Capítulo 164 – Contraproposta
Capítulo 164 – Contraproposta
Amila se levanta e aproxima-se de Chloe.
Rubi se foca na garota e, com um simples pensamento, remove seu charme dela.
Um momento depois, o brilho rosa some das pupilas de Chloe, deixando o castanho natural tomar lugar.
Por alguns segundos, enquanto recupera os sentidos, ela fica parada e com os olhos piscando.
A neblina que vinha entorpecendo sua mente some e a visão volta a ficar clara. A primeira coisa que toma forma à sua frente é Amila, mas logo atrás vê também a diaba de pé, encarando-a.
A garota arregala os olhos e, de repente, grita. Ela recua tremendo, tropeça nos próprios pés e quase cai no chão.
Ela sente de uma vez várias emoções, engatilhadas pela imagem da succubus. O medo da incerteza, a angústia de ver a elfa apanhar e a estranha sensação de estar na boca do leão.
A elfa a abraça, tentando acalmá-la. Ela envolve a garota entre os braços e apoia uma das mãos na nuca dela.
“Calma”, diz ela, com a voz gentil. “Está tudo bem agora. Vai dar tudo certo.”
Chloe afunda a cabeça contra o tórax da elfa.
“Amila… Eu…”, tenta dizer a garota, tremendo.
“Está tudo bem”, conforta Amila.
Rubi cruza os braços e as observa em silêncio.
Vendo assim, até parece que elas são as vítimas aqui , ela pensa. O que aquela garota tem na cabeça? Um demônio maior como familiar? Se fosse o Byron aqui, ele teria arrancado a cabeça das duas sem nem hesitar. Só não sei se ele teria resistido tão bem ao poder da elfa.
A diaba olha para baixo, visualizando o próprio corpo.
Aliás, até que fizeram um bom trabalho aqui. Pelo menos fisicamente, eu devo estar quase próximo do meu normal. Achei que minha magia deixaria de ficar bagunçada quando eu saísse daquele círculo mágico, mas ainda sinto ela bem enfraquecida. Realmente não deve haver como me invocar em completude , ela constata.
Amila e Chloe conversam por um tempo. A elfa conforta a garota ao mesmo tempo em que explica a situação e o pacto com Rubi.
“… E ela vai nos poupar se a ajudarmos”, explica a Amila.
“E se não fizermos isso, ela vai te matar?!”, pergunta Chloe, aflita.
“Contanto que a auxiliemos, tudo deve voltar à normalidade”, Amila responde.
Não era para as coisas acabarem assim , pensa a garota.
Chloe olha por trás do ombro da elfa e vê Rubi encarando-as. Ela aproxima a boca do ouvido de Amila.
“Mas e se ela estiver mentindo?”, murmura ela.
Apesar de as palavras soarem baixas, elas ainda chegam aos ouvidos da diaba.
“Demônios não podem violar os pactos que fazem”, Rubi responde, causando de imediato um calafrio na garota. “Assim como não posso deixar de ser invocada quando utilizarem objetos como aquela moeda. Temos regras que não podemos simplesmente quebrar, por isso quero o auxílio de vocês.”
Amila volta-se para a succubus. “Estou confiando nisso”, ela comenta. “Se apenas a minha vida dependesse disso, eu teria recusado.”
“Também vale muito para mim e eu não pretendo descumprir a minha parte”, confirma a diaba. “Aliás, eu também preciso montar um pacto com a garota.”
Chloe arregala os olhos, se tocando das circunstâncias. “Realmente vou… ter que fazer um contrato mágico?”, pergunta ela, hesitando.
“Só para formalizarmos a nossa colaboração temporária”, responde ela. “E, é claro, vou deixar termos de segurança parecidos com os da sua amiga, só por garantia.”
Não posso deixar essa menina sair daqui sem nenhuma forma de ter controle dessa situação , Rubi pensa. Ela parece meio inconsequente e até um pouco sem noção das coisas. Olha só a situação em que se meteu só porque queria um familiar.
A garota fica calada, ponderando sobre sua situação. Eu… tenho escolha aqui?, ela se pergunta, hesitando. Não foi nada disso o que eu planejei.
A diaba lança o olhar sobre a jovem quieta. “Tem algo contra?”
Chloe chega a abrir a boca para falar algo, mas a voz vacila e nenhum som sai. Indecisa, ela olha para Amila ao seu lado, com a incerteza nítida em suas pupilas.
“Já fizemos tudo isso e nos enfiamos em uma encrenca que supera em muito as piores presepadas de seu pai, comparável somente às piores aventuras do seu avô. A única forma de sairmos daqui inteiras seria com esse pacto”, conta a elfa.
Credo. Quem vê cara, não vê coração. Ela é bem mais velha do que parece , pensa Rubi, surpresa. Ela está acompanhando essa família há três gerações? O salário dela deve ser muito bom.
Chloe baixa a cabeça. Vai… acabar assim? Não está certo. Nós gastamos muito para chegarmos até aqui e, no final, deu tudo errado. As aulas já vão começar em oito dias. Não vamos ter tempo de organizar um outro familiar bom o bastante , ela constata, tomada por frustração . Se ao menos ela tivesse aceitado conversar antes . Se pelo menos…
Chloe engole seu medo. “Não sou contra te ajudar com as moedas, mas, e se… além desse acordo de colaboração, nós fizéssemos um outro?”, sugere a garota, com as mãos tremendo. “Já que você vai querer a nossa ajuda, por que já não planejamos algo mais duradouro… Quem sabe…”
A testa da Amila se contrai. “Jovem mestra?”, ela pergunta, sem entender.
É sério isso? , pensa Rubi, pega de surpresa.
“O que você tem em mente?”, questiona a diaba.
“Tem gente que possui vínculos mágicos com criaturas selvagens ou extraplanares que só aparecem nesse mundo quando são invocadas. Pelas regras da escola, isso também conta para o curso em que eu quero ingressar. Não estou pedindo para você ser minha familiar. Mas… eu queria mostrar para os outros que eu tenho contatos com um ser mágico como você. Tem algo… que possamos fazer sobre isso?”
Por que ela precisa tanto disso? , pensa a diaba.
Amila aproxima-se de Chloe e a encara seriamente. “Senhorita, sei o que você quer, mas não estamos em posição de negociar aqui”, adverte ela, com a feição tensa.
A garota, mesmo confrontada, mantém o olhar baixo, mas a postura firme. Sua voz falha mais uma vez, porém ela reúne forças para falar.
“Não posso sair daqui sem nada. Já espalhei boatos de que eu tinha um vínculo mágico. Como vou conseguir olhar para os outros alunos?”, responde ela, baixo. “E você mesma disse, ela é um lorde demônio. É até melhor do que o que queríamos. Se tivermos a ajuda dela, é quase garantido que vou conseguir me destacar na academia.”
“Mas não precisa ser assim”, retruca Amila. “Você não entende o risco que já passamos aqui. Podemos… dar outro jeito.”
Rubi escuta tudo em silêncio, com a cauda balançando. Eita. Então tem mais coisas envolvidas nisso , conclui a diaba, intrigada.
“Tudo bem”, diz a diaba.
As palavras da diaba captam a atenção das duas no mesmo instante. “O quê?”, dizem elas, ao mesmo tempo.
“Pode até ser um pouco ambicioso da sua parte, mas podemos bolar um acordo nesses termos. Porém, o preço vai ser maior”, afirma Rubi.
Talvez eu possa tirar ainda mais proveito dessa situação… , pensa ela.