Capítulo 169 – O matagal urbano
Capítulo 169 – O matagal urbano
Na varanda de um alto casarão, no meio de uma cidade, estão Chloe e Amila, usando roupas diferentes do usual.
A humana está com um vestidinho curto, majoritariamente branco e com detalhes de flores vermelhas bordadas nos ombros e na cintura. Já a elfa veste uma túnica roxa de mangas longas que lhe chega às canelas, ajustada por uma faixa preta na cintura e adornada com rendas brancas ao redor da gola.
O espaço da varanda é amplo e coberto por um teto metálico ornamentado, sustentado de um lado por duas colunas finas e, do outro, preso à parede da construção. Nessa mesma parede, uma porta dupla de madeira liga a varanda ao interior do casarão.
No centro, há uma mesa coberta por uma toalha. Sobre ela estão duas bandejas. Em uma delas há um bule de chá, um conjunto de xícaras com pires e um pote de açúcar em cubos com uma pinça. Na outra, estão várias dezenas de doces coloridos e variados, organizados em um padrão circular.
Ao redor da mesa, estão quatro cadeiras e Chloe está sentada em uma delas, observando Amila terminar de organizar as coisas nas bandejas. A manhã da cidade é fria, mas o céu sem nuvens permite que o calor do sol amenize o frio, criando um ambiente fresco e agradável.
A edificação que sustenta a sacada possui paredes pintadas de amarelo e vários andares. Ao redor, há várias construções, que se estendem em todas as direções até o horizonte, dando forma a um grande centro urbano.
Pelas ruas e calçadas, pessoas circulam normalmente, seguindo suas vidas.
“Senhorita, já acabei aqui”, diz Amila. “Já pode chamar nossa convidada.”
Chloe acena e se levanta da cadeira. “Espero que corra tudo bem”, comenta ela.
A garota se encaminha até a porta dupla e a abre.
A sala atrás dela é grande, com dois sofás de couro, um grande carpete vermelho, uma enorme mesa de madeira nobre e paredes decoradas com um espelho extenso e quadros de pessoas e paisagens deslumbrantes.
Chloe estende a mão na direção daquele ambiente, respira fundo e começa a se concentrar.
Um disco de magia rosa, com runas douradas, aparece diante da garota.
“Convocar demônio!”
Segundos depois, Rubi salta do círculo mágico, pisando delicadamente no chão.
A diaba usa apenas camisa branca, saia preta e os seus sapatos escuros usuais.
Ela dá uma checada em si mesma, tateando a cintura e olhando as próprias costas.
É. Sem minhas coisas de novo. E ainda sinto minha magia bem enfraquecida, ela constata. Por enquanto, vou ter que me acostumar a ficar assim. Pelo menos ainda tenho as minhas roupas.
“B… Bom dia”, diz Chloe, atrás da diaba.
Rubi então se vira na direção da garota e a vê com a cabeça abaixada, cumprimentando-a.
Amila, mais ao fundo, também abaixa a cabeça. “Olá. Bom dia”, diz ela.
“Bom dia para vocês também”, responde a diaba.
Logo em seguida, Rubi dá uma rápida olhada no lugar. Ela se dá conta de que está em uma cobertura, vê a mesa arrumada, as decorações elegantes, os móveis limpos e lustrosos.
“Escolheram bem. Esse lugar é bem chique”, comenta a succubus, impressionada.
Bem melhor que aquela outra salinha esquisita , ela pensa, enquanto fecha a porta.
“Fico feliz que tenha gostado”, diz Amila.
“Costumam alocar quartos daqui para fazerem reuniões particulares. Podemos usar essa sala até amanhã cedo”, Chloe acrescenta. “Planejamos dormir aqui também.”
“Consigo ver o motivo”, Rubi pontua. Depois, se encaminha rumo à borda da varanda.
Bem particular. Do jeito que eu gosto , ela pensa.
“Enfim, como está indo com os poderes novos?”, pergunta a diaba.
Chloe volta até a mesa e puxa uma cadeira para se sentar. “Bem. Eu… ainda não pratiquei muito”, responde ela. “Mas a invocação ainda me desgastou um pouco.”
Chegando à borda, Rubi apoia os dois antebraços no parapeito e admira a vista da cidade e das pessoas.
Esse lugar é movimentado mesmo. Parece até maior que Gramina e com bem mais gente também , ela compara, com a cauda balançando para os lados. O Byron e o Brok não iriam gostar muito daqui.
Ao mesmo tempo, Chloe a observa pelo canto dos olhos, quieta e atenta. Então ela é assim quando está de bom humor. Parece bem mais calma que no outro dia , constata a garota.
A elfa pega uma xícara, coloca um pouco de chá e deixa diante da jovem. “Beba um pouco, vai se sentir melhor”, diz ela, acrescentando dois cubos de açúcar à bebida.
“Obrigado”, diz a garota. “Não precisei usar tanta mana como da outra vez, mas foi bem mais do que num feitiço normal. Ainda não me acostumei com isso.”
“Vai se recuperar logo”, comenta a elfa.
“Mas, se quiser a minha opinião, você deveria praticar um pouco mais e até usar um pouco mais de mana na minha invocação”, pontua Rubi. “O nosso acordo facilita o processo, mas você ainda está usando uma magia de alto nível. O custo vai ser alto de um jeito ou de outro.”
“Vou tentar”, diz Chloe. “Eu nem sabia que conseguiria conjurar algo de nível tão alto sem ajuda de nenhum componente externo.”
”Obrigado“, diz a diaba, ainda observando a vista. ”Já que vamos nos encontrar com certa frequência, prefiro que você se acostume a gastar um pouco mais de mana quando for me invocar.”
Esse sentimento de incompletude não é legal. Me sinto como aqueles chefões que ficam mais fracos quando se tornam jogáveis, pensa Rubi. Acho que me sinto mais fraca do que da outra vez. Se essa garota puder, prefiro não ser invocada com apenas o mínimo necessário.
Enquanto divaga, uma brisa suave bate em seu rosto, trazendo consigo algo que chama sua atenção.
A diaba percebe um cheiro diferente no ar. Não é algo desagradável ao seu olfato, mas é um odor que se sobressai entre os outros e é difícil de ignorar, como um perfume delicado, porém marcante.
“Que cheiro é esse?”, ela pergunta.
A humana e a garota olham para ela.
Amila aponta para o bule que exala vapor branco. “Refere-se ao chá?”, ela indaga. “É uma mistura especial de ervas.”
“Não é isso”, diz Rubi. “É… diferente.”
Chloe balança a cabeça. “Não estou sentindo nada de diferente”, afirma ela.
“Deve ser alguma coisa que está lá embaixo”, conclui ela. “Meu olfato é bem sensível.”
Amila e Chloe se encaram por um instante.
“Pode ser de algo do mercado?”, Chloe indaga, intrigada.
“Acredito que possa ser. Tem muitas coisas lá”, Amila afirma.
Rubi se volta a elas, agora apoiando os cotovelos no parapeito. “Tem um aqui perto?”, ela pergunta.
“Sim”, a garota responde. “No final da rua.”
“Também tem um outro maior, mas ele fica a várias quadras daqui”, a elfa acrescenta.
“Deve ter alguma coisa lá que eu nunca vi antes”, Rubi conclui.
Não só lá, mas, vendo agora, essa cidade inteira é um ambiente completamente desconhecido pra mim , ela divaga. Por um lado, parece ter muita coisa boa e nova. Mas, por outro lado, rastrear aquelas moedas vai ser como achar uma agulha em um matagal .
Depois, a diaba se desapoia do parapeito e ruma em direção à mesa, olhando para a elfa e a garota.
Pelo menos, eu vou ter ajuda delas , ela pensa.