Capítulo 158 – Eles não podem ser os únicos a evoluírem de verdade
Capítulo 158 – Eles não podem ser os únicos a evoluírem de verdade
Rubi e Byron sobem a escada em espiral da torre, rumando diretamente ao topo. Pelas janelas, a lua e as estrelas ainda brilham, mas no horizonte distante a luz fraca do amanhecer já começa a despontar.
A diaba traz consigo vários equipamentos. Duas bolsas, uma maior com a alça pendurada no ombro e uma menor presa à cintura. Junto da menor está sua rapieira embainhada e, nas costas, leva o arco dourado.
Byron a acompanha alguns degraus atrás. Em contraste à succubus, ele não leva quase nada consigo, apenas dois pergaminhos enrolados.
“Tem certeza de que irá partir agora?”, pergunta o demônio. “Poderíamos realizar uma reunião amanhã e você partiria no próximo pôr do sol.”
“Prefiro ir ainda hoje. Eu já te passei tudo”, a succubus responde.
Eu quero começar a coletar energia vital o mais rápido possível. Quando eu completar a coroa, meu conjunto de habilidades vai ficar muito mais interessante , almeja ela, ansiosa, com a ponta dos dedos tremendo sutilmente. Já tem muitas semanas que eu não dreno ninguém, nem saio da cidade. O máximo de progresso que eu tive nos últimos dias foi dar uma conferida e testar as minhas habilidades antigas. De um jeito ou de outro, eu precisava dar uma saidinha para pôr tudo em prática.
“Além do mais, eu confio que você vai passar as informações aos outros”, Rubi continua. “E eu andei praticando aquele feitiço. Ele é bem mais efetivo do que eu achava.”
“Garantirei que eles compreendam e que todas as tarefas que deixou sejam executadas.”
Vai ser bom para ele começar a praticar conjuração e também gerenciar o pessoal deve ajudá-lo a praticar hábitos de comandante. Talvez o tato dele com pessoas até fique menos intenso , Rubi pensa, com entusiasmo. Espero que o Brok e a Yrah entendam e que não passem por maus bocados na mão do Byron.
Poucos momentos depois, os dois chegam ao terraço da torre.
A cidade e a floresta abaixo estão quietas, mas o tênue som crescente dos pássaros e as tochas que aos poucos são apagadas pelos orcs em ronda dão os indícios de que o dia está prestes a começar.
As asas de Rubi desabrocham por baixo de sua camisa e se abrem completamente.
“Há algo a mais que eu deva me atentar?”, o demônio pergunta.
Rubi fica pensativa por alguns segundos. “Hum”, murmura ela. “Ah! É bom lembrar que a Yrah precisa de comida e também seria bom levá-la para andar pela mata algumas vezes. Ela é meio mágica, mas ainda é uma criatura viva e tem necessidades mais básicas.”
“Me manterei com isso em mente.”
Se ele cuidar do básico, já deve ser bom o bastante. Com sorte, a Yrah pode viver só com as oferendas do Mindinho e, contanto que ela não se afaste muito da cidade, a minha ausência não vai atrapalhar o abastecimento de mana dela , pensa a diaba.
O demônio estende os pergaminhos na direção da diaba. “Posso dar andamento nisso?”, ele pergunta.
Rubi acena positivamente com a cabeça. “Pode”, responde ela.
Byron se foca nos papéis e a mão que os segura começa a emanar uma aura morna. A temperatura ao redor dela aumenta rapidamente.
Em um instante, os pergaminhos espontaneamente inflamam-se por completo.
Os demônios assistem em silêncio ao fogo consumindo os documentos. Pouco a pouco os papéis tornam-se cinzas escuras e se desfazem no ar.
“É melhor assim”, Byron comenta. “A função deles já foi concluída.”
“Sim. Foi uma boa sugestão”, pontua Rubi. “É melhor deixar as informações da coroa só entre nós.”
Se eu deixar esses papéis por aí, eles podem um dia acabar indo parar na mão de outra pessoa. Eu posso ficar bem exposta se algo assim acontecer , Rubi reflete.
“Enfim, acho que já vou indo”, diz ela.
“Darei meu melhor em sua ausência”, garante Byron.
Rubi sorri de leve. “Não é como se eu estivesse indo para muito longe. E eu sempre posso te invocar se eu precisar, não é?”
Byron acena, firme. “Não hesite em fazê-lo se necessário”, diz ele, sério.
“Pode ficar tranquilo.”
Rubi se apronta para alçar voo e bate as asas. Em um instante, ela já está alta no céu, pequena contra a escuridão da madrugada.
Após ganhar altura, a succubus abre completamente as membranas de suas asas e fica pairando no ar, estática.
Os demônios se encaram uma última vez e despedem-se, trocando acenos com as mãos.
Com outro bater de asas, a diaba se lança para o oeste, deixando a torre e a cidade para trás, ainda antes do amanhecer.
É. Vai ser divertido , pensa ela de bom humor. Estou cheia de coisas novas para experimentar.
A diaba segue voando sobre a mata selvagem por vários minutos, aproveitando os últimos momentos de escuridão da madrugada para se deslocar discretamente.
Não posso deixar o Byron e o Brok serem os únicos a evoluírem de verdade. Se eu não sair e fizer as coisas por mim mesma, que tipo de exemplo eu vou dar para eles? , ela se pergunta, com convicção.
E, em pouco tempo, o sol começa a despontar no horizonte. A cidade de Cahja já não se pode mais ser vista do ponto onde Rubi se encontra.
A diaba para por um momento, encarando animada o amanhecer, contrastando com as últimas sombras da floresta.
Bem, um novo dia. Agora já estou bem longe de casa. Se eu estivesse com o Byron, seria a hora de descermos até o chão e seguir a pé , ela constata, com um sorriso no canto da boca. Mas, já que estou sozinha, é uma boa chance de testar aquilo na prática.
Rubi se concentra por um instante.
Sobre seu corpo, faixas de magia translúcida aparecem, envolvendo as asas, a cauda, braços, pernas e todo o tronco. A magia surge fina e rapidamente fica mais densa até envolvê-la por completo.
Logo, a magia escura começa a dissolver-se no ar, como se fosse uma névoa, mas a diaba já não está mais naquele lugar.
Agora, sem a presença de Rubi, o céu sobre a floresta permanece quieto, coberto apenas por nuvens, enquanto os pássaros lentamente começam a se erguer à medida que o sol avança no horizonte.