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Capítulo 161 – Familiar

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Capítulo 161 – Familiar

Dentro de um quarto fechado estão a garota humana de cabelo loiro, Chloe, e a elfa de cabelos brancos, Amila.

A jovem humana ainda usa a túnica azul de mangas longas, junto da saia branca que desce até os joelhos. A elfa também usa uma túnica longa, porém é toda preta, e dessa vez está sem o avental branco.

As janelas e a porta da sala estão fechadas. A luz que ilumina o ambiente vem de algumas velas presas na parede e de um grande círculo mágico roxo no centro da sala.

O círculo possui dezenas de runas gravadas do entorno até o centro.

Diante dele está Chloe, a poucos centímetros da borda.

Ela mantém o olhar fixo à frente e os dois pés firmes no chão. Uma mão está levantada, próxima ao peito, com o punho fechado, segurando algo pequeno, completamente encoberto pelos dedos. A outra está estendida com os dedos abertos.

Amila está atrás da jovem, portando uma faca prateada presa à cintura e segurando um livro grosso aberto, com ilustrações douradas na capa. Ela está quieta, aguardando. Sua expressão é séria e está atenta.

“Dessa vez dará certo”, diz a elfa.

Chloe respira fundo. “Convocar demônio!”, declara ela.

Durante um segundo, tudo fica silencioso e sem resposta.

O olhar da garota corre de um lado para o outro, buscando algum sinal de mudança.

Até que ela sente a mana do seu corpo esvaindo rapidamente, deixando para trás um cansaço repentino.

Uma exaustão súbita que faz os joelhos ameaçarem dobrar em vacilo e a visão ficar turva por um instante.

Logo em seguida, o círculo brilha mais intenso e o fogo das velas balança, como se uma onda de ar imperceptível começasse a circular pela sala.

Fluxos de energia roxa saem das runas e começam a se acumular a alguns centímetros do chão. Ao mesmo tempo, uma névoa azulada, fina como poeira, surge nas bordas do círculo, tomando a forma de um domo semitransparente que vai até o teto.

Apesar do cansaço, Chloe chacoalha a cabeça, recuperando o foco, e permanece de pé. “Deu certo!”, declara ela, eufórica, respirando ofegante.

“Meus parabéns”, congratula a elfa.

As duas observam o montante de energia no centro do círculo ficar cada vez mais denso e tomar a forma de uma criatura humanoide esguia, com cauda, asas na cintura e chifres na cabeça.

A magia roxa acumulada perde a luz, ganha massa e dá lugar ao corpo físico de uma diaba de cabelos rosa, Rubi.

Ela toma forma flutuando no ar, com as asas totalmente abertas, porém, apenas de posse de sua camisa, saia e sapatos.

O casaco, as armas, as bolsas e todo o resto já não estão mais com ela.

Seus olhos e sentidos estão em alerta e o coração acelerado.

O que foi aquilo? , ela se pergunta, desorientada.

A primeira coisa que Rubi faz é checar os arredores, orientando-se.

A diaba vê as luzes, as janelas e as portas fechadas, além das duas mulheres encarando-a, tudo do outro lado de um domo de fumaça azulada que a cerca por todos os lados.

Que lugar é esse? E que coisa é essa ao meu redor? , ela se indaga.

Rubi estende a mão para frente, mas, pouco antes de conseguir tocar a fumaça azulada, sente algo a freando. É sólido ou…, analisa ela. A diaba tenta forçar os dedos adiante, mas não consegue. Algum tipo de força a repele para trás. Isso é uma barreira? Eu estou presa!

A diaba abaixa o olhar e percebe o círculo mágico a poucos centímetros abaixo de seus pés. Só uma possibilidade lhe vem à mente.

Eu… fui invocada. De novo , conclui ela, encarando as runas.

E logo também nota algo faltando em sua cintura. Cadê as bolsas? E a espada? Rubi tateia ao redor da saia e nos ombros e percebe a ausência de suas posses. As minhas coisas não vieram junto? Onde elas estão?

Enquanto a diaba se norteia, Chloe a observa com um brilho nos olhos. Isso é um demônio maior? Pensei que fosse aparecer alguém grande e monstruoso… , analisa ela. Mas…

“Ela é bem bonita”, murmura a jovem, impressionada com o ser pairando no ar diante dela.

Na mesma hora, Rubi foca toda sua atenção à humana, lançando o olhar cortante de alguém nada contente. “Quem são vocês? Onde eu estou? E por que me invocaram?”, ela pergunta, direta e séria.

Chloe engole seco e baixa a cabeça, intimidada.

Tem muita coisa errada aqui , a diaba constata. Agora mais centrada, ela também percebe o ar ao seu redor mais denso. Seus sentidos dão alertas a todo instante.

Não é só essa coisa azul. Tem muita mana me cercando. Acho que isso está afetando a minha magia também, pensa ela .

Amila gentilmente coloca a mão sobre o ombro da garota humana. “Fique tranquila. É normal ela estar agitada assim”, conforta ela. “Diga o que você quer.”

A jovem respira fundo, recuperando fôlego. “Meu nome é Chloe Astley Clifford e essa é minha empregada, Amila D’Nailo. Fui eu quem te invocou. Quero que faça um pacto comigo”, declara ela.

A diaba franze o olhar e a sua cauda para de se mover completamente. Se só queriam negociar algo, podiam ao menos ter feito algum esforço para deixar esse lugar mais agradável , ela pensa, incomodada. Ao menos, agora tenho certeza de que corro não muito risco aqui. Pelo que Byron me contou, esse corpo deve ser só uma projeção do meu original. Se for isso mesmo, elas não devem conseguir nem me ferir de verdade. Vou ouvi-las, mas é bom que seja importante.

“E que tipo de pacto você deseja?”, Rubi indaga.

Chloe cobre uma mão com a outra e as coloca diante do rosto. “Bem, eu quero que você seja minha familiar e que me acompanhe a partir de agora. Poderia fazer isso?”, pede ela, delicada como uma flor e ainda respirando ofegante.

Rubi pisca. Calma… , pensa ela.

A elfa dá um passo e para ao lado de Chloe. “Você teria muito a ganhar com isso. Proteção, influência e status”, pontua ela. “A família da jovem mestra é nobre e bem influente na realeza. Sem contar que, como um familiar, você estaria protegida pelas leis desse país.”

Chloe acena com a cabeça. “Viu, tem coisas boas para você”, insiste ela, animada e esperançosa.

A expressão tensa de Rubi se dobra em uma feição confusa. Isso é sério? , ela se pergunta, indignada. Eu estou perdendo alguma coisa aqui. Elas não sabem que tipo de demônio eu sou, sabem?

“Só para ter certeza, você está pedindo para que eu sirva você?”, pergunta ela, ainda incrédula.

“Isso mesmo”, confirma a garota, confiante. “Você perguntou onde está, não é? Aqui é a Academia Cadley. Um lugar que educa nobres de vários lugares importantes. Vou começar o segundo ano e eu me matriculei em uma matéria em que eu preciso de uma familiar para me acompanhar e…”

“Eu recuso”, diz Rubi, seca interrompendo-a.

Não tem argumento aqui. Nem pagamento que faça isso valer nem o meu tempo , ela pensa.

A garota arregala os olhos. “Oi?”, murmura ela, boquiaberta. “Você não…”

Rubi cruza os braços e estala a cauda no ar. “Não vou”, responde ela, direta, cortando de imediato as expectativas da garota.

Elas realmente não fazem a menor ideia de quem eu sou. Devem ter me invocado com alguma das coisinhas que eu deixei por Gramina… Pelo menos não é muita coisa , ela pensa, suspirando, cansada. Talvez se eu tivesse uma proposta assim uns 6 meses atrás, a resposta poderia ser diferente, mas agora eu tenho outras coisas para fazer.

“Se isso é tudo que querem, só me mandem embora e destruam o que usaram para me invocar.”

Essas duas não parecem muito cientes do que estão fazendo, vou dar um desconto pra elas. Só quero dar logo o fora daqui. Espero que os meus itens também reapareçam quando eu voltar , almeja a diaba. Será que toda invocação tem uma vibe ruim assim? Não é o tipo de coisa que eu quero ter que me acostumar.

Chloe respira profundamente, pressiona ainda mais o pequeno objeto escondido na mão fechada e cerra os olhos. Não vou deixá-la ir embora assim , pensa ela.

“Amila…”, diz a garota, tentando se manter calma, ainda encarando a diaba que permanece flutuando poucos centímetros acima do chão.

A elfa compreende a intenção dela sem precisar de mais palavras. “Senhorita diaba, antes de ir embora, só gostaria de trocar mais uma palavra com você”, diz ela.

Talvez não tenhamos sido incisivas o bastante , pensa a Amila.