Capítulo 163 – A proposta
Capítulo 163 – A proposta
Rubi está tensa, olhando para a moeda na mão de Chloe como se aquilo fosse uma sentença já dada. Sem sombra de dúvida, reconhece o símbolo cunhado no ouro e a origem.
É uma moeda de Pra’ados. Uma das que eu dei para aquele aventureiro , ela constata. Elas contam pra me invocar? Eu mal toquei nelas, só carreguei naquele saco por uns dias.
A diaba tira as mãos de Chloe, depois pega a moeda e a coloca contra uma das velas na sala.
Ferrou , pensa ela, atormentada. Achei que seriam só uns 5 objetos que poderiam me invocar, mas tinham mais de 20 moedas dessa. Aquele aventureiro gastou elas por aí? Isso vai continuar acontecendo de novo e de novo? Como é que eu vou explicar isso pro Byron?!
Ajoelhada a alguns passos à frente de Rubi, Amila mantém os olhos fixos no chão e respira angustiada, com o coração acelerado.
O quarto está desconfortavelmente quieto e frio.
A elfa ainda sente o incômodo dos dedos da succubus no pescoço. A força de cada dedo, suspendendo-a no ar. O sentimento de impotência a aflige, deixando-a incapaz de discernir o que acontecerá a seguir.
Perdão, senhor Cloud. Eu não sabia que as coisas poderiam terminar tão mal , pensa a elfa.
Ela ergue a cabeça e vê a diaba, totalmente focada na moeda que segura. O rosto tenso, a cauda solta no chão e um semblante momentaneamente distante.
“Eu…”, Amila começa, lentamente.
No mesmo momento, Rubi tira o foco da moeda e olha para a elfa.
Amila hesita com aquelas pupilas penetrantes encarando-a. “Eu… sinto muito”, diz ela. “Imploro que, por favor, nos perdoe. O feitiço que conjurei era apenas para reduzir sua hostilidade. A senhorita Chloe não ia lhe fazer mal algum. Só queríamos um pacto. Só precisávamos de um…”
“Um mascote”, completa Rubi, interrompendo-a.
A elfa engole seco, hesitando novamente.
Por um momento, o silêncio inquietante volta a tomar conta da sala.
“Por favor…”, pede Amila. “Nós não sabíamos que um demônio maior seria tão poderoso.”
Rubi baixa os braços e aperta com força a moeda na mão. Que droga. Logo quando eu achei que as coisas estavam indo bem, acontece isso , pensa ela, frustrada.
Ela pondera quieta por um momento, encarando a elfa, com um olhar semi-cerrado. Que seja então , decide ela. Hora de resolver isso.
A diaba se aproxima e para diante de Amila.
A elfa começa a soar frio.
“Você disse que pretendiam invocar um demônio maior, não é?”, ela pergunta.
Amila acena com a cabeça rapidamente, confirmando.
“Vocês erraram um pouco a mão”, pontua Rubi.
A testa da elfa franze, sem entender.
As longas asas vermelhas de Rubi se expandem até se abrirem por completo, enquanto a Coroa da Ganância surge em sua nuca.
A luz rosada de sua auréola se destaca na sala iluminada apenas por velas, projetando a sombra de Rubi sobre Amila.
Um arrepio sinistro percorre todo o corpo da elfa. Instintivamente, ela tenta se arrastar para trás, mas não tem equilíbrio e termina apoiada nos próprios antebraços.
“Quem é você?”, Amila pergunta, surpresa.
“Sou uma Lorde Demônio.”
A elfa arregala os olhos. Como isso é possível?, pensa ela.
“Amila, é o seu nome, não é?”
“Sim…”
“Quer o meu perdão?”, Rubi questiona.
“Vai nos poupar?”
“Eu tenho uma proposta para vocês…”
Elas me irritaram muito, mas usar essas duas aqui de exemplo não vai adiantar nada. Se cada uma daquelas moedas puder me invocar, isso tudo vai continuar acontecendo… e pode ser pior ainda , pensa Rubi. Pode aparecer alguém que já saiba que vai invocar um lorde demônio e ter medidas eficazes de verdade.
Uma fina aura de magia rosa aparece sobre a pele da diaba.
“Amila, lhe proponho um pacto”, diz ela, e cada palavra ressoa diretamente nos pensamentos da elfa.
Rubi segura a moeda na ponta dos dedos, deixando-a à mostra.
“Existem outras moedas como esta. Elas possuem a minha magia e têm a capacidade de me invocar. Pouparei suas vidas, mas você terá que me ajudar a encontrá-las. Você também vai convencer aquela garota a me ajudar. Contanto que você e sua mestra, Chloe, não ajam contra mim, não machucarei nenhuma de vocês. Mas, se você quebrar esse termo, comerei sua alma. Você morrerá, e sua mestra ficará sem ninguém para protegê-la.”
Amila sente o peso do mundo nas costas. Cada palavra do acordo parece cravar-se em sua mente e ela tem certeza de que, em uma recusa, a última sentença será executada ali mesmo.
Antes de responder, o olhar dela vacila para o lado. Ela vê Chloe, atrás da diaba.
O brilho rosa da auréola de Rubi ilumina boa parte de seu corpo. Os olhos ainda estão tomados pelo encanto da succubus e sua expressão continua completamente ausente, alheia ao que acontece na sala.
Perdão, senhorita. O que estou prestes a aceitar pode lhe comprometer. Mas recusar iria contra o que prometi ao seu pai, ela pensa, com pena. Espero que seja capaz de compreender.
“Aceito os seus termos.”
“Boa escolha”, diz Rubi.
A aura rosa flui da diaba para a elfa como uma névoa e é absorvida através da pele. Amila sente o frio de uma noite de inverno penetrando em seu corpo. Segundos depois, tudo cessa e o silêncio volta a tomar conta do ambiente.
Beleza. Dá para começar a trabalhar assim. Essa elfa aqui parece ser a voz da razão da dupla. Com ela me ajudando, praticamente já tenho a outra em cheque , pensa a diaba. Elas são a minha melhor chance. Do que eu entendi, a família da garota tem recursos e influência, e eu posso me aproveitar disso.
A succubus suspira e a auréola em sua nuca desaparece. O clima fica menos tenso e a elfa volta a respirar normalmente.
“Agora que temos nosso acordo, pode me chamar de Rubi.”
“Certo. Entendi.”
“Antes de tudo, me tire uma dúvida. Onde vocês conseguiram essa moeda?”
“Foi… de um mago dessa cidade que vende artefatos. Ele quem nos vendeu”, Amila responde e, em seguida, franze seu olhar. “Foi ele quem nos deu as orientações desse ritual e nos disse que iríamos invocar um demônio maior.”
Ele quase nos condenou , pensa a elfa, amargurada.
Pelo menos a moeda não estava sendo usada de troco na rua , constata a diaba. Já é algo. E podemos começar por ele. Eu não queria, mas vou ter que deixar a missão de completar a coroa para depois.
Rubi se vira para trás, ficando de frente à Chloe.
“Bem, agora eu vou tirar o meu charme dela”, diz a diaba. “Ela vai ficar bem, mas seria bom você se preparar para acalmá-la. Talvez ela fique… um pouco agitada.”