi.

— Eu já disse que não quero nada em troca — disse Ishizaki.

— É só como você mesmo disse. Se você estiver em apuros, eu também vou ajudar. Desde que esteja ao meu alcance — respondi.

— Valeu. Você também tá com bastante coisa pra resolver, então se cuida — disse Ishizaki.

Decidi então ir até Horikita para relatar o que havia acontecido.

*

NAQUELE MESMO DIA À NOITE, chamei Horikita para a cafeteria. Como havia muitas pessoas ao redor, seria difícil alguém acompanhar nossa conversa específica, mesmo que estivesse tentando escutar.

Contei a ela sobre Ike, que tinha um interesse por Shinohara, mas não conseguia dar o primeiro passo. Também falei sobre Komiya, que gostava de Shinohara e pretendia se declarar para ela. Além disso, expliquei como tudo isso poderia afetar o próximo exame.

A reação de Horikita a tudo isso foi…

— Não seria melhor simplesmente deixá-los em paz?

Eu já esperava algo assim pela metade, mas sua resposta foi de uma indiferença fria.

— Você disse que queria falar comigo sobre algo, então fiquei curiosa. Mas isso não é algo em que outras pessoas devam se envolver. Além disso, eu valorizo as habilidades de acampamento do Ike. Devemos colocá-lo em um grupo de forma a aproveitar ao máximo suas capacidades, deixando sentimentos pessoais de lado — disse Horikita.

— Não tenho tanta certeza. Parece que o Ike não consegue tirar a Shinohara da cabeça. Dependendo de como as coisas evoluírem, ele pode não conseguir manter o mesmo desempenho de antes. Se fosse só isso, tudo bem, mas existe a possibilidade de ele ficar tão distraído que acabe prejudicando o grupo — respondi.

— Você está dizendo que ele vai ficar desestabilizado e acabar sendo expulso? — disse Horikita.

— Não posso afirmar com certeza que isso é impossível.

— Nesse caso, isso pode ser um problema. Isso é simplesmente estúpido — respondeu Horikita, soltando um suspiro amargo, como se estivesse no limite da paciência.

— Parece que Komiya e Shinohara já prometeram formar um grupo, mas ainda não oficializaram por causa das suas instruções. Se você permitir, é quase certo que eles vão formar o grupo. Você é a líder da Classe D. Se disser à Shinohara que se unir ao Komiya é uma má escolha estratégica, ela não poderá ir contra isso — expliquei.

— Então você está dizendo que precisamos impedi-los. Mas, se proibirmos que fiquem juntos, o Komiya-kun só vai escolher outro momento para se declarar. Dependendo da situação, ele pode até fazer isso no mesmo dia — disse Horikita.

— Não podemos descartar essa possibilidade — admiti.

— Esse problema é mais complicado do que vale a pena. É impossível prever o que vai acontecer antes de eles oficialmente virarem um casal — disse Horikita.

— Então o que você acha que devemos fazer? — perguntei.

— Por que não fazemos o Ike-kun se declarar logo e dizer o que sente pela Shinohara-san? Se ela reagir bem, ele vai se esforçar ao máximo para não ser expulso, independente do grupo em que estiver. Por outro lado, se ela rejeitá-lo, ele pode simplesmente desistir dela e focar no exame — disse Horikita.

Embora eu concordasse que o primeiro cenário era provável, não tinha certeza de que o segundo aconteceria tão facilmente. Havia a possibilidade de ele cair em desespero e perder completamente a motivação. Mas poderíamos discutir isso o dia inteiro. Era verdade que fazer o Ike se declarar agora seria a solução mais simples e direta.

— Você é bom em muita coisa, mas quando o assunto é amor, é realmente desastroso, não é? — disse Horikita.

— Estou estudando bastante isso agora — respondi.

— Pelo amor de… tudo bem. Vou ver o que posso fazer. Enquanto isso, devo tentar ajudar o Ike-kun e a Shinohara-san a formarem um grupo juntos? — disse Horikita.

Mesmo ainda estando no meio da refeição, Horikita pegou o celular e abriu o aplicativo OAA. Porém, nesse momento, um fato inesperado veio à tona.

— Infelizmente, parece que é tarde — disse Horikita.

Ela deslizou o celular pela mesa até mim. Na tela do OAA, era possível ver que grupos já haviam sido formados. Os nomes de Shinohara e Komiya já apareciam juntos, no mesmo grupo. Eles estavam em um grupo de três pessoas, junto com Kinoshita Minori, da Classe B.

— Já que chegou a esse ponto, teremos que tomar medidas para evitar que o Ike-kun perca a motivação — disse Horikita.

— Vamos conversar sobre isso com o Yousuke também. Ele já estava pensando em ideias para o melhor grupo para o Ike — respondi.

Formar grupos para o exame especial da ilha deserta estava se mostrando uma tarefa cheia de dificuldades.

*

NAQUELE MESMO DIA À NOITE, começou o meu "encontro em casa" com a Kei, algo que já tinha se tornado comum entre nós. O assunto da conversa girava principalmente em torno dos grupos, começando pela separação entre Ike e Shinohara após a briga mais cedo.

— Ei… Kiyotaka, com quem você vai formar grupo nesse exame? — perguntou Kei, olhando para mim com um leve ar de timidez.

— Não pretendo entrar em grupo com ninguém no momento — respondi.

— Hã? P-Por quê?

Eu conseguia perceber que Kei queria formar um grupo comigo, mas mesmo que fizéssemos isso, não seria vantajoso para mim. Não era que ela fosse incapaz. O problema era que, considerando o confronto com Tsukishiro, ela não seria adequada para essa situação.

— Existem vantagens em formar um grupo. No entanto, isso não significa que seja impossível vencer sozinho. Na verdade, há vantagens em poder agir livremente, sem ser influenciado pelos outros. Além disso, dependendo da situação, você pode até ajudar outros grupos. Se um grupo estiver prestes a ser eliminado, você pode intervir e cobrir a situação — expliquei.

— Então você está dizendo que, no geral, é melhor ser mais flexível e adaptável estando sozinho — respondeu Kei.

Seja homem ou mulher, era permitido participar desse exame sozinho. Em outras palavras, havia uma chance de estudantes versáteis conseguirem vencer por conta própria.

— Se um aluno ficasse em primeiro lugar agindo sozinho, isso significaria que apenas a própria classe dele receberia 300 pontos de classe — eu disse a ela.

— Você acha que conseguiria ficar em primeiro lugar, Kiyotaka? Quer dizer, considerando que é você…

— O que você acha? — perguntei.

Depois de devolver a pergunta, nossos olhares se encontraram. Ficamos nos encarando por um tempo, até que Kei ficou tensa, perdida em pensamentos.

— Eu sinto que… você conseguiria ficar em primeiro lugar sem nem suar. Hã? Mas espera, pera aí. Se você ficar em primeiro lugar, vai ficar ainda mais difícil eu dizer pras pessoas que estamos namorando, não vai?! — ela gritou, entrando em pânico ao imaginar o futuro.

— Se você ficar em primeiro lugar sozinho, Kiyotaka, acho que eu ficaria tão feliz que desmaiaria. Eu pensaria que você é super incrível. Mas, mas… ah! Eu não sei o que é melhor fazer! — acrescentou.

— Você está ficando animada demais. Não se preocupe com isso. Não é como se ficar em primeiro lugar fosse algo tão fácil — respondi.

— E-Espera, isso quer dizer que você não acha que pode vencer? — ela perguntou.

— Vamos dizer que minhas chances são cinquenta e cinquenta — respondi.

— Só de dizer que você tem cinquenta por cento de chance já é algo incrível… — disse Kei.

— Enfim, o que você deveria estar preocupada agora não é com quem vai formar grupo, Kei.

— Hã? Espera, isso não é muito importante? Se eu errar, posso ser expulsa — disse Kei.

— Isso mesmo. Existe o risco de expulsão nesse exame especial. Se você ficar entre os cinco últimos, será penalizada. No entanto, você não pode simplesmente escolher livremente com quem vai formar grupo — expliquei.

— Tá. Pra ser sincera, eu queria formar grupo com você, Kiyotaka… Eu quero que você me proteja — disse Kei.

Kei basicamente já tinha me pedido isso antes, ainda que de forma indireta. Mas agora ela tinha falado de forma direta o que sentia.

— Existem formas de te salvar sem eu precisar te proteger, sabia? Quero dizer, você pode guardar a quantidade de Pontos Privados necessária para se salvar.

— Bom… sim, isso é verdade, mas… — disse Kei, parando por um instante.

Embora exigisse uma quantidade considerável de Pontos Privados, isso significava que, se você tivesse essa quantia, não seria expulso.

— Sim, isso é verdade. Mas mesmo se você formar um grupo de seis pessoas durante o exame, ainda precisaria de um milhão de pontos para evitar a expulsão, certo? Eu não tenho tudo isso — disse Kei.

— Quantos pontos você tem agora? — perguntei.

— Vejamos… 240.000, acho. M-Mas eu tenho economizado bem ultimamente! — disse Kei.

Eu não tinha dito nada que soasse como crítica à falta de pontos dela. Como eu estava em uma situação financeira parecida, não podia julgá-la.

— Então você está com falta de 760.000 — respondi.

Eu tinha cerca de 250.000 pontos comigo. Mesmo que eu entregasse tudo a ela, ainda ficaria com apenas cerca de 500.000 no total.

— Kei, você tem o cartão "Free Ride" , certo? — perguntei.

— Sim. Mas qual é o valor dele, na prática? — ela perguntou de volta.

— Sinceramente, não posso dizer que é um bom cartão. Para o bem ou para o mal, parece ser o que menos impacta o usuário. Não é o tipo de cartão que aumenta suas chances nem que te ajuda quando você erra — expliquei.

Basicamente, você só poderia apostar em algum grupo que provavelmente venceria. Em termos de valor puro, era um dos menos úteis.

— É… você tem razão — respondeu Kei, soltando um suspiro desanimado. Ela já sabia disso, no fundo. — Você tem o cartão "Trials and Tribulations", né, Kiyotaka? Ele tem efeitos fortes se você vencer, mas se perder, é bem traumático… Ah, mas claro que você não vai ter problemas, Kiyotaka. Eu queria mesmo era ter tirado o "Half Off" ou o "Nullify".

Do ponto de vista da Kei, era natural preferir um cartão que a ajudasse diretamente naquele exame.

— Não é como se o seu cartão não tivesse utilidade. Provavelmente há muitos alunos que acham os cartões "Half Off" ou "Nullify" inúteis. Para esses alunos, pode haver valor no "Free Ride" — respondi.

Diferente dos cartões de "Head Start" e "Bônus", o dela não chamaria atenção de alunos confiantes. Por outro lado, ele era voltado para alunos medianos, que não acreditavam que poderiam vencer. Além disso, esse grupo provavelmente era o mais numeroso, o que facilitaria encontrar alguém para trocar.

No entanto, cartões como "Half Off" eram muito desejados por alguns alunos tanto do grupo intermediário quanto do inferior. Eles desejariam tanto que quase seria palpável. Dependendo de quem o possuísse, alguns cartões poderiam parecer inúteis, enquanto outros brilhariam como ouro puro.

— Eu vou cuidar dos pontos — eu disse a ela.

— Hã? Você vai cuidar… mas como? — ela perguntou.

— Existem várias formas de fazer isso. Uma delas é vender o cartão "Trials and Tribulations" para conseguir os fundos necessários — respondi.

— Mas isso significa que você pode acabar tendo que abrir mão do seu cartão… Tem certeza? — perguntou Kei.

— É mais importante garantir que você não seja expulsa — respondi.

— Okay… o-o-obrigada — ela respondeu, corando.

Depois disso, conversamos sobre as férias de verão, que eram empolgantes, mas os novos desenvolvimentos da nossa relação foram deixados para depois.

*

A escola havia permitido que os alunos formassem grupos de até três pessoas até que o exame especial de verão começasse de fato. No entanto, havia uma conversa acontecendo que não se limitava apenas a isso. Era também uma discussão sobre o futuro.

— Que bom que você veio, Ichinose-san.

— Desculpe por ter feito você esperar, Sakayanagi-san.

Era após a aula da primeira sexta-feira depois dos alunos receberem permissão para começar a formar grupos. Sakayanagi havia chamado Ichinose e pedido que ela fosse até o café.

— É um bom momento? Pensei que talvez você recusasse meu convite por ter sido tão repentino — disse Sakayanagi.

— Está tudo bem, não tem problema nenhum. Mas, para ser sincera, fiquei um pouco surpresa. Não achei que você fosse me chamar, Sakayanagi-san.

Naquele dia, apenas uma hora antes de se encontrarem no café, Sakayanagi havia entrado em contato de repente com Ichinose. Se a agenda de Ichinose estivesse cheia, não seria estranho se ela tivesse recusado, claro.

— Eu realmente queria te encontrar hoje e conversar com você, Ichinose-san.

Aquilo era uma mentira por parte de Sakayanagi. Convidar Ichinose de forma repentina, sem aviso prévio, fazia parte de sua estratégia. Era para não dar tempo de ela pensar. Se tivessem marcado com alguns dias de antecedência, Ichinose teria refletido sobre o assunto da conversa e, dependendo da situação, poderia até ter buscado ajuda com colegas como Kanzaki. Isso era uma medida preventiva de Sakayanagi para evitar exatamente isso.

— De qualquer forma, por que você aceitou meu convite tão de repente? — perguntou Sakayanagi.

— Por quê? Bom… eu não tinha planos hoje — disse Ichinose.

— Não é isso que eu quis dizer. Eu fiz coisas terríveis com você antes, Ichinose-san. Achei que não seria estranho se você me odiasse — disse Sakayanagi.

Sakayanagi havia, em suas conversas anteriores, extraído secretamente informações sobre o passado de Ichinose como parte de um plano para derrubá-la. Ela a havia atormentado ao expor para várias pessoas algo que Ichinose queria manter escondido. Quando alguém em quem você confia trai essa confiança, é natural que surjam sentimentos de ódio ou, no mínimo, desconfiança e afastamento.

No entanto, não só Ichinose respondeu imediatamente ao convite repentino de Sakayanagi, como também não demonstrou qualquer sinal de ressentimento.

— Não, na verdade eu não acho que você tenha feito nada particularmente horrível comigo, Sakayanagi-san. É verdade que o que fiz no ensino fundamental foi algo que eu mesma precisava refletir, e eu me sinto envergonhada por isso. Mas não foi como se eu tivesse pedido explicitamente para você manter aquilo em segredo de todo mundo, então seria errado da minha parte te culpar pelo que aconteceu — disse Ichinose.

O que Ichinose estava dizendo era que, no fim, ela mesma havia exposto seu passado, então a responsabilidade era sua.

— Você é, sem dúvida, uma pessoa realmente boa, Ichinose-san — disse Sakayanagi.

— Não tenho tanta certeza disso… Eu mesma não sei — respondeu Ichinose, meio sem jeito, coçando levemente a bochecha. Parecia envergonhada, desviando o olhar de Sakayanagi como se não suportasse aquele olhar gentil.

— Então… sobre o que você queria conversar? — perguntou Ichinose.

Talvez Ichinose sentisse que seria estranho continuar aquele assunto, então apressou Sakayanagi a ir direto ao ponto.

— Como quiser, vou direto ao assunto. No entanto, suspeito que você possa se sentir desconfortável com o que tenho a dizer — disse Sakayanagi.

Depois desse aviso, Ichinose murmurou baixinho:

— Espero que ela pegue leve comigo…

— Peço desculpas pela franqueza, mas não tenho certeza se você conseguirá sequer retornar à Classe B, quanto mais alcançar a Classe A. Gostaria de saber o que você pensa sobre isso. Poderia me dizer? — disse Sakayanagi, apontando a situação atual de Ichinose sem qualquer hesitação.

— Ah… ahaha… isso foi bem direto — respondeu Ichinose.

Por um instante, a mente de Ichinose ficou em branco. Então, com um sorriso amargo, ela começou a se abanar com a mão. Sakayanagi, com um sorriso deliberado no rosto, apenas observava em silêncio, esperando a resposta.

— É verdade que a nossa situação não é nada boa — disse Ichinose.

Até o dia primeiro de maio, havia apenas uma diferença de vinte e seis pontos de classe entre a classe de Ichinose e a de Ryuen, com Ichinose tentando alcançá-los. Como esses pontos variavam mensalmente com atrasos e faltas, ela acreditava que ainda poderiam alcançar o adversário caso não houvesse exames especiais.

Na verdade, os pontos acumulados ao longo do ano vinham principalmente desses pequenos ganhos diários que, com o tempo, se somavam.

No entanto, depois que as posições se inverteram e a classe de Ryuen se tornou Classe B, eles não demonstraram nenhuma fraqueza a ser explorada. Em junho, a diferença até diminuiu ligeiramente, mas apenas em dois pontos. Ichinose conseguia sentir claramente a forte determinação de Ryuen e de seus seguidores em não deixá-la ultrapassá-los.

Isso era algo que Sakayanagi, agora sendo perseguida por Ryuen, conseguia perceber sem nem precisar dizer em voz alta.

— Estou bem ciente de que eles são adversários formidáveis — acrescentou Ichinose.

— Mesmo sabendo disso, ainda existem coisas que você simplesmente não consegue fazer nada a respeito, não é? A classe barulhenta e excessiva do Ryuen-kun não tem causado problemas recentemente com seu comportamento, o que é tão surpreendente que chega a ser praticamente impensável. Se você não consegue alcançá-los por meio das atividades diárias, então não há outra opção a não ser colocar corpo e alma nos futuros exames especiais — disse Sakayanagi.

Ichinose assentiu timidamente. Sakayanagi, porém, não tinha nenhuma intenção de responder com palavras doces ou gentis.

— Ele não é o tipo de oponente que você derrota tão facilmente. Não é exagero dizer que ele é o tipo de adversário mais difícil para você, Ichinose-san, já que você tem uma abordagem muito honesta e direta — disse Sakayanagi.

Esse ponto era algo que Ichinose entendia muito bem, tendo enfrentado Ryuen diretamente no exame especial de fim de ano. Ryuen era coercitivo, anormal e certamente não hesitava em quebrar as regras. A verdadeira intenção de Ichinose provavelmente era evitá-lo, se possível.

— Mas, bem, isso é algo que eu não posso evitar se quiser chegar ao topo. E embora seja verdade que o Ryuen-kun seja um adversário difícil, você também não é alguém que possa ser derrotada tão facilmente assim, Sakayanagi-san — disse Ichinose.

Mesmo depois de uma breve disputa com Katsuragi, que também era da Classe A, eles ainda tinham quase o dobro de pontos da classe de Ryuen, mantendo uma liderança sólida. A Classe A estava, sem dúvida, muito à frente de todas as outras. Mesmo que fosse derrotada uma ou duas vezes, seria difícil tirá-la do primeiro lugar.

— Mesmo havendo uma diferença de mais de duzentos pontos entre a sua classe e a Classe D, o que você acha que pode acontecer considerando o ritmo deles? Você está confiante de que não serão ultrapassados? — perguntou Sakayanagi.

— A classe da Horikita-san também está crescendo rapidamente, em grande velocidade. Em termos de habilidade individual, eles têm pessoas capazes de competir de igual para igual com qualquer outra classe… Quando vejo por esse lado, posso dizer que definitivamente não tenho tanto espaço para erro — disse Ichinose.

— De fato, há vários indivíduos interessantes e excepcionalmente talentosos na Classe 2-D. Primeiro, você tem Hirata-kun e Kushida-san, ambos com ótimas habilidades de comunicação e notas equilibradas. Depois há Sudou-kun, o único aluno a alcançar avaliação A+ em capacidade física. E também Ayanokoji-kun, que fez um ataque surpresa como um soldado à espreita ao tirar nota máxima na prova de matemática, uma matéria excepcionalmente difícil. E ainda temos Koenji-kun, alguém cujas verdadeiras habilidades ainda não podem ser totalmente avaliadas, tornando-o outro indivíduo perigoso — disse Sakayanagi.

Sakayanagi fez Ichinose sentir novamente a profundidade da Classe 2-D ao destacar deliberadamente suas forças.

— Por fim, há a líder em torno da qual todos se reúnem, a Horikita-san. Ela é bastante talentosa tanto academicamente quanto fisicamente, e eu até ouvi dizer que ela entrou para o conselho estudantil recentemente — acrescentou.

Sakayanagi mais uma vez confirmou a situação em que Ichinose se encontrava.

— Lamento muito continuar dizendo coisas tão duras, mas acho que é apenas uma questão de tempo até que sua classe seja rebaixada para a Classe D, Ichinose-san.

— Bom, não dá para negar que nossa avaliação atual realmente justifica isso. Mas——

— Vai dizer algo abstrato, como "vamos superar isso com esforço e amizade" ? — disse Sakayanagi, cortando-a.

Ichinose foi obrigada a engolir suas palavras quando Sakayanagi antecipou exatamente o que ela diria.

— É impossível vencer com ideias tão vagas. Todas as classes evoluíram claramente ao longo do último ano, mas não vejo nenhum crescimento significativo vindo da sua classe, Ichinose-san.

— Isso… isso não é verdade. Todos têm evoluído bastante.

— Eu não disse que vocês não cresceram. O problema é o quanto cresceram — disse Sakayanagi.

— Pode não acreditar, mas eu não acho que vamos perder, Sakayanagi-san — disse Ichinose.

Sakayanagi, com um leve sorriso nos lábios, apenas balançou a cabeça lentamente de um lado para o outro.

— Se você olhar para o OAA, a resposta é óbvia. Se comparar a capacidade geral das quatro classes deste ano com a do ano passado, verá que a sua classe é, sem dúvida, a que apresentou o menor crescimento entre elas. Eu achei que você ao menos teria conferido isso, Ichinose-san… Mas talvez você já soubesse e fingisse não perceber… ou talvez estivesse com medo de verificar por si mesma — disse Sakayanagi.

Ichinose recordava com firmeza um momento anterior em que estivera sozinha com Sakayanagi. Era quase como um adulto diante de uma criança. Era natural que Ichinose se sentisse diminuída, sendo pressionada cada vez mais contra um canto. Ela não conseguia responder a Sakayanagi, que explorava com precisão sua fraqueza.

— Você é uma aluna inteligente. Em um tête-à-tête honesto e equilibrado, não acho que você ficaria atrás de mim de forma alguma. No entanto, você não consegue demonstrar suas habilidades quando colocada em uma posição desfavorável. Tanto naquela época quanto agora, você só consegue permanecer em silêncio enquanto sua fraqueza é explorada. No entanto, eu e o Ryuen-kun, com quem você está enfrentando agora, conseguimos mostrar as garras quando estamos em desvantagem. Entende? — disse Sakayanagi.

— Eu… sim, entendo.

Aquelas duas pessoas não duvidariam de sua própria força, independentemente da situação em que estivessem.

— Acho seguro dizer que, como você está agora, Ichinose-san, não tem chance de vencer.

— Foi por isso que você me chamou aqui para conversar? — perguntou Ichinose.

— Se eu estivesse apenas tentando te incomodar, poderia fazer isso a qualquer hora, em qualquer lugar. Não desperdiçaria meu precioso tempo — disse Sakayanagi.

Então, Sakayanagi decidiu revelar o verdadeiro motivo de tê-la chamado ali.

— Por que não se une a mim, Ichinose-san?

— Hã…?

A proposta chocante de Sakayanagi surpreendeu Ichinose a ponto de deixá-la sem palavras.

— Espera, mas isso é…

— Um relacionamento cooperativo entre classes não é algo terrível. Na verdade, se bem me lembro, você teve algo parecido com a Horikita-san da Classe D durante o primeiro ano, não teve? — perguntou Sakayanagi.

Não era estranho que Sakayanagi tivesse ouvido falar daquela aliança.

— Agora, isto é apenas uma suposição minha, mas acredito que a Classe D talvez já tenha anulado a parceria com você. Mesmo estando na última posição do ranking, eles acumularam mais pontos de classe do que qualquer outra classe em um ano, e estão ganhando impulso. Em comparação, a sua classe, Ichinose-san, ficou um passo atrás e foi rebaixada para a Classe C. Do ponto de vista da Horikita-san e dos colegas dela, continuar colaborando com você não traria nenhum benefício — disse Sakayanagi.

Sakayanagi resumiu perfeitamente e de forma sucinta o que havia acontecido, quase como se tivesse testemunhado a conversa entre Ichinose e Horikita. Ichinose não conseguia negar nada disso. Ela respondeu de um modo que soava meio como uma admissão aberta.

— Sim… acho que sim. Parcerias não podem durar para sempre — disse Ichinose.

— Sim. Para que uma parceria cooperativa seja mantida, uma certa condição precisa ser cumprida. Sua classe e a classe da Horikita-san cumpriram essa condição no ano passado. E foi justamente por isso que vocês conseguiram estabelecer uma boa relação sem lutar em vão — disse Sakayanagi.

Ichinose assentiu timidamente em concordância.

— E essa tal condição era… a diferença de pontos de classe — acrescentou Sakayanagi.

De fato, era exatamente isso. A verdade era que o motivo pelo qual as classes de Ichinose e Horikita fizeram um acordo de cessar-fogo foi a diferença de pontos de classe entre elas.

— Embora eu não ache que isso tenha sido intencional, agora existe uma diferença bastante substancial entre a minha Classe A e a sua Classe C, Ichinose-san. Em outras palavras, acho que não seria impossível nos unirmos — disse Sakayanagi.

— O triste é que não consigo encarar isso como uma proposta feliz. Porque isso implica que a nossa classe é insignificante para você, que nem sequer valemos a pena ser levados em consideração, Sakayanagi-san.

— Se me permite ser sincera, isso é exatamente verdade.

A realidade implacável das palavras de Sakayanagi atingiu Ichinose em cheio. Mas Ichinose não deixou de sorrir. Embora a negação emocional fosse fácil, ela não podia ignorar a realidade de que sua classe estava em crise.

— Não consigo imaginar que haja algum benefício para você em se aliar a nós, Sakayanagi-san.

— Não, isso não é totalmente verdade. Se olharmos apenas em termos de poder, sim, vocês ficam atrás. No entanto, vocês possuem uma arma poderosa que nenhuma outra classe tem — disse Sakayanagi, com um sorriso.

— E essa arma é… a confiança. Posso afirmar com absoluta certeza que, enquanto nossas classes estiverem aliadas, você não me trairá, aconteça o que acontecer. Isso é de extrema importância ao procurar um aliado — disse Sakayanagi.

Um parceiro com quem se pudesse ficar tranquilo, em quem fosse possível confiar para proteger as costas. Sakayanagi dizia que isso, por si só, já valia uma aliança.

— Fico feliz que pense tão bem de mim, mas estamos em uma situação em que não dá exatamente para nos preocuparmos com aparências, certo? — disse Ichinose.

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— Sim, isso é verdade. No entanto, não consigo imaginar que você abandonaria essa arma chamada confiança, que construiu com tanto esforço até agora, Ichinose-san. Se você realmente abandonasse essa confiança e me traísse, a culpa recairia inteiramente sobre mim por ter julgado de forma incorreta — disse Sakayanagi.

Mesmo que aquilo fosse uma armadilha preparada por Sakayanagi, Ichinose não conseguia deixar de sentir que ser confiada não era algo ruim. No entanto, ela já havia levado em consideração o fato de que Sakayanagi era alguém com quem não podia baixar a guarda.

— Posso pedir que me dê mais detalhes sobre o que você está pensando? — perguntou Ichinose.

— Devo entender isso como um sinal de que você deseja avançar com esta parceria? — respondeu Sakayanagi.

— Sim, é isso mesmo.

— Nesse caso, vamos discutir.

Sakayanagi passou a agir, tentando colocar a Classe 2-C, liderada por Ichinose, sob sua influência.

— O próximo exame especial, em que precisamos sobreviver em uma ilha deserta, tem regras bastante problemáticas. Só podemos formar grupos com alunos do nosso mesmo nível de série, e as recompensas são distribuídas igualmente. Isso significa que, mesmo que você reunisse os melhores dos melhores de cada classe, isso não criaria nenhuma diferença nos pontos de classe — disse Sakayanagi.

— Sim, você está certa quanto a isso. Por isso, é inevitável que tenhamos que formar um grupo capaz de vencer dentro das nossas próprias classes — disse Ichinose.

— Mas, nesse cenário, não se poderia dizer que você consegue selecionar livremente os melhores dos melhores para formar seu grupo, não é? Inevitavelmente haveria certas áreas que cada classe não conseguiria cobrir sozinha… No entanto, e se duas classes trabalhassem juntas? Eu diria que seria uma história diferente se pudéssemos escolher livremente entre um total de setenta e nove pessoas — disse Sakayanagi.

— Então, se sua classe e a nossa classe trabalhassem juntas…

— Embora vocês não consigam reduzir a vantagem da Classe A, conseguiriam ultrapassar a classe do Ryuen-kun e também aumentar a distância em relação à Classe D — disse Sakayanagi.

— Mas… se fizermos isso, significa que estaremos perdendo a oportunidade de alcançar sua classe, Sakayanagi-san.

— À medida que avançamos para o segundo e o terceiro semestre, não é sua prioridade voltar a uma posição estável? Mesmo que você recuse se unir a mim aqui, isso não significa necessariamente que você vai vencer. Estou errada?

— Bem…

— Por outro lado, se você perder para as outras classes, será rebaixada para a Classe D, Ichinose-san. Você perderá muitos pontos de classe, o que a colocará em uma situação extremamente complicada. Se isso acontecer, será quase impossível mirar na Classe A, não seria? — disse Sakayanagi.

Ichinose novamente ficou em silêncio, incapaz de responder ao que Sakayanagi havia dito.

— Acho que você ainda tem algumas dúvidas sobre mim. Mas não creio que haverá muitas chances de as outras classes se aliarem entre si. Nem a Classe B nem a Classe D jamais se uniriam a mim, já que pretendem alcançar a Classe A. A única opção delas seria D, C e B formarem uma coalizão e desafiar a Classe A juntas. Assim, poderiam formar grupos fortes — disse Sakayanagi.

Não importava o quão forte fosse a Classe A, se B, C e D trabalhassem juntas, as chances de vitória da Classe A seriam pequenas.

— Seria mentira se eu dissesse que não pensei nisso também — disse Ichinose.

— Sim, de fato. No entanto, a união de D, C e B não é uma estratégia realista. Ichinose-san, você recebeu alguma notícia de alguém sobre isso nos poucos dias desde que fomos informados de que poderíamos formar grupos? — perguntou Sakayanagi.

Ichinose, com os olhos baixos, balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro.

— Se três classes se unissem, isso significaria que as recompensas em pontos de classe seriam divididas igualmente entre elas. Mesmo que vocês se esforçassem ao máximo e conseguissem o primeiro lugar, só reduziriam a diferença conosco em meros cem pontos. Se ficassem em segundo lugar, sessenta e sete pontos. E se ficassem em terceiro, trinta e três pontos — disse Sakayanagi.

Mesmo que as Classes 2-B, 2-C e 2-D conseguissem garantir todas as primeiras posições, isso ainda reduziria a vantagem da Classe A em apenas cerca de 200 pontos. Embora não fosse pouco, seria difícil monopolizar os primeiros lugares nesse exame especial.

— É natural querer vencer por conta própria e reduzir a diferença em 300 ou 400 pontos — disse Sakayanagi.

— Mas se entrarmos em parceria, Sakayanagi-san, a Horikita-san e o Ryuen-kun poderiam fazer uma aliança também… E além disso, já existem pessoas que formaram seus próprios grupos dentro das nossas classes, não existem? — disse Ichinose.

— Sim. Na verdade, eu estava esperando justamente o início da formação de grupos. Portanto, enquanto vemos uma tendência de as classes tentarem se unir e competir separadamente, eu proponho que nós nos aliemos e concentremos uma força de combate principal.

— E o que seria essa força principal? — perguntou Ichinose.

— Assim como no ano passado, não posso me deslocar pela ilha por causa das minhas pernas. No entanto, posso participar. Ainda que em uma posição um pouco especial.

— Especial?

— Alunos que não podem participar por motivos como doença ou lesão são eliminados desde o início, certo? No entanto, eu participarei deste exame como uma aluna "parcialmente eliminada".

— Parcialmente eliminada?

— Não consigo andar livremente pela ilha por causa das minhas pernas. No entanto, tenho o direito de permanecer no ponto de partida e competir como todos os outros, seguindo as mesmas regras. Ou seja, se vierem me pedir opinião, posso fornecê-la, e se houver um problema difícil, podemos resolvê-lo juntos. Porém, se chegar ao ponto em que eu seja a única restante no meu grupo, então meu grupo será eliminado do exame — disse Sakayanagi.

— Então é isso que você quer dizer com participar em uma posição especial — respondeu Ichinose.

Embora fosse necessário manter contato constante, Ichinose entendeu imediatamente que ter Sakayanagi como o "cérebro" de um grupo poderia ser um fator decisivo no exame.

— Você pode escolher livremente entre mim, Hashimoto-kun, Kitou-kun ou Masumi-san. Somos, sem dúvida, a principal força de combate da Classe A. E da Classe B, suponho que sejam você, Ichinose-san, Kanzaki-kun e Shibata-kun.

Todos os estudantes que Sakayanagi acabara de listar ainda não haviam formado grupos e estavam apenas observando a situação. Neste estágio atual, não havia inconvenientes para nenhum dos lados.

— Isso mesmo. Se considerarmos que será necessária força física na ilha, acho que isso é verdade. No entanto, não há garantia de que conseguiremos unir os grupos como desejamos quando o exame especial de fato começar, não é? — perguntou Ichinose.

— Embora seja difícil unir os grupos, não é exatamente impossível — respondeu Sakayanagi, sorrindo amplamente.

Seu sorriso demonstrava confiança de que poderiam formar grupos independentemente das dificuldades.

— Sakayanagi-san, posso lhe dizer o que realmente penso? — perguntou Ichinose.

— Claro.

— Você realmente não quer que B, C e D lutem juntos. Mais do que eu havia imaginado inicialmente. Na verdade, se é para dizer, você tem medo disso acontecer, não é? — disse Ichinose.

— O que te faz dizer isso? — perguntou Sakayanagi.

— Você disse que eu e minha classe somos parceiros em quem você pode confiar, e acredito que você realmente pense isso. No entanto, o mais importante para você é evitar uma situação em que B, C e a Classe D se unam e passem a ameaçar a Classe A. É verdade que a quantidade de pontos de classe que poderíamos ganhar se vencêssemos diminuiria, mas não há garantia de que as três classes abaixo de você não continuariam cooperando no futuro, caso isso acontecesse — disse Ichinose.

Ichinose, que até então havia sido impiedosamente pressionada durante toda a conversa por Sakayanagi, finalmente revidou com os sentimentos que vinha segurando.

— Se conseguíssemos realizar isso com sucesso, a ideia de três classes se unirem para perseguir a Classe A significaria que você seria forçada a lutar uma batalha ainda mais difícil daqui em diante, Sakayanagi-san… Estou errada? — disse Ichinose.

Sakayanagi pareceu levemente surpresa ao testemunhar o contra-ataque de Ichinose, já que ela estivera apenas na defensiva até então.

— Pelo visto, parece que te subestimei um pouco, Ichinose-san.

Sakayanagi não se importava nem um pouco se qualquer uma das classes abaixo dela vencesse aquele exame especial específico e ganhasse os 300 pontos de classe. O mais importante para Sakayanagi, cuja Classe A estava muito à frente das demais, era evitar ao máximo uma possível união entre as três classes inferiores e o surgimento de um senso de solidariedade entre elas. O que ela estava fazendo ali era um movimento preventivo, antecipando testes semelhantes que poderiam surgir no futuro.

Se havia alguém capaz de unir as três outras classes, essa pessoa provavelmente era Ichinose Honami. E era exatamente por isso que Sakayanagi havia decidido trazê-la para o seu lado primeiro.

— Então, em relação à minha proposta de parceria, isso significa que você não irá aceitar? Ou irá? — perguntou Sakayanagi.

Depois de reconhecer o que Ichinose havia dito, Sakayanagi passou a pressioná-la por uma resposta.

— Se você colaborar comigo, não me importo em oferecer um adiantamento equivalente a três pessoas. Emprestarei um total de três milhões de pontos para estudantes que estejam em risco considerável de expulsão. No improvável caso de você ser penalizada, poderá usar esses pontos para salvar esses alunos. Acho que é uma proposta bastante útil para você, Ichinose-san, já que você deseja evitar expulsões com mais intensidade do que qualquer outra pessoa de qualquer classe — disse Sakayanagi.

Temendo que sua oferta fosse rejeitada, Sakayanagi estendeu a mão.

— Você poderia aumentar para cinco pessoas? Assim eu ficaria totalmente mais tranquila — perguntou Ichinose.

— Ora, ora, que gananciosa, não? Embora eu já estivesse planejando distribuir uma quantia semelhante em breve, farei para você um empréstimo especial — disse Sakayanagi.

A Classe A vinha recebendo continuamente a maior quantidade de pontos privados entre todas as classes por mais de um ano inteiro. Como resultado, a quantia acumulada por cada um de seus alunos era muito superior à das demais classes.

— Certo, então acho que temos um acordo. Mas, para ser sincera, eu já teria aceitado trabalhar com você mesmo sem essa ajuda financeira, Sakayanagi-san. Nosso objetivo final, claro, é chegar à Classe A. Mas, como você disse, fomos rebaixados para a Classe C e estamos realmente encurralados agora. Se fôssemos rebaixados para a Classe D, tenho certeza de que a motivação da turma cairia drasticamente. Eu não quero que isso aconteça — disse Ichinose, estendendo a mão para Sakayanagi para um aperto de mãos.

— Então, sobre sua proposta de que a Classe 2-C e a Classe 2-A lutem juntas nesta batalha… eu aceito — acrescentou.

Depois de as duas terem apertado as mãos, ambas as classes entraram oficialmente em uma aliança mútua.

— E agora eu poderei lutar sem preocupações. Peço desculpas por ser repentino, mas tenho um pedido — disse Sakayanagi.

— Imagino que seja sobre como maximizar nossas chances de vitória, e que será necessário começar entregando a carta "One More" à principal força de combate da Classe A… certo? — respondeu Ichinose.

Agora que Ichinose era sua aliada, ela já havia começado a pensar no melhor caminho a seguir para a batalha como força conjunta. Usando a carta "One More", da qual existia apenas uma em todo o ano, era possível formar um grupo de até sete pessoas. Esse também era um dos motivos pelos quais Sakayanagi havia decidido lutar ao lado de Ichinose.

— Agradeço sinceramente por ter entendido tão rapidamente o que eu quis dizer — disse Sakayanagi.

— Mesmo assim, o Ryuen-kun e a Horikita-san são adversários formidáveis — disse Ichinose.

Sakayanagi também não tinha a menor intenção de subestimar nenhum dos dois. Não seria uma luta fácil, considerando ainda a sombra persistente de Ayanokoji que pairava por trás de Horikita. Ainda assim, Sakayanagi havia escolhido lutar junto de Ichinose porque tinha certeza de sua própria vitória.

— O primeiro lugar é nosso para conquistar. Portanto, não pretendo poupar esforços para alcançar esse objetivo — disse Sakayanagi.

Com suas forças consolidadas, Sakayanagi se prepararia para enfrentar as respectivas classes de Ryuen e Horikita, além das turmas do primeiro e do terceiro ano.

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag

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