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Capítulo 160- Quando as coisas saem de controle

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Capítulo 160- Quando as coisas saem de controle

Brok caminha pela cidade de Cahjia. Ele segue com o machado em mãos e uma feição séria no rosto. Seus passos são apressados, mas ele não chega a correr.

O sol da manhã o acompanha, iluminando suas costas, enquanto ele ruma em direção à torre no centro da cidade.

Preciso avisá-la , pensa ele, com uma gota de suor pingando da testa.

Em seu trajeto, ele passa por outros orcs da cidade. Estes seguem o ritmo normal de seus afazeres, alguns estão cozinhando, outros patrulhando ou trabalhando em coisas manufaturadas.

O chefe corta a cidade em poucos minutos e chega até a entrada da torre.

Comparado ao restante de Cahjia, o centro é um lugar consideravelmente mais isolado. Ao redor da alta edificação, não há outras construções. Por dezenas de metros, apenas pedras, vinhas e grama cobrem o chão.

Entre a casa mais próxima e o local onde Brok está, há uma marcação de pedras no solo. Enfileiradas, elas circundam o perímetro da torre.

Em um dos lados, porém, a linha de pedras dá lugar a um muro que começa a tomar forma, ainda nos primeiros estágios da construção.

Antes de entrar na torre, Brok checa os lados, verificando se não há mais ninguém por perto.

Quando confirma que está sozinho, abre a porta e entra na torre.

Ao chegar no hall de entrada, ele sente um sutil cheiro de enxofre no ar. Na escadaria, do outro lado da sala, Brok avista uma luz laranja vinda do andar superior, batendo na parede e nos degraus.

“Lorde… Rubi! Senhor Byron!”, clama ele.

Assim que chama, Brok ouve uma conversa vindo de cima.

“Ouviu isso?”, pergunta a doce voz de Yrah, no andar de cima. “Acho que o senhor orc está lá embaixo.”

“Um momento bem oportuno”, responde Byron, com sua voz ecoando grave e sombria.

O Senhor Byron… está transformado aqui dentro? , o orc pergunta-se.

A luz laranja intensifica-se por um segundo, mas logo some e o som de passos sobre pedras começa a escoar.

Yrah desce a escadaria na frente, seguida, logo atrás, por Byron.

Assim que o orc vê o demônio, curva as sobrancelhas. Ele está diferente! , constata ele, surpreso, ao perceber que Byron está um pouco maior e com marcas novas em seus chifres.

“O que foi, Brok? Parece que viu um fanstama”, diz Byron, com os lábios formando um sorriso afiado.

O orc balança a cabeça para os lados. “Não é isso. É que… o senhor parece… mudado”, comenta ele, sem jeito.

“Difícil é não notar. Eu também me assustei”, pontua a raposa. “Aparentemente não se pode nem tirar um cochilo por aqui. As coisas mudam muito rápido.”

“Muita coisa aconteceu”, diz o diabo. “Mas você veio em bom momento. Antes de partir, a senhorita Rubi lhe deixou algumas tarefas e eu fiquei responsável de lhe passar.”

“O quê?”, pergunta o orc, pego de guarda baixa. “A lorde… foi embora?”

“Ela saiu essa manhã”, Yrah responde. “Também não falou comigo.”

“Nesta madrugada, a senhorita sentiu uma súbita ânsia por drenar a força de seres vivos e saiu para caçar na floresta”, o diabo acrescenta.

A testa de Brok fica tensa. “Isso não é bom”, comenta ele.

“Que cara é essa?”, Yrah indaga.

“Não precisa se preocupar. Em momento algum a senhorita Rubi considerou colocar os orcs desta floresta em seu cardápio”, Byron acrescenta, ainda tranquilo. “Ela tem bastante estima por vocês. Deveria considerar-se com sorte.”

“Não é isso.”

Byron percebe a tensão real no semblante de Brok.

De um segundo para o outro, o demônio abandona a feição bem-humorada e encara o orc com seriedade. “Diga. O que aconteceu?”

“É que… eu vim até aqui para me reportar para a lorde. Houve… uma movimentação na floresta”, Brok responde.

“Reporte-de a mim, então”, diz o demônio, direto. “Na ausência de sua lorde, eu estou no comando.”

“Tudo bem…”, diz o orc. “Um dos meus batedores viu… um acampamento do povo presa, há um ou dois dias daqui.”

Os pelos da raposa eriçam. “O quê?!”, ela pergunta, surpresa.

“Os homens-fera, você diz? Pensei que eles não se aventurassem tão a fundo nessa região”, Byron pontua.

“Normalmente… não vem tão longe. E, pela região onde eles estão, podem estar vindo direto até essa cidade”, acrescenta o orc.

“Isso é estranho. Muito estranho”, pontua Yrah, enérgica. “Eles têm sentidos bons e sabem detectar magia sombria. Sem contar que eles têm contato com os espíritos. A essa altura, aquele povo sabe que não tem só orcs por aqui.”

Byron leva a mão ao queixo. “Que intrigante”, diz ele, pensativo.

“Acha que estão vindo nos atacar?”, Yrah pergunta, preocupada. “Pelo que conheço deles, eles deveriam evitar esse lugar a todo custo.”

“Aquele povo não gosta dos elfos… e nós andamos falando com eles”, constata Brok. “Sem contar que o grupo deles não é pequeno e… parece ter guerreiros fortes vindo junto.”

O orc se volta ao demônio. “Consegue contatar… a lorde?”, pergunta ele, encarando-o.

Yrah acena com a cabeça, concordando. “Acho que é o melhor a se fazer”, diz ela. “Talvez ela saiba de algo.”

O demônio olha para o orc com confiança. “Não será necessário”, afirma ele.

O orc e a raposa arregalam os olhos. “O quê?!”, gritam os dois, ao mesmo tempo.

“No caso de uma intenção hostil, você teme enfrentá-los, Brok?”, Byron pontua, provocativo.

O orc leva a segunda mão até o machado e o segura com força. “Não”, responde ele. “Se… eles vieram lutar, vão morrer.”

“Então o objetivo deles por aqui não possui relevância”, afirma o demônio.

“Tem certeza? Não seria melhor ao menos ver o que a Senhora Rosa pensa?”, Yrah pergunta, incerta.

“Se eles já sentiram a magia da Senhorita Rubi e forem tão espertos quanto você comentou, não irão procurar problemas conosco. Na melhor das hipóteses, podem até estar vindo até aqui para se submeter a nós.”

A raposa baixa a cabeça. “Tudo bem”, ela diz.

“Acima de tudo, é nosso dever proteger essa cidade na ausência de nossa lorde”, Byron completa. “Ela tem coisas mais importantes para fazer agora.”

Enquanto isso, em outro ponto da floresta, Rubi vaga calmamente, voando entre as árvores, ainda oculta por sua magia.

Enquanto voa, uma brisa suave e fresca a acompanha, balançando seus cabelos.

Uma pausinha não faz mal a ninguém , ela pensa, aproveitando o momento.

A diaba escuta o crocitar alto de uma garra-branca, vindo de longe.

Enfim. Hora de voltar a caçar , decide ela.

Com um bater de asas, ela se proporciona para frente. Porém, de repente, Rubi sente um abalo, seguido de um calafrio.

Na mesma hora seu ânimo desaparece, o rosto fica tenso.

A sensação é estranha. É algo que vem de dentro do peito dela, mas, ao mesmo tempo, é intrusivo, como se a mão gelada de uma pessoa segurasse seu coração diretamente.

O que… é isso? , ela se pergunta, completamente perdida.

A diaba começa a verificar os arredores. Nada de diferente ressalta em seu campo de visão, no entanto, não é difícil para ela perceber que há magia se densificando próxima a ela.

Essa mana não estava aqui antes , constata ela. Não tem mais ninguém aqui. De onde veio? Quem está conjurando?

Instintivamente a diaba leva a mão ao arco, mas, antes de sacá-lo, um círculo de magia se forma abaixo de seus pés.

A magia que o constitui é roxa, com dezenas de runas desenhadas no contorno. Ele se expande rápido, até seu diâmetro ter o mesmo tamanho da envergadura das asas da succubus.

A magia de ocultação que envolve a diaba se dissipa e Rubi volta a ficar visível.

A succubus olha para baixo e trava. Isso…! , pensa ela, enquanto dezenas de possibilidades passam por sua mente.

Antes da diaba tomar qualquer ação, o disco de magia se move para cima velozmente, se forçando contra Rubi.

A parte superior do círculo toca a ponta dos sapatos da succubus e continua se deslocando para cima, mas nada sai do outro lado e os pés dela logo desaparecem sem vestígio.

O disco segue atravessando-a sem dificuldade, como se não houvesse um corpo em seu caminho, consumindo cada parte dela sem deixar vestígios.

Em um único movimento, o círculo consome completamente a diaba, fazendo-a desaparecer do ar em um instante.

E logo em seguida o círculo mágico se desfaz, sem deixar qualquer sinal da magia ou de Rubi.