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Capítulo 168 – Academia Cadley

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Capítulo 168 – Academia Cadley

Chloe anda por um corredor da escola, carregando em mãos vários papéis.

O ambiente do colégio é claro, iluminado pela luz do sol que entra pelas janelas, e está bastante movimentado.

Pelo caminho, Chloe cruza com várias pessoas. A maioria são alunos com roupas semelhantes às dela, túnicas azuis combinadas com calças ou saias brancas, e todos trazem o brasão vermelho em forma de escudo estampado no peito.

As outras pessoas dividem-se entre professores usando longos robes avermelhados e empregados acompanhando alguns alunos.

Todo o colégio parece em clima de arrumação. Alguns carregam livros e outras bagagens. Pelas portas abertas no decorrer do corredor, é possível ver quartos com camas sendo forradas, malas abertas, roupas sendo guardadas e mobília sendo movida.

Em meio a tudo isso, Chloe segue indiferente. Seu olhar mira a frente, firme e obstinado, não se importando com o que se passa ao redor.

Um único pensamento é o seu foco. Hoje é o dia. Vai dar certo. Tem que dar.

Ela caminha assim por um bom tempo, até chegar diante da porta com um escudo vermelho fixado bem no meio.

É aqui. A sala do diretor , Chloe pensa.

Ela bate duas vezes no escudo, emitindo um ruído metálico reverberante, quase como o soar de um gongo, porém mais abafado.

Momentos depois, um som ecoa de dentro da sala.

“Pode entrar”, responde uma voz feminina, arranhada. “A porta está destrancada, basta empurrar.”

Chloe faz exatamente como a voz orienta e pressiona a porta com a mão.

O ambiente interno se revela uma pequena sala com prateleiras e arquivos. Em um canto da parede está uma mesa, onde atrás se senta uma senhora pálida de feições enrugadas, óculos grossos, orelhas pontudas e um robe similar aos dos professores, porém preto.

Diante da mesa, há um jovem rapaz sentado em uma cadeira que logo ergue o olhar para Chloe. Seu cabelo é preto, a pele mais escura e usa o mesmo uniforme que os demais alunos da escola.

Ao fundo da sala, estão três cadeiras enfileiradas, uma ao lado da outra, bem próximas à outra porta de madeira, com uma placa de metal dourada fixada.

“Veio falar com o diretor Crawford ou entregar documentação?”, a senhora pergunta.

“Só entregar documentação”, responde Chloe.

A senhora aponta para as cadeiras ao fundo. “Pode se sentar ali”, diz ela. “Assim que eu acabar aqui, você vai ser a próxima.”

A garota segue até as cadeiras ao fundo, senta-se e começa a revisar seus papéis. A senhora e o jovem voltam a conversar.

Vai dar certo , Chloe pensa.

Minutos se passam enquanto ela permanece completamente focada em revisar seus papéis, até que o ranger da cadeira do rapaz chama sua atenção. Ela ergue o olhar e vê o jovem se levantando e a senhora entregando a ele um papel, uma prancheta, uma pena e um frasco de tinta.

“Pode retornar quando terminar de preencher essa ficha”, diz a senhora.

O rapaz acena e sai da sala.

Logo em seguida, a senhora se volta à Chloe. “Pode vir”, diz ela.

A jovem se levanta, vai até a mesa e senta.

A mulher estende a mão e Chloe entrega seus papéis.

“Então você é a filha do Clifford…”, comenta a senhora, lendo o cabeçalho da primeira folha.

“A senhora conhece meu pai?”, a jovem pergunta.

“Sim. Lembro-me dele. Pode me chamar de Sumari. Eu já estava no cargo de secretária quando ele estudava aqui.”

Ao mesmo tempo em que fala, Sumari lê e folheia os papéis.

Chloe baixa a cabeça. “É um prazer te conhecer”, diz ela, cumprimentando.

A senhora lê mais um pouco, depois coloca a documentação sobre a mesa e encara a garota diretamente.

“Vamos ao que importa”, diz ela. “Estou nessa academia desde a fundação, há mais de 300 anos. Todos os anos eu vejo dezenas de alunos e pais fazerem a solicitação de mudança para as turmas especiais, mas somente um quinto delas acaba sendo deferida no final. Está ciente disso?”

Chloe acena com a cabeça. “Sim”, responde ela.

“Boa parte delas é indeferida devido a alguma informação falsa ou exagerada apresentada na documentação, ainda mais porque qualquer aluno pode solicitar uma vaga sem indicação de professores ou responsáveis, embora seja recomendada uma avaliação prévia.”

“Me avisaram sobre isso”, diz a garota.

“De qualquer forma, devo alertá-la de que, nesses casos, o aluno pode sofrer punições administrativas, podendo chegar à expulsão. Não estou dizendo que seja a sua situação, mas ainda há tempo para revisar a documentação e, se achar melhor, apresentar novamente a ficha de inscrição comum e se manter na grade normal.”

O olhar de Sumari para Chloe é severo e suas palavras são carregadas, como um aviso. Apesar disso, a garota se mantém firme.

“Estou ciente. Revisei muito antes de vir.”

De uma gaveta, a senhora puxa uma pequena caixa e a abre, relevando dois anéis prateados.

“Coloque um desses e eu colocarei o outro em mim mesma. Eles inibem a capacidade de mentir entre quem estiver os usando. Vou fazer algumas perguntas simples, apenas para checagem. Não temos interesse em violar ou expor a natureza de seu elo. Suas respostas serão confidenciais e só o diretor terá acesso posteriormente. Elas não irão para seu arquivo”, explica ela.

Logo em seguida, estende a caixa para a garota. “Imagino que já tenha ouvido falar do rigor com que lidamos nessas situações”, pontua ela.

“Tudo bem. Eu já estava a par disso.”

Então esse é o primeiro teste , pensa Chloe, enquanto coloca um dos anéis.

“Dê respostas curtas, fazendo o favor”, pede a Sumari.

“Certo.”

A senhora coloca o anel restante, puxa uma das folhas entregues pela garota e empurra pela mesa na direção dela.

“A minha primeira dúvida é quanto a isso”, diz ela. “Você marcou que tem um elo com um ser mágico.”

Chloe pega o papel e o lê. “Tem algo errado?”, ela pergunta, com as sobrancelhas curvadas.

“Não. Mas, se me recordo bem, na ficha de solicitação que me foi enviada um mês atrás, a senhorita marcou uma relação familiar. É bem comum haver pequenas mudanças em outras partes da documentação, mas não nessa parte. Está correto?”

Por um instante, a garota baixa o olhar. “É que… eu… confundi um pouco as coisas”, ela responde, lentamente, buscando as palavras certas. “O que eu tenho é um elo.”

De uma outra gaveta na mesa, Sumari pega uma pena com a ponta molhada de tinta, uma prancheta e começa a anotar algumas coisas, sem que Chloe consiga ler. “Entendo”, comenta ela, acenando com a cabeça.

Chloe engole seco. Será que não vai dar certo? , ela pensa, com uma pontada de preocupação.

“É um elo temporário ou possui uma duração de tempo pré-determinada?”

“Não.”

“Na sua ficha você indicou que esse ser é um corruptor corpóreo de aparência feminina. Confirma?”

“Sim.”

“Confirma que é um diabo?”

“É.”

“É um ser racional, capaz de entender uma conversa em nosso idioma?”

“Sim.”

“Já a viu pessoalmente?”

“Uhum.”

“Teria o nome verdadeiro dela?”

“Não.”

“Esse ser demonstrou alguma intenção ruim contra a academia?”

“Não.”

“Tem conhecimento de que o ser com quem tem elo é uma criatura dada como perigosa?”

O semblante firme de Chloe vacila por um instante. “Sim, tenho.”

“Está nervosa?”

A garota suspende as sobrancelhas. “Não”, responde ela de súbito.

A cada pergunta, Sumari anota mais e mais coisas na prancheta. Em toda pausa, a sala mergulha em silêncio, e o ruído da pena deslizando sobre o papel ecoa fortemente nos ouvidos de Chloe.

“Consegue invocá-la?”

“Sim. Mas, não o tempo todo.”

E mais uma nota é feita pela senhora.

“Com isso concluímos essa parte da documentação”, diz ela, guardando de volta a prancheta dentro da gaveta. “Pode retirar o anel.”

As duas retiram os anéis e colocam de volta na caixa.

“E como eu fui?”, Chloe pergunta.

“Bem. Até agora, não há inconformidades na documentação.”

A garota suspira aliviada.

Sumari então pega uma outra ficha e um orbe escuro, feito de cristal, e coloca diante de Chloe.

“Independentemente do resultado dessa entrevista, sua documentação já está validada. Já que você possui a habilidade de invocação, precisa assinar esse termo que te responsabilizará por qualquer eventual problema causado por um ser que você invoque”, explica ela.

“E essa orbe? É o que avalia o nível do meu elo?”

“Sim. Coloque a mão sobre ela e a intensidade mágica do ser com quem você tem elo será mensurada”, responde Sumari. “Nos últimos anos, o número de solicitações de transferência para as turmas especiais aumentou bastante. Com esse procedimento, verificaremos se a senhorita possui a intensidade mínima necessária para ingressar na turma solicitada. Além disso, caso haja empate no fechamento das turmas, a classificação dos alunos será definida pelos valores registrados pela esfera.”

“Entendi.”

Sem hesitação nenhuma, Chloe leva a mão sobre a orbe. Seus lábios se curvam em um sorriso sutil, quase imperceptível aos olhos.

Foi para esse momento que eu fiz aquele pacto , ela pensa.

Confiante , pensa Sumari, intrigada.

O centro da orbe começa a brilhar. Primeiro, a luz assume um tom vermelho, em seguida, passa pelo amarelo, verde e azul, até alcançar o violeta, onde finalmente se estabiliza.

A senhora encara a orbe com uma das sobrancelhas curvadas.

“Um bom resultado”, ela comenta.

Diante da reação, o sorriso no rosto de Chloe aumenta. “E agora?”, ela pergunta.

“Por hora, acabamos”, responde Sumari. “Pode pegar a ficha e ir preenchê-la. Entregue-me até a tarde. A grade curricular, a lista de horários das turmas, bem como a lista oficial de alunos, devem sair em cinco dias, mas os resultados da sua avaliação vão ser entregues nos seus aposentos depois de amanhã, logo antes do almoço.”

Chloe se levanta da cadeira e pega o papel.

“Muito obrigado”, diz ela, abaixando-se num cumprimento.

Depois, deixa a sala.

Sumira permanece sentada, encarando a orbe violeta que, pouco a pouco, perde a cor, conforme a magia se esvai.

Olha só. Havia muito tempo que esse tom não aparecia com alguém fora da realeza , ela constata. O diretor vai adorar saber isso. Ainda mais tratando-se de um diabo.

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