Capítulo 119 – A noite da raposa
Capítulo 119 – A noite da raposa
À noite, a lua cheia está alta no céu. Abaixo delas, nuvens cobrem parte dela e das estrelas.
Ainda assim, a luz prateada ainda chega na floresta em terra.
No chão, em uma região onde as árvores são espaçadas, com troncos altos e galhos curtos, a calmaria reina.
A floresta repousa quase completamente ausente do som de pássaros noturnos ou grilos. Em meio a essa quietude, uma raposa branca se movimenta, rompendo parte do silêncio com sua corrida.
Ela é grande, com quase meio metro do chão ao topo de suas costas e um metro de comprimento do focinho à ponta das três caudas que possui. Seus pelos brancos como a neve, que terminam em marcas vermelhas nas pontas dos membros e no meio da testa.
A vulpina corre entre as plantas, tremulando as caudas volumosas a cada passo.
Apesar de ser noite, a pelagem dela emite uma luz fraca que a destaca como um fantasma prateado que vaga por em meio àquele ambiente escuro.
Não. Não. Não , ela pensa, preocupada. Eles não deviam estar aqui.
A raposa checa pontualmente cada árvore que aparece em sua frente, aflitamente procurando por algo. De repente, ela avista algo que a faz parar de correr.
Diante da vulpina, uma árvore caída, ou melhor, tombada.
A madeira dela é seca e as folhas murchas como as de uma árvore morta. Os galhos todos cortados, caídos ao chão. Com dezenas de buracos espalhados pelo tronco, da base à copa.
A raposa a encara com temor, como se diante dela estivesse uma cena de crime horrenda.
Não , ela lamenta. Não uma árvore de pedra .
A raposa balança a cabeça e volta a correr disparada. Talvez eu possa impedi-los… , ela pensa, com um pingo de esperança.
Algumas dezenas de metros à frente, outra árvore tombada, da mesma forma que a primeira, surge ao seu lado. Um tronco cortado, furado e seco, largado em meio à floresta.
O olhar da raposa se abala novamente por um instante, mas ela segue em seu caminho. Mas, pouco tempo depois, mais cenários como aquele surgem em seu caminho.
A visão de árvores caídas e murchas como aquelas se torna mais e mais comum. A cada uma que surge, o olhar da raposa vacila em frustração. Até chegar ao ponto de que ela começa apenas a olhar para frente, ignorando seus arredores.
Se… eu ao menos puder proteger a árvore-mãe… , ela almeja, blindando sua mente.
A raposa dispara em linha reta, saltando pelas plantas e pelos troncos no chão.
A luz do luar ilumina a floresta que a cerca com um brilho tênue e singelo que apenas deixa as árvores distintas das sombras. Porém, dezenas de metros adiante, outro brilho surge aos poucos.
Algo mais iluminado que a luz da lua sobre as folhas. Mais intenso que a pelagem branca da raposa em meio à escuridão. Um brilho azul claro e místico, como o de uma aurora, que pulsa sobre o meio da floresta.
A árvore-mãe! , pensa a raposa, com ânimo. Ela ainda está viva! Talvez…
A luz faz algo se acender nela e a velocidade de sua corrida aumenta naquela direção.
Quando ela se aproxima, o brilho toma os contornos de uma árvore, inteiramente brilhante, quase como se fosse feita de luz. Entretanto, mesmo de perto, dezenas de manchas escuras ainda sobrepõem a clareza.
Aquilo…? , se pergunta a vulpina, franzindo o olhar, observando aquela escuridão que ofusca a luz.
A árvore aos poucos toma forma, possui um tronco alto e pálido, quase com o mesmo aspecto de um osso seco. Os galhos, diferentes das demais árvores, se ramificam para os lados. Cada ramo possui folhas curtas e espaçadas, tão azuis quanto estrelas do céu.
No momento em que a raposa chega a uma dezena de metros e subitamente para de correr. Seus olhos arregalam-se ao ver o que são as manchas negras sobre o tronco.
Não! Não! Não! , ela pensa, balançando a cabeça em repúdio.
Espalhados pela árvore, estão dezenas de criaturas insetos do tamanho de homens. Com carapaças escuras, segmentadas, espinhentas e grossas, similares a uma armadura. O corpo com seis patas agarrado à madeira. Onde o par dianteiro é maior e tem uma estrutura avantajada e pontuda como a de uma louva-a-deus.
Suas cabeças longas, com dois pares de olhos negros, possuem um par de presas alongadas, assemelhadas a facas, que estão cravadas profundamente no tronco.
A luz pulsante da árvore ruma em ondas do interior para os buracos onde estão as presas, e delas, a energia é drenada para o corpo dos insetos, como se eles bebessem a água de um rio.
A todo instante, algumas das folhas na copa perdem seu brilho e caem apagadas no chão. Os galhos mais curtos nas extremidades já não possuem mais o brilho do restante da árvore, estão secos como madeira morta.
A raposa trava vendo a cena, sua respiração fica ofegante. Isso… eles vão… vão matar ela! , ela pensa temerosa.
Os músculos da vulpina tremem e se flexionam para trás, fazendo menção em recuar. Eu não… , ela pondera, prestes a tomar uma decisão difícil.
Subitamente um galho cai do alto. Escuro e sem vida, mais próximo de uma pedra do que qualquer coisa. A raposa o encara por um instante, depois volta a olhar para a árvore.
O brilho ainda existe, tanto na planta quanto nela. A tremedeira da perna para. Talvez… eu ainda possa fazer algo , ela pensa, com uma centelha de terminação.
A raposa atiça seus pelos, ergue as caudas e curva a cabeça em posição de ataque. Das patas dianteiras, unhas emergem entre os pelos vermelhos, brancas e brilhantes como o restante de seu corpo.
Ela avança em direção à árvore, mas, após alguns passos, sente a terra sob suas patas vibrando. O que é isso? , a vulpina se pergunta.
A vibração aumenta e, instintivamente, ela salta para trás.
A terra se parte com duas garras escuras emergindo do chão, cortando o pedaço onde ela estava em um instante.
Tem deles no chão também?! , a raposa se questiona, vendo algo saindo dali.
Um inseto como os da árvore, mas quase um metro maior, sai da terra.
Isso estava nas raízes! , ela constata.
Os quatro olhos negros imediatamente se focando nela. Gotas de alguma gosma transparente caem das presilhas dele, enquanto um estridular sinistro é emitido, como uma centena de gravetos secos sendo rompidos.
A visão atormenta a vulpina visivelmente. Seus músculos se contraem novamente e a confiança se esvai. Eu não… , ela pensa.
Mas a criatura não lhe dá tempo. O inseto ergue uma de suas garras e lança um ataque contra a raposa.
Ela arregala os olhos, assustada, prestes a ser atingida.
E, de repente, Yrah acorda. Ela abre os olhos e percebe que se encontra sobre o colo de Rubi.
Rapidamente, ela ergue a cabeça e começa a examinar os arredores. Ao seu lado está Byron, sentado junto à succubus, observando o chão.
Todo o grupo se encontra sobre um galho alto parcialmente encoberto pela folhagem verde da grande árvore que os sustenta.
A diaba passa a mão lentamente sobre o pelo branco da raposinha, enquanto contempla o céu decorado pela lua minguante e pelo despontar laranja do sol no horizonte, já anunciando o amanhecer. Então, Rubi nota o movimento sutil da pequena companheira e percebe que Yrah está desperta.
A succubus sorri ao vê-la acordada. “Olha só quem voltou”, ela comenta. “Dormiu bem? Você parecia agitada.”
A raposa relaxa a cabeça e se enrola em sua cauda. “Foi só um… pesadelo.”
“Espero que três noites tenham sido o bastante para se recuperar”, Byron pontua.
A raposa franze o cenho. Três… o quê? , ela se pergunta.